Sustentabilidade
El Niño 2026: clima, grãos e forragens elevam incertezas para a produção pecuária no Brasil – MAIS SOJA

Para a pecuária brasileira, o ponto central não é apenas saber se haverá ou não El Niño, mas entender por quais canais o fenômeno pode afetar a produção animal. É nesse sentido que este material busca fornecer insights.
1. O El Niño como fator de volatilidade, não apenas de quebra produtiva
O El Niño não deve ser interpretado como um choque climático uniforme sobre o Brasil. Em termos gerais, o fenômeno costuma aumentar o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece maiores volumes de chuva no Sul. Já em partes do Centro-Oeste e do Sudeste, os efeitos tendem a aparecer mais como irregularidade das chuvas, maior frequência de períodos secos, temperaturas elevadas e maior instabilidade na transição entre a estação seca e a estação chuvosa. O Inmet também ressalta que os impactos dependem da intensidade do fenômeno e da interação com outros fatores oceânicos, especialmente o Atlântico Tropical e o Atlântico Sul.
Isso significa que o risco para a pecuária não está apenas em uma eventual seca. O excesso de chuvas também pode ser problemático, sobretudo quando compromete manejo, qualidade de forragens, sanidade, logística, colheita de grãos e conservação de volumosos. Portanto, a leitura mais adequada é tratar o El Niño 2026 como um fator de aumento da volatilidade climática e produtiva, com impactos regionais bastante distintos.
2. Os principais pontos de atenção para a pecuária
O primeiro ponto que requer atenção redobrada é a disponibilidade de pastagens e água. Em sistemas baseados em pasto, qualquer atraso na recuperação das chuvas, veranicos prolongados ou temperaturas acima da média podem reduzir o crescimento das forrageiras, diminuir a capacidade de suporte das áreas e pressionar o ganho de peso dos animais ou a produção de leite. Importante destacar que o período de maio a outubro é muito importante para a condição corporal da fêmea, para entrar em um ambiente favorável na estação reprodutiva – logo, oscilações climáticas e, consequentemente, na nutrição do animal nesse período têm impactos relevantes no ciclo produtivo. No semiárido, esse canal é ainda mais sensível, porque a oferta de água e a disponibilidade de forragem nativa determinam diretamente a capacidade de manutenção dos rebanhos.
Nas forragens, a atenção deve se concentrar em três frentes:
– Produção de pasto durante a transição seca-águas, especialmente no Centro-Oeste e Sudeste;
– Qualidade, disponibilidade e valor de mercado de forragens conservadas, seja por fermentação (silagens), secagem (feno) ou um mix dos dois (pré-secados);
– Capacidade produtiva regional de reservas estratégicas de forragens para o período seco, como pastagens diferidas, capineiras, cana-de-açúcar e, especialmente para o semiárido, palma forrageira.
O segundo fator envolve a produção e a qualidade das forragens conservadas. No caso do milho, a Conab estimava, em abril de 2026, produção total de 139,6 milhões de toneladas para a safra 2025/26, ligeiramente abaixo do ciclo anterior, com crescimento da área plantada, mas queda esperada de produtividade na segunda safra. A Conab também projeta avanço do consumo doméstico de milho, impulsionado pela indústria de etanol, o que pode manter o mercado sensível a qualquer alteração climática ou logística.
Para a soja, a estimativa da Conab era de produção recorde de aproximadamente 179,2 milhões de toneladas na safra 2025/26. Ainda assim, a disponibilidade de farelo e sua formação de preços dependem não apenas da produção brasileira, mas também do esmagamento interno, das exportações, da demanda internacional e da taxa de câmbio.
Do ponto de vista pecuário, isso significa que o risco climático sobre grãos não pode ser analisado apenas como risco de quebra de safra. É preciso observar também os efeitos sobre preços relativos, fretes, estoques, qualidade dos grãos, mercado futuro e decisões de compra de ração. Esse ponto é particularmente importante para aves e suínos, mas também afeta confinamentos bovinos, sistemas leiteiros intensivos e suplementação estratégica de ovinos e caprinos.
Em um cenário de El Niño, portanto, a segurança alimentar dos rebanhos dependerá menos da média nacional de produção de grãos e mais da combinação regional entre chuva, temperatura, estoques e capacidade de compra dos produtores.
No Sul, chuvas excessivas podem dificultar a colheita e a ensilagem, elevar perdas por compactação inadequada, fermentação ruim, contaminação ou redução da qualidade nutricional. No Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste, o risco maior está na menor produção de biomassa, no atraso da rebrota das pastagens e na necessidade de uso antecipado dos estoques de silagem, feno, palma ou concentrado.
O terceiro ponto é a ambiência, sanidade e logística, impactando de forma mais severa propriedades que fazem o uso de raças taurinas. Temperaturas elevadas reduzem conforto térmico, pioram conversão alimentar, reduzem consumo voluntário e podem afetar fertilidade, crescimento e produção de leite. Chuvas excessivas, por outro lado, aumentam lama, problemas de casco, mastite, doenças respiratórias, dificuldade de transporte, interrupções logísticas e perda de qualidade de insumos. Apesar do maior impacto em raças europeias, o alerta também é extremamente importante para aqueles que trabalham raças zebuínas que, a despeito da maior rusticidade, também podem ser afetados negativamente pelo cenário.
O quarto ponto é o custo da alimentação animal. Milho, farelo de soja, silagem, sorgo, feno e outros volumosos conservados entram no centro da análise porque conectam o clima às margens de praticamente todas as cadeias pecuárias. Mesmo quando não há quebra imediata da produção agrícola, a simples percepção de risco climático pode elevar a volatilidade dos preços, alterar estratégias de compra, retenção de estoques e formação de preços futuros.
4. Leitura regional dos riscos
No Sul, o El Niño pode favorecer a recuperação hídrica e melhorar a disponibilidade de pastagens e culturas de inverno em alguns momentos. Porém, o excesso de chuva é o risco mais relevante. Chuvas frequentes podem prejudicar o manejo de áreas de pastagem, aumentar lama, reduzir qualidade de forragens conservadas, dificultar colheitas e ampliar problemas sanitários. O Inmet destaca que o El Niño costuma estar associado a maiores volumes de precipitação na região Sul, especialmente no inverno e na primavera, com risco de encharcamento do solo, doenças fúngicas e dificuldades operacionais.
No Sudeste, por sua vez, o risco é mais ambíguo. A região pode enfrentar calor, irregularidade hídrica e atraso na recuperação das chuvas de primavera. Para pecuária de leite e corte, isso afeta diretamente pastagens tropicais, capineiras, produção de silagem e necessidade de suplementação. Em polos avícolas e suinícolas, o impacto aparece principalmente via custo de ração, conforto térmico, energia elétrica, ventilação e mortalidade.
Já para a região Centro-Oeste, a atenção deve se concentrar na transição seca-águas. Caso as chuvas atrasem ou ocorram de forma irregular, a recuperação das pastagens pode ser comprometida justamente no período em que os sistemas de cria, recria e engorda dependem da retomada do crescimento forrageiro. Isso pode aumentar a suplementação, encarecer a terminação e alterar decisões de venda, retenção ou confinamento.
No Norte, o risco está associado à redução de chuvas em parte da região, aumento do calor, déficit hídrico, e piora da logística. Para a pecuária, isso pode afetar disponibilidade de pasto, acesso à água, ganho de peso e sanidade. Em áreas de expansão agrícola, os efeitos sobre milho, soja e logística também podem repercutir sobre custos alimentares.
No Nordeste, o principal risco está na maior pressão sobre água e forragem, especialmente no semiárido. A região concentra grande parte da caprinovinocultura brasileira [1] e também conta com bacias leiteiras e áreas de bovinocultura em intensificação. Em caso de chuvas mais irregulares ou prolongamento do período seco, produtores podem enfrentar menor oferta de pasto, uso antecipado de reservas alimentares, maior dependência de palma, silagem, feno e concentrados, além de aumento dos custos de suplementação.
5. Bovinos de corte
Na pecuária de corte, os efeitos do El Niño tendem a se concentrar em quatro pontos: qualidade das pastagens, disponibilidade de água, estresse térmico e aumento dos custos de suplementação. Esses fatores podem ser especialmente relevantes no Centro-Oeste e no Norte, onde a irregularidade das chuvas e temperaturas mais elevadas podem comprometer a recuperação das pastagens durante a transição seca-águas.
Além dos efeitos sobre o ganho de peso e o ritmo de terminação, há um ponto específico importante para os sistemas de cria: a condição corporal das fêmeas. O período entre maio e outubro é estratégico para a preparação das matrizes que entrarão na estação reprodutiva. Caso a seca se prolongue, as pastagens percam qualidade ou o custo da suplementação aumente, a recuperação do escore corporal das vacas pode ser comprometida, afetando fertilidade, taxa de prenhez e desempenho reprodutivo do ciclo seguinte.
Do ponto de vista da oferta, o efeito pode ocorrer em duas direções. No curto prazo, a piora das condições de pasto pode estimular a antecipação da venda de animais, principalmente quando o produtor busca evitar perda de peso ou reduzir pressão sobre as áreas. Por outro lado, se os custos de suplementação e reposição se mantiverem elevados, a decisão de retenção pode se tornar mais difícil, limitando a recomposição futura da oferta.
No momento atual, esse ponto merece atenção porque os preços do boi gordo seguem em patamar elevado. Em 8 de junho de 2026, o Indicador do Boi Gordo CEPEA/ESALQ estava em R$ 353,15/@, com alta de 0,99% no mês, embora maio tenha mostrado alguma pressão negativa nos preços. Isso sugere que o mercado já opera em ambiente sensível, no qual alterações climáticas que afetem retenção, descarte ou ritmo de terminação podem ampliar a volatilidade da arroba.
6. Pecuária leiteira
Na pecuária leiteira, o impacto do El Niño tende a aparecer de forma combinada sobre produção de volumosos, custo do concentrado e conforto térmico dos animais. Sistemas mais dependentes de pastagens podem sofrer com atraso na rebrota e queda na qualidade das forrageiras, enquanto sistemas mais intensivos ficam mais expostos ao custo de milho, farelo de soja, silagem e energia.
Em períodos de calor e maior irregularidade hídrica, as vacas podem reduzir consumo de matéria seca, apresentar queda de produção e pior desempenho reprodutivo. Além disso, cresce a necessidade de estratégias de resfriamento, como sombra, ventilação, aspersão e maior disponibilidade de água. Isso eleva custos e pode pressionar margens, especialmente em sistemas com menor infraestrutura de ambiência.
No Sul, a maior umidade pode favorecer pastagens de inverno e produção de forragem em alguns momentos, mas também aumenta o risco de lama, mastite, problemas de casco, perdas de qualidade da silagem e dificuldades logísticas. No Sudeste e Centro-Oeste, o principal risco é a combinação entre calor, baixa umidade, atraso das chuvas e maior dependência de concentrado. No Nordeste, os efeitos podem aparecer na disponibilidade de palma, silagem, feno, capim de corte, água para dessedentação e custo de ração.
No momento atual, a pecuária leiteira já entra nesse cenário com custos pressionados. Segundo o Cepea, o preço do leite ao produtor subiu no primeiro trimestre de 2026, mas ainda estava abaixo do nível observado no mesmo período de 2025 em termos reais; ao mesmo tempo, o Custo Operacional Efetivo subiu em abril pelo quarto mês consecutivo, influenciado por nutrição, sanidade e operações mecanizadas. Assim, se o El Niño aumentar a necessidade de concentrado, resfriamento ou uso antecipado de volumosos, o efeito pode ser mais forte sobre margem do que necessariamente sobre volume imediato de produção.
7. Ovinos e caprinos
Na caprinovinocultura, o recorte regional é essencial. O Nordeste concentra a maior parte dos rebanhos de caprinos e ovinos do país, com sistemas frequentemente baseados em estratégias de convivência com o semiárido, uso de pastagens nativas, cultivares mais tolerantes à seca, palma forrageira, resíduos agrícolas e suplementação estratégica.
Em um cenário de El Niño, o principal risco para esses sistemas é a redução da disponibilidade de água e forragem. Caso o período seco se prolongue ou as chuvas se tornem mais irregulares, produtores podem ser levados a antecipar vendas, reduzir lotação, aumentar compras de ração ou consumir mais rapidamente reservas estratégicas. Isso pode pressionar margens e alterar a oferta regional de animais para abate.
No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, a ovinocultura tem uma dinâmica diferente, mais associada a sistemas de campo nativo, produção de carne, lã e integração com bovinos. Nessa região, o El Niño pode trazer risco oposto ao observado no semiárido: excesso de chuva, encharcamento de áreas, piora das condições de manejo, aumento de problemas sanitários e perdas de qualidade em forragens conservadas. Portanto, enquanto no Nordeste o ponto crítico é a escassez hídrica, no Sul o risco maior pode estar no excesso de umidade e nos efeitos sobre sanidade e manejo.
A questão sanitária também merece atenção. Estresse térmico, restrição alimentar e concentração de animais em áreas com acesso limitado à água podem aumentar vulnerabilidade a doenças, parasitoses e mortalidade de cordeiros e cabritos. Em sistemas leiteiros caprinos, a redução da qualidade da dieta pode afetar produção, reprodução e regularidade de fornecimento.
8. Suínos e aves
Em suínos e aves, os efeitos do El Niño são diferentes daqueles observados em cadeias baseadas em pastagens. O impacto direto sobre o campo é menor; o ponto central está no custo da ração, na ambiência, na energia elétrica e na logística. Milho e farelo de soja são componentes estruturais da alimentação dessas cadeias, de modo que qualquer volatilidade nos grãos pode se traduzir rapidamente em pressão sobre custos.
Nas aves de corte, ondas de calor podem reduzir consumo de ração, piorar conversão alimentar, elevar mortalidade e aumentar a necessidade de ventilação, nebulização e controle de ambiência. Na avicultura de postura, o impacto pode ser ainda mais sensível: temperaturas elevadas podem reduzir taxa de postura, afetar qualidade dos ovos, aumentar mortalidade e elevar o consumo de energia elétrica nas granjas.
Na suinocultura, o estresse térmico pode comprometer ganho de peso, consumo alimentar, fertilidade, desempenho reprodutivo de matrizes e reprodutores e resultados em fases sensíveis, como maternidade e creche. Portanto, mesmo que a oferta de grãos seja suficiente, a margem pode ser comprimida pela combinação entre ração, energia, perdas de desempenho e maior necessidade de manejo ambiental.
No momento atual, esse alerta é relevante porque o poder de compra do suinocultor paulista frente ao milho e ao farelo de soja estava em queda em maio de 2026. Segundo o Cepea, até 19 de maio, o poder de compra em relação ao milho registrava o oitavo mês consecutivo de baixa e era o pior desde fevereiro de 2023. Isso indica que qualquer novo choque de custo, mesmo moderado, pode encontrar produtores já pressionados.
9. Implicações de mercado
O possível El Niño de 2026 tende a adicionar um componente de incerteza às cadeias pecuárias brasileiras. Esse efeito pode aparecer antes mesmo de impactos produtivos concretos, porque agentes de mercado ajustam expectativas, preços futuros, estoques e estratégias de compra com base no risco climático.
Para bovinos de corte, o principal ponto de atenção é a interação entre clima, condição das pastagens e decisões de retenção ou descarte. Se a recuperação das pastagens atrasar no Centro-Oeste, Norte e parte do Sudeste, pode haver aumento de vendas no curto prazo, sobretudo de animais em sistemas menos suplementados. Ao mesmo tempo, custos mais altos de alimentação podem limitar a intenção de retenção, afetando a oferta futura. Em um mercado com arroba já em patamar elevado, essa combinação pode ampliar a volatilidade dos preços.
Para o leite, o risco está menos em uma quebra imediata da produção nacional e mais em uma pressão adicional sobre margens. O setor já vem de aumento do preço ao produtor, mas também de elevação dos custos operacionais. Caso o El Niño eleve gastos com concentrado, volumosos, energia e resfriamento, parte dos produtores pode reduzir investimentos produtivos ou ajustar dietas, limitando a recuperação da oferta e dando sustentação aos preços ao produtor.
Para ovinos e caprinos, especialmente no Nordeste, o impacto de mercado tende a depender da disponibilidade de água e reserva forrageira. Em regiões com maior escassez, pode haver antecipação de vendas e aumento temporário da oferta de animais. Porém, se a seca comprometer matrizes, cordeiros e cabritos, o efeito posterior pode ser de menor capacidade de recomposição dos rebanhos e oferta mais ajustada.
Para aves e suínos, o ponto central é o custo. O mercado de proteína animal intensiva é altamente sensível à relação entre preço do animal, milho, farelo de soja e energia. Em abril de 2026, o IPPA/Cepea já mostrava movimentos distintos dentro da pecuária: alta para boi gordo, leite e ovos, mas queda para frango vivo e suíno vivo. Esse tipo de divergência reforça que o El Niño não deve afetar todas as cadeias da mesma forma; em aves e suínos, o risco principal é a compressão de margens caso custos subam mais rapidamente que os preços recebidos pelos produtores.
A principal conclusão é que o possível El Niño de 2026 não deve ser analisado como uma ameaça homogênea à produção pecuária nacional. Ele tende a reorganizar riscos por região e por cadeia. O Sul pode enfrentar excesso de chuva; o Centro-Oeste e o Sudeste podem sofrer com irregularidade na retomada das pastagens; o Norte e o Nordeste ficam mais expostos ao déficit hídrico; e aves e suínos reagem sobretudo pela via dos grãos, da energia e da ambiência.
Portanto, o cenário atual ainda não permite afirmar que haverá uma quebra ampla da produção pecuária brasileira. Mas ele já justifica maior atenção a estoques de forragem, compra antecipada de insumos, monitoramento de preços de milho e farelo, planejamento hídrico e estratégias regionais de manejo. O risco central não é apenas produzir menos, mas produzir com maior custo, maior instabilidade e menor previsibilidade ao longo do segundo semestre.
[1] Segundo o IBGE, em 2024 o Brasil tinha 13,3 milhões de caprinos e 21,9 milhões de ovinos, com o Nordeste respondendo por 96,3% dos caprinos e 73,5% dos ovinos.
Fonte: CEPEA
Autores:
Natália Grigol – Pesquisadora de Pecuária do Cepea
Giovanni Penazzi – Pesquisador de Pecuária do Cepea
Thiago Carvalho – Pesquisador de Pecuária do Cepea
cepea@usp.br
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Ceema: Trigo dispara em Chicago e atinge maior valor em dois anos com menor safra nos EUA desde 1970 – MAIS SOJA

Trigo: Em Chicago, o primeiro mês cotado viu sua cotação disparar no dia 15/07, batendo em US$ 6,77/bushel. Esta foi a mais alta cotação desde o dia 31 de maio de 2024, portanto, há mais de dois anos. Lembrando que ainda no final de junho o bushel do cereal esteve cotado em US$ 5,69. Ou seja, em cerca de 15 dias úteis o bushel do cereal ganhou mais de um dólar em Chicago. Já o fechamento desta quinta-feira (16) ficou em US$ 6,74/bushel, contra US$ 6,11 uma semana antes. Aqui, além das questões climáticas mundiais, e a redução da produção nos EUA e problemas climáticos locais (a colheita de trigo nos EUA, prevista para apenas 41,8 milhões de toneladas neste ano, será a menor desde 1970/71), tem-se, ainda, o recrudescimento do conflito entre Rússia x Ucrânia, o qual passou a pesar sobre este mercado, já que a região do Mar Negro é forte produtora e exportadora do cereal.
Por sua vez, o relatório de oferta e demanda, do dia 10/07, reduziu ainda mais a safra estadunidense, com a mesma ficando estimada, agora, em 41,8 milhões de toneladas. Os estoques finais estadunidenses igualmente recuaram, caindo para 19,7 milhões para o ano 2026/27. Já a produção mundial ficou mantida em 820 milhões de toneladas, enquanto os estoques finais globais seriam de 272,8 milhões, perdendo cerca de três milhões de toneladas sobre junho. A produção da Argentina ficou estimada em 21 milhões de toneladas, enquanto a brasileira em 6,7 milhões. Com isso, estima-se que o Brasil irá importar 7,2 milhões de toneladas neste novo ano comercial.
Aliás, em relação a Argentina, os agricultores locais estão vendendo uma quantidade excepcionalmente baixa de sua nova safra de trigo, mesmo com o plantio avançando rapidamente, informou a Bolsa de Grãos de Rosário, isso devido a preços mais baixos e uma preocupação crescente com a oferta futura. Os agricultores argentinos já teriam semeado 82% da área prevista pelo governo para a safra de trigo 2026/27. No entanto, as vendas da nova safra atingiram apenas 2 milhões de toneladas até o momento, um dos inícios mais fracos da última década. A bolsa informou que o volume contratado representa apenas 10,5% da produção prevista, ficando abaixo da média de cinco anos que é de 16,6% para esta fase. Do trigo já vendido, 690.000 toneladas ainda não têm preço fixado. De fato, os preços do trigo a ser entregue após a colheita caíram acentuadamente. O contrato de dezembro caiu de cerca de US$ 231,00 por tonelada, no final de abril e meados de maio, para cerca de US$ 206,00 no início de julho, levando os agricultores a desacelerar as vendas em vez de fechar negócios a preços mais baixos. Em tal contexto, a Argentina pode acabar com estoques maiores de trigo se as exportações não continuarem fluindo. A Bolsa estimou os estoques finais de 2025/26 em cerca de 4,5 milhões de toneladas, o maior nível desde 2014/15, mesmo com a demanda interna estimada em 9,2 milhões de toneladas e as exportações em um recorde de 19 milhões de toneladas. A Argentina também enfrenta uma concorrência mais acirrada no exterior. Seu preço de exportação do trigo está agora em cerca de US$ 227,00/tonelada, próximo ao de fornecedores rivais, enquanto as grandes safras do Hemisfério Norte estão pressionando os preços globais.
Já no Brasil, a forte redução de área semeada neste ano, somada a possibilidade de problemas climáticos graves devido ao super-El Niño, esperado a partir da primavera, manteve aquecido o mercado. Os preços, junto aos principais produtores nacionais (RS e PR), giraram entre R$ 70,00 e R$ 71,00/saco, porém, lembramos que tais preços já estão estacionados nestes níveis há três semanas nos dois estados. Vale destacar que, em condições normais de clima, o recente boletim da Conab reduziu ainda mais a produção nacional de trigo, com a mesma ficando em apenas 6 milhões de toneladas, após 7,9 milhões no ano anterior. Portanto, bem menos do que o relatório do USDA indicou no último dia 10/07. A área total nacional estaria em 2,04 milhões de hectares, contra 2,44 milhões no ano anterior, ou seja, um recuo de 400.000 hectares plantados com o cereal.
Fonte: Informativo CEEMA UNIJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum¹
1 – Professor Titular do PPGDR da UNIJUÍ, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA (FIDENE/UNIJUÍ).

Autor:Dr. Argemiro Luís Brum/CEEMA-UNIJUÍ
Site: Ceema/Unijuí
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Ceema: Soja em Chicago volta a superar os US$ 12,00/bushel impulsionada por tensões globais e clima nos EUA – MAIS SOJA

O primeiro mês cotado, em Chicago, voltou a superar os US$ 12,00/bushel nesta semana, após 35 dias úteis abaixo deste teto. No dia 14/07 o bushel atingiu a US$ 12,07. Já o fechamento desta quinta-feira (16) ficou em US$ 11,95, contra US$ 11,79 uma semana antes. Registrar, também, que o farelo chegou a bater em US$ 323,10/tonelada curta no dia 10/07, recuando posteriormente e fechando o dia 16/07 em US$ 322,90. E o óleo de soja voltou a superar o teto dos 70 centavos de dólar por libra-peso, batendo em 73,04 nos dias 13 e 14 de julho e fechando esta quinta-feira (16) em 72,43 centavos.
O movimento de alta se dá em função das novas tensões bélicas entre Rússia e Ucrânia; ao novo aumento nos preços do petróleo devido ao fracasso do cessar-fogo no Oriente Médio; e a um clima mais quente e seco no Meio-Oeste estadunidense, embora neste último caso a situação tenha melhorado um pouco nesta semana.
O relatório de oferta e demanda do USDA, anunciado no dia 10/07, foi até baixista para o mercado, porém, acabou não tendo este efeito na prática. O mesmo aumentou a futura colheita dos EUA, para o ano 2026/27, em um milhão de toneladas, com ela ficando estimada em 121,8 milhões de toneladas. Já os estoques finais naquele país foram mantidos em 8,4 milhões. As produções da Argentina e do Brasil foram mantidas em 50 e 186 milhões de toneladas respectivamente. Já a produção mundial passou a 441,7 milhões de toneladas e os estoques finais mundiais ficaram em 124,2 milhões. As importações chinesas foram aumentadas para 115 milhões de toneladas, após 114 milhões em junho.
Por sua vez, as condições das lavouras estadunidenses de soja melhoraram um pouco, atingindo, no dia 12/07, 65% entre boas a excelentes, contra 70% um ano atrás. Outras 27% estavam regulares e 8% estavam entre ruins a muito ruins. Na data indicada, 50% das lavouras estavam na fase de florescimento, contra 34% da semana anterior, 45% do mesmo período do ano passado e 44% da média. Já em formação de vagens estavam 19% das lavouras, contra 9% da semana anterior, 14% em 2025 e 13% na média.
Enquanto isso, o esmagamento de soja nos EUA, no mês de junho, foi de 5,83 milhões de toneladas, segundo informou a Associação Nacional dos Processadores de Oleaginosas nesta semana. O volume superou em 16% o esmagado em junho de 2025. Já os estoques estadunidenses de óleo de soja ficaram em 1,5 bilhão de libras, testando as mínimas em oito meses.
E aqui no Brasil, os preços da soja se mantiveram firmes, ensaiando novas altas as quais não se sustentaram devido ao fortalecimento do Real perante o dólar. Efetivamente, a moeda brasileira voltou para R$ 5,07 por dólar, após R$ 5,20 dias atrás.
Com isso, as principais praças gaúchas ficaram em R$ 122,00/saco, enquanto no restante do país as principais regiões registraram valores entre R$ 113,00 e R$ 124,00/saco. Um ano atrás, no Rio Grande do Sul se praticava R$ 121,00 e no restante do país valores entre R$ 107,00 e R$ 125,00/saco. Ou seja, os valores atuais estão praticamente idênticos aos de 12 meses atrás, consolidando uma perda real média (considerando a inflação do período) aos produtores de soja no país.
Fonte: Informativo CEEMA UNIJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum¹
1 – Professor Titular do PPGDR da UNIJUÍ, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA (FIDENE/UNIJUÍ).

Autor:Dr. Argemiro Luís Brum/CEEMA-UNIJUÍ
Site: Ceema/Unijuí
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Safras & Mercado estima queda de 20% na área de trigo do Brasil em 2026 – MAIS SOJA

A safra brasileira de trigo em 2026 deve registrar redução de 20% na área plantada, segundo nova estimativa de Safras & Mercado. A consultoria projeta o cultivo de 1,905 milhão de hectares no país, contra os 2,381 milhões de hectares da temporada anterior. A produção potencial é estimada em 5,855 milhões de toneladas, recuo de 27,9% frente às 8,120 milhões de toneladas colhidas no ciclo anterior. O rendimento médio nacional também deve cair, de 3.410 quilos por hectare para 3.073 quilos por hectare, retração de 9,9%.
Para o especialista de inteligência de mercado de Safras & Mercado, Elcio Bento, a redução da área reflete uma mudança de comportamento do produtor diante de um cenário econômico mais adverso. Segundo ele, a piora da relação entre custos de produção e preços do trigo foi o principal fator por trás da decisão de reduzir a semeadura.
A alta dos fertilizantes, sobretudo os nitrogenados, impulsionada pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, encareceu a implantação da lavoura, enquanto os preços seguiram pressionados pela ampla oferta global e pela concorrência do cereal importado. “É uma das piores relações de troca da história recente da triticultura brasileira”, afirmou o analista.
Bento também relembra que após anos seguidos de margens reduzidas ou negativas, os produtores chegaram à safra 2026 mais endividados e com menor capacidade de investimento, o que dificultou o acesso ao crédito rural. Outro ponto destacado é a ausência de uma política de seguro agrícola suficientemente robusta e confiável.
“Muitos produtores avaliaram que o retorno esperado da cultura não compensava a exposição financeira diante da possibilidade de perdas provocadas por eventos climáticos extremos, reduzindo o incentivo para ampliar a área ou investir em tecnologias de maior custo”, disse Bento.
Para o analista, se a produção de 5,855 milhões de toneladas se confirmar, o Brasil deverá ampliar as importações de trigo para mais de 8 milhões de toneladas, especialmente em um cenário de El Niño, que aumenta o risco de perdas de produtividade e de qualidade dos grãos.
Produção do Rio Grande do Sul deve cair mais de 33%
No Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, a área caiu 28,6%, para 750 mil hectares. A produção potencial recuou 33,3%, para 2,4 milhões de toneladas; o rendimento médio passou de 3.428,6 kg/ha para 3.200 kg/ha (-6,7%). No Paraná, segundo maior polo produtor, a área diminuiu 13,5%, para 740 mil hectares, com produção estimada em 2,2 milhões de toneladas, queda de 21,4%, e produtividade de 2.973 kg/ha (-9,2%).
Retrações também foram registradas nos demais estados. Em Santa Catarina, a área recuou 13,6%, para 95 mil hectares, com produção de 300 mil toneladas (-21,1%). Em São Paulo, a área também caiu 13,6%, para 95 mil hectares, e a produção somou 320 mil toneladas (-19,0%).
Em Minas Gerais, a área diminuiu 10,7%, para 125 mil hectares, mas a produção teve a maior queda entre os estados, de 40,0%, para 330 mil toneladas. O reflexo disso, segundo Bento, é o impacto da estiagem sobre as lavouras de trigo sequeiro.
Em Goiás e no Distrito Federal, a área recuou 11,8%, para 75 mil hectares, com produção de 230 mil toneladas (-22,0%). No Mato Grosso do Sul, a área caiu 20,0%, para 20 mil hectares, e a produção somou 50 mil toneladas (-28,6%). Na Bahia, tanto a área quanto a produção recuaram 16,7%, para 5 mil hectares e 25 mil toneladas, respectivamente.
Conforme Bento, as estimativas representam o potencial produtivo inicial e ainda não consideram eventuais perdas climáticas, exceto em Minas Gerais e Goiás, onde a estiagem já afetou parte das lavouras de sequeiro. Nos demais estados, a projeção reflete principalmente a redução dos investimentos em tecnologia e uma postura mais cautelosa dos produtores.
Autor/Fonte: Ritiele Rodrigues – ritiele.rodrigues@safras.com.br (Agência Safras)
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