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23 de outubro de 2026

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Trigo: ajuste temporário da balança comercial não altera dependência estrutural

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Foto: Embrapa

Os dados oficiais do governo federal brasileiro para o acumulado de agosto de 2025 a janeiro de 2026 — primeira metade do ano comercial 2025/26 — revelam uma reorganização relevante da balança comercial da cadeia tritícola. O período foi marcado por um ritmo mais moderado de importações, exportações antecipadas e uma melhora parcial do saldo comercial. Ainda assim, o quadro estrutural permanece inalterado: o Brasil segue fortemente dependente do trigo externo para equilibrar seu abastecimento ao longo do ano.

No período, as importações totais de trigo em grão e farinha (equivalente grão) somaram 3,39 milhões de toneladas, queda de 4% em relação ao mesmo intervalo da temporada anterior. O recuo concentrou-se no trigo em grão, cujas compras externas passaram de 3,35 para 3,21 milhões de toneladas, enquanto as importações de farinha também apresentaram retração.

Esse movimento reflete uma postura mais defensiva da indústria moageira, com compras pontuais, maior cautela na formação de estoques e aproveitamento seletivo de momentos de maior competitividade do produto doméstico. Soma-se a isso uma leve melhora da produção nacional, tanto em volume quanto em qualidade, na comparação com a safra anterior.

Apesar da relativa estabilidade no volume total importado de trigo em grão, a análise detalhada das origens e dos destinos evidencia mudanças importantes na dinâmica de abastecimento. A Argentina manteve ampla liderança como fornecedora, respondendo por cerca de 80% das importações brasileiras no período, sustentada pela proximidade geográfica, pela competitividade logística e pela histórica complementaridade entre a oferta argentina e a demanda brasileira.

O Paraguai aparece como segunda principal origem, com participação próxima de 10%, seguido pelo Uruguai. Já os fornecedores extra-Mercosul — como Estados Unidos, Canadá e Rússia — tiveram presença pontual, normalmente associada a demandas específicas de qualidade, arbitragem de preços ou ajustes regionais de abastecimento. No entanto, diante da queda na qualidade do trigo argentino no ciclo comercial 2025/26, cresce a possibilidade de maior participação dessas origens no segundo semestre do ano comercial brasileiro.

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É fundamental considerar, ainda, a defasagem entre os anos comerciais. Os volumes registrados entre agosto e novembro de 2025, embora contabilizados no ano comercial brasileiro 2025/26, refletem majoritariamente a safra argentina 2024/25, de melhor qualidade, já que a nova colheita no país vizinho só passa a estar disponível a partir de dezembro.

A mesma lógica se aplica à temporada anterior, quando as importações entre agosto e novembro de 2024 estavam lastreadas na safra argentina 2023/24. Trata-se de um aspecto estrutural da relação comercial entre os dois países e essencial para a correta leitura dos dados.

Sob a ótica dos destinos, as importações seguem altamente concentradas. Ceará e São Paulo lideraram os desembarques em 2025/26, com cerca de 15% do total cada, reforçando o papel estratégico do Nordeste e do Sudeste tanto no consumo quanto na redistribuição do trigo importado. Na sequência aparecem Paraná, Bahia e Pernambuco, formando um grupo de cinco estados que concentra mais de dois terços das importações nacionais no período.

A presença de Paraná e Rio Grande do Sul entre os destinos, apesar de serem estados produtores, reflete compras complementares à produção doméstica, seja por questões de qualidade, seja por arbitragem logística ou necessidades específicas da indústria. No caso gaúcho, vale destacar que uma parcela relevante da produção foi direcionada à exportação, o que tende a apertar o quadro de abastecimento interno ao final da temporada. Já o Paraná consolidou-se, ao longo da última década, como o maior polo moageiro do país, migrando de uma condição historicamente superavitária para uma das mais deficitárias em trigo.

No sentido oposto às importações, as exportações e a cabotagem de trigo em grão avançaram de forma expressiva no primeiro semestre do ano comercial, totalizando 1,17 milhão de toneladas — alta de 30% em relação ao mesmo período de 2024/25. O crescimento esteve fortemente concentrado no trigo gaúcho, sinalizando janelas de competitividade do produto brasileiro no mercado externo e a necessidade de escoamento de volumes específicos. O Paraná registrou apenas um embarque via cabotagem para o Nordeste, de 32,7 mil toneladas. Cabe lembrar, ainda, o papel da intervenção governamental, que auxiliou no escoamento de cerca de 235 mil toneladas por meio dos mecanismos de PEP e Pepro.

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Esse desempenho exportador, contudo, não deve ser interpretado como uma expansão estrutural. As estimativas indicam que, no total do ciclo 2025/26, os embarques brasileiros devem alcançar entre 1,6 e 1,65 milhão de toneladas, abaixo das cerca de 2,0 milhões de toneladas exportadas no ano comercial anterior. Ou seja, o que se observa é um adiantamento dos embarques, com maior concentração das vendas externas na primeira metade do ciclo.

Esse movimento está diretamente associado ao trigo gaúcho, origem de praticamente todo o volume exportado e transportado por cabotagem. Diante de um quadro de endividamento elevado, muitos produtores buscaram liquidez no mercado externo, antecipando vendas em relação ao padrão observado no ano passado. Como consequência, o potencial exportável para o segundo semestre do ano comercial tende a ser mais limitado.

Como resultado da combinação entre menor ritmo de importações e exportações antecipadas, o saldo comercial da cadeia tritícola apresentou melhora, com o déficit recuando de 2,64 para 2,22 milhões de toneladas, uma redução de 16%. Ainda assim, os dados reforçam que o Brasil segue estruturalmente deficitário em trigo e que essa melhora tende a ser temporária. Ao longo do segundo semestre da temporada, com a perda de fôlego das exportações e a intensificação da necessidade de aquisições externas — inclusive nos estados produtores —, o déficit volta a se ampliar.

A estimativa é de que, ao final da temporada 2025/26, as importações totais de trigo em grão e farinha alcancem 7,4 milhões de toneladas, enquanto as exportações somem cerca de 1,65 milhão de toneladas. O resultado será um déficit comercial de aproximadamente 5,75 milhões de toneladas, 535 mil toneladas acima do registrado no ciclo anterior, quando o Brasil importou 7,217 milhões de toneladas e exportou 2,002 milhões de toneladas.

Em síntese, os dados do primeiro semestre do ano comercial 2025/26 evidenciam um ajuste conjuntural da balança comercial da cadeia tritícola brasileira, marcado por importações mais contidas, exportações antecipadas e uma melhora pontual do saldo, sem que isso altere o quadro estrutural de dependência externa do país. A reorganização observada reflete decisões táticas da indústria e dos produtores diante de condições específicas de mercado — qualidade relativa das safras, janelas de competitividade e necessidade de liquidez —, e não uma mudança permanente no equilíbrio entre oferta e demanda.

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À medida que o ano comercial avança, a tendência é de recomposição do déficit, impulsionada pela perda de fôlego das exportações e pela intensificação das compras externas para garantir o abastecimento interno.

Assim, a temporada 2025/26 caminha para encerrar com um déficit comercial ainda mais elevado, reforçando que a segurança do suprimento de trigo no Brasil segue condicionada ao mercado internacional e à dinâmica da oferta dos países vizinhos, em especial da Argentina.

Élcio Bento, especialista em trigo da Safras & Mercado

*Élcio Bento é especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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Mapa inclui tomate industrial irrigado no zoneamento de risco climático

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O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicou nesta sexta-feira (23), no Diário Oficial da União (DOU), a Portaria nº 378, que inclui o tomate destinado ao processamento industrial irrigado no Programa Nacional de Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). O estudo indica os períodos mais favoráveis ao plantio em diferentes municípios e estabelece parâmetros para mitigação de riscos climáticos na cultura.

Segundo o Mapa, o zoneamento orienta produtores, instituições financeiras e seguradoras na tomada de decisões e contribui para o planejamento da atividade agrícola. As datas de plantio previstas no Zarc devem ser observadas por quem pretende acessar o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), o Programa de Subvenção ao Seguro Rural (PSR) e o crédito rural.

O estudo foi direcionado ao tomate para processamento industrial irrigado, sistema recomendado para esse segmento. De acordo com os responsáveis pelo trabalho, a escolha se deve à padronização do modelo produtivo no país, baseado em irrigação, cultivares híbridas de crescimento determinado e colheita mecanizada. No Brasil, 40% da produção de tomate é destinada ao uso industrial e 60% ao consumo fresco. Em 2025, a produção nacional voltada ao processamento industrial somou 1,88 milhão de toneladas.

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A cadeia está concentrada no Cerrado, com plantios entre fevereiro e meados de abril. Goiás responde por 65% da produção, seguido por Minas Gerais, com 17%, São Paulo, com 16%, e Pernambuco, com 2%. A produção se caracteriza por lavouras irrigadas de grande escala, elevada mecanização e integração com agroindústrias.

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O pesquisador da Embrapa Hortaliças Marcos Braga afirma que, mesmo com irrigação, a cultura permanece sujeita a oscilações extremas de temperatura, excesso de chuva, inadequação de solo e de cultivares. O estudo definiu janelas de plantio com faixas de risco de 20%, 30% e 40% de probabilidade de perda de produção, detalhadas por município, tipo de solo, ciclo da cultivar e decêndio do ano. Foram avaliados cultivos com ciclo de até 120 dias e de 121 dias ou mais.

Entre os parâmetros considerados, o cenário ideal para a cultura reúne temperaturas entre 20°C e 27°C. Máximas acima de 35°C na floração podem reduzir produtividade e qualidade. Temperaturas mínimas abaixo de 3°C e médias abaixo de 19°C em período crítico também afetam o desenvolvimento. O trabalho avaliou ainda o excesso de chuva no início e no fim do ciclo, com referência a acumulados superiores a 240 mm nos primeiros 40 dias e acima de 90 mm na maturação e colheita.

Os resultados do zoneamento para o tomate industrial irrigado estão disponíveis no Painel de Indicadores do Zarc, nas portarias oficiais por estado e no aplicativo Zarc Plantio Certo, para Android e iOS.

Fonte: gov.br

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Bolsa de Rosário eleva estimativa da safra de trigo da Argentina para 23,8 milhões de toneladas

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A Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) elevou de 21 milhões para 23,8 milhões de toneladas sua estimativa para a produção de trigo da Argentina em 2026/27. Segundo a entidade, o volume projetado seria o segundo maior dos últimos 17 anos, abaixo apenas do recorde de 28,5 milhões de toneladas registrado no ciclo anterior. O rendimento médio nacional foi estimado em 3,53 toneladas por hectare.

A BCR informou que a nova projeção para o trigo coloca a safra 2026/27 como a terceira melhor marca de rendimento médio desde 2010. Ao mesmo tempo, a bolsa observou que as condições climáticas registradas em outubro seguem no radar dos produtores.

De acordo com a entidade, o mês tem sido marcado por temperaturas baixas, menor incidência de radiação solar e chuvas abaixo do esperado. Esse quadro, segundo a bolsa, pode comprometer o desenvolvimento das plantas e limitar os rendimentos.

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Para o milho, a estimativa é de uma área plantada de 10,6 milhões de hectares e produção de cerca de 67,5 milhões de toneladas. Mesmo com a perspectiva de uma safra expressiva, a área representa recuo de 3,6% em relação aos 11 milhões de hectares do ciclo anterior.

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No caso da soja, o plantio começa sob incertezas climáticas. A Bolsa de Rosário afirmou que os produtores acompanham com perplexidade o comportamento do fenômeno El Niño, que até agora não se apresentou como esperado. As temperaturas baixas também têm dificultado o início dos trabalhos, com relatos de frio ainda excessivo para a semeadura.

A área destinada à oleaginosa foi estimada em 16,7 milhões de hectares, alta de 2% sobre o ciclo anterior. Se as condições climáticas permanecerem dentro da normalidade, a produção argentina poderá alcançar 47,8 milhões de toneladas, projetou a entidade.

As projeções da Bolsa de Rosário indicam expectativa de produção elevada para trigo, milho e soja na Argentina em 2026/27, enquanto o clima de outubro segue como um fator acompanhado pelos produtores no início do ciclo.

Fonte: Estadão Conteúdo

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Estudo estima alta de até 49% na soja sem manejo fitossanitário

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Um estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG), em cooperação técnico-científica com a CropLife Brasil, simulou um cenário extremo de ausência de controle de pragas, doenças e plantas daninhas na sojicultura. O levantamento indica perda média de 121,3 milhões de toneladas, valor econômico estimado em R$ 223,5 bilhões e alta potencial de até 49% no preço da soja. A pesquisa foi divulgada nesta sexta-feira (23), em São Paulo.

Segundo o estudo, a redução da oferta em relação à produção potencial pode chegar a cerca de 65% nos principais estados avaliados. O modelo também projeta contribuição de aproximadamente 0,26 ponto porcentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

O pesquisador Emerson Del Ponte, docente da UFV e doutor em Fitopatologia, afirmou que a metodologia converteu perdas de produtividade em quebra de oferta e, com elasticidades calibradas com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), estimou a alta no preço da soja e o repasse para alimentos.

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Pelos cálculos do estudo, uma elevação de 10% no preço da soja poderia resultar em aumentos de 4,6% no óleo de soja, 1,7% no leite e 1,1% nos ovos. A pesquisa destaca que a soja é matéria-prima do óleo e que o farelo é usado na alimentação animal, o que conecta o preço do grão aos custos de produção de leite, ovos e carnes.

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O trabalho também avaliou exportações e demanda por terra. Para repor o volume perdido em um cenário sem controle, seriam necessários 33,5 milhões de hectares adicionais, considerando a produtividade média de referência.

Foram realizadas 10 mil simulações por estado, com comparação entre ausência de controle, controle parcial e controle ótimo. No controle parcial, as medidas reduziriam em 40% os danos estimados sem controle. No controle ótimo, a redução considerada é de 80%. Com esses parâmetros, a perda média simulada cai para 72,8 milhões de toneladas no controle parcial e para 24,3 milhões de toneladas no controle ótimo.

A parceria entre UFV e CropLife Brasil, formalizada em setembro de 2025, prevê estudos sobre outras culturas de importância para a agricultura brasileira. No levantamento sobre soja, o cenário extremo foi usado para dimensionar os efeitos produtivos e econômicos associados ao manejo fitossanitário.

Fonte: Estadão Conteúdo

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