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15 de maio de 2026

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Trigo: ajuste temporário da balança comercial não altera dependência estrutural

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Foto: Embrapa

Os dados oficiais do governo federal brasileiro para o acumulado de agosto de 2025 a janeiro de 2026 — primeira metade do ano comercial 2025/26 — revelam uma reorganização relevante da balança comercial da cadeia tritícola. O período foi marcado por um ritmo mais moderado de importações, exportações antecipadas e uma melhora parcial do saldo comercial. Ainda assim, o quadro estrutural permanece inalterado: o Brasil segue fortemente dependente do trigo externo para equilibrar seu abastecimento ao longo do ano.

No período, as importações totais de trigo em grão e farinha (equivalente grão) somaram 3,39 milhões de toneladas, queda de 4% em relação ao mesmo intervalo da temporada anterior. O recuo concentrou-se no trigo em grão, cujas compras externas passaram de 3,35 para 3,21 milhões de toneladas, enquanto as importações de farinha também apresentaram retração.

Esse movimento reflete uma postura mais defensiva da indústria moageira, com compras pontuais, maior cautela na formação de estoques e aproveitamento seletivo de momentos de maior competitividade do produto doméstico. Soma-se a isso uma leve melhora da produção nacional, tanto em volume quanto em qualidade, na comparação com a safra anterior.

Apesar da relativa estabilidade no volume total importado de trigo em grão, a análise detalhada das origens e dos destinos evidencia mudanças importantes na dinâmica de abastecimento. A Argentina manteve ampla liderança como fornecedora, respondendo por cerca de 80% das importações brasileiras no período, sustentada pela proximidade geográfica, pela competitividade logística e pela histórica complementaridade entre a oferta argentina e a demanda brasileira.

O Paraguai aparece como segunda principal origem, com participação próxima de 10%, seguido pelo Uruguai. Já os fornecedores extra-Mercosul — como Estados Unidos, Canadá e Rússia — tiveram presença pontual, normalmente associada a demandas específicas de qualidade, arbitragem de preços ou ajustes regionais de abastecimento. No entanto, diante da queda na qualidade do trigo argentino no ciclo comercial 2025/26, cresce a possibilidade de maior participação dessas origens no segundo semestre do ano comercial brasileiro.

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É fundamental considerar, ainda, a defasagem entre os anos comerciais. Os volumes registrados entre agosto e novembro de 2025, embora contabilizados no ano comercial brasileiro 2025/26, refletem majoritariamente a safra argentina 2024/25, de melhor qualidade, já que a nova colheita no país vizinho só passa a estar disponível a partir de dezembro.

A mesma lógica se aplica à temporada anterior, quando as importações entre agosto e novembro de 2024 estavam lastreadas na safra argentina 2023/24. Trata-se de um aspecto estrutural da relação comercial entre os dois países e essencial para a correta leitura dos dados.

Sob a ótica dos destinos, as importações seguem altamente concentradas. Ceará e São Paulo lideraram os desembarques em 2025/26, com cerca de 15% do total cada, reforçando o papel estratégico do Nordeste e do Sudeste tanto no consumo quanto na redistribuição do trigo importado. Na sequência aparecem Paraná, Bahia e Pernambuco, formando um grupo de cinco estados que concentra mais de dois terços das importações nacionais no período.

A presença de Paraná e Rio Grande do Sul entre os destinos, apesar de serem estados produtores, reflete compras complementares à produção doméstica, seja por questões de qualidade, seja por arbitragem logística ou necessidades específicas da indústria. No caso gaúcho, vale destacar que uma parcela relevante da produção foi direcionada à exportação, o que tende a apertar o quadro de abastecimento interno ao final da temporada. Já o Paraná consolidou-se, ao longo da última década, como o maior polo moageiro do país, migrando de uma condição historicamente superavitária para uma das mais deficitárias em trigo.

No sentido oposto às importações, as exportações e a cabotagem de trigo em grão avançaram de forma expressiva no primeiro semestre do ano comercial, totalizando 1,17 milhão de toneladas — alta de 30% em relação ao mesmo período de 2024/25. O crescimento esteve fortemente concentrado no trigo gaúcho, sinalizando janelas de competitividade do produto brasileiro no mercado externo e a necessidade de escoamento de volumes específicos. O Paraná registrou apenas um embarque via cabotagem para o Nordeste, de 32,7 mil toneladas. Cabe lembrar, ainda, o papel da intervenção governamental, que auxiliou no escoamento de cerca de 235 mil toneladas por meio dos mecanismos de PEP e Pepro.

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Esse desempenho exportador, contudo, não deve ser interpretado como uma expansão estrutural. As estimativas indicam que, no total do ciclo 2025/26, os embarques brasileiros devem alcançar entre 1,6 e 1,65 milhão de toneladas, abaixo das cerca de 2,0 milhões de toneladas exportadas no ano comercial anterior. Ou seja, o que se observa é um adiantamento dos embarques, com maior concentração das vendas externas na primeira metade do ciclo.

Esse movimento está diretamente associado ao trigo gaúcho, origem de praticamente todo o volume exportado e transportado por cabotagem. Diante de um quadro de endividamento elevado, muitos produtores buscaram liquidez no mercado externo, antecipando vendas em relação ao padrão observado no ano passado. Como consequência, o potencial exportável para o segundo semestre do ano comercial tende a ser mais limitado.

Como resultado da combinação entre menor ritmo de importações e exportações antecipadas, o saldo comercial da cadeia tritícola apresentou melhora, com o déficit recuando de 2,64 para 2,22 milhões de toneladas, uma redução de 16%. Ainda assim, os dados reforçam que o Brasil segue estruturalmente deficitário em trigo e que essa melhora tende a ser temporária. Ao longo do segundo semestre da temporada, com a perda de fôlego das exportações e a intensificação da necessidade de aquisições externas — inclusive nos estados produtores —, o déficit volta a se ampliar.

A estimativa é de que, ao final da temporada 2025/26, as importações totais de trigo em grão e farinha alcancem 7,4 milhões de toneladas, enquanto as exportações somem cerca de 1,65 milhão de toneladas. O resultado será um déficit comercial de aproximadamente 5,75 milhões de toneladas, 535 mil toneladas acima do registrado no ciclo anterior, quando o Brasil importou 7,217 milhões de toneladas e exportou 2,002 milhões de toneladas.

Em síntese, os dados do primeiro semestre do ano comercial 2025/26 evidenciam um ajuste conjuntural da balança comercial da cadeia tritícola brasileira, marcado por importações mais contidas, exportações antecipadas e uma melhora pontual do saldo, sem que isso altere o quadro estrutural de dependência externa do país. A reorganização observada reflete decisões táticas da indústria e dos produtores diante de condições específicas de mercado — qualidade relativa das safras, janelas de competitividade e necessidade de liquidez —, e não uma mudança permanente no equilíbrio entre oferta e demanda.

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À medida que o ano comercial avança, a tendência é de recomposição do déficit, impulsionada pela perda de fôlego das exportações e pela intensificação das compras externas para garantir o abastecimento interno.

Assim, a temporada 2025/26 caminha para encerrar com um déficit comercial ainda mais elevado, reforçando que a segurança do suprimento de trigo no Brasil segue condicionada ao mercado internacional e à dinâmica da oferta dos países vizinhos, em especial da Argentina.

Élcio Bento, especialista em trigo da Safras & Mercado

*Élcio Bento é especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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Conab inicia processo de transformação institucional para ampliar atividades

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Foto: Divulgação/Conab

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aprovou nesta semana a sua autodeclaração como Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT).

A medida representa a primeira etapa de um processo institucional que visa ampliar a capacidade da entidade de transformar conhecimento em soluções reais para o abastecimento e para a gestão de estoques públicos.

Além disso, a pretenção também é a de aumentar a logística agrícola, a inteligência agropecuária do país e a formulação e operacionalização de políticas públicas agrárias.

Caracterização aprovada em lei

Prevista na Lei nº 10.973/2004 e regulamentada pelo Decreto nº 9.283/2018, a caracterização como ICT contempla órgãos públicos que executam atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), incluindo estudos técnicos, produção de conhecimento científico e desenvolvimento de soluções voltadas a produtos, serviços e processos.

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O enquadramento institucional está alinhado às atribuições já previstas no Estatuto Social da Conab, que incluem o desenvolvimento de pesquisas sobre agropecuária nacional, estudos de oferta e demanda e ações de intercâmbio com universidades, centros de pesquisa e organismos internacionais ligados ao setor de abastecimento.

De acordo com comunicado da Companhia, nesta nova fase, além de fortalecer instrumentos relacionados a projetos de PD&I, a instituição também passa a se lançar em um ecossistema de inovação robusto que possibilita parcerias e trocas com universidades, institutos federais e centros de pesquisa de excelência, acesso a editais e linhas de financiamento nacionais e internacionais – como Finep, CNPq, Capes, Embrapii – e fundos setoriais destinados a projetos estratégicos de inovação.

O objetivo é trazer mais agilidade administrativa e segurança jurídica na celebração de instrumentos de cooperação técnica, como é o caso da consagração de Termos de Execução Descentralizada (TEDs), Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) e demais instrumentos.

Agora, a próxima etapa prevê a consolidação da Política de Inovação da Conab, prevista
para julho deste ano. Em seguida, a instituição deverá avançar na criação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), estrutura voltada à gestão de projetos e instrumentos de PD&I, com previsão de implementação até o fim de 2026.

Com essa última etapa, a Conab afirma que já será possível a submissão de projetos, captação de recursos e a execução das ações de PD&I junto a fundações credenciadas pela estatal.

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Mapa destina 1,5 mil pacotes de café apreendidos para compostagem no Paraná

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O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) concluiu, nesta terça-feira (12), a destinação final de cerca de 1.500 pacotes de café apreendidos no Paraná. O material, considerado irregular após fiscalização oficial, foi encaminhado para compostagem em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), no Campus Botânico, em Curitiba. A medida integrou o processo de descarte controlado para impedir o retorno do produto à cadeia de consumo.

O lote era de café torrado e moído da marca “Made in Brazil” e havia sido adquirido pela UFPR para consumo interno. A comercialização foi suspensa após inspeção do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal no Paraná (Sipov/PR), que identificou impurezas e matérias estranhas acima dos limites permitidos pela legislação.

Após a apreensão, o produto permaneceu armazenado até a definição da destinação ambientalmente adequada. Segundo o Mapa, o café foi incorporado a leiras de compostagem com aparas de grama, folhas secas, esterco bovino e água. As embalagens foram separadas e encaminhadas para reciclagem.

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De acordo com o ministério, o composto orgânico gerado poderá ser utilizado em atividades de manejo e recuperação de solo realizadas pela própria universidade. A operação foi acompanhada por auditores fiscais federais agropecuários.

O caso ocorre em um contexto de reforço da fiscalização sobre a cadeia do café no estado. Até o momento, o Mapa informa ter realizado 194 coletas oficiais de amostras no Paraná. Nos casos de não conformidade, as medidas adotadas incluem autuações, multas, apreensões e auditorias em estabelecimentos torrefadores e embaladores.

Recentemente, mais de 21 toneladas de café irregular também foram apreendidas em compras públicas realizadas em Curitiba, segundo o ministério. Não foram divulgados, no material oficial, os detalhes sobre o volume total de lotes fiscalizados no estado nem a proporção de amostras reprovadas.

A destinação por compostagem atende ao objetivo de retirar definitivamente o produto irregular do mercado e dar tratamento técnico ao material apreendido. Para o setor, a continuidade das coletas e auditorias tende a manter o foco sobre a conformidade dos produtos de origem vegetal comercializados no Paraná.

Fonte: gov.br

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Assembleia de Minas homenageia Embrapa Milho e Sorgo pelos 50 anos de atuação

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A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) homenageou, na manhã desta sexta-feira (15), a Embrapa Milho e Sorgo pelos 50 anos de atuação da unidade. A sessão solene foi solicitada pelo presidente da Casa, deputado estadual Tadeu Leite (MDB), e conduzida por seu representante na cerimônia, o deputado Antônio Carlos Arantes (PL). O encontro reuniu manifestações sobre a contribuição técnica da instituição para a agricultura brasileira.

Durante a cerimônia, a atuação da Embrapa Milho e Sorgo foi relacionada ao desenvolvimento de soluções voltadas à produção agropecuária. Segundo Vinícius Guimarães, chefe-geral da unidade, ao longo de cinco décadas a instituição desenvolveu cultivares de milho, sorgo e milheto, além de avançar em bioinsumos e em sistemas integrados de produção.

Guimarães afirmou que a evolução da agricultura brasileira passa pela atuação conjunta de instituições de pesquisa, assistência técnica e ensino. Ele citou a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e universidades entre os agentes envolvidos nesse processo.

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O chefe-geral também destacou o papel dos profissionais da empresa no desenvolvimento de tecnologias para o setor. Segundo ele, o reconhecimento feito pela ALMG se estende aos funcionários que atuaram na construção de soluções para o agro brasileiro ao longo desses 50 anos.

Na avaliação do deputado Antônio Carlos Arantes, a Embrapa tem função estratégica na transformação da agricultura, com reflexos sobre a qualidade de vida dos produtores. A homenagem reforça institucionalmente a relevância da pesquisa agropecuária para ganhos de produtividade e para a adoção de sistemas de produção com base técnica.

Para os próximos anos, segundo Vinícius Guimarães, o desafio da unidade é ampliar a produção com maior sustentabilidade. Não foram apresentados, na cerimônia, novos dados quantitativos sobre projetos, investimentos ou metas futuras da Embrapa Milho e Sorgo.

Fonte: embrapa.br

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