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Quando quem planta também transforma: da cooperativa à indústria

É domingo. Passam das oito da noite e o ronco das colheitadeiras ainda ecoa pelas lavouras do norte de Mato Grosso.
Julho é tempo de colheita. Até o fim deste mês, as máquinas serão as primeiras a despertar e as últimas a silenciar. Entre uma carreta e outra, o café já não espera esfriar, o almoço chega à beira da lavoura e o relógio perde importância. Quando o clima ajuda, cada hora conta.
Em poucos minutos, o milho recém-colhido deixa o campo. Durante décadas, aquele era apenas o início de uma longa viagem. O destino estava distante: alguma indústria, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, o que significava percorrer cerca de 2.500 quilômetros. Em muitos casos, porém, o milho permanecia nas próprias fazendas, destinado à alimentação animal e utilizado como cultura de rotação com a soja. Isso quando não apodrecia na própria lavoura.
“Como a margem do milho era negativa, abaixo do custo, ele era moeda de troca com fertilizantes e outros produtos. Havia uma função agronômica muito mais importante do que a comercial. Alguns produtores deixavam claro: eu planto milho por conta da soja” – diz André Lunardi, presidente da Coanorte.
Hoje, o percurso é outro. Em poucos quilômetros, o milho chega à indústria construída pelos próprios produtores que o cultivaram. É ali que uma commodity começa a se transformar em etanol, óleo de milho, DDGS, energia e, principalmente, em uma nova forma de enxergar o agronegócio.
“Nós já sonhávamos com a verticalização e agregação de valor para a produção. A gente dizia: temos que fazer algo com esse milho aqui na nossa região. Mas entre pensar e agir, foi um longo percurso” – pontuou Lunardi.

Essa história não começou com uma indústria. Começou em 2019, quando um grupo de produtores decidiu fazer algo que parecia ainda mais difícil: confiar uns nos outros e criar a Cooperativa Agroindustrial do Norte de Mato Grosso (Coanorte), com o objetivo inicial de fortalecer o poder de compra e de comercialização dos produtores. O resultado veio muito rápido. Em cerca de dois anos, os produtores que tinham 100 hectares (ha) estavam negociando junto com os de 10 mil ha. Isso abriu um novo horizonte de possibilidades.
Com a cooperativa consolidada veio o passo da verticalização. “Nós já estávamos comercializando com algumas indústrias que haviam chegado para transformar o milho em etanol aqui em MT. Então, quando paramos para estudar a viabilidade do negócio, decidimos iniciar o projeto de construção da nossa própria indústria”, comentou Paulo Pinto, produtor rural, associado da Coanorte e acionista da Evermat.
Nos quinze anos que antecederam a entrada das usinas, o milho só era produzido quando havia problemas climáticos ou alguma crise mundial. Hoje, com a transformação do milho em etanol, DDGS, WDG e óleo vegetal, o mercado equilibrou, o superávit foi se reduzindo e os grãos passaram a ter valor. O resultado veio em forma de investimento para as lavouras de milho – melhorando a produtividade por hectare (que praticamente dobrou em cerca de quatro anos), por meio de tecnologia e investimento em sementes e, principalmente, pelo compartilhamento das informações por meio da própria cooperativa.
Antes, grande parte do milho produzido em Mato Grosso deixava o estado in natura. Hoje, uma parcela cada vez maior é industrializada localmente, agregando valor antes de seguir para o mercado. “Neste ano, toda a nossa safra foi vendida para a indústria. A logística é muito melhor e estamos gerando um impacto aqui, onde estamos. Toda a economia se beneficia”, reforça o associado Coanorte e Evermat, Célio Riffel.

Superando a resistência
O conselheiro da Coanorte que é presidente da Evermat, Tiago Stefanello, é enfático em dizer: “Cansamos de apenas reclamar do clima, do solo ou dos preços. Decidimos que era preciso fazer algo”. Pela confiança dos sócios, ele foi eleito para levar a obra adiante, com carta branca para as decisões, em nome das 36 famílias associadas.
“Seriedade e idoneidade vêm de berço, foram valores que nos uniram na cooperativa. São famílias que acreditaram num sonho, num projeto, e nos dão a liberdade e autoridade para encabeçar a empresa. Quando se tem uma base forte, todo sonho é alcançado”, pontuou.
Valores
Mais difícil do que começar algo novo é garantir que ele se mantenha, e é por isso que, de forma unânime, o discurso dos produtores envolvidos no projeto convergem para um mesmo ponto – valores. Os valores que também são a essência do cooperativismo: ajuda mútua, autorresponsabilidade, democracia, igualdade, equidade, solidariedade, honestidade, abertura, responsabilidade social e interesse pelos demais.
O associado Leo Righi diz que quando viu as pessoas que estavam junto com ele, não teve dúvidas: ‘eram pessoas de firmeza, caráter e honestidade, eu falei – é aqui que vou colocar minha sementinha para crescer junto. O meu sangue é de produtor e agora está se transformando em industrializador, que é uma versão moderna que estou amando ser”.
O milho continua deixando as lavouras todos os dias. A diferença é que agora ele percorre poucos quilômetros antes de ganhar uma nova forma, um novo valor e um novo destino. Mais do que transformar grãos em etanol, os produtores descobriram que o cooperativismo também era capaz de transformar o próprio futuro. E talvez essa tenha sido a maior colheita de todas.

Evermat em números
Idealizada por 36 famílias de produtores rurais, a Evermat representa um investimento superior a R$ 1 bilhão. Em sua primeira fase de operação, a indústria tem capacidade para processar 1.250 toneladas de milho por dia, transformando a produção agrícola em energia, biocombustíveis e ingredientes para nutrição animal.
Anualmente, a unidade poderá produzir até 207 mil m³/ano de etanol anidro ou hidratado (215 mil m³); 134 mil m³/ano toneladas de DDGS (Dried Distillers Grains with Solubles / grãos de destilaria adicionados de solúveis líquidos) ou WDG (Wet Distillers Grains / grãos úmidos de destilaria); 7,9 mil toneladas de óleo de milho e 13 MW de energia elétrica a partir de biomassa.
A construção da indústria mobilizou mais de 2 mil trabalhadores diretamente, além de milhares de empregos indiretos. Com o início da operação comercial, em maio deste ano, a Evermat mantém mais de 200 empregos diretos e cerca de 800 indiretos, fortalecendo a economia e impulsionando o desenvolvimento do norte de Mato Grosso. A Evermat está localizada em Sinop (MT), às margens da BR-163, os principais corredores logísticos são os do Arco Norte, especialmente aqueles que utilizam a rodovia BR-163 até o Pará. Os principais destinos para escoamento de produtos por Miritituba (Itaituba–PA), Santarém (PA), Barbacena (PA) e Porto de Itaqui (São Luís–MA).
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Algodão sob alerta: chuvas de inverno preocupam cotonicultores de MT durante a colheita

As chuvas registradas em pleno período de colheita acenderam o alerta entre os cotonicultores de Mato Grosso. Em uma época normalmente marcada pelo tempo seco, as precipitações têm dificultado os trabalhos no campo, comprometido a qualidade da fibra e provocado perdas de produtividade justamente na reta final do ciclo da cultura.
Além dos impactos imediatos na colheita, a previsão de novas chuvas para os próximos dias aumenta a preocupação dos produtores, que temem um agravamento dos prejuízos em um momento decisivo para a safra.
O cenário é observado em municípios do Médio-Norte do estado, como Ipiranga do Norte, onde o algodão vem ampliando espaço nas propriedades rurais e consolidando-se como alternativa de diversificação ao lado da soja e do milho.
Apesar dos problemas causados pelo clima, a expectativa para a safra estadual segue positiva. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) elevou recentemente a estimativa de produtividade para 310,67 arrobas por hectare. Com isso, a produção é projetada em 6,41 milhões de toneladas, a terceira maior da série histórica do instituto, mesmo com redução de 11,1% na área plantada.

Para o presidente do Sindicato Rural de Ipiranga do Norte, Eder Ferreira Bueno, o avanço da cultura acompanha o fortalecimento da cotonicultura no município. “O produtor que está bem estabilizado diversifica porque acaba diminuindo um pouco a área de milho e aumenta a área de algodão”.
Diversificação ganha espaço nas propriedades
Conhecido como o ouro branco do Cerrado, o algodão tem conquistado cada vez mais espaço nas áreas agrícolas de Ipiranga do Norte e figura entre as principais culturas cultivadas no município, ao lado da soja e do milho.
Eder lembra que o algodão faz parte da história da agricultura mato-grossense e agora avança com mais força em Ipiranga do Norte. Para ele, trata-se de uma cultura de maior risco e que exige investimento elevado. “O algodão ele já é uma cultura antiga em Mato Grosso e agora está chegando em Ipiranga forte. É uma cultura mais arriscada, ela tem um custo maior (…) é uma cultura nova que vem para agregar muito no município”.
Foi esse movimento que motivou o produtor Vinicius Domingos Padilha Daghetti a apostar na cultura há cinco anos. Além do cultivo, ele investiu em uma unidade de beneficiamento equipada com alta tecnologia para preparar a fibra destinada ao mercado externo. Nesta safra, foram plantados 1,3 mil hectares de algodão na propriedade.
Para Vinicius, a decisão também foi influenciada pelas oscilações do mercado do milho, que fizeram do algodão uma alternativa para diversificar a renda. “Com essa volatilização do mercado do milho aí, ele está sendo uma escolha bem razoável e está sendo uma bela alternativa”, pontua ao Canal Rural Mato Grosso.

Chuva fora de época provoca perdas e compromete a qualidade
Com aproximadamente 30% da área colhida, a expectativa de Vinicius era repetir o desempenho das últimas safras. No entanto, as chuvas registradas durante a fase final do ciclo alteraram o planejamento da colheita e dificultaram a operação das máquinas.
O produtor conta para a reportagem que o período normalmente é de tempo seco, quando ocorre o desfolhamento das plantas e a colheita avança sem interrupções. Neste ano, porém, as precipitações mudaram completamente o cenário. “É a época que falta a chuva e a gente está desfolhando o algodão e não contávamos com essa chuva (…) dentro dos anos que nós estamos dentro da cultura aí é o primeiro ano”.
A umidade já provoca perdas que afetam a rentabilidade da safra. “Em termos de perdas na colheita, que fica grudado no capuleto do algodão, em torno de 10 arrobas por hectare está ficando para trás. A máquina não consegue arrancar”, afirma, ressaltando que “é uma parte do lucro que está indo embora”.
Na propriedade do produtor Valcir Batista Gheno, também em Ipiranga do Norte, a colheita segue sob incerteza. Embora as chuvas tenham sido de menor volume, os primeiros efeitos já aparecem na qualidade da pluma.
“Já houve sim um escorrimento da pluma, já manchou um pouco ela, porque cai a sujeira da folha e pega na pluma. Com certeza já compromete a qualidade da pluma depois na comercialização, na classificação”, diz.
Além da qualidade, o produtor afirma que a umidade também atrasa a retirada da produção da propriedade e, por consequência, a entrada dos recursos da safra. “Tudo isso acaba atrasando e atrapalhando na nossa entrada de renda”.

Previsão de novas precipitações amplia apreensão
A previsão de novas chuvas para os próximos dias mantém os produtores em alerta. O receio é que o volume de precipitações aumente justamente quando grande parte das lavouras estiver pronta para ser colhida, ampliando as perdas de produtividade e de qualidade da fibra.
Vinicius afirma que acompanha diariamente as previsões meteorológicas e admite preocupação com a possibilidade de novas precipitações. “Nós estamos de orelha em pé”.
Embora cerca de 70% da produção já esteja comercializada, o produtor admite que a previsão de chuva aumenta a apreensão. “Isso tira mais o sono com essa chuva que está vindo”.
Valcir também acompanha com preocupação as previsões do tempo. Ele lembra que o clima continua sendo um fator fora do controle do produtor, embora a lavoura tenha apresentado bom desenvolvimento. “Agora temos esse fator climático que nós não temos o domínio”.
Caso as chuvas persistam, os prejuízos poderão aumentar justamente na reta final da safra. “Não sabemos a intensidade que pode vir, mas realmente nos preocupa. Se vier mais aumentar esse tipo de problema que já temos hoje instalado (…) qualquer perda que venha com certeza vai acarretar em prejuízo”.
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Quais os prazos, juros e valores da MP da renegociação de dívidas? Cartilha da CNA esclarece

A nova Medida Provisória acordada entre governo, Congresso e bancada do agro sobre as dívidas rurais (MP 1.376), publicada na última quarta-feira (15), ainda levanta muitas dúvidas nos produtores. Para ajudar a clarear o assunto, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) divulgou um documento com detalhes e informações para o produtor se organizar.
O texto da lei autoriza a contratação de linhas de crédito para liquidar ou amortizar dívidas rurais e Cédulas de Produto Rural (CPRs) de produtores afetados por perdas de safra, eventos climáticos extremos ou queda dos preços agropecuários.
O Comunicado Técnico da CNA (faça aqui o download) traz, por exemplo, informações detalhadas que constam na MP sobre quem poderá acessar as linhas de crédito, quais dívidas poderão ser incluídas e os prazos, além de alertar os produtores rurais para que organizem documentos e reúnam provas sobre as perdas.
Quem pode acessar as linhas de crédito?
O documento da CNA esclarece que poderão acessar as linhas de crédito:
- Produtores rurais;
- Cooperativas de produção agropecuária, na condição de produtor rural;
- Com perdas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025;
- Com redução mínima de 30% da renda bruta esperada
E os produtores deverão apresentar sempre a comprovação “por laudo de profissional habilitado”.
Já as dívidas que poderão ser incluídas são as seguintes:
- Custeio, comercialização e industrialização;
- Parcelas de investimentos vencidas ou com vencimento até 31/12/2026;
- Operações renegociadas ou prorrogadas;
- CPRs com liquidação financeira emitidas em favor de instituições financeiras.
Ao analisar a MP, a Confederação diz no Comunicado que o produtor poderá justificar as perdas que teve com eventos climáticos extremos, como enxurradas, alagamentos, inundações, chuvas de granizo, chuvas intensas, tornados, ondas de frio, geadas, vendavais, secas ou estiagens; ou redução dos preços de comercialização dos produtos agropecuários.
Prazo para contratação
A MP estabelece prazo de até 120 dias após a publicação para contratação das linhas, o que corresponde a 12 de novembro de 2026. A efetiva abertura das contratações dependerá da regulamentação e da disponibilidade de recursos.
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Nas condições gerais, os produtores enquadrados no Pronaf poderão contratar até R$ 400 mil, com juros de 6% ao ano e prazo de até oito anos.
Para o Pronamp, o limite é de até R$ 2 milhões, com juros de 9% ao ano e prazo de até oito anos. Para os demais produtores, o limite chega a R$ 4 milhões, com juros de 12% ao ano e prazo de até oito anos.
O Comunicado detalha que, para produtores com perdas climáticas em pelo menos três safras e redução mínima de 40% da renda bruta agropecuária esperada, estão previstas condições excepcionais.
No Pronaf, o limite será de até R$ 500 mil, com juros de 5% ao ano e prazo de até 10 anos. No Pronamp, o limite chega a R$ 2,5 milhões, com juros de 8% ao ano e prazo de até 10 anos. Para os demais produtores, o limite será de até R$ 8 milhões, com juros de 11% ao ano e prazo de até 10 anos.
A primeira parcela de amortização do principal vencerá dois anos após a contratação. Durante esse período, haverá pagamento de juros. As garantias poderão ser reduzidas, quando consideradas excessivas, ou ampliadas, quando insuficientes para a nova operação.
As instituições financeiras também poderão prorrogar, por até 30 dias, determinadas parcelas de principal e juros que atendam aos critérios da MP.
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Tarifaço dos Estados Unidos eleva taxa sobre uva brasileira a 35%

A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve atingir em cheio as exportações de uva, principal fruta nacional embarcada para o mercado norte-americano.
Segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), a cobrança elevará a tarifa total sobre a uva brasileira para 35%, reduzindo significativamente a competitividade do produto.
Em nota divulgada nesta sexta-feira (17), a entidade afirmou que acompanha com preocupação a decisão do governo norte-americano e já orienta produtores e exportadores sobre os procedimentos necessários diante do novo cenário.
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Melão e melancia também foram taxadas
De acordo com a Abrafrutas, o Brasil exportou cerca de US$ 41,5 milhões em uvas para os Estados Unidos em 2025, volume equivalente a 14 mil toneladas. Além da uva, melão e melancia também foram incluídos na medida tarifária, mas a entidade avalia que o impacto sobre essas frutas tende a ser menor em razão do perfil e do volume das exportações destinadas ao mercado norte-americano.
A associação informou que trabalha para reduzir os prejuízos ao setor por meio da diversificação de mercados e da adoção de novas estratégias comerciais. A entidade também ressaltou que a fruticultura brasileira já enfrentou situações semelhantes, citando as restrições tarifárias que afetaram as exportações de manga aos Estados Unidos no ano passado.
Na ocasião, segundo a Abrafrutas, produtores e exportadores conseguiram reorganizar as operações, ampliar mercados e minimizar os impactos econômicos. Agora, a expectativa é repetir essa estratégia para preservar a competitividade das frutas brasileiras e manter o ritmo das exportações.
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