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Trigo: ajuste temporário da balança comercial não altera dependência estrutural

Os dados oficiais do governo federal brasileiro para o acumulado de agosto de 2025 a janeiro de 2026 — primeira metade do ano comercial 2025/26 — revelam uma reorganização relevante da balança comercial da cadeia tritícola. O período foi marcado por um ritmo mais moderado de importações, exportações antecipadas e uma melhora parcial do saldo comercial. Ainda assim, o quadro estrutural permanece inalterado: o Brasil segue fortemente dependente do trigo externo para equilibrar seu abastecimento ao longo do ano.
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No período, as importações totais de trigo em grão e farinha (equivalente grão) somaram 3,39 milhões de toneladas, queda de 4% em relação ao mesmo intervalo da temporada anterior. O recuo concentrou-se no trigo em grão, cujas compras externas passaram de 3,35 para 3,21 milhões de toneladas, enquanto as importações de farinha também apresentaram retração.
Esse movimento reflete uma postura mais defensiva da indústria moageira, com compras pontuais, maior cautela na formação de estoques e aproveitamento seletivo de momentos de maior competitividade do produto doméstico. Soma-se a isso uma leve melhora da produção nacional, tanto em volume quanto em qualidade, na comparação com a safra anterior.
Apesar da relativa estabilidade no volume total importado de trigo em grão, a análise detalhada das origens e dos destinos evidencia mudanças importantes na dinâmica de abastecimento. A Argentina manteve ampla liderança como fornecedora, respondendo por cerca de 80% das importações brasileiras no período, sustentada pela proximidade geográfica, pela competitividade logística e pela histórica complementaridade entre a oferta argentina e a demanda brasileira.
O Paraguai aparece como segunda principal origem, com participação próxima de 10%, seguido pelo Uruguai. Já os fornecedores extra-Mercosul — como Estados Unidos, Canadá e Rússia — tiveram presença pontual, normalmente associada a demandas específicas de qualidade, arbitragem de preços ou ajustes regionais de abastecimento. No entanto, diante da queda na qualidade do trigo argentino no ciclo comercial 2025/26, cresce a possibilidade de maior participação dessas origens no segundo semestre do ano comercial brasileiro.
É fundamental considerar, ainda, a defasagem entre os anos comerciais. Os volumes registrados entre agosto e novembro de 2025, embora contabilizados no ano comercial brasileiro 2025/26, refletem majoritariamente a safra argentina 2024/25, de melhor qualidade, já que a nova colheita no país vizinho só passa a estar disponível a partir de dezembro.
A mesma lógica se aplica à temporada anterior, quando as importações entre agosto e novembro de 2024 estavam lastreadas na safra argentina 2023/24. Trata-se de um aspecto estrutural da relação comercial entre os dois países e essencial para a correta leitura dos dados.
Sob a ótica dos destinos, as importações seguem altamente concentradas. Ceará e São Paulo lideraram os desembarques em 2025/26, com cerca de 15% do total cada, reforçando o papel estratégico do Nordeste e do Sudeste tanto no consumo quanto na redistribuição do trigo importado. Na sequência aparecem Paraná, Bahia e Pernambuco, formando um grupo de cinco estados que concentra mais de dois terços das importações nacionais no período.
A presença de Paraná e Rio Grande do Sul entre os destinos, apesar de serem estados produtores, reflete compras complementares à produção doméstica, seja por questões de qualidade, seja por arbitragem logística ou necessidades específicas da indústria. No caso gaúcho, vale destacar que uma parcela relevante da produção foi direcionada à exportação, o que tende a apertar o quadro de abastecimento interno ao final da temporada. Já o Paraná consolidou-se, ao longo da última década, como o maior polo moageiro do país, migrando de uma condição historicamente superavitária para uma das mais deficitárias em trigo.
No sentido oposto às importações, as exportações e a cabotagem de trigo em grão avançaram de forma expressiva no primeiro semestre do ano comercial, totalizando 1,17 milhão de toneladas — alta de 30% em relação ao mesmo período de 2024/25. O crescimento esteve fortemente concentrado no trigo gaúcho, sinalizando janelas de competitividade do produto brasileiro no mercado externo e a necessidade de escoamento de volumes específicos. O Paraná registrou apenas um embarque via cabotagem para o Nordeste, de 32,7 mil toneladas. Cabe lembrar, ainda, o papel da intervenção governamental, que auxiliou no escoamento de cerca de 235 mil toneladas por meio dos mecanismos de PEP e Pepro.
Esse desempenho exportador, contudo, não deve ser interpretado como uma expansão estrutural. As estimativas indicam que, no total do ciclo 2025/26, os embarques brasileiros devem alcançar entre 1,6 e 1,65 milhão de toneladas, abaixo das cerca de 2,0 milhões de toneladas exportadas no ano comercial anterior. Ou seja, o que se observa é um adiantamento dos embarques, com maior concentração das vendas externas na primeira metade do ciclo.
Esse movimento está diretamente associado ao trigo gaúcho, origem de praticamente todo o volume exportado e transportado por cabotagem. Diante de um quadro de endividamento elevado, muitos produtores buscaram liquidez no mercado externo, antecipando vendas em relação ao padrão observado no ano passado. Como consequência, o potencial exportável para o segundo semestre do ano comercial tende a ser mais limitado.
Como resultado da combinação entre menor ritmo de importações e exportações antecipadas, o saldo comercial da cadeia tritícola apresentou melhora, com o déficit recuando de 2,64 para 2,22 milhões de toneladas, uma redução de 16%. Ainda assim, os dados reforçam que o Brasil segue estruturalmente deficitário em trigo e que essa melhora tende a ser temporária. Ao longo do segundo semestre da temporada, com a perda de fôlego das exportações e a intensificação da necessidade de aquisições externas — inclusive nos estados produtores —, o déficit volta a se ampliar.
A estimativa é de que, ao final da temporada 2025/26, as importações totais de trigo em grão e farinha alcancem 7,4 milhões de toneladas, enquanto as exportações somem cerca de 1,65 milhão de toneladas. O resultado será um déficit comercial de aproximadamente 5,75 milhões de toneladas, 535 mil toneladas acima do registrado no ciclo anterior, quando o Brasil importou 7,217 milhões de toneladas e exportou 2,002 milhões de toneladas.
Em síntese, os dados do primeiro semestre do ano comercial 2025/26 evidenciam um ajuste conjuntural da balança comercial da cadeia tritícola brasileira, marcado por importações mais contidas, exportações antecipadas e uma melhora pontual do saldo, sem que isso altere o quadro estrutural de dependência externa do país. A reorganização observada reflete decisões táticas da indústria e dos produtores diante de condições específicas de mercado — qualidade relativa das safras, janelas de competitividade e necessidade de liquidez —, e não uma mudança permanente no equilíbrio entre oferta e demanda.
À medida que o ano comercial avança, a tendência é de recomposição do déficit, impulsionada pela perda de fôlego das exportações e pela intensificação das compras externas para garantir o abastecimento interno.
Assim, a temporada 2025/26 caminha para encerrar com um déficit comercial ainda mais elevado, reforçando que a segurança do suprimento de trigo no Brasil segue condicionada ao mercado internacional e à dinâmica da oferta dos países vizinhos, em especial da Argentina.

*Élcio Bento é especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos
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Inmet prevê maior demanda hídrica nas lavouras em julho

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê temperaturas acima da média histórica ao longo de julho em grande parte do Brasil, com maior intensidade na porção Centro-Norte do território nacional. Segundo o instituto, o cenário eleva a demanda hídrica das culturas agrícolas e pode reduzir o armazenamento de água no solo, com efeitos sobre lavouras em desenvolvimento, pastagens e sistemas produtivos mais dependentes das precipitações.
De acordo com o Inmet, o quadro climático terá efeitos distintos conforme a cultura e a região. No Centro-Oeste, grande parte das lavouras de milho segunda safra e algodão está na fase final do ciclo produtivo, período em que o tempo seco favorece a maturação.
Para o algodão, o instituto afirma que as temperaturas mais elevadas favorecem a abertura dos capulhos, reduzem a incidência de doenças associadas ao excesso de umidade e ampliam as janelas operacionais de colheita. No oeste do Estado da Bahia, a previsão também tende a beneficiar a fase final do ciclo da cultura e o avanço da colheita.
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Em outra direção, o Inmet indica maior necessidade de atenção ao manejo hídrico nas lavouras de feijão terceira safra na Região Nordeste e nos cultivos irrigados da Região Sudeste. Segundo o instituto, os efeitos do calor podem comprometer o florescimento e o enchimento de grãos do feijão terceira safra.
Em áreas dos Estados de Mato Grosso e Goiás, o tempo seco tende a reduzir os níveis de armazenamento de água no solo. Já na Região Sul, o prognóstico aponta volumes de chuva próximos ou acima da média climatológica na maior parte do período, condição que, segundo o Inmet, favorece o desenvolvimento das culturas de inverno pela adequada disponibilidade hídrica.
Ao mesmo tempo, o instituto destaca que, nas culturas de inverno da região Sul, a combinação de umidade e temperaturas elevadas favorece a ocorrência de doenças fúngicas.
O cenário projetado pelo Inmet para julho combina aquecimento acima da média em grande parte do País com efeitos distintos entre regiões e culturas, exigindo atenção ao manejo hídrico, ao desenvolvimento das lavouras e às condições fitossanitárias no campo.
Fonte: Estadão Conteúdo
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Mapa entrega 36 máquinas do Promaq para municípios e governo do Piauí

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) entregou, na última quarta-feira (1º), 36 máquinas do Programa Nacional de Modernização e Apoio à Produção Agrícola (Promaq) no Piauí. A ação foi realizada por meio da Superintendência de Agricultura e Pecuária no Piauí (SFA-PI) e somou R$ 9,4 milhões em investimentos. Os equipamentos foram destinados a prefeituras piauienses e à Secretaria de Transportes do estado.
A entrega ocorreu em dois momentos, na sede da Embrapa Meio-Norte, em Teresina. Pela manhã, foram entregues 19 pás carregadeiras aos municípios de Angical do Piauí, Baixa Grande do Ribeiro, Barra D'Alcântara, Batalha, Campo Alegre do Fidalgo, Dom Expedito Lopes, Francinópolis, Francisco Macêdo, Fronteiras, Guadalupe, Isaías Coelho, Itainópolis, Lagoa do Piauí, Madeiro, Paes Landim, Pedro Laurentino, Piracuruca, Ribeiro Gonçalves e São Julião.
À tarde, o Mapa entregou outras 16 pás carregadeiras e uma motoniveladora à Secretaria de Transportes do Piauí, responsável pelo repasse dos equipamentos a outros municípios do estado.
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Participaram da solenidade o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias; o secretário de Transportes do Piauí, Jonas Moura; o superintendente da SFA-PI, Vinício Ferreira; o senador Marcelo Castro; deputados federais e estaduais; prefeitos; e o chefe-geral da Embrapa Meio-Norte, Anísio Lima Neto.
Durante o evento, Vinício Ferreira afirmou que o Promaq contribui para fortalecer a infraestrutura rural, melhorar as condições de trabalho no campo, ampliar a capacidade operacional dos municípios e impulsionar o desenvolvimento da agropecuária.
Segundo o Mapa, as pás carregadeiras são usadas na movimentação de terra, areia, brita, grãos e outros materiais, além de operações de escavação. Os equipamentos também atendem obras de infraestrutura, manutenção de estradas vicinais e apoio às atividades agropecuárias. A motoniveladora é empregada na terraplenagem e no nivelamento de superfícies, com uso na conservação e recuperação de vias rurais.
Criado em fevereiro de 2025, o Promaq tem como objetivo modernizar o setor agropecuário por meio da mecanização agrícola, com foco em produtividade, redução de custos de produção, fortalecimento da infraestrutura rural, sustentabilidade e diminuição das desigualdades regionais.
Fonte: gov.br
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Período proibitivo do uso de fogo começa em Mato Grosso sob alerta de seca mais severa

Com previsão de uma estiagem mais severa em Mato Grosso, o período proibitivo para o uso do fogo começou no último dia 1º de julho e seguirá até 30 de novembro nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. A medida busca reduzir a ocorrência de incêndios florestais durante os meses mais secos do ano.
Segundo o Corpo de Bombeiros Militar, os efeitos do El Niño devem provocar redução das chuvas, aumento das temperaturas, baixa umidade do ar e ventos intensos, combinação que favorece a propagação do fogo e aumenta o risco de incêndios em diferentes regiões do Estado.
Durante o período proibitivo ficam suspensas as autorizações para queima controlada emitidas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). A exceção vale apenas para ações realizadas ou supervisionadas pelos órgãos públicos responsáveis pela prevenção e combate aos incêndios florestais.
Quem descumprir a determinação poderá responder por crime ambiental, além de estar sujeito à aplicação de multas e outras penalidades previstas na legislação.
Estado reforça monitoramento
Paralelamente à fiscalização, o Estado reforçou a estrutura de monitoramento para acompanhar os focos de incêndio ao longo da estiagem. Além da Sala de Situação Central, responsável pelo acompanhamento dos incêndios florestais em Mato Grosso, sete Salas de Situação Descentralizadas funcionarão nos municípios que sediam os comandos regionais do Corpo de Bombeiros e também em Poconé, para atendimento da região do Pantanal.
As unidades atuam de forma integrada, permitindo o monitoramento em tempo real das ocorrências, o compartilhamento de informações estratégicas e o direcionamento das equipes para as áreas mais críticas. A estrutura também busca ampliar a capacidade de resposta, principalmente em regiões de difícil acesso.
O Corpo de Bombeiros reforça que a prevenção continua sendo o caminho mais eficiente para reduzir os incêndios durante o período de estiagem. A orientação é que qualquer foco de incêndio seja comunicado imediatamente pelo telefone 193. Casos de uso irregular do fogo também podem ser denunciados à Polícia Militar pelo telefone 190.
Cuidados começam antes do fogo
No campo, entidades ligadas ao setor agropecuário orientam os produtores a intensificarem as medidas preventivas durante o período proibitivo.
A Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) recomenda manter aceiros limpos, equipamentos de combate inicial em condições de uso, evitar atividades que possam gerar faíscas próximas à vegetação seca e reforçar a vigilância nas propriedades durante toda a estiagem.
Conforme o presidente da entidade, Nando Conte, o produtor rural é um dos maiores interessados em evitar que o fogo saia do controle. “Os pecuaristas são os principais interessados na proteção de suas propriedades e do meio ambiente. O fogo descontrolado causa grandes prejuízos econômicos, ambientais e sociais”, ressalta. Segundo ele, respeitar o período proibitivo e adotar medidas preventivas ajuda a proteger as propriedades, os rebanhos e também as áreas vizinhas.
Documentação também protege o produtor
Se, mesmo com os cuidados, um incêndio atingir a propriedade, a orientação da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja Mato Grosso) é agir rapidamente para registrar a ocorrência. A entidade recomenda que o produtor faça um boletim de ocorrência, reúna fotografias, vídeos e outros documentos que comprovem os danos e, quando possível, providencie uma ata notarial em cartório. O conjunto de provas pode ser importante para resguardar o proprietário em eventuais questionamentos sobre a origem do fogo.
O vice-coordenador da Comissão de Sustentabilidade da Aprosoja Mato Grosso, Nathan Belusso, afirma que ainda existe a falsa percepção de que o produtor é responsável pela maioria das queimadas, quando, na prática, também está entre os principais prejudicados.
“O produtor é um dos maiores prejudicados, porque o fogo destrói a matéria orgânica do solo, compromete a fertilidade, reduz a produtividade e ainda coloca em risco lavouras, máquinas, animais e vidas humanas”.
De acordo com Belusso, essa documentação ajuda a demonstrar que o produtor também foi vítima da ocorrência. “Isso ajuda a evitar acusações indevidas de crime ambiental e garante que ele tenha elementos para comprovar que também foi vítima da situação”, explica.
O delegado coordenador do Núcleo Vale do Guaporé da Aprosoja Mato Grosso, Yuri Nunes Cervo, vivenciou uma situação como essa em 2020, quando um incêndio atingiu sua propriedade e mobilizou equipes por mais de três dias. Além das perdas imediatas, ele afirma que o fogo compromete anos de investimentos na conservação do solo. “Quando o fogo atinge uma área produtiva, ele destrói todo um trabalho realizado para melhorar a qualidade do solo”, relata.
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