Sustentabilidade
Cerca de 83% do crédito rural para soja teve aderência ao cultivo financiado, aponta Serasa

A soja financiada estava, na maior parte dos casos, onde deveria estar. É o que mostra o “Mapa da Soja”, estudo inédito da Serasa Experian que cruzou dados de crédito rural com imagens de satélite para verificar a correspondência entre a finalidade do financiamento público e o cultivo efetivamente encontrado nas áreas informadas pelos produtores.
Na safra 2025/26, 82,6% das 42.691 operações analisadas apresentaram aderência entre o crédito contratado e a cultura identificada no campo. O resultado representa uma melhora de 6,6 pontos percentuais em relação à safra 2022/23, quando o índice era de 76%.
O levantamento considerou 1,97 milhão de hectares financiados e utilizou imagens de sensoriamento remoto e tecnologia proprietária da Serasa Experian. Do total de operações, 66,7% não apresentaram indícios de desvio de finalidade. Outros 15,9% registraram diferença de até 10% entre a área financiada e a área em que a soja foi identificada. Segundo a empresa, essa margem pode estar relacionada à escala do mapeamento ou a imprecisões nos limites das glebas e não representa necessariamente uma irregularidade.
O dado que chama atenção está no grupo restante. Em 17,4% das operações, a diferença entre a área financiada e a área identificada com soja superou 10%. Desse universo, 10,6% apresentaram divergências entre 10% e 50% da área contratada, 3,7% entre 50% e 90% e 3,1% entre 90% e 100%.
Em alguns casos, a diferença foi expressiva. Uma das operações analisadas financiou o custeio de soja em 76,54 hectares, mas nenhuma área com a cultura foi identificada pelas imagens de satélite. Em outro caso, dos 37 hectares contratados para o cultivo de soja, apenas 10,42 hectares apresentaram a cultura, uma divergência de 71,8%.
Esses casos, porém, não significam automaticamente fraude ou uso irregular do crédito. A própria Serasa Experian ressalta que os indicadores funcionam como sinais de atenção e podem orientar uma investigação mais detalhada pelas instituições financeiras.
“Quando transformamos imagens de satélite e dados territoriais em indicadores objetivos, o monitoramento deixa de depender de uma análise amostral”, afirma Marcelo Pimenta, head de Agro da Serasa Experian.
Segundo ele, a tecnologia permite direcionar os esforços para as operações que apresentam maior divergência e podem exigir verificações documentais, contratuais, cadastrais ou agronômicas.
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R$ 2,2 bilhões sob atenção
A análise também dimensionou o impacto financeiro das operações com maiores divergências. Os casos em que o possível desvio de finalidade superou 10% da área financiada correspondem a mais de R$ 2,2 bilhões em crédito concedido, cerca de 25% de todo o volume financeiro analisado.
O dado não significa que R$ 2,2 bilhões tenham sido utilizados irregularmente. Trata-se do volume de recursos associado às operações que apresentaram divergências superiores a 10% no cruzamento entre os dados do financiamento e o mapeamento territorial.
A tecnologia, nesse contexto, funciona como uma ferramenta de triagem. Em vez de submeter toda uma carteira de crédito a uma análise manual, bancos e instituições financeiras podem identificar previamente as operações que merecem uma checagem mais aprofundada.
O relógio do plantio
O estudo também olhou para outro aspecto do cultivo, quando a soja foi plantada. No recorte agroclimático, a Serasa Experian monitorou 1,53 milhão de talhões, que somam 46,9 milhões de hectares de soja. O levantamento mostrou que 97,8% da área analisada foi plantada dentro das janelas recomendadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o ZARC.
A maior parte, 84,9%, estava enquadrada na faixa de risco agroclimático de 20%. Outros 10,7% estavam na faixa de 30% e 2,2% na de 40%. Os 2,2% restantes apresentaram divergência estimada entre a data de plantio identificada e a janela parametrizada para a região.
O dado acrescenta uma segunda camada à análise do crédito rural. Não basta saber se a cultura financiada está presente. O momento em que ela foi plantada também ajuda a compreender a exposição da lavoura ao risco climático.
“O ZARC traz uma dimensão complementar importante para a análise porque permite entender não apenas se a soja foi plantada, mas em que momento isso ocorreu e sob qual nível de exposição agroclimática”, diz Pimenta.
Satélite como ferramenta de fiscalização
O “Mapa da Soja” combina microdados públicos do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro, o SICOR, com mapas proprietários de cultivo da Serasa Experian. A empresa utilizou séries temporais de imagens multiespectrais dos satélites Sentinel-2 e modelos automáticos para identificar a presença da soja nas áreas financiadas.
A proposta é transformar imagens e dados territoriais em indicadores que possam apoiar a gestão do crédito rural. O monitoramento ganha importância diante das exigências regulatórias relacionadas ao crédito agrícola e às regras do Manual de Crédito Rural e da Resolução CMN nº 5.267/2025.
Ainda assim, o estudo faz uma ressalva importante. O sensoriamento remoto, isoladamente, não comprova uma irregularidade. Os resultados servem para identificar sinais de atenção e priorizar operações que podem passar por validações documentais, cadastrais, contratuais e agronômicas.
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Sustentabilidade
Dinâmica do ENOS e seus efeitos no potencial de produtividade da soja – MAIS SOJA

O El Niño-Oscilação Sul (ENOS) é resultado de um acoplamento de dois componentes: um oceânico (aquecimento ou esfriamento da temperatura da superfície do mar – TSM) e outro atmosférico (comportamento dos ventos alísios na região do Pacífico Equatorial). Diante dessas anomalias, cada fase é caracterizada da seguinte forma:
- El Niño (fase quente): Corresponde ao aumento na TSM superior a 0,5ºC por pelo menos 5 trimestres consecutivos móveis, acompanhado pela redução da velocidade dos ventos alísios.
- La Niña (fase fria): Corresponde à diminuição na TSM inferior a -0,5ºC por pelo menos 5 trimestres consecutivos móveis, acompanhada pelo aumento da velocidade dos ventos alísios.
- Neutralidade: As temperaturas da TSM permanecem entre -0,5 °C e +0,5 °C por pelo menos 5 trimestres consecutivos.
O fenômeno ENOS atua de forma distinta dependendo da região do planeta. Por exemplo, anos de El Niño causam seca na Ásia, na Oceania e no norte da América do Sul, enquanto em outras regiões, como no sul da América do Sul e no centro-sul da África, o fenômeno resulta em chuvas acima da média. Em contrapartida, anos de La Niña apresentam o comportamento inverso, com chuvas acima da média na Ásia, na Oceania e no norte da América do Sul, e seca no sul da América do Sul e no centro-sul da África (Figura 1).
Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender o ENOS visando obter altas produtividades na cultura da soja no Brasil, visto que o comportamento das precipitações varia conforme a fase do fenômeno. Dada essa importância, a Equipe FieldCrops buscou compreender o impacto do ENOS no potencial de produtividade de sequeiro das Regiões Edafoclimáticas (RECs) do Brasil, propostas por Kaster e Farias (2012), considerando a principal janela de semeadura (Figura 2).
A partir dessa análise, verificou-se que a região sul do Brasil e o sul do Mato Grosso do Sul (REC’s 101, 102, 103, 104, 201 e 202) são as mais afetadas pelo fenômeno ENOS. Durante a fase La Niña, observa-se uma redução significativa no potencial de produtividade de sequeiro, especialmente para semeaduras realizadas no mês de setembro e outubro (Figura 2). As demais Regiões Edafoclimáticas apresentam menor variação no potencial de produtividade de sequeiro conforme a fase do ENOS, sendo que os maiores potenciais são evidenciados no mês de outubro.

Referências:
CYCLONEXTREME. Meteorologie El Niño. Disponível em: < https://www.cyclonextreme.com/meteorologieelnino.htm >, acesso: 02/08/2026
KASTER, M; FARIAS, J. R. B. Regionalização dos testes de Valor de Cultivo e Uso e da indicação de cultivares de soja – terceira Aproximação. Londrina: Embrapa Soja: Documentos 330, p. 69, 2012. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/917252 >, acesso: 01/08/2026
WINCK, J.E.M et al. Ecofisiologia da soja visando altas produtividades. 3era Edição, 2025.

Sustentabilidade
Algodão/BR: Clima Seco Favorece Colheita e Rendimentos Superam Expectativas – MAIS SOJA

Algodão/BR: 70,5% colhido. Em MT, os dias quentes impulsionaram a colheita. O manejo de campo segue focado no controle do bicudo-doalgodoeiro e na destruição imediata das soqueiras. As produtividades aferidas até o momento superam as da safra anterior. Na BA, a colheita está em andamento.
No MA, nos Gerais de Balsas, a colheita da primeira safra será finalizada até o fim de agosto e a segunda está sendo concluída. As lavouras em campo encontram-se em maturação. Em MS, a colheita está praticamente finalizada nas regiões norte e nordeste, continuando a destruição das soqueiras. Na região central, a colheita segue em andamento, com finalização prevista para o início de setembro.
Em MG, o clima mais seco, com temperaturas amenas e baixa precipitação, tem favorecido as operações de colheita. Em GO, a cultura encaminha-se para a reta final do ciclo, com bom andamento da colheita e qualidade da pluma considerada boa. Na região Oeste, a colheita foi concluída, e as áreas remanescentes seguem em boas condições.
No PI, a colheita segue avançando, com produtividade superando as estimativas iniciais. Em SP, a colheita encontra-se encerrada.
Previsão Agrometeorológica (24/08/2026 a 31/08/2026)
N-NE: As chuvas devem se concentrar no Oeste de RR, nos trechos Norte e Oeste do AM e no Oeste do AC, com valores que podem alcançar pontualmente os 80 mm. No litoral do AP e no Nordeste do PA, a umidade costeira provoca chuvas entre a tarde e a noite, favorecendo em parte as lavouras de feijão terceira safra. Nas demais áreas da região Norte, são previstas precipitações pouco significativas. No TO, não há previsão de chuva. Na Região Nordeste, as chuvas devem ficar concentradas na faixa litorânea, com volumes pouco significativos, favorecendo a maturação e o início da colheita da cana-de-açúcar. No agreste e na região interiorana do Nordeste, persiste a previsão de falta de chuva. O feijão e o milho terceira safras, ainda em floração e enchimento de grãos, no Sealba, continuarão sob restrição hídrica.
CO: A semana inicia com tempo seco e estável. Nos dias 25 e 26 há previsão de pancadas de chuva no Centro-Sul de MS. Em áreas do Norte de MT, GO e DF, há previsão de chuva isolada. A partir do dia 28, as condições de tempo seco e estável devem predominar e permanecer até o final do período. No geral, as condições serão favoráveis para a maturação e a colheita do algodão, do milho segunda safra e dos cultivos de inverno, apesar do risco de incêndios.
SE: Há previsão de chuvas isoladas entre o litoral de SP, o RJ, o Sul de MG e o litoral do ES, mantendo-se essas condições até o dia 25. A partir do dia 26, há previsão de pancadas de chuva entre o Leste de SP, o Sul de MG, o RJ e o Sul do ES, com tendência de redução das chuvas a partir do dia 29, quando ficam restritas ao litoral capixaba. No geral, as condições continuarão favoráveis para a maturação e a colheita dos grãos, da cana-de-açúcar e do café.
S: A semana inicia com tempo seco e estável. A partir do dia 25, há previsão de pancadas de chuva no Leste do PR, avançando pelo Norte de SC ao longo do dia 26, com tendência de diminuição no final desse dia. A partir da tarde do dia 27, a passagem de uma nova frente fria provoca a formação de áreas de instabilidade no RS, com previsão de pancadas de chuva ao final do dia, sendo os maiores acumulados esperados entre o Sul e o Leste do estado. Nos dias seguintes, as áreas de instabilidade deverão se expandir por todo o território gaúcho e avançar para o Centro-Sul de SC, com acumulados diários superiores a 50 mm e possíveis danos pontuais às lavouras. Pode haver restrição por excesso de chuvas e de umidade, principalmente, nas áreas com maiores acumulado
Fonte: Conab
Autor:Conab
Site: Conab
Sustentabilidade
Da crise à soja com IA: como José Bisneto transformou dificuldade em frente de produção

Na história de José Bisneto, a soja entrou muito depois. Antes dela vieram os canaviais de Pernambuco, as usinas da família, as viagens pelas estradas do Nordeste e uma sucessão de crises que, em vez de interromper sua trajetória, acabaram abrindo novas portas.
Hoje, sua produção de cana, açúcar e álcool divide espaço, em proporções semelhantes, com a produção de grãos, como soja e milho. No campo, a experiência acumulada ao longo de décadas se encontra com agricultura de precisão, dados e inteligência artificial.
Mas, antes de chegar à soja, foi preciso aprender a recomeçar. “Eu nasci dentro de uma usina e me criei, cresci dentro de uma usina. Então, conhecia tudo e sempre fui um empolgado com a cana-de-açúcar, o processo industrial. Todo esse setor me encantava”, conta.
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Pernambucano, nasceu em uma família de usineiros e cresceu entre máquinas, canaviais e o movimento das usinas. Nos anos 1980, a usina da família quebrou, em meio a mais uma crise do setor sucroenergético.
Foi nesse período que Bisneto encontrou uma nova oportunidade. Com o avanço do álcool combustível, novas destilarias surgiam no Nordeste, muitas delas comandadas por pecuaristas que tinham terra, mas não tinham experiência na fabricação de álcool. Ele começou a comprar melaço, subproduto da fabricação de açúcar, e revendê-lo às novas destilarias.
O comércio cresceu e o levou a percorrer o Nordeste. Até que uma das usinas para as quais havia comprado antecipadamente toda a produção de melaço da safra seguinte quebrou. O dinheiro já estava comprometido. A produção, paga. Restava decidir o que fazer.
A resposta foi assumir a usina. “Os donos me chamaram para explicar que tinham quebrado, que não havia solução e que eu estava com toda a safra comprada e paga antecipadamente. Então não restou outra alternativa a não ser assumir a usina.”
O pontapé para a produção de soja
A experiência acumulada dentro das usinas ajudou na recuperação da produção. Em 1989, veio a segunda usina, em Sergipe. Mais tarde, diante das dificuldades de produzir cana no Nordeste, Bisneto levou sua experiência para o Centro-Sul, onde passou a atuar também em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais.
“A partir de 1950, a produção do Sul e Sudeste cresceu de uma maneira muito grande. Para quem tinha o conhecimento das dificuldades que a gente tinha no Nordeste, para mim foi muito entusiasmante começar a produzir no Centro-Sul.”
“Eu resolvi diversificar porque o nosso balanço final estava no vermelho, sempre no vermelho. Aproveitei algumas terras, como nós já tínhamos muitas terras nessas usinas, e comecei a produzir soja. Era um aprendizado. Comecei a produzir soja e me entusiasmei.”
O que começou como uma alternativa para enfrentar uma crise ganhou outra dimensão. A soja passou a dividir espaço com a cana e, com o tempo, se tornou uma atividade tão importante quanto ela. A entrada nos grãos também trouxe uma nova forma de trabalhar a terra, combinando a experiência acumulada no campo com agricultura de precisão, dados e, mais recentemente, inteligência artificial.
A IA como aliada
Hoje, a agricultura de precisão permite que os insumos sejam aplicados de acordo com aquilo que cada pedaço do solo realmente precisa. Na prática, isso significa tomar decisões diferentes para cada talhão, considerando características específicas da área. A inteligência artificial levou esse processo um passo adiante.
Em uma das experiências, dados de diferentes safras foram cruzados considerando época de plantio, variedades, tipos de solo e produtividade de cada talhão. O resultado foi um mapa de decisões sobre qual variedade plantar, em qual área e em qual momento.
Com o apoio da IA Gemini, do Google, o grupo consegue identificar a variedade ideal de soja para cada área da fazenda, considerando solo, clima e produtividade histórica. A ferramenta funciona como complemento ao trabalho dos agrônomos, reunindo informações que seriam difíceis de analisar de forma conjunta.
“São milhares e milhares de dados que não dá para você calcular. A IA cruzou todos esses dados para, no fim, me dar o seguinte resultado: talhão tal, você precisa plantar na primeira quinzena de outubro com a variedade tal.”
Para Bisneto, o avanço da inteligência artificial não significa deixar as decisões do campo nas mãos da tecnologia. Ele vê a ferramenta como uma aliada do profissional, capaz de organizar e cruzar uma quantidade de informações que seria difícil analisar de outra forma. A decisão, porém, continua dependendo de quem conhece a terra, entende o negócio e sabe interpretar os resultados.
“Ela faz todos esses cálculos, mas a cabeça do engenheiro agrônomo e de gente estudiosa vai usar a inteligência artificial. Ela será usada a serviço do profissional, e não o profissional a serviço da IA”, aponta.
É nessa parceria que Bisneto vê o futuro da tecnologia no campo. A inteligência artificial pode ajudar a encontrar padrões, comparar informações e apontar possibilidades, mas não substitui a experiência de quem trabalha com a terra. Para ele, a tecnologia deve estar a serviço do profissional, ampliando sua capacidade de análise e ajudando na tomada de decisão.
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