Sustentabilidade
Realização de lucros em Chicago deve reduzir negócios com soja no Brasil – MAIS SOJA

O mercado brasileiro de soja deve ter um dia mais calmo, após a boa movimentação de ontem. A Bolsa de Mercadorias de Chicago realiza parte dos lucros acumulados recentemente e tem perdas moderadas, apesar das exportações semanais norte-americanas robustas. Já o dólar opera praticamente estável frente ao real e segue ao redor de R$ 5,15. Neste cenário, a comercialização tende a ser pontual.
Na quarta-feira, o mercado brasileiro de soja registrou firmes volumes de negócios nesta quarta-feira (26), tanto nos portos quanto junto à indústria, embora a maior concentração tenha ocorrido via porto. O analista da Safras & Mercado, Rafael Silveira, ressalta que a forte alta na Bolsa de Chicago levou o produtor a aproveitar as melhores cotações e ampliar a presença nas negociações.
Chicago superou US$ 12,60 por bushel na posição novembro, enquanto os prêmios apresentaram poucos ajustes. No físico, as cotações avançaram com força e o basis local permaneceu bastante fortalecido. “O mercado spot está se aproximando de R$ 160,00 por saca nos portos”, destaca Silveira.
A movimentação também alcançou a safra nova, com fixações diante das boas ofertas. “O produtor veio mais ao mercado e aproveitou o momento”, resume o analista. Segundo Silveira, o dia foi agitado, com lotes negociados no físico diante das cotações elevadas nos bids e da forte alta em Chicago.
No mercado físico, em Passo Fundo (RS), a saca de 60 quilos avançou de R$ 147,00 para R$ 148,50, enquanto em Santa Rosa (RS) passou de R$ 148,00 para R$ 149,50. Em Cascavel (PR), as cotações subiram de R$ 144,00 para R$ 146,00. Em Rondonópolis (MT), os preços avançaram de R$ 138,00 para R$ 141,00, enquanto em Dourados (MS) a saca passou de R$ 135,00 para R$ 138,00. Já em Rio Verde (GO), a cotação subiu de R$ 138,00 para R$ 142,00.
Nos portos, em Paranaguá (PR), a saca avançou de R$ 155,00 para R$ 157,00. Em Rio Grande (RS), as referências passaram de R$ 155,00 para R$ 157,50.
CHICAGO
* A Bolsa de Mercadorias de Chicago opera com perdas. A posição novembro/26 do grão recuava 0,49%, cotada a US$ 12,59 3/4 por bushel.
* O mercado devolve parte dos ganhos acumulados nos dois pregões anteriores, em movimento de realização de lucros.
CÂMBIO
* O dólar comercial registra baixa de 0,02%, a R$ 5,1515. O Dollar Index registra baixa de 0,07%, a 99,095 pontos.
INDICADORES FINANCEIROS
* As principais bolsas da Ásia fecharam em sentidos opostos. China, +1,13%. Japão, -0,20%.
* As bolsas na Europa operam mistas. Paris, -1,36%. Frankfurt, +0,16%. Londres, -0,40%.
* O petróleo opera em alta. Outubro do WTI em NY: US$ 82,61 o barril (+0,46%).
AGENDA
—–Quinta-feira (27/08)
09:00 – Pnad de julho/IBGE.
09:30 – Dados de exportação semanal de grãos dos EUA/USDA.
15:00 – Relatório de condições das lavouras da Argentina – Ministério da Agricultura.
15:00 – Dados de desenvolvimento das lavouras argentinas – Bolsa de Cereais de Buenos Aires.
16:00 – Dados de desenvolvimento das lavouras no RS – Emater, na parte da tarde.
—–Sexta-feira (28/08)
04:55 – Alemanha: Dados do mercado de trabalho de agosto, incluindo desemprego.
08:00 – IGP-M de agosto/FGV.
09:00 – Índice de Preços ao Produtor de julho/IBGE.
16:00 – Dados de evolução das lavouras do Mato Grosso – IMEA.
– Dados de julho do Caged/Ministério do Trabalho.
Autor/Fonte: Rodrigo Ramos – rodrigo@safras.com.br (Agência Safras)
Sustentabilidade
Vazio sanitário antecipa decisões importantes para a próxima safra de soja – MAIS SOJA

O avanço da ferrugem-asiática na última safra reforça a importância dos cuidados durante o vazio sanitário da soja. O Consórcio Antiferrugem contabilizou 379 registros da doença na safra 2025/26, cerca de três vezes as 124 ocorrências registradas em todo o ciclo 2024/25.
O principal objetivo do vazio sanitário é interromper o ciclo da ferrugem-asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi), reduzindo a sobrevivência do fungo entre as safras. Durante esse período, é proibido ter plantas vivas de soja, inclusive as plantas voluntárias (tigueras), que servem como hospedeiras. Com isso, a doença demora mais para se estabelecer no novo ciclo, o que também tem reflexo na sustentabilidade do manejo.
“Quanto mais conseguimos retardar a entrada da doença, maiores são as condições de preservar a eficiência dos fungicidas e trabalhar de maneira mais racional ao longo da safra. O descumprimento do vazio sanitário pode antecipar as primeiras infecções, elevar o número de aplicações de fungicidas, aumentar os custos de produção e comprometer a produtividade da safra. Além dos prejuízos agronômicos, o produtor fica sujeito a penalidades”, explica Renato de Souza Rodrigues, representante comercial da Conceito Agrícola.
Além deste controle, a entressafra pode ser aproveitada para o manejo de pragas e plantas daninhas, revisão de máquinas, análise e correção do solo e planejamento das operações do próximo ciclo.
Solo entra no planejamento antes do plantio
A análise de solo nesse período permite que o produtor tenha tempo para interpretar os resultados e realizar as correções necessárias antes da semeadura. O diagnóstico orienta decisões sobre calagem, gessagem e adubação, além de contribuir para estimar antecipadamente a demanda de fertilizantes. “Um bom trabalho nessa fase reduz riscos e desperdícios, aumenta a eficiência operacional e cria condições para expressar o máximo potencial produtivo da cultura”, destaca Rodrigues.
A análise de solo funciona como um raio-X da área. Além da amostragem convencional, hoje é possível avaliar camadas mais profundas e identificar limitações no perfil que podem restringir o desenvolvimento das raízes. Com essas informações, é possível direcionar melhor as correções e criar condições para explorar o potencial produtivo de cada área.
Entre os indicadores avaliados estão pH, teores de macro e micronutrientes, matéria orgânica, capacidade de troca de cátions (CTC) e saturação por bases. Avaliações em profundidade também ajudam a identificar limitações que não aparecem apenas na camada superficial e podem orientar estratégias de construção do perfil do solo.
Próxima safra começa a ser definida na entressafra
O intervalo entre os ciclos também permite antecipar decisões relacionadas à escolha de cultivares, tratamento de sementes, fertilidade e estratégia de manejo fitossanitário. Com essas definições feitas antes da abertura da semeadura, o produtor consegue organizar insumos, máquinas e operações de acordo com as características de cada área.
“É nesse momento que conseguimos reunir os dados da propriedade e transformar essas informações em planejamento. Acreditamos que uma grande safra começa muito antes do plantio. Nossa equipe está presente no campo compartilhando conhecimento, planejamento e prestando assistência técnica para que cada hectare expresse seu máximo potencial produtivo e econômico”, conclui Rodrigues.
Sobre o Grupo Conceito
O Grupo Conceito atua em diversos segmentos no mercado agro do Sudoeste goiano, dentre eles comercialização de insumos agrícolas, com a Conceito Agrícola; armazenagem e comercialização de grãos, com a Conceito Armazém; produção própria de grãos, com a Conceito Fazendas; e mais recentemente venda de semente de soja própria, trazendo genética Brasmax, com a Conceito Sementes, que possui estrutura de armazenagem 100% refrigerada e logística de entrega diferenciada. Com sede em Rio Verde, o Grupo é um núcleo de conhecimentos, tecnologias, produtos e serviços que facilita a adaptação dos clientes para prosperar em um negócio mais tecnológico e sustentável, trazendo a visão de quem também é produtor e entende as dificuldades e expectativas do campo.
Fonte: Assessoria de imprensa
Agro Mato Grosso
Syngenta Group anuncia números do primeiro semestre de 2026

Vendas somam US$ 12,2 bilhões; proteção de cultivos cresce 4% e Brasil avança 7%
O Syngenta Group registrou vendas de US$ 12,2 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 2% ante igual período de 2025. Em taxas de câmbio constantes, a retração alcançou 7%. O EBITDA chegou a US$ 2,4 bilhões, alta de 2% no resultado reportado e de 3% em câmbio constante. A margem EBITDA avançou 0,9 ponto percentual, de 18,6% para 19,5%. O indicador cresceu nas quatro unidades de negócios do grupo.
A companhia atribuiu a redução da receita à reestruturação dos negócios, com destaque para a diminuição das operações de menor margem no comércio de grãos na China. A estratégia concentrou esforços em atividades de maior rentabilidade, inovação, inteligência artificial e controle de custos.
Syngenta Crop Protection
A Syngenta Crop Protection faturou US$ 6,6 bilhões no primeiro semestre. O resultado representou crescimento de 4% na comparação anual. Em câmbio constante, as vendas recuaram 1%. Segundo a companhia, a demanda por inovações de maior valor e formulações de marca sustentou o desempenho.
As tecnologias Plinazolin, Adepidyn e Tymirium mantiveram forte desempenho em mercados estratégicos. Plinazolin integra o portfólio de inseticidas e apresenta novo modo de ação. Adepidyn atua como fungicida de amplo espectro. Tymirium destina-se ao controle de nematoides e doenças fúngicas. A empresa também registrou crescimento nas vendas de produtos biológicos em todas as regiões.
No Brasil, as vendas de proteção de cultivos cresceram 7%, apesar da pressão sobre preços. A companhia relacionou o avanço à estratégia comercial e à adoção de tecnologias como Tymirium, Plinazolin e Adepidyn.
A Europa apresentou crescimento de 8% nas vendas de proteção de cultivos, com contribuição dos efeitos cambiais. Ásia, Oriente Médio e África, sem considerar a China, avançaram 5%. A China registrou expansão de 20%, apoiada pela demanda por novas tecnologias e produtos biológicos.
Na América Latina, as vendas de proteção de cultivos recuaram 11%. Pressão sobre preços, redução de volumes, estoques elevados nos canais e diminuição de inventários influenciaram o desempenho. A Argentina concentrou parte desse movimento. O lançamento de Plinazolin no México compensou parte da retração regional. Na América do Norte, as vendas caíram 4% devido a diferenças no calendário de formação de estoques dos canais.
A unidade de proteção de cultivos obteve quase 900 novos registros, renovações de registros e extensões de rótulo no primeiro semestre. Entre as novidades, a empresa lançou Virestina na Argentina. Segundo a empresa, o produto é o primeiro herbicida seletivo lançado contra gramíneas resistentes em quase 40 anos. Miravis Duo recebeu aprovação regulatória acelerada na Tailândia e registro na Indonésia.
Syngenta Seeds
A Syngenta Seeds alcançou vendas de US$ 2,5 bilhões no período. A receita cresceu 1% em valores reportados e caiu 3% em câmbio constante. O segmento de culturas extensivas apresentou crescimento em diferentes mercados, com liderança do Brasil.
Em culturas extensivas, as vendas no Brasil avançaram 18%. Europa cresceu 7%, Ásia, Oriente Médio e África aumentaram 6% e China registrou alta de 3%. América Latina apresentou queda de 8%, enquanto a América do Norte recuou 13%. A companhia relacionou essas reduções às atividades de reestruturação e à retração da área plantada com milho nos Estados Unidos, que atingiu todo o setor.
No Brasil, o desempenho recebeu contribuição do milho de segunda safra, do licenciamento de milho, do lançamento do híbrido NK301VIP3 e da introdução de dez variedades de soja. A Syngenta apresenta o NK301VIP3 como seu primeiro híbrido hiperprecoce para o segmento premium de milho verão.
A Syngenta Vegetable Seeds inaugurou um centro de pesquisa e desenvolvimento na Espanha. O investimento alcançou US$ 10 milhões. A estrutura busca reduzir o tempo dos programas convencionais de melhoramento de hortaliças, com foco em tomate, pimentão e pepino. O negócio de sementes de hortaliças registrou crescimento no primeiro semestre na Europa Ocidental, Europa Central e Oriental, América do Norte e China.
Syngenta Group China
O Syngenta Group China faturou US$ 2,5 bilhões no semestre, queda de 15% na comparação anual e de 20% em câmbio constante. A redução planejada do comércio de grãos de menor margem e a otimização do negócio MAP influenciaram o resultado. A unidade também deixou de incorporar a Sinofert após a transferência da participação societária no fim de 2025.
Dentro da operação chinesa, as vendas de formulações de marca cresceram 15% e as de sementes avançaram 4%. A Yangnong Chemical ampliou as vendas em 12%. Em janeiro, a Syngenta inaugurou uma fábrica de formulações para proteção de cultivos em Nantong. A produção comercial começou em maio.
Adama
A Adama registrou vendas de US$ 2,1 bilhões no primeiro semestre, sem alteração na comparação anual. Em câmbio constante, houve retração de 3%. Os volumes cresceram na maior parte das regiões, em um cenário de pressão sobre preços. A empresa atribuiu a melhora do lucro bruto e da margem principalmente ao aumento dos volumes e a uma composição de portfólio mais favorável e enxuta. A companhia informou ainda que implementou iniciativas de controle de custos no período.
As vendas da Adama cresceram 9% na Europa, África e Oriente Médio. A América do Norte avançou 5% e a região Ásia-Pacífico, sem a China, cresceu 2%. A América Latina recuou 3%. Na China, a queda chegou a 23%, em meio à redução planejada de produtos químicos básicos e itens de menor margem.

Sustentabilidade
Manejo de Nematoides: por que diagnosticar é o primeiro passo do manejo? – MAIS SOJA

Os fitonematoides, de forma geral, são vermes filiformes microscópicos pertencentes ao filo Nematoda, amplamente distribuídos nos ecossistemas terrestres e aquáticos. No ambiente agrícola, uma parcela desses organismos é composta por nematoides fitopatogênicos, que parasitam raízes, caules ou outras partes vegetais, comprometendo o desenvolvimento das plantas e reduzindo a produtividade das culturas. Devido à sua ampla distribuição, alta capacidade reprodutiva e dificuldade de controle, os nematoides figuram entre os principais patógenos de importância agrícola no mundo.
No contexto global, estimativas mais recentes indicam que os nematoides fitopatogênicos são responsáveis por perdas anuais entre 125 e 173 bilhões de dólares na agricultura mundial, afetando diferentes culturas de interesse econômico (EMBRAPA, 2018; DIAS et al., 2016). Estimativas indicam que as perdas causadas por nematoides na agricultura brasileira ultrapassam R$ 35 bilhões por ano, considerando redução de produtividade e impactos indiretos no sistema produtivo (EMBRAPA, 2018; DIAS et al., 2016). Essas perdas estão associadas não apenas à redução direta da produtividade, mas também ao aumento dos custos de produção, decorrentes da adoção de medidas de manejo e da redução da eficiência no uso de insumos como água e fertilizantes (ABAD et al., 2008; COYNE et al., 2018; JONES et al., 2013; SÁNCHEZ-MOLINA et al., 2022).
No Brasil, país com clima predominantemente tropical e subtropical, as condições edafoclimáticas favorecem a sobrevivência e multiplicação dos nematoides ao longo do ano. Culturas como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, arroz, feijão e diversas hortaliças e frutíferas são severamente impactadas por diferentes espécies, destacando-se aquelas dos gêneros Meloidogyne, Pratylenchus, Heterodera e Rotylenchulus (EMBRAPA, 2018; DIAS et al., 2016).
Entre os principais sintomas ocasionados por fitonematoides estão aqueles relacionados à formação de galhas, lesões necróticas radiculares, acompanhados de alterações fisiológicas nas plantas (FERRAZ; BROWN, 2016) (Figura 1a). Essas alterações comprometem a absorção de água e nutrientes, tornando as culturas mais suscetíveis a estresses abióticos e à infecção por outros patógenos que colonizam o solo. Além disso, os sintomas na parte aérea frequentemente são inespecíficos, incluindo amarelecimento (Figura 1b, 1c), murcha e crescimento desuniforme, o que dificulta o diagnóstico a campo e pode resultar em decisões de manejo inadequadas (FERRAZ; BROWN, 2016).
Figura 1. Sintomas causados por Meloidogyne javanica na cultura da soja.
Diante da magnitude dos impactos econômicos e da complexidade do patossistema solo–planta–nematoide, o manejo desses organismos deve ser fundamentado em informações técnicas precisas. Nesse contexto, a amostragem e a correta identificação das espécies de nematoides presentes na área constituem etapas fundamentais para a definição de estratégias de manejo eficientes, permitindo a adoção de medidas direcionadas, economicamente viáveis e sustentáveis.
Os nematoides fitopatogênicos constituem um grupo altamente diverso sob os pontos de vista taxonômico, biológico e ecológico. Diferentes gêneros e espécies apresentam variações quanto ao comportamento parasitário, ciclos de vida e gama de hospedeiros, o que influencia diretamente na eficiência das medidas de manejo a serem adotadas. Nesse sentido, Ferraz e Brown (2016) destacam que o conhecimento da composição da comunidade de nematoides presentes na área é fundamental para o direcionamento adequado das práticas de manejo.
A variabilidade entre os fitonematoides pode ser observada, inicialmente, pela forma como esses organismos interagem com o sistema radicular das plantas. A Figura 2 ilustra diferentes tipos de parasitismo em raízes, mostrando nematoides que permanecem externamente à raiz e se alimentam por meio do estilete, caracterizando o hábito ectoparasita; nematoides que penetram parcialmente nos tecidos, caracterizando o hábito semi-endoparasita; e nematoides que penetram completamente nas raízes, podendo se deslocar pelos tecidos ou estabelecer sítios permanentes de alimentação. Essas diferenças no posicionamento do nematoide em relação à raiz influenciam diretamente o tipo de dano causado, o tecido afetado e a resposta da planta ao parasitismo (FERRAZ; BROWN, 2016).
No caso dos endoparasitas migradores, como espécies do gênero Pratylenchus, o nematoide se desloca no interior dos tecidos radiculares, causando lesões e destruição celular ao longo do processo de alimentação. Já os endoparasitas sedentários, como Meloidogyne spp., estabelecem sítios especializados de alimentação e induzem alterações celulares que resultam na formação de galhas, comprometendo a funcionalidade do sistema radicular (FERRAZ, 2001; DIAS et al., 2010). Dessa forma, a figura 2 demonstra que os fitonematoides não diferem apenas pela espécie, mas também pelo modo de parasitismo e pela forma como exploram os tecidos da planta hospedeira.
Essas diferenças ajudam a explicar por que espécies distintas podem apresentar variações na agressividade, no potencial de dano e na resposta às estratégias de manejo. Mesmo dentro de um mesmo gênero, espécies como Pratylenchus brachyurus, P. zeae e P. penetrans podem diferir quanto à adaptação climática, patogenicidade, virulência e importância econômica, evidenciando a limitação de estratégias generalistas de manejo (FERRAZ; BROWN, 2016; DIAS et al., 2016).
Figura 2. Ilustração esquemática de fitonematoides atacando a raiz da planta.

Um dos exemplos mais emblemáticos da importância da caracterização intraespecífico ocorre com o nematoide de cisto da soja, Heterodera glycines. Esse patógeno apresenta elevada variabilidade genética, expressa na forma de raças ou tipos fisiológicos que diferem quanto à capacidade de parasitar cultivares consideradas resistentes (NIBLACK et al., 2002; SCHMITT; SHANNON, 1992). Segundo esses mesmos autores, a identificação da espécie isoladamente não é suficiente para orientar o manejo, sendo necessário o conhecimento da raça ou do tipo populacional presente na área.
Historicamente, Heterodera glycines foi classificado em raças com base na capacidade de reprodução em um conjunto de cultivares diferenciadoras. Posteriormente, esse sistema evoluiu para o conceito de tipos HG, que permite caracterizar com maior precisão a virulência das populações frente às fontes de resistência disponíveis (NIBLACK et al., 2002). Essa classificação é importante porque populações distintas de H. glycines podem apresentar diferentes níveis de reprodução em cultivares resistentes, fazendo com que uma cultivar eficiente em determinada área não apresente o mesmo desempenho em outra.
A distribuição das raças no Brasil evidencia a elevada variabilidade populacional de H. glycines e reforça a necessidade de monitoramento local antes da escolha de cultivares resistentes. Na tabela 1 se observa que alguns estados apresentam maior diversidade de raças relatadas, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, onde ocorre ampla variação de populações. Essa diversidade indica maior complexidade para o manejo, pois diferentes raças podem apresentar respostas distintas às fontes de resistência utilizadas na cultura da soja. Por outro lado, a presença de uma mesma raça em diferentes estados, como a raça 3, relatada em Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, demonstra que determinadas populações apresentam ampla distribuição geográfica.
Dessa forma, a tabela 1 não deve ser interpretada apenas como um levantamento de ocorrência, mas como um indicativo da variabilidade espacial do nematoide e do risco de adoção generalizada de uma única fonte de resistência. Em regiões com maior diversidade de raças, o uso contínuo de cultivares resistentes sem rotação de fontes de resistência e sem monitoramento populacional pode favorecer a seleção de populações virulentas. Esse processo ajuda a explicar os frequentes relatos de perda de eficiência de cultivares resistentes em áreas cultivadas sucessivamente com os mesmos genótipos, especialmente quando o manejo não considera a raça ou o tipo HG predominante na área.
Tabela 1. Distribuição de raças de Heterodera glycines no Brasil.

Ferraz e Brown (2016) destacam que populações distintas de H. glycines podem coexistir em uma mesma região ou até mesmo em uma mesma propriedade, apresentando respostas contrastantes às mesmas cultivares e estratégias de manejo. Dessa forma, a escolha de cultivares resistentes sem o conhecimento prévio da raça ou do Tipo HG pode resultar em falhas no controle e favorecer o aumento populacional do nematoide ao longo das safras.
A variabilidade intraespecífica também influencia a eficiência de outras estratégias de manejo, incluindo rotação de culturas, o uso de plantas não hospedeiras, o controle biológico e químico. Algumas raças de H. glycines podem apresentar maior capacidade de sobrevivência no solo ou adaptação diferencial a plantas de cobertura, reforçando a necessidade do monitoramento populacional e da diagnose precisa (DIAS et al., 2016; EMBRAPA, 2018).
Nesse contexto, o manejo racional de nematoides depende não apenas da correta identificação do gênero e da espécie, mas também, em situações específicas, da caracterização populacional do patógeno. Assim, a amostragem adequada e a identificação detalhada constituem ferramentas fundamentais para subsidiar decisões mais eficientes, sustentáveis e economicamente viáveis.

Referências:
ABAD, P. et al. Plant parasitic nematodes in molecular plant pathology. Molecular Plant Pathology, v. 9, n. 4, p. 429–444, 2008.
COYNE, D. L.; CORTADA, L.; DALZELL, J. J.; CLAUDIUS-COLE, A. O.; HAKEEM, A.; TALWANA, H. Plant-parasitic nematodes and food security in sub-Saharan Africa. Annual Review of Phytopathology, v. 56, p. 381–403, 2018.
DIAS, W. P.; SILVA, J. F. V.; CARNEIRO, G. E. S.; GARCIA, A.; ARIAS, C. A. A. Nematoide de cisto da soja: biologia e manejo pelo uso da resistência genética. Londrina: Embrapa Soja, 2009.
DIAS, W. P.; GARCIA, A.; SILVA, J. F. V.; CARNEIRO, G. E. S. Nematoides em soja: identificação, danos e manejo. Londrina: Embrapa Soja, 2016.
EMBRAPA. Nematoides: problemas crescentes na agricultura brasileira. Brasília: Embrapa, 2018.
FERRAZ, L. C. C. B.; BROWN, D. J. F. Nematologia de plantas: fundamentos e importância. Viçosa: Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016.
JONES, J. T. et al. Top 10 plant-parasitic nematodes in molecular plant pathology. Molecular Plant Pathology, v. 14, n. 9, p. 946–961, 2013.
NIBLACK, T. L.; ARELLANO, C.; NOEL, G. R.; OPPERMAN, C. H.; ORF, J. H.; SCHMITT, D. P.; SHANNON, J. G.; TYLKA, G. L. A revised classification scheme for genetically diverse populations of Heterodera glycines. Journal of Nematology, v. 34, n. 4, p. 279–288, 2002.
SÁNCHEZ-MOLINA, J. A. et al. Economic and agricultural impact of plant-parasitic nematodes: a global review. Plants, v. 11, n. 19, 2022.
SCHMITT, D. P.; SHANNON, J. G. Differentiating Heterodera glycines races using resistant soybean cultivars. Crop Science, v. 32, p. 275–277, 1992.
Foto de capa: Cristiano Bellé
Autores:
Kauê da Cunha Beier
Acadêmico do 8º semestre do curso de Agronomia
Universidade Federal de Santa Maria
Bolsista do grupo PET Agronomia
E-mail: kauecunhabeier@gmail.com
Coautores:
Fábio Joel Kochem Mallmann
Jansen Rodrigo Pereira Santos
João Francisco Fornari Viana
Amanda Guzzo Marim
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