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Federarroz identifica inconformidades em amostras de arroz vendidas em 6 estados

Um levantamento realizado pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) identificou inconformidades na classificação de arroz vendido ao consumidor.
A entidade fez coletas do produto entre novembro de 2025 e janeiro de 2026 em 167 estabelecimentos de 32 cidades do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.
Ao todo, a operação percorreu aproximadamente 8,5 mil quilômetros e encaminhou as amostras selecionadas para avaliação em laboratório credenciado. Das 268 amostras comercializadas como arroz Tipo 1 e submetidas à análise, 215, o equivalente a 80,22%, apresentaram classificação inferior à declarada.
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A entidade deixa claro que o percentual se refere exclusivamente ao conjunto de produtos selecionados e analisados no levantamento e não representa uma estimativa sobre a totalidade do arroz Tipo 1 comercializado no país.
A seleção feita pela Federarroz priorizou produtos que apresentavam indícios visuais de desconformidade com a classificação declarada, além de itens encontrados nas menores faixas de preço das gôndolas pesquisadas. Em comum, todos os produtos encaminhados ao laboratório eram oferecidos ao consumidor como arroz Tipo 1.
Grãos quebrados
Entre os parâmetros considerados na classificação estão defeitos e percentuais de grãos quebrados. O levantamento registra, por exemplo, amostras vendidas como Tipo 1 que apresentaram 18% e 35% de grãos quebrados, índices associados a classificações inferiores dentro dos critérios utilizados na avaliação.
As divergências foram encontradas nos seis estados percorridos pelo estudo. Os resultados apontaram casos em que a classificação constatada em laboratório não correspondia ao Tipo 1 informado na embalagem.
Por conta disso, a entidade afirma que encaminhará às autoridades competentes os resultados das análises e buscará a adoção das medidas cabíveis nas esferas administrativa, cível e penal a partir dos casos encontrados no estudo.
O presidente da Federarroz, Denis Dias Nunes, ressalta que o percentual se restringe às amostras selecionadas para o levantamento. “É importante frisar que esse número não representa todo o arroz oferecido nas prateleiras. Ele se refere aos produtos que analisamos, selecionados principalmente porque já apresentavam indícios visuais de desconformidade ou estavam em faixas de preço muito abaixo das demais marcas”, ressalta.
Nunes também aponta reflexos sobre as empresas que comercializam produtos dentro dos padrões de classificação. “Quando um arroz de qualidade inferior é vendido como Tipo 1, ele passa a concorrer em preço com marcas que fazem seu trabalho dentro dos padrões de qualidade. Essa prática lesa o consumidor e também as empresas que cumprem as regras”, afirma.
Marcas podem responder na justiça
O diretor jurídico da Federarroz, Anderson Belloli, afirma que os resultados serão encaminhados aos órgãos competentes para análise dos casos identificados. Segundo ele, as medidas poderão envolver as esferas administrativa, cível e penal, de acordo com a competência de cada órgão e com o enquadramento dado às situações apuradas.
Segundo ele, a Federação considera os casos uma questão de proteção ao consumidor e de cumprimento das regras de classificação. “Estamos falando de uma possível fraude ao consumidor, que não se limita a uma questão de qualidade. A partir das inconformidades constatadas, as informações serão levadas aos órgãos competentes para que cada caso seja apurado”, afirma.
Na esfera administrativa, o encaminhamento deverá envolver o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Na área cível, Belloli cita os Ministérios Públicos estaduais e, nos casos que envolvam mais de um estado, o Ministério Público Federal, enquanto eventuais desdobramentos penais dependerão da apuração realizada pelos órgãos responsáveis.
A entidade pretende utilizar os dados também para discutir a fiscalização da classificação comercial do arroz e a correspondência entre a informação apresentada na embalagem e o produto efetivamente oferecido ao consumidor.
Vale ressaltar, também, que produtos indevidamente classificados como Tipo 1 não representam riscos à saúde, ou seja, são próprios para consumo, apenas não entregam a qualidade que anunciam em suas embalagens.
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Produtor vira engenheiro agrônomo para ajudar o pai e hoje soma 7 milhões de seguidores nas redes

Com um chapéu de palha na cabeça, camiseta rasgada, bermuda e botas nos pés, o engenheiro agrônomo Isnael Nonato foge do visual tradicional de muitos profissionais que utilizam as redes sociais para compartilhar conhecimentos sobre agricultura. Mais conhecido como Agrônomo de Vera, ele conquistou milhões de seguidores nas redes sociais com uma comunicação simples, direta e sem formalidades.
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Nascido em Cacoal (RO), criado em Goiânia (GO) e atualmente morador de Vera, no interior de Mato Grosso, Isnael produz seus vídeos em uma propriedade de apenas três hectares, onde vive com a esposa, Gabriela.
Aos poucos, as dicas sobre hortaliças, cuidados com plantas, controle de pragas e técnicas de cultivo ultrapassaram os limites da pequena propriedade. Hoje, ele acumula 7 milhões de seguidores em suas redes sociais, sendo 2,3 milhões só no Instagram.
Por trás do sucesso nas redes sociais, porém, existe uma trajetória marcada por dificuldades financeiras, perdas familiares e uma promessa que Isnael fez a si mesmo ainda na adolescência: estudar agronomia para ajudar o pai e outros agricultores que não tinham acesso à assistência técnica.
O desejo de mudar a realidade da família
Filho e neto de trabalhadores rurais, Isnael cresceu acompanhando as dificuldades enfrentadas pela família para conseguir produzir no campo.
O avô trabalhava como caseiro em fazendas, enquanto o pai era funcionário em propriedades de terceiros. Durante a infância, Isnael observava que muitos agricultores tinham dificuldades para aumentar a produtividade por falta de orientação técnica.
“Desde criança eu via as dificuldades do meu avô e do meu pai. Eles plantavam, mas não tinham muita produtividade. Meu pai não tinha acesso à informação e ao profissional agrônomo”, recorda.
A situação despertou no adolescente o interesse pela profissão. Entre os 13 e os 15 anos, ele já havia decidido qual caminho seguiria.
“Eu decidi que ia ser engenheiro agrônomo, que ia estudar essa parte da agricultura para poder ter esse conhecimento.”
A mudança da família para Mato Grosso reforçou ainda mais essa escolha. Depois de anos trabalhando para outras pessoas, o pai decidiu buscar uma oportunidade de ter a própria terra. Incentivado por informações de familiares que já moravam no estado, mudou-se com a família para a região de Sinop e conseguiu uma área de assentamento em Boa Esperança do Norte.
Na propriedade de aproximadamente 100 hectares, a família passou a trabalhar com hortaliças e criação de gado. Entretanto, a distância dos grandes centros urbanos tornava o acesso à assistência técnica ainda mais difícil. Segundo Isnael, a propriedade ficava a cerca de 280 quilômetros de Sorriso, e o atendimento aos pequenos produtores era limitado.
“Quando chegamos ao Mato Grosso, eu pensava que Goiânia era ruim de assistência técnica. Mas foi aqui que vimos o que era dificuldade. Tinha engenheiro agrônomo que ia atender meu pai e nem descia do carro”, conta.
Determinado a mudar aquela realidade, Isnael iniciou sua formação como técnico agrícola, concluída em 2013.
Ainda durante os estudos, aproveitava as visitas à propriedade do pai para orientar os agricultores vizinhos, principalmente em questões relacionadas ao cultivo e ao controle de pragas.
Como muitos não tinham condições de comprar insumos ou contratar assistência especializada, ele procurava apresentar alternativas acessíveis, utilizando os recursos disponíveis nas propriedades.
Foi nessa época que percebeu que o conhecimento adquirido na escola poderia beneficiar muito mais pessoas do que apenas sua família.
Após concluir o curso técnico, Isnael começou a trabalhar em uma fazenda, onde respondia aos engenheiros agrônomos responsáveis pelas atividades.
A experiência despertou o desejo de continuar estudando. “Eu falei: ‘Não quero só executar as ordens dos engenheiros agrônomos. Quero ser mais do que isso’. Então fui para Sorriso estudar agronomia.”
Em 2019, concluiu a graduação em Engenharia Agronômica. Durante sua formação, trabalhou em empresas do setor de sementes e pesquisa agrícola, acumulando experiência com culturas como soja e milho.
A carreira parecia encaminhada, mas uma sequência de acontecimentos mudaria completamente seus planos.
Perdas e dívidas
Em um período particularmente difícil, Isnael enfrentou a morte do pai e a perda do emprego em uma empresa do setor agrícola.
Morando de aluguel em Sorriso (MT), viu as despesas se acumularem enquanto tentava encontrar uma maneira de sustentar a família.
“Meu mundo desabou. Meu pai faleceu, perdi o emprego, estava devendo aluguel, as contas chegando e só acumulando”, relembra.
A oportunidade de recomeçar surgiu depois que sua mãe vendeu a propriedade da família em Boa Esperança do Norte e dividiu os recursos entre os filhos.
Com sua parte, Isnael e Gabriela decidiram investir em uma pequena chácara de três hectares, no município de Vera.
O plano era ousado: viver exclusivamente da produção agrícola e provar, na prática, que uma pequena propriedade poderia garantir o sustento de uma família.
A ideia de compartilhar essa experiência nas redes sociais já existia, mas Isnael estabeleceu uma condição antes de começar a produzir conteúdo.
“Eu falei para a Gabriela: ‘Nós vamos pegar essa chácara, vamos plantar, vamos sobreviver dela e vamos fazer dar certo primeiro. Depois vamos mostrar para o Brasil que dá para viver na roça, que a gente consegue ter uma vida digna e ter sucesso’.”
O casal começou a trabalhar com o cultivo e a comercialização de hortaliças, especialmente alface.
Depois de dois anos, a propriedade já gerava recursos suficientes para pagar as despesas da família e permitir alguns investimentos.
Foi então que Isnael decidiu colocar em prática a segunda parte do projeto: compartilhar o conhecimento adquirido com outras pessoas.
Viralizou!

Em outubro de 2024, Isnael e Gabriela criaram os perfis que dariam origem ao Agrônomo de Vera.
Inicialmente, as publicações eram utilizadas para divulgar os produtos da chácara e atrair compradores da região. A mudança aconteceu depois que um vereador de Vera, que acompanhava as divulgações de Isnael em grupos de WhatsApp, percebeu sua facilidade para se comunicar.
Segundo o agrônomo, o político telefonou para incentivá-lo a gravar vídeos com dicas de agricultura. “Ele falou: ‘Isnael, você se comunica muito bem. Você fala de uma forma que todo mundo entende, não interessa o grau de estudo. Começa a gravar esses vídeos e coloca nas redes sociais’.”
Apesar do incentivo, Isnael ainda tinha dúvidas. O casal também enfrentava novas dificuldades financeiras depois de investir as economias na construção de uma represa na propriedade.
“Todo o dinheiro que tínhamos guardado naqueles dois anos, nós gastamos. Estávamos quebrados, com financiamento de carro e energia solar atrasados”, relata.
Em uma tarde de domingo, desanimado com a situação, Isnael estava sentado próximo à represa quando pediu à esposa que pegasse o celular.
“Eu estava muito triste. A Gabriela sempre me levantando, sempre positiva comigo. De repente, senti uma alegria muito grande e falei: ‘Gabi, grava um vídeo para mim’.”
Na gravação, de quase quatro minutos, ele se apresentou e explicou o que pretendia ensinar.
“Meu nome é Isnael Nonato, sou engenheiro agrônomo aqui da cidade de Vera, Mato Grosso. E nesse canal eu vou ensinar vocês a viver da roça. Vou provar que uma pessoa consegue sobreviver em um pequeno pedaço de chão.”
O vídeo foi publicado no TikTok, onde o perfil tinha pouco mais de cem seguidores. Pouco depois da publicação, faltou energia elétrica na propriedade. Sem acesso à internet, o casal não conseguiu acompanhar a repercussão.
Na manhã seguinte, uma ligação da filha, Isabela, trouxe a notícia inesperada. “Mãe, o que vocês aprontaram com o pai ontem? O vídeo dele está com um milhão e meio de visualizações”, contou a jovem, segundo Isnael.
A repercussão surpreendeu a família. Quando a energia voltou, o casal decidiu publicar o mesmo conteúdo no Instagram. O resultado foi semelhante: milhares de visualizações e um crescimento acelerado no número de seguidores.
“De um dia para o outro, passamos de 10 mil seguidores no Instagram. No TikTok também ultrapassamos 10 mil. Depois colocamos no Facebook e no Kwai, e virou uma bola de neve.”
O casal decidiu aproveitar o momento e passou a publicar vídeos diariamente.”Falamos: ‘Se é para continuar, vamos postar um vídeo todo dia’. E nunca mais paramos.”
Simplicidade na comunicação

Uma das características que mais chamam a atenção nos vídeos de Isnael é a maneira como ele transmite conhecimentos técnicos sem recorrer a explicações complicadas.
O agrônomo conta que a escolha pela linguagem simples surgiu de experiências vividas durante sua formação e atuação profissional.
Em palestras e eventos técnicos, ele frequentemente encontrava dificuldades para compreender determinados termos utilizados pelos próprios colegas.
“Eu sou engenheiro agrônomo e, quando ia às palestras, entendia 60% a 70% do que os caras falavam. Por que o sujeito tem que falar análise de solo e não pode falar análise de terra?”, questiona.
A percepção de que a linguagem excessivamente técnica afastava parte do público influenciou diretamente a forma como decidiu produzir seus conteúdos.
“Quando o cara fala muito técnico, está falando para um número limitado de pessoas. Quando fala do jeito certo, consegue alcançar tanto quem tem conhecimento quanto quem nunca foi à escola.”
Para Isnael, o objetivo é oferecer orientações que possam ser compreendidas e aplicadas por pessoas com diferentes níveis de escolaridade.
Embora o foco principal seja a agricultura familiar, os conteúdos também alcançam moradores de cidades que desejam cultivar alimentos em pequenos espaços.
“Meu público é aquele que mora no apartamento, na chácara, na roça. Não interessa onde estiver. É quem precisa da informação.”
Segundo ele, uma pessoa que deseja plantar cebolinha em um vaso na varanda pode encontrar informações tão úteis quanto um agricultor que depende da produção para sustentar a família.
‘Não sou um personagem’

Além da linguagem, o visual de Isnael também se tornou uma marca registrada. Diferentemente da imagem frequentemente associada aos profissionais do agronegócio, ele aparece nos vídeos usando chapéu de palha, bermuda, botas e camisetas muitas vezes rasgadas pelo trabalho diário.
O estilo desperta curiosidade entre os seguidores, que questionam se as roupas fazem parte de uma estratégia para conquistar audiência.
Isnael garante que não. “Não é um personagem. Essas roupas que vocês me veem usando nas redes sociais, de shortão e bota, sou eu. Se você chegar aqui hoje, vai me encontrar de bota, short e camiseta rasgada.”
Ele conta que mantém o estilo mesmo quando participa de compromissos fora da propriedade. “Quando vou viajar de avião, coloco meu chapelão e minha botona. Só não vou de camisa rasgada, porque aí o pessoal estranha”, brinca.
Para o agrônomo, a identificação com o público depende principalmente da autenticidade. “Hoje o seguidor bate o olho no vídeo, escuta uma frase e percebe se você está falando a verdade ou sendo falso. Eu sou simples assim.”
E acrescenta: “Eu sou aquele engenheiro agrônomo raiz, que quer pegar a terra com a mão, pisar na terra de bota e de short. Essa é minha realidade.”
O sucesso nas redes e a missão de ajudar outras pessoas
Com milhões de seguidores e vídeos que alcançam grandes audiências, Isnael passou a dedicar parte significativa da rotina à produção de conteúdo.
As publicações abordam problemas que surgem no dia a dia da propriedade e dúvidas enviadas pelos seguidores.
Ele explica que acompanha os comentários para identificar os assuntos de maior interesse e procura publicar orientações relacionadas às necessidades do público em cada época do ano.
“Se tem dez comentários pedindo informações sobre jabuticaba e um sobre goiaba, eu vou olhar o que as pessoas estão pedindo. É isso que dá a oportunidade de saber o que elas querem.”
Apesar da popularidade, afirma que sua principal preocupação não é alcançar números cada vez maiores de visualizações.
“Se eu postar um vídeo que tenha 10 mil visualizações, vou ficar feliz, porque com certeza aquele vídeo ajudou alguém. Meu interesse não é mais bater um milhão de visualizações. Meu interesse é ajudar.”
O crescimento também trouxe reconhecimento. Isnael figura entre os três colocados em uma parcial da votação do Prêmio iBest na categoria de influenciadores do agronegócio.
Mas, ao falar sobre o que considera sua maior conquista, o agrônomo volta às lembranças do pai. Segundo ele, um ensinamento recebido na infância continua orientando suas decisões.
“Meu pai sempre falava: ‘Isnael, quando você faz o mal, volta cem vezes mais. E quando você faz o bem, volta um milhão de vezes mais’.”
Hoje, ao receber mensagens de agradecimento e relatos de pessoas que conseguiram melhorar seus cultivos com as orientações compartilhadas, ele acredita estar colocando esse ensinamento em prática.
“Você não tem noção do tanto de gente que me deseja felicidade, saúde e paz. Isso volta para a gente de uma forma tão positiva que eu não sei explicar o quanto é bom.”
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Estudo aponta que aquários com divisórias aumentam o bem-estar de tilápias

O uso de divisórias físicas em aquários pode contribuir para melhorar as condições de bem-estar de tilápias-do-Nilo mantidas em experimentos laboratoriais. O estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com o Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ), revela que espécies de peixes com hierarquia social passam por situações de maior estresse nos aquários sem separações individuais.
A pesquisa comparou o comportamento e indicadores de estresse de peixes mantidos em aquários com e sem divisórias. O experimento foi realizado durante 17 dias, sendo dois de aclimatação e 15 de avaliação, em seis aquários de 300 litros equipados com sistema de recirculação de água. Três aquários receberam divisórias físicas e três permaneceram sem a barreira. Após a biometria inicial, três tilápias foram colocadas em cada aquário.
Durante o período experimental, os pesquisadores acompanharam diariamente o comportamento dos peixes, possíveis sinais clínicos de enfermidades e a ocorrência de mortalidade. Também foram monitorados parâmetros de qualidade da água, como concentração de amônia, oxigênio dissolvido, pH, temperatura e condutividade elétrica.
Os peixes receberam diariamente ração comercial equivalente a 3% da biomassa, sob um regime de 10 horas de luz e 14 horas de escuro. Ao final do experimento, os animais passaram por nova avaliação biométrica e foram coletadas amostras de sangue para verificar indicadores relacionados à saúde e ao estresse, como glicemia, hematócrito e proteína plasmática total.
Embora os parâmetros sanguíneos não tenham apresentado diferenças significativas entre os dois tratamentos, as observações comportamentais revelaram uma diferença importante. Nos aquários sem divisórias, foram identificados indivíduos dominantes que apresentavam comportamento agressivo, perseguindo e atacando os demais peixes.
Já nos aquários com divisórias, alguns peixes também apresentaram comportamento agressivo, mas a barreira física impediu o contato direto entre os indivíduos. “Os resultados mostram que uma estrutura simples, como a utilização de divisórias, pode reduzir as interações agressivas entre os peixes e contribuir para melhores condições de bem-estar durante os experimentos”, afirma Víctor Biguetti, bolsista da Universidade de Jaguariúna.
A agressividade entre tilápias está relacionada à formação de hierarquias sociais, nas quais alguns indivíduos assumem posições dominantes e podem restringir o acesso dos demais a espaço e alimento.
O estudo reforça a importância de considerar não apenas os parâmetros fisiológicos, mas também o comportamento dos peixes na avaliação de seu bem-estar. “Essa observação demonstra a importância da padronização de metodologias para uso dos biomarcadores que sejam mais adequados para cada situação e ambiente”, explica Márcia Ishikawa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.
“Associar ferramentas estruturais com as técnicas laboratoriais faz parte das boas práticas de manejo laboratorial na condução dos experimentos em ambiente controlado”, conclui Julio Queiroz, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.
O trabalho é de Víctor Biguetti, da UniFaj, Mariana de Oliveira Nascimento, bolsista da Faped, Julio Queiroz, Alfredo Luiz, Claudio Jonsson, Vera Castro e Márcia Ishikawa, da Embrapa Meio Ambiente.
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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Cientistas da USP encontram enzima que aumenta em 6 vezes a produção de açúcar

O Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas (Lafieco) da Universidade de São Paulo (USP) descobriu uma enzima na raiz da cana-de-açúcar que serve como uma chave para quebrar o bagaço e alavancar o rendimento da planta: a molécula ASD (α-L-arabinofuranosidase).
Estudos divulgados nesta última semana revelam que o uso em laboratório aumentou a liberação de açúcar pelos resíduos da cana em até seis vezes, um passo essencial para acelerar a produção de etanol de segunda geração.
Uma das maiores barreiras para o aproveitamento pleno da cana sempre foi a rigidez no material que compõe o “esqueleto” da planta, a lignocelulose. Por conta dessa dificuldade, há anos, uma empresa dinamarquesa detém o monopólio de um coquetel enzimático capaz de quebrar essa barreira, e cientistas do mundo todo investigam alternativas.
A descoberta brasileira vem de uma pesquisa de 17 anos do Lafieco, que faz parte do Instituto de Biociências da USP. Ao mapear o desenvolvimento dos aerênquimas – estruturas porosas presentes nas raízes –, os pesquisadores identificaram um conjunto de enzimas usadas pela própria planta para remodelar suas fibras. Depois, conseguiram isolar a ASD e aplicá-la em coquetéis enzimáticos comerciais, que são capazes de quebrar a lignocelulose e aumentar a sacarificação.
Descoberta revolucionária
Marcos Silveira Buckeridge, coordenador do Lafieco e coautor do trabalho publicado no Journal of Experimental Botany, explica que os coquetéis enzimáticos já existentes são originados de microrganismos – em sua maioria, fungos. É a primeira vez que cientistas apontam uma molécula de origem vegetal com tal atributo. “E não é qualquer origem vegetal, é da própria cana-de-açúcar”, ressalta o pesquisador.
Para chegar a esse ponto, a equipe precisou primeiro mapear a química e a estrutura da parede celular da cana, entendendo como a celulose se organiza. “Vários alunos do Lafieco fizeram parte da investigação durante esses 17 anos, passando o bastão uns para os outros”, relembra o biólogo, cujo grupo publicou os primeiros dados estruturais sobre isso em 2013.
O grupo já sabia que a formação dos aerênquimas nas raízes da cana envolvia um processo natural de separação de células. O aparecimento dessas estruturas costuma estar ligado à falta de oxigênio (hipóxia), mas na cana elas se formam de maneira independente.
Durante o desenvolvimento do aerênquima, a própria planta modifica e quebra as paredes de suas raízes, criando túneis de ar. Esse processo inclui a separação celular e a quebra de açúcares complexos – duas ações essenciais para facilitar o aproveitamento do bagaço na produção de etanol.
“O aerênquima aparece progressivamente na raiz da cana. Na pontinha há menos, e sua formação vai ficando mais frequente para cima”, explica Bruno Viana Navarro, pós-doutorando do Lafieco e primeiro autor do artigo. A equipe queria observar quais “ferramentas microscópicas” (enzimas) a planta ativava ao longo desse processo de remodelação de suas raízes.
Ele descreve o experimento: “Nós plantamos colmos de uma cultivar bem estudada de cana-de-açúcar [SP80-3280] e, após três meses, coletamos raízes de perfilhos (brotos novos), que foram divididas em quatro segmentos de 1 cm cada. Assim, cada pedaço apresentava uma proporção diferente de formação de aerênquima”.
A equipe focou nas enzimas com a função de agir como “tesouras químicas”, cortando as fibras da parede da célula e liberando os açúcares. Uma das doutorandas de Buckeridge, Eveline Tavares, encontrou uma molécula-chave nesse processo: a enzima ASD (α-L-arabinofuranosidase).
Posteriormente, a doutoranda Adriana Grandis detalhou sua importância na formação do aerênquima. Navarro resume a função da ASD: “Ela atua de forma muito específica no rearranjo da parede celular, quebrando as ligações de um dos materiais estruturais mais presentes na cana”.
Percebendo o potencial da ASD, o grupo – tendo à frente a pós-doutoranda Débora Pagliuso – produziu essa enzima em laboratório usando leveduras, com o objetivo de testá-la na prática. “Inserimos a ASD no coquetel comercial e testamos no bagaço da cana-de-açúcar. Só essa adição aumentou em até seis vezes a produção do açúcar que, mais tarde, é convertido em etanol”, ressalta Navarro.
Futuro promissor
Segundo o pesquisador, o estudo revela um cardápio molecular imenso. A equipe já identificou cerca de 530 sequências genéticas e classes de enzimas na cana. Isso significa que há dezenas de outras “ferramentas” biológicas aguardando para serem testadas.
“Encontramos uma segunda enzima também muito promissora, cuja função é quebrar as pectinas. Ela ataca a lamela média: os cimentos entre as células. Quando essas estruturas são quebradas, as células começam a ficar soltas, e aí é que acontece a tal ‘cana papaia’. Fica bem mais fácil degradar a estrutura e obter os açúcares, o que impacta a produção de etanol de primeira e segunda geração”, diz Navarro.
Para Buckeridge, o sucesso do estudo reforça a tese de que enzimas “da casa” (da própria planta) conseguem decodificar e quebrar a estrutura da cana melhor do que os microrganismos. “É possível que essas enzimas de plantas que estamos ofertando no artigo tenham características que as enzimas de microrganismos não têm e que podem ser a chave para a alta eficiência da conversão de resíduos em produtos mais nobres. Pode ser que tenhamos descoberto um barril de ouro, mas até agora usamos uma moeda só.”
Um dos objetivos futuros mais ambiciosos do grupo é conseguir produzir um coquetel 100% vegetal customizado. “Analisando a composição bioquímica da biomassa da cana, é possível criar o coquetel enzimático mais adequado à sua hidrólise, o que aumentaria o rendimento da produção de etanol. Esperamos chegar a isso um dia”, afirma Navarro.
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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