Sustentabilidade
El Niño 2026: clima, grãos e forragens elevam incertezas para a produção pecuária no Brasil – MAIS SOJA

Para a pecuária brasileira, o ponto central não é apenas saber se haverá ou não El Niño, mas entender por quais canais o fenômeno pode afetar a produção animal. É nesse sentido que este material busca fornecer insights.
1. O El Niño como fator de volatilidade, não apenas de quebra produtiva
O El Niño não deve ser interpretado como um choque climático uniforme sobre o Brasil. Em termos gerais, o fenômeno costuma aumentar o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece maiores volumes de chuva no Sul. Já em partes do Centro-Oeste e do Sudeste, os efeitos tendem a aparecer mais como irregularidade das chuvas, maior frequência de períodos secos, temperaturas elevadas e maior instabilidade na transição entre a estação seca e a estação chuvosa. O Inmet também ressalta que os impactos dependem da intensidade do fenômeno e da interação com outros fatores oceânicos, especialmente o Atlântico Tropical e o Atlântico Sul.
Isso significa que o risco para a pecuária não está apenas em uma eventual seca. O excesso de chuvas também pode ser problemático, sobretudo quando compromete manejo, qualidade de forragens, sanidade, logística, colheita de grãos e conservação de volumosos. Portanto, a leitura mais adequada é tratar o El Niño 2026 como um fator de aumento da volatilidade climática e produtiva, com impactos regionais bastante distintos.
2. Os principais pontos de atenção para a pecuária
O primeiro ponto que requer atenção redobrada é a disponibilidade de pastagens e água. Em sistemas baseados em pasto, qualquer atraso na recuperação das chuvas, veranicos prolongados ou temperaturas acima da média podem reduzir o crescimento das forrageiras, diminuir a capacidade de suporte das áreas e pressionar o ganho de peso dos animais ou a produção de leite. Importante destacar que o período de maio a outubro é muito importante para a condição corporal da fêmea, para entrar em um ambiente favorável na estação reprodutiva – logo, oscilações climáticas e, consequentemente, na nutrição do animal nesse período têm impactos relevantes no ciclo produtivo. No semiárido, esse canal é ainda mais sensível, porque a oferta de água e a disponibilidade de forragem nativa determinam diretamente a capacidade de manutenção dos rebanhos.
Nas forragens, a atenção deve se concentrar em três frentes:
– Produção de pasto durante a transição seca-águas, especialmente no Centro-Oeste e Sudeste;
– Qualidade, disponibilidade e valor de mercado de forragens conservadas, seja por fermentação (silagens), secagem (feno) ou um mix dos dois (pré-secados);
– Capacidade produtiva regional de reservas estratégicas de forragens para o período seco, como pastagens diferidas, capineiras, cana-de-açúcar e, especialmente para o semiárido, palma forrageira.
O segundo fator envolve a produção e a qualidade das forragens conservadas. No caso do milho, a Conab estimava, em abril de 2026, produção total de 139,6 milhões de toneladas para a safra 2025/26, ligeiramente abaixo do ciclo anterior, com crescimento da área plantada, mas queda esperada de produtividade na segunda safra. A Conab também projeta avanço do consumo doméstico de milho, impulsionado pela indústria de etanol, o que pode manter o mercado sensível a qualquer alteração climática ou logística.
Para a soja, a estimativa da Conab era de produção recorde de aproximadamente 179,2 milhões de toneladas na safra 2025/26. Ainda assim, a disponibilidade de farelo e sua formação de preços dependem não apenas da produção brasileira, mas também do esmagamento interno, das exportações, da demanda internacional e da taxa de câmbio.
Do ponto de vista pecuário, isso significa que o risco climático sobre grãos não pode ser analisado apenas como risco de quebra de safra. É preciso observar também os efeitos sobre preços relativos, fretes, estoques, qualidade dos grãos, mercado futuro e decisões de compra de ração. Esse ponto é particularmente importante para aves e suínos, mas também afeta confinamentos bovinos, sistemas leiteiros intensivos e suplementação estratégica de ovinos e caprinos.
Em um cenário de El Niño, portanto, a segurança alimentar dos rebanhos dependerá menos da média nacional de produção de grãos e mais da combinação regional entre chuva, temperatura, estoques e capacidade de compra dos produtores.
No Sul, chuvas excessivas podem dificultar a colheita e a ensilagem, elevar perdas por compactação inadequada, fermentação ruim, contaminação ou redução da qualidade nutricional. No Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste, o risco maior está na menor produção de biomassa, no atraso da rebrota das pastagens e na necessidade de uso antecipado dos estoques de silagem, feno, palma ou concentrado.
O terceiro ponto é a ambiência, sanidade e logística, impactando de forma mais severa propriedades que fazem o uso de raças taurinas. Temperaturas elevadas reduzem conforto térmico, pioram conversão alimentar, reduzem consumo voluntário e podem afetar fertilidade, crescimento e produção de leite. Chuvas excessivas, por outro lado, aumentam lama, problemas de casco, mastite, doenças respiratórias, dificuldade de transporte, interrupções logísticas e perda de qualidade de insumos. Apesar do maior impacto em raças europeias, o alerta também é extremamente importante para aqueles que trabalham raças zebuínas que, a despeito da maior rusticidade, também podem ser afetados negativamente pelo cenário.
O quarto ponto é o custo da alimentação animal. Milho, farelo de soja, silagem, sorgo, feno e outros volumosos conservados entram no centro da análise porque conectam o clima às margens de praticamente todas as cadeias pecuárias. Mesmo quando não há quebra imediata da produção agrícola, a simples percepção de risco climático pode elevar a volatilidade dos preços, alterar estratégias de compra, retenção de estoques e formação de preços futuros.
4. Leitura regional dos riscos
No Sul, o El Niño pode favorecer a recuperação hídrica e melhorar a disponibilidade de pastagens e culturas de inverno em alguns momentos. Porém, o excesso de chuva é o risco mais relevante. Chuvas frequentes podem prejudicar o manejo de áreas de pastagem, aumentar lama, reduzir qualidade de forragens conservadas, dificultar colheitas e ampliar problemas sanitários. O Inmet destaca que o El Niño costuma estar associado a maiores volumes de precipitação na região Sul, especialmente no inverno e na primavera, com risco de encharcamento do solo, doenças fúngicas e dificuldades operacionais.
No Sudeste, por sua vez, o risco é mais ambíguo. A região pode enfrentar calor, irregularidade hídrica e atraso na recuperação das chuvas de primavera. Para pecuária de leite e corte, isso afeta diretamente pastagens tropicais, capineiras, produção de silagem e necessidade de suplementação. Em polos avícolas e suinícolas, o impacto aparece principalmente via custo de ração, conforto térmico, energia elétrica, ventilação e mortalidade.
Já para a região Centro-Oeste, a atenção deve se concentrar na transição seca-águas. Caso as chuvas atrasem ou ocorram de forma irregular, a recuperação das pastagens pode ser comprometida justamente no período em que os sistemas de cria, recria e engorda dependem da retomada do crescimento forrageiro. Isso pode aumentar a suplementação, encarecer a terminação e alterar decisões de venda, retenção ou confinamento.
No Norte, o risco está associado à redução de chuvas em parte da região, aumento do calor, déficit hídrico, e piora da logística. Para a pecuária, isso pode afetar disponibilidade de pasto, acesso à água, ganho de peso e sanidade. Em áreas de expansão agrícola, os efeitos sobre milho, soja e logística também podem repercutir sobre custos alimentares.
No Nordeste, o principal risco está na maior pressão sobre água e forragem, especialmente no semiárido. A região concentra grande parte da caprinovinocultura brasileira [1] e também conta com bacias leiteiras e áreas de bovinocultura em intensificação. Em caso de chuvas mais irregulares ou prolongamento do período seco, produtores podem enfrentar menor oferta de pasto, uso antecipado de reservas alimentares, maior dependência de palma, silagem, feno e concentrados, além de aumento dos custos de suplementação.
5. Bovinos de corte
Na pecuária de corte, os efeitos do El Niño tendem a se concentrar em quatro pontos: qualidade das pastagens, disponibilidade de água, estresse térmico e aumento dos custos de suplementação. Esses fatores podem ser especialmente relevantes no Centro-Oeste e no Norte, onde a irregularidade das chuvas e temperaturas mais elevadas podem comprometer a recuperação das pastagens durante a transição seca-águas.
Além dos efeitos sobre o ganho de peso e o ritmo de terminação, há um ponto específico importante para os sistemas de cria: a condição corporal das fêmeas. O período entre maio e outubro é estratégico para a preparação das matrizes que entrarão na estação reprodutiva. Caso a seca se prolongue, as pastagens percam qualidade ou o custo da suplementação aumente, a recuperação do escore corporal das vacas pode ser comprometida, afetando fertilidade, taxa de prenhez e desempenho reprodutivo do ciclo seguinte.
Do ponto de vista da oferta, o efeito pode ocorrer em duas direções. No curto prazo, a piora das condições de pasto pode estimular a antecipação da venda de animais, principalmente quando o produtor busca evitar perda de peso ou reduzir pressão sobre as áreas. Por outro lado, se os custos de suplementação e reposição se mantiverem elevados, a decisão de retenção pode se tornar mais difícil, limitando a recomposição futura da oferta.
No momento atual, esse ponto merece atenção porque os preços do boi gordo seguem em patamar elevado. Em 8 de junho de 2026, o Indicador do Boi Gordo CEPEA/ESALQ estava em R$ 353,15/@, com alta de 0,99% no mês, embora maio tenha mostrado alguma pressão negativa nos preços. Isso sugere que o mercado já opera em ambiente sensível, no qual alterações climáticas que afetem retenção, descarte ou ritmo de terminação podem ampliar a volatilidade da arroba.
6. Pecuária leiteira
Na pecuária leiteira, o impacto do El Niño tende a aparecer de forma combinada sobre produção de volumosos, custo do concentrado e conforto térmico dos animais. Sistemas mais dependentes de pastagens podem sofrer com atraso na rebrota e queda na qualidade das forrageiras, enquanto sistemas mais intensivos ficam mais expostos ao custo de milho, farelo de soja, silagem e energia.
Em períodos de calor e maior irregularidade hídrica, as vacas podem reduzir consumo de matéria seca, apresentar queda de produção e pior desempenho reprodutivo. Além disso, cresce a necessidade de estratégias de resfriamento, como sombra, ventilação, aspersão e maior disponibilidade de água. Isso eleva custos e pode pressionar margens, especialmente em sistemas com menor infraestrutura de ambiência.
No Sul, a maior umidade pode favorecer pastagens de inverno e produção de forragem em alguns momentos, mas também aumenta o risco de lama, mastite, problemas de casco, perdas de qualidade da silagem e dificuldades logísticas. No Sudeste e Centro-Oeste, o principal risco é a combinação entre calor, baixa umidade, atraso das chuvas e maior dependência de concentrado. No Nordeste, os efeitos podem aparecer na disponibilidade de palma, silagem, feno, capim de corte, água para dessedentação e custo de ração.
No momento atual, a pecuária leiteira já entra nesse cenário com custos pressionados. Segundo o Cepea, o preço do leite ao produtor subiu no primeiro trimestre de 2026, mas ainda estava abaixo do nível observado no mesmo período de 2025 em termos reais; ao mesmo tempo, o Custo Operacional Efetivo subiu em abril pelo quarto mês consecutivo, influenciado por nutrição, sanidade e operações mecanizadas. Assim, se o El Niño aumentar a necessidade de concentrado, resfriamento ou uso antecipado de volumosos, o efeito pode ser mais forte sobre margem do que necessariamente sobre volume imediato de produção.
7. Ovinos e caprinos
Na caprinovinocultura, o recorte regional é essencial. O Nordeste concentra a maior parte dos rebanhos de caprinos e ovinos do país, com sistemas frequentemente baseados em estratégias de convivência com o semiárido, uso de pastagens nativas, cultivares mais tolerantes à seca, palma forrageira, resíduos agrícolas e suplementação estratégica.
Em um cenário de El Niño, o principal risco para esses sistemas é a redução da disponibilidade de água e forragem. Caso o período seco se prolongue ou as chuvas se tornem mais irregulares, produtores podem ser levados a antecipar vendas, reduzir lotação, aumentar compras de ração ou consumir mais rapidamente reservas estratégicas. Isso pode pressionar margens e alterar a oferta regional de animais para abate.
No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, a ovinocultura tem uma dinâmica diferente, mais associada a sistemas de campo nativo, produção de carne, lã e integração com bovinos. Nessa região, o El Niño pode trazer risco oposto ao observado no semiárido: excesso de chuva, encharcamento de áreas, piora das condições de manejo, aumento de problemas sanitários e perdas de qualidade em forragens conservadas. Portanto, enquanto no Nordeste o ponto crítico é a escassez hídrica, no Sul o risco maior pode estar no excesso de umidade e nos efeitos sobre sanidade e manejo.
A questão sanitária também merece atenção. Estresse térmico, restrição alimentar e concentração de animais em áreas com acesso limitado à água podem aumentar vulnerabilidade a doenças, parasitoses e mortalidade de cordeiros e cabritos. Em sistemas leiteiros caprinos, a redução da qualidade da dieta pode afetar produção, reprodução e regularidade de fornecimento.
8. Suínos e aves
Em suínos e aves, os efeitos do El Niño são diferentes daqueles observados em cadeias baseadas em pastagens. O impacto direto sobre o campo é menor; o ponto central está no custo da ração, na ambiência, na energia elétrica e na logística. Milho e farelo de soja são componentes estruturais da alimentação dessas cadeias, de modo que qualquer volatilidade nos grãos pode se traduzir rapidamente em pressão sobre custos.
Nas aves de corte, ondas de calor podem reduzir consumo de ração, piorar conversão alimentar, elevar mortalidade e aumentar a necessidade de ventilação, nebulização e controle de ambiência. Na avicultura de postura, o impacto pode ser ainda mais sensível: temperaturas elevadas podem reduzir taxa de postura, afetar qualidade dos ovos, aumentar mortalidade e elevar o consumo de energia elétrica nas granjas.
Na suinocultura, o estresse térmico pode comprometer ganho de peso, consumo alimentar, fertilidade, desempenho reprodutivo de matrizes e reprodutores e resultados em fases sensíveis, como maternidade e creche. Portanto, mesmo que a oferta de grãos seja suficiente, a margem pode ser comprimida pela combinação entre ração, energia, perdas de desempenho e maior necessidade de manejo ambiental.
No momento atual, esse alerta é relevante porque o poder de compra do suinocultor paulista frente ao milho e ao farelo de soja estava em queda em maio de 2026. Segundo o Cepea, até 19 de maio, o poder de compra em relação ao milho registrava o oitavo mês consecutivo de baixa e era o pior desde fevereiro de 2023. Isso indica que qualquer novo choque de custo, mesmo moderado, pode encontrar produtores já pressionados.
9. Implicações de mercado
O possível El Niño de 2026 tende a adicionar um componente de incerteza às cadeias pecuárias brasileiras. Esse efeito pode aparecer antes mesmo de impactos produtivos concretos, porque agentes de mercado ajustam expectativas, preços futuros, estoques e estratégias de compra com base no risco climático.
Para bovinos de corte, o principal ponto de atenção é a interação entre clima, condição das pastagens e decisões de retenção ou descarte. Se a recuperação das pastagens atrasar no Centro-Oeste, Norte e parte do Sudeste, pode haver aumento de vendas no curto prazo, sobretudo de animais em sistemas menos suplementados. Ao mesmo tempo, custos mais altos de alimentação podem limitar a intenção de retenção, afetando a oferta futura. Em um mercado com arroba já em patamar elevado, essa combinação pode ampliar a volatilidade dos preços.
Para o leite, o risco está menos em uma quebra imediata da produção nacional e mais em uma pressão adicional sobre margens. O setor já vem de aumento do preço ao produtor, mas também de elevação dos custos operacionais. Caso o El Niño eleve gastos com concentrado, volumosos, energia e resfriamento, parte dos produtores pode reduzir investimentos produtivos ou ajustar dietas, limitando a recuperação da oferta e dando sustentação aos preços ao produtor.
Para ovinos e caprinos, especialmente no Nordeste, o impacto de mercado tende a depender da disponibilidade de água e reserva forrageira. Em regiões com maior escassez, pode haver antecipação de vendas e aumento temporário da oferta de animais. Porém, se a seca comprometer matrizes, cordeiros e cabritos, o efeito posterior pode ser de menor capacidade de recomposição dos rebanhos e oferta mais ajustada.
Para aves e suínos, o ponto central é o custo. O mercado de proteína animal intensiva é altamente sensível à relação entre preço do animal, milho, farelo de soja e energia. Em abril de 2026, o IPPA/Cepea já mostrava movimentos distintos dentro da pecuária: alta para boi gordo, leite e ovos, mas queda para frango vivo e suíno vivo. Esse tipo de divergência reforça que o El Niño não deve afetar todas as cadeias da mesma forma; em aves e suínos, o risco principal é a compressão de margens caso custos subam mais rapidamente que os preços recebidos pelos produtores.
A principal conclusão é que o possível El Niño de 2026 não deve ser analisado como uma ameaça homogênea à produção pecuária nacional. Ele tende a reorganizar riscos por região e por cadeia. O Sul pode enfrentar excesso de chuva; o Centro-Oeste e o Sudeste podem sofrer com irregularidade na retomada das pastagens; o Norte e o Nordeste ficam mais expostos ao déficit hídrico; e aves e suínos reagem sobretudo pela via dos grãos, da energia e da ambiência.
Portanto, o cenário atual ainda não permite afirmar que haverá uma quebra ampla da produção pecuária brasileira. Mas ele já justifica maior atenção a estoques de forragem, compra antecipada de insumos, monitoramento de preços de milho e farelo, planejamento hídrico e estratégias regionais de manejo. O risco central não é apenas produzir menos, mas produzir com maior custo, maior instabilidade e menor previsibilidade ao longo do segundo semestre.
[1] Segundo o IBGE, em 2024 o Brasil tinha 13,3 milhões de caprinos e 21,9 milhões de ovinos, com o Nordeste respondendo por 96,3% dos caprinos e 73,5% dos ovinos.
Fonte: CEPEA
Autores:
Natália Grigol – Pesquisadora de Pecuária do Cepea
Giovanni Penazzi – Pesquisador de Pecuária do Cepea
Thiago Carvalho – Pesquisador de Pecuária do Cepea
cepea@usp.br
Sustentabilidade
A largada para a safra de soja 2026/2027: o desafio de plantar com margens apertadas e mudanças de tempo – MAIS SOJA

Por Gustavo Rocha*
Com a chegada de setembro e o fim oficial do período de vazio sanitário nos principais estados produtores, o campo brasileiro se prepara para dar a largada na safra de soja 2026/2027. Os tratores estão revisados e as sementes aguardam nos galpões, mas o momento exato de colocar a plantadeira na terra exigirá, mais do que nunca, extrema precisão. Entramos em um ciclo agrícola onde a margem para erros é mínima, e a estratégia agronômica precisará caminhar lado a lado com um planejamento financeiro disciplinado.
A narrativa de que o Brasil cresce apenas abrindo novas fronteiras ficou no passado. O avanço territorial da soja está praticamente estagnado, figurando como a menor taxa de expansão em 20 anos. Contudo, isso não significa estagnação de volume, muito pelo contrário!
Mesmo com menos áreas abertas, o Brasil não apenas manterá sua liderança global, como tem fôlego para registrar um novo recorde histórico. O segredo está da porteira para dentro: uma forte expectativa de ganho em produtividade. Segundo projeções da Datagro, a eficiência das lavouras deve saltar para 3.763 kg/ha, o que eleva o potencial da safra nacional para 185,6 milhões de toneladas. O produtor brasileiro provará nesta safra que é possível fazer muito mais com o mesmo hectare, utilizando a tecnologia como principal aliada.
Produziremos como nunca, mas com margens apertadas
No entanto, as expectativas positivas com o volume escondem desafios conjunturais. Os dados consolidados do 11º Levantamento da Safra de Grãos, divugados em agosto pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), somados às análises de mercado, apontam para o “paradoxo do recorde”: produziremos como nunca, mas as margens financeiras estão mais justas do que nunca, operando muito próximas do chamado breakeven, ou ponto de equilíbrio, em que a receita total se igual aos custos totais – o que na prática significa que não houve lucro nem prejuízo.
Medidas anunciadas pelo Governo Federal
No final de junho, o Governo Federal fez dois importantes anúncios que impactam pequenos, médios e grandes produtores rurais.
Para o Plano Safra 2026/2027, foram anunciados R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, um acréscimo de R$ 9 bilhões sobre os R$ 516,2 bilhões do ciclo anterior, com aumento de 1,7%.
Já para o Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027, foram anunciados 97,3 bilhões em recursos. Um montante que será destinado para crédito, seguro agrícola, compras públicas, extensão rural e assistência técnica. Do total, R$ 85,2 bilhões serão para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Um aumento de quase 9% em relação à safra anterior. Dentro do pacote, também estão a redução das taxas de juros e a ampliação dos limites de financiamento.
Esses recursos para custeio, comercialização e investimentos serão a principal alavanca para garantir o fluxo de caixa do produtor ao longo dos próximos meses. Porém, somado ao desafio financeiro, há sempre o impacto do clima. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mantém o alerta sobre a continuidade do El Niño, com efeitos que devem se estender até 2027. As previsões indicam riscos reais de chuvas irregulares e ondas intensas de calor na região Centro-Oeste entre agosto e outubro. Isso transforma a janela de abertura do plantio em um verdadeiro xadrez. Plantar no pó ou aguardar a consolidação das chuvas? A decisão definirá o estande de plantas e, consequentemente, o teto produtivo de toda a safra.
É importante frissar também que não há milagres quando se trata de plantar e colher. Além de um bom planejamento, a plantação também demanda uso de produtos que a projetam quando o tempo fica seco demais ou a chuva cai em excesso. Se no dia a dia, nós seres humanos, fazemos uso de vitaminas e remédios, a planta ali a céu aberto, também carece desses cuidados. Um bom exemplo, é um produto lançado recentemente pela Agrichem – marca da Nutrien com foco em nutrição vegetal – que traz mais mobilidade e translocação de potássio pela planta na comparação com concorrentes tradicionais. Chamado de Supa K, o fertilizante apresenta, do ponto de vista prático de manejo, diferenciais fundamentais como um baixo índice salino e menor ponto de deliquescência. Para o produtor que enfrenta o estresse térmico e hídrico do El Niño, isso se traduz em segurança fisiológica e menor dependência da umidade relativa do ar para que o nutriente seja efetivamente absorvido.
Experiência somada à inovação
A safra de soja 2026/2027 não será lembrada apenas pelos seus volumes, mas pela resiliência e profissionalismo de quem a plantou. Diante de margens espremidas e de um clima volátil, a sorte deixa de ser uma variável aceitável. O sucesso da soja brasileira neste ciclo residirá puramente na eficiência técnica, na adoção de tecnologias de ponta em sementes e nutrição, e em uma gestão financeira rigorosa. É hora de aliar o conhecimento milenar de olhar para o céu com a tecnologia moderna de proteger a lavoura e olhar para a planilha. A safra já começou, e ela será vencida na excelência dos detalhes.
Sobre o autor: Gustavo Rocha é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e gerente de Marketing da Agrichem.
Fonte: Assessoria de imprensa
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Farsul cobra ANP por ações urgentes contra risco de diesel no RS – MAIS SOJA

A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) protocolou, nesta segunda-feira (14 de setembro de 2026), um ofício urgente direcionado ao Diretor-Geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Artur Watt Neto. O documento manifesta profunda preocupação com os novos relatos de restrições e atrasos na entrega de óleo diesel aos produtores rurais gaúchos, justamente no momento em que se inicia o plantio da safra de verão.
No ofício assinado pelo presidente da Farsul, Domingos Velho Lopes, a entidade lembra que um cenário semelhante ocorreu entre março e abril deste ano, durante a colheita do arroz e da soja. Naquela ocasião, mesmo com a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) operando normalmente e com estoques suficientes no estado, produtores, Transportadores-Revendedores-Retalhistas (TRRs), postos e municípios enfrentaram severas limitações de fornecimento, com registros de operações agrícolas interrompidas e preços do diesel comercializado chegando a alcançar até R$ 9,00 por litro. As dificuldades atingiram cerca de 170 municípios, afetando serviços públicos essenciais.
Estudos da Assessoria Econômica da Farsul apontam que a alta de 21,1% no preço do diesel S10 (que saltou de R$ 5,97 para R$ 7,23 por litro) poderia acrescentar R$ 612,2 milhões aos custos diretos das operações mecanizadas nas principais lavouras do estado. Em um cenário mais crítico, com o combustível a R$ 9,00 por litro, as perdas potenciais poderiam chegar a R$ 1,47 bilhão.
Agora, o problema reaparece em um momento de janela agronômica bastante limitada. A Farsul adverte que a falta de combustível pode atrasar a implantação das culturas, reduzir a área plantada e comprometer a produtividade. Além disso, o encarecimento do diesel encarece a produção e o transporte, gerando reflexos diretos na economia e nos preços dos alimentos ao consumidor.
A entidade também destaca que, conforme boletim da Abicom, o preço nacional do diesel permaneceu abaixo da paridade de importação durante todo o mês de agosto, com defasagem de até R$ 2,56 por litro. A subvenção de R$ 1,00 por litro anunciada pelo Governo Federal em 9 de setembro é vista como uma medida que precisa resultar urgentemente em oferta efetiva, regularidade de entregas e redução de preços.
Solicitações à ANP
Diante da urgência imposta pelo calendário agrícola, a Farsul cobra da ANP a adoção imediata das seguintes providências:
- Fiscalização imediata das distribuidoras que operam no Rio Grande do Sul, com foco no atendimento aos TRRs, postos independentes e municípios do interior;
- Divulgação atualizada e regionalizada dos estoques, pedidos recebidos, volumes entregues, recusas e prazos de atendimento;
- Esclarecimento dos critérios utilizados pelas distribuidoras na alocação dos volumes disponíveis;
- Apuração de eventuais recusas injustificadas, retenção de produto, discriminação entre compradores ou limitação artificial da oferta;
- Informações sobre o calendário de importações e os efeitos práticos da subvenção anunciada pelo Governo Federal;
- Apresentação dos resultados das apurações realizadas durante a crise de março e abril, bem como de um plano de contingência para os períodos de plantio e colheita.
Por fim, a Farsul reforça que permanece à disposição para encaminhar informações que auxiliem na identificação dos pontos de restrição, reiterando que o acesso a diesel disponível no momento adequado e a preço economicamente viável é condição indispensável para a produção de alimentos, a manutenção de empregos e a proteção do consumidor brasileiro.
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Subsolagem ou escarificação? Diagnóstico do solo define operação mais adequada no campo – MAIS SOJA

Foto de capa: Assessoria
A presença de camadas compactadas no solo pode limitar o desenvolvimento das raízes, dificultar a infiltração de água e comprometer o estabelecimento das culturas. Para corrigir o problema, operações como escarificação e subsolagem podem ser utilizadas, mas a escolha deve partir de um diagnóstico da área, principalmente da profundidade em que está localizada a camada compactada.
De acordo com Henrique Moscatelli, engenheiro agrônomo, inteligência de mercado e marketing da Piccin Equipamentos, a profundidade de trabalho é o principal fator que diferencia as duas operações. “A subsolagem é mais profunda, podendo chegar a 45 centímetros, com hastes mais robustas e maior espaçamento entre elas, o que também exige mais potência do trator. Já o escarificador atua nas camadas mais superficiais, até cerca de 30 centímetros, com possibilidade de menor revolvimento e manutenção da palhada na superfície”, explica.
Antes de levar o implemento ao campo, é importante identificar em qual profundidade a compactação ocorre. Alguns sinais podem ser observados diretamente na lavoura, como manchas de plantas com menor desenvolvimento, germinação desuniforme, pontos de encharcamento e alterações no crescimento das raízes. “Ao retirar uma planta com cuidado, é possível observar se as raízes estão verticalizadas e aprofundando normalmente ou se apresentam crescimento lateralizado, como se estivessem achatadas. Mas, para uma análise mais precisa, o penetrômetro é o equipamento mais indicado porque permite identificar em qual profundidade está a camada compactada”, afirma o especialista.
Em áreas maiores, diferentes pontos podem ser avaliados para a elaboração de um mapa de compactação do talhão. A abertura de trincheiras também permite observar diretamente o perfil do solo e o comportamento das raízes. A Embrapa recomenda que o diagnóstico combine observações de campo, análise do sistema radicular, abertura de trincheiras e uso de equipamentos capazes de medir a resistência do solo à penetração.
Quando a compactação está concentrada nos primeiros 30 centímetros, condição que pode ocorrer em áreas com histórico de gradagens e tráfego de máquinas, a escarificação pode atender à necessidade com menor mobilização do perfil. Dependendo da configuração do equipamento, a operação também pode contribuir para a manutenção da palhada na superfície e ser utilizada em situações específicas dentro de sistemas de plantio direto, desde que constatada a necessidade de intervenção.
Já quando a camada de impedimento está abaixo desse limite, a subsolagem pode ser uma alternativa. Entre as situações que podem exigir atuação em maior profundidade estão áreas com histórico de pisoteio animal, integração lavoura-pecuária, cabeceiras de talhões e pontos submetidos repetidamente ao tráfego de máquinas.
Mais profundidade não significa melhor resultado
Um dos erros mais comuns é associar uma operação mais profunda a uma descompactação necessariamente mais eficiente. Na prática, trabalhar abaixo da camada que precisa ser rompida aumenta o esforço de tração, o consumo de combustível e o desgaste do equipamento, sem necessariamente proporcionar ganho agronômico.
O problema inverso também pode ocorrer. Quando o equipamento trabalha acima da camada compactada, rompe apenas a parte superficial do perfil e mantém o impedimento ao desenvolvimento das raízes. “Operar mais fundo do que o necessário aumenta a exigência de potência, o consumo de combustível e o desgaste do conjunto sem ganho. Se trabalhar mais raso que a camada compactada, existe uma impressão de que o serviço foi realizado, mas o impedimento continua ali e o comportamento da raiz não muda”, destaca Moscatelli.
O diagnóstico também ajuda a evitar que problemas de outra natureza sejam confundidos com compactação. Limitações químicas do solo, como acidez ou deficiência de nutrientes, por exemplo, exigem estratégias específicas de correção e não serão solucionadas apenas com uma operação mecânica.
Umidade interfere na eficiência
Além da profundidade, a condição de umidade do solo no momento da operação é determinante. O ideal é que o perfil esteja em condição friável, quando apresenta umidade suficiente, mas se desfaz com facilidade ao ser pressionado. Com o solo muito úmido, a haste pode comprimir as paredes do sulco em vez de promover a ruptura desejada.
Em condições excessivamente secas, aumenta a resistência à passagem do implemento e, consequentemente, a demanda de tração. “O solo precisa estar friável. Nessa condição, a haste consegue romper uma faixa maior do que apenas a linha de contato da ponteira. Solo úmido demais não traz bom resultado e solo seco demais exige muita tração”, explica o especialista.
O espaçamento das hastes também influencia a qualidade da operação. Segundo Moscatelli, uma referência é trabalhar com distância equivalente a aproximadamente uma a 1,5 vez a profundidade de atuação. Espaços excessivos podem deixar faixas sem rompimento, enquanto uma configuração muito fechada aumenta o revolvimento e a demanda energética. Orientações técnicas da Embrapa também apontam relações próximas a essa faixa para favorecer a ruptura do solo entre as hastes.
Nivelamento do implemento e estado das ponteiras completam os cuidados. O equipamento deve permanecer paralelo ao terreno para manter profundidade uniforme, enquanto ponteiras desgastadas podem perder eficiência de penetração e aumentar a demanda de potência.
Equipamento deve acompanhar a necessidade da área
A definição da profundidade de trabalho também deve orientar a escolha do equipamento. Para diferentes condições de campo, a Piccin possui linhas de escarificadores e subsoladores com configurações distintas. Entre os escarificadores está o EPCR 300, com configurações de cinco a 25 hastes e trabalho de até 260 milímetros de profundidade.
Para operações mais profundas, a empresa dispõe da linha de subsoladores SP, com versões de três a 11 hastes e profundidades entre 200 e 450 milímetros, além de configurações com sistemas de desarme para situações com pedras e outros obstáculos. Na linha com controle remoto, o SPCR 500 pode atingir 500 milímetros. A fabricante também possui a linha Advanced, com configuração modular e trabalho entre 200 e 550 milímetros de profundidade, além de opções de espaçamento e sistemas de desarme de acordo com a aplicação.
Para Moscatelli, a escolha deve começar pelo diagnóstico da área. “Observe como está a lavoura, faça uma avaliação com penetrômetro ou abra uma trincheira para descobrir em qual profundidade está a camada compactada. Com esse dado em mãos, é possível identificar o equipamento adequado para aquela condição. A profundidade da compactação é que deve definir a operação, e não o contrário”, conclui.
Fonte: Assessoria de imprensa
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