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O Brasil está preparado para ser potência alimentar global?

O Brasil já é reconhecido como uma potência agrícola. Com alta produtividade, tecnologia tropical avançada e capacidade de expansão, o país ocupa posição de destaque na produção mundial de alimentos. No entanto, há uma distinção essencial que precisa ser feita. Ser potência produtiva não significa automaticamente ser potência alimentar global.
A questão central deixou de ser quanto o Brasil produz. O ponto agora é como o país se posiciona dentro do sistema alimentar mundial.
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Hoje, o Brasil atua majoritariamente como fornecedor de commodities agrícolas. Soja, milho e outras culturas seguem sendo pilares importantes da balança comercial. Esse modelo trouxe resultados relevantes, mas começa a mostrar limites diante de um cenário global em transformação.
Consumidores, governos e mercados estão cada vez mais atentos à qualidade dos alimentos, à sustentabilidade dos sistemas produtivos e aos impactos na saúde. Esse novo contexto abre uma oportunidade estratégica que o Brasil ainda explora pouco. Liderar o movimento de valorização dos alimentos de verdade.
Nesse ponto, entram culturas que historicamente foram tratadas como secundárias, mas que possuem enorme potencial de reposicionamento no mercado global. Feijões, grão-de-bico, pipoca, gergelim, chia e linhaça não são apenas alternativas produtivas. São alimentos alinhados com uma tendência mundial baseada em nutrição, funcionalidade e sustentabilidade.
Esses produtos carregam um diferencial que vai além do preço. Eles podem ser posicionados como alimentos regenerativos.
A agricultura regenerativa, cada vez mais debatida no mundo, não se limita à redução de impactos ambientais. Ela envolve a melhoria da saúde do solo, o aumento da biodiversidade e a construção de sistemas produtivos mais resilientes. Quando esses conceitos são associados a culturas como Feijões e gergelim, o Brasil passa a oferecer não apenas volume, mas valor.
E valor é o que define as novas potências alimentares.
Outro ponto estratégico é a narrativa. O Brasil possui um dos modelos alimentares mais equilibrados do mundo, representado pelo prato com arroz, Feijão, proteína e salada. Esse padrão atende exatamente às demandas atuais por nutrição equilibrada, acessibilidade e sustentabilidade.
O problema é que o país ainda não transformou esse modelo em uma plataforma de comunicação global.
Enquanto outras nações constroem marcas fortes em torno de seus alimentos, o Brasil continua focado na exportação de matéria-prima. Isso limita o potencial de captura de valor e reduz a influência sobre os padrões de consumo internacional.
Há também desafios estruturais que precisam ser enfrentados. A falta de coordenação entre os diferentes elos da cadeia produtiva compromete a capacidade de planejamento e negociação. A dependência de mercados específicos em determinadas culturas aumenta a vulnerabilidade. A infraestrutura, embora em evolução, ainda impacta a competitividade em momentos decisivos.
Superar esses desafios exige mudança de abordagem.
O Brasil precisa deixar de agir apenas como produtor eficiente e passar a atuar como estrategista do sistema alimentar. Isso implica organizar melhor a cadeia, investir em inteligência de mercado, ampliar a diversificação de destinos e construir um posicionamento claro.
Nesse contexto, o momento é oportuno para ajustar o foco da produção. Não se trata de abandonar commodities, mas de equilibrar o portfólio com alimentos que agregam valor e dialogam com as novas demandas globais.
Feijões, grão-de-bico, pipoca, gergelim, chia e linhaça representam uma fronteira estratégica. São culturas que permitem diversificação produtiva, ampliam oportunidades de exportação e fortalecem a imagem do Brasil como fornecedor de alimentos sustentáveis e regenerativos.
Mas há um ponto adicional que pode acelerar esse processo e que ainda é pouco explorado.
As cadeias produtivas que vêm ganhando espaço no mercado internacional poderiam trabalhar sob uma mesma plataforma de comunicação. Em vez de esforços isolados, com narrativas fragmentadas, seria possível construir uma base comum de posicionamento, centrada na sustentabilidade, na rastreabilidade e no conceito de alimento regenerativo.
Grande parte dessas cadeias já possui atributos concretos que atendem aos mercados mais exigentes. Práticas sustentáveis, uso crescente de bioinsumos, respeito ambiental e avanços em rastreabilidade não são promessas. Já são realidade em muitos sistemas produtivos.
Ao organizar e comunicar esses atributos de forma integrada, cria-se um efeito multiplicador. Uma cadeia abre mercado, fortalece a narrativa e outras, que compartilham das mesmas condições, passam a se beneficiar dessa construção. O custo de posicionamento diminui, e a força coletiva aumenta.
Essa lógica exige coordenação e visão de longo prazo, mas pode ser determinante para que o Brasil deixe de competir apenas por preço e passe a competir por valor.
Essa transição não depende apenas de tecnologia. Depende de visão.
Se o Brasil conseguir alinhar produção, sustentabilidade, coordenação e narrativa, terá condições de ocupar um espaço diferenciado no mercado global. Caso contrário, continuará sendo um dos maiores produtores do mundo, mas sem exercer a liderança que sua capacidade permite.
O Brasil está preparado para ser potência alimentar global? Ainda não completamente.
Mas nunca esteve tão próximo, desde que compreenda que o futuro não será definido apenas por quem produz mais, e sim por quem entrega mais valor.

*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional
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Estudo analisa seguro rural em 7 países e traz dicas de modelos ao Brasil

Um novo estudo do Observatório do Crédito e Seguro Rural (OCSR), do FGV Agro, analisa os sistemas de seguro rurais em sete países: Argentina, Chile, Espanha, Estados Unidos, Índia, México e Peru.
Os resultados mostram que embora todos reconheçam a importância da ferramenta para mitigar as perdas climáticas e estabilizar as rendas agrícolas, existem diferenças substanciais nos modelos operacionais de cada nação analisada.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o programa federal combina operação privada, forte subsídio ao prêmio, custeio administrativo e suporte público ao resseguro. O resultado é uma cobertura próxima de 90% da área das principais culturas.
Já na Espanha, o sistema se apoia em parceria público-privada. Para o OCSR, essa governança compartilhada demonstra que a previsibilidade institucional e a coordenação entre Estado, seguradoras e produtores são tão importantes quanto o volume do subsídio financeiro.
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A Índia, por sua vez, foca na inclusão com intensa intervenção estatal, assumindo a maior parte do prêmio. O programa atinge fortemente pequenos agricultores, embora enfrente alta complexidade operacional. Em contrapartida, o Observatório aponta que modelos com menor apoio mostram fortes fragilidades sistêmicas.
No México, a retirada dos subsídios reduziu a área segurada de mais de 50% para cerca de 16%, colapsando o sistema.
A Argentina conta com um mercado privado focado em granizo, o que resulta em baixa penetração de seguros multirrisco e severa dependência de ações emergenciais pelo governo pós-desastre.
Veja o resumo de todos os países analisados na tabela abaixo:

De acordo com os autores do estudo e pesquisadores do OCSR do FGV Agro, Renato Buranello e Anna Cortelin, o seguro rural tende a se fortalecer quando integrado como política pública estruturada.
“O seguro rural é um instrumento estratégico viável e valioso, desde que apoiado e bem desenhado. Os países que hoje colhem os benefícios da ampla cobertura securitária no campo, investiram nisso ao longo de décadas, aprendendo com os seus erros e aprimorando seus modelos”, declaram.
Segundo eles, para o Brasil fica a recomendação de que é preciso desenvolver um marco institucional claro; garantir apoio orçamentário compatível, envolver seguradoras privadas e agricultores na solução; começar cobrindo os riscos catastróficos-chave e públicos prioritários (pequenos agricultores) e expandir gradualmente.
“O seguro rural não evita desastres, mas mitiga seus impactos, permitindo que a agricultura seja mais resiliente e sustentável diante dos atuais desafios climáticos e do mercado”, concluem.
Lição ao Brasil
O estudo considera que a principal lição global é que o Brasil não deve opor Estado e mercado, mas coordenar suas funções.
“O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) é o instrumento adequado para induzir a transferência de risco às seguradoras e resseguradoras, enquanto o Proagro cumpre uma função pública vital vinculada ao crédito, especialmente para pequenos produtores. O desafio é alinhar esses instrumentos para evitar sobreposições e alta pressão fiscal”, dizem os autores.
O estudo considera que, para funcionar, o PSR precisa urgentemente de previsibilidade orçamentária, já que sem um calendário financeiro estável de liberação de recursos, a instabilidade encarece a operação e impede a consolidação do mercado.
“O Proagro, por sua vez, deve ser uma camada pública bem focalizada, sustentada por bases técnicas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).”
Além disso, o estudo considera ser indispensável a estruturação de uma camada catastrófica, a exemplo do uso do Fundo de Estabilidade do Seguro Rural. “Sem isso, o sistema continuará oscilando entre falta de subvenção em anos normais e um forte impacto aos cofres públicos durante grandes desastres climáticos.”
O estudo completo pode ser acessado aqui.
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Produção de eucalipto salta quase 15% em São Paulo e VPA chega perto de R$ 3 bilhões

Principal espécie da silvicultura de São Paulo, o eucalipto ocupa mais de 77% de toda a área de florestas plantadas do estado, com área superior a 1 milhão de hectares cultivados.
Dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA-Apta) divulgados na última quarta-feira (3) mostram que a cultura vive um momento de expansão em solo paulista: aumento de 14,6%% na produção em 2025 (23,9 milhões de metros cúbicos), com Valor da Produção Agropecuária (VPA) fechado em R$ 2,9 bilhões.
O cultivo da espécie abastece diferentes segmentos da economia, sendo destinado à fabricação de papel e celulose, à geração de energia por biomassa e carvão vegetal e ao fornecimento de matéria-prima para a construção civil e a indústria moveleira, além da utilização na produção de óleos essenciais.
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As regiões que mais se destacam no cultivo do eucalipto em São Paulo são o sudoeste paulista, o centro-oeste e o Vale do Paranapanema, áreas que apresentam condições edafoclimáticas favoráveis e relativa disponibilidade de terras, em cidades como Agudos, Itapetininga, Itatinga, Angatuba, Botucatu, Lençóis Paulista, Bofete, Cabrália Paulista, Capão Bonito, Itararé e Paranapanema, importantes pólos da silvicultura no estado.
Balança comercial do agro
O produtos florestais ocupam a terceira maior participação nas exportações de São Paulo. O grupo é superado apenas pelo complexo sucroalcooleiro e pelo setor de carnes. Em abril de 2026, este setor alcançou US$ 1,14 bilhão em valor exportado, representando 13,6% do total dos embarques, com a celulose respondendo por 66,3% e o papel por 27,9% desta participação.
A presidente da Câmara Setorial de Produtos Florestais de São Paulo, Fernanda Abilio, ressalta que a indústria florestal paulista possui uma base produtiva consolidada, sustentável e altamente tecnificada, e majoritariamente de eucalipto.
“O crescimento observado no VPA e na produção reflete não apenas a competitividade do setor, mas também sua capacidade de agregar valor, gerar empregos, movimentar exportações e fornecer matéria-prima renovável para diferentes cadeias industriais.”
De acordo com Fernanda, além da produção e exportação, o eucalipto também tem sido aliado no desenvolvimento do agro paulista, principalmente na relação da espécie com o sistema Integração Pecuária, Lavoura e Floresta (ILPF).
Esses sistemas funcionam integrando o plantio de árvores de eucalipto com culturas agrícolas, criação de gado, agricultura regenerativa, como a recuperação de áreas biodegradadas, e o bem-estar animal, no qual o eucalipto aparece como aliado do conforto térmico animal, reduzindo impactos do calor e favorecendo melhores condições fisiológicas e produtivas dos rebanhos Nelore.
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‘Discriminação e profundo desrespeito’: Faesp repudia veto da UE a produtos brasileiros

A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) divulgou nota pública de repúdio neste sábado (6) sobre a decisão da União Europeia (UE) de impedir, a partir de 3 de setembro, a importação de carnes, mel e suprodutos de origem animal do Brasil.
Para a entidade, os europeus agem com “profundo desrespeito”, tendo em vista os 25 anos de negociações entre o bloco e o Mercosul após todos os tramites terem sido alinhados entre as partes.
O texto, assinado pelo presidente da Faesp, Tirso Meirelles, afirma que a UE decidiu mudar as regras do jogo de forma casuística. “Começam agora a surgir salvaguardas descabidas e arbitrárias, que não possuem qualquer lastro ou respaldo técnico e científico. Trata-se de uma manobra burocrática para criar travas artificiais ao comércio internacional”, acusa.
Segundo ele, a Federação computa a medida como absolutamente desnecessária, desleal e flagrantemente discriminatória.
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Além disso, Meirelles considera que o pretexto europeu, focado no uso de antibióticos, cai por terra diante dos fatos: os rebanhos de concorrentes diretos como os Estados Unidos, a Austrália e da Nova Zelândia utilizam rigorosamente os mesmos produtos fitossanitários que o Brasil.
“Convenientemente, [eles] não sofreram qualquer tipo de restrição, bloqueio ou veto por parte da UE. Essa disparidade de tratamento escancara um protecionismo comercial unilateral direcionado especificamente para tentar frear a nossa competitividade”, destaca a nota assinada.
Sanidade brasileira incontestável
O presidente da Faesp ressalta que quando o assunto é sanidade, o cenário é incontestável: “a sanidade animal do rebanho brasileiro é totalmente sem mácula, sendo referência global e nunca tendo registrado um único caso de ‘vaca louca’”.
Meirelles enfatiza que a excelência, o status sanitário e o rigor científico da produção agropecuária brasileira são indiscutíveis e reconhecidos mundialmente.
“Diante desta grave agressão comercial e reputacional, cobramos do governo federal brasileiro pulso mais firme em sua diplomacia comercial. O Brasil, consolidado historicamente como um dos maiores produtores e exportadores de carne do mundo, não pode aceitar passivamente ser alvo de retaliações geopolíticas infundadas. O setor produtivo precisa urgentemente de segurança jurídica e respeito às regras e políticas claras de defesa comercial”, destaca Meirelles.
“Vizinhos devem se unir ao Brasil”
A nota da Faesp ainda ressalta que as grandes negociações globais hoje ocorrem estritamente entre blocos econômicos e, sendo assim, torna-se vital e urgente que a Argentina e o Uruguai se juntem ao Brasil para construir um posicionamento regional unificado e robusto que demonstre a verdadeira força e o peso político-econômico do Mercosul.
“Não permitiremos que nos dividam para nos enfraquecer; o bloco precisa responder à altura dessa afronta”, diz.
Por fim, a Faesp argumenta que o produtor rural brasileiro faz a sua parte com excelência e responsabilidade de dentro da porteira. “Cabe agora à nossa diplomacia e aos nossos aliados regionais impor o respeito e a soberania que a nossa agropecuária conquistou no cenário internacional, consolidando-se como um dos principais protagonistas da segurança alimentar mundial”, finaliza.
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