Sustentabilidade
China quer reduzir dependência das importações de soja, mas Brasil segue competitivo – MAIS SOJA

Durante workshop sobre biotecnologia e inovação na soja promovido pela Bayer nesta segunda-feira (15), em São Paulo, Fabio Meneghini, um dos fundadores da Veeries, empresa especializada em inteligência de mercado para o agronegócio, afirmou que a China pretende ampliar sua autossuficiência na produção de soja dos atuais 15% para 60% nos próximos anos.
Segundo ele, esse movimento pode reduzir a dependência do país em relação ao mercado internacional e impactar os principais exportadores globais da oleaginosa.
Meneghini informou que o planejamento chinês prevê redução gradual da necessidade de importações de soja ao longo da próxima década. Atualmente, a China importa cerca de 112 milhões de toneladas da oleaginosa por ano. Pelas projeções apresentadas no evento, esse volume poderia recuar para aproximadamente 99 milhões de toneladas em 2030 e para 82 milhões de toneladas em 2035.
O analista explicou que a estratégia chinesa passa pelo aumento da produção doméstica, melhorias de produtividade e pela busca de maior independência em relação ao mercado externo.
Apesar disso, ele ponderou que metas semelhantes vêm sendo anunciadas há anos pelo governo chinês sem serem plenamente alcançadas. Na avaliação dele, a elevada competitividade da soja brasileira continua sendo um dos principais obstáculos para a execução desses planos.
“O Brasil consegue entregar soja à China com custos bastante competitivos, resultado dos ganhos de produtividade obtidos nas últimas décadas e da evolução da infraestrutura logística”, destacou.
Meneghini observou ainda que, pela primeira vez, a China passou a discutir de forma mais ampla o uso de biotecnologia como ferramenta para ampliar sua produção de soja e alcançar os objetivos traçados para o setor.
Como alternativa para reduzir a dependência do mercado chinês, o executivo apontou os biocombustíveis como uma das principais oportunidades para a cadeia da soja brasileira nas próximas décadas. Segundo ele, iniciativas ligadas ao biodiesel, ao combustível sustentável de aviação (SAF) e ao diesel renovável podem ampliar significativamente a demanda doméstica por óleo vegetal.
Na avaliação do especialista, o crescimento do consumo interno tende a ganhar relevância nos próximos anos, complementando o papel desempenhado pelas exportações na expansão da sojicultura brasileira.
Meneghini também destacou que os avanços tecnológicos obtidos no campo permitiram elevar a produção nacional sem necessidade de expansão proporcional da área cultivada. Segundo ele, os ganhos de produtividade registrados nas últimas décadas evitaram a incorporação de aproximadamente 31 milhões de hectares adicionais para alcançar os atuais níveis de produção de soja no país.
Por outro lado, ele observou que ainda existem diferenças significativas de desempenho entre os produtores brasileiros. Enquanto os agricultores mais tecnificados seguem ampliando a produtividade acima da média nacional, parte dos produtores de menor porte ainda enfrenta dificuldades para acompanhar a velocidade da evolução tecnológica, cenário que representa um dos principais desafios para os próximos anos.
Autor/Fonte: Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Safras News)
Sustentabilidade
Preços da soja no Brasil e na Bolsa de Chicago: veja como o mercado iniciou a semana

O mercado brasileiro de soja iniciou a semana com pouca movimentação nos portos brasileiros, sem registro de grandes ofertas ou volumes expressivos negociados.
Segundo o analista de Safras & Mercado Rafael Silveira, apesar da volatilidade observada tanto na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT) quanto no câmbio, as cotações permaneceram praticamente estáveis ao longo do dia.
“Os prêmios seguiram firmes, sustentando as indicações nos portos, mas a liquidez continuou limitada. Em algumas praças do interior foram registradas leves quedas nos preços, refletindo a cautela dos agentes diante das oscilações do mercado externo e da baixa atividade comercial.”
Preços médios da saca de soja
- Passo Fundo (RS): recuou de R$ 125,50 para R$ 125
- Santa Rosa (RS): foi de R$ 126,50 para R$ 126
- Cascavel (PR): diminuíram de R$ 121 para R$ 120
- Rondonópolis (MT): passaram de R$ 110 para R$ 111
- Dourados (MS): recuaram de R$ 115 para R$ 113
- Rio Verde (GO): caiu de R$ 113 para R$ 112
- Porto de Paranaguá (PR): passou de R$ 132,50 para R$ 131,50
- Porto de Rio Grande (RS): recuaram de R$ 132,50 para R$ 132
Bolsa de Chicago
Os contratos futuros da soja fecharam em alta nesta segunda-feira (15) na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT).
Após atingir valores próximos aos menores em quatro meses, o mercado reagiu tecnicamente, ainda que o cenário fundamental seja baixista e que o petróleo tenha despencado em decorrência do acordo entre Irã e Estados Unidos para o fim do conflito no Oriente Médio.
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Silveira lembra que a Associação Norte-Americana dos Processadores de Óleos Vegetais (Nopa) informou que o esmagamento de soja atingiu 208,785 milhões de bushels em maio, ante 211,856 milhões no mês anterior. A expectativa do mercado era de 216,015 milhões. Em maio de 2025, foram 192,829 milhões de bushels.
A entidade indicou ainda que os estoques de óleo de soja americanos em maio somaram 1,735 bilhão de libras, ante o esperado de 1,855 bilhão. No mês anterior, foram 1,971 bilhões de libras.
Contratos futuros
Os contratos da soja em grão com entrega em julho fecharam com alta de 5,75 centavos de dólar, ou 0,51%, a US$ 11,19 1/4 por bushel. A posição agosto teve cotação de US$ 11,23 1/2 por bushel, com elevação de 4,75 centavos de dólar ou 0,42%.
Nos subprodutos, a posição julho do farelo fechou com alta de US$ 0,70 ou 0,23% a US$ 302,00 por tonelada. No óleo, os contratos com vencimento em julho fecharam a 74,37 centavos de dólar, com ganho de 0,09 centavo ou 0,12%.
Câmbio
O dólar comercial encerrou a sessão com alta de 0,05%, sendo negociado a R$ 5,0615 para venda e a R$ 5,0595 para compra. Durante o dia, a moeda norte-americana oscilou entre a mínima de R$ 5,0220 e a máxima de R$ 5,0685.O post Preços da soja no Brasil e na Bolsa de Chicago: veja como o mercado iniciou a semana apareceu primeiro em Canal Rural.
Sustentabilidade
El Niño 2026: clima, grãos e forragens elevam incertezas para a produção pecuária no Brasil – MAIS SOJA

Para a pecuária brasileira, o ponto central não é apenas saber se haverá ou não El Niño, mas entender por quais canais o fenômeno pode afetar a produção animal. É nesse sentido que este material busca fornecer insights.
1. O El Niño como fator de volatilidade, não apenas de quebra produtiva
O El Niño não deve ser interpretado como um choque climático uniforme sobre o Brasil. Em termos gerais, o fenômeno costuma aumentar o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece maiores volumes de chuva no Sul. Já em partes do Centro-Oeste e do Sudeste, os efeitos tendem a aparecer mais como irregularidade das chuvas, maior frequência de períodos secos, temperaturas elevadas e maior instabilidade na transição entre a estação seca e a estação chuvosa. O Inmet também ressalta que os impactos dependem da intensidade do fenômeno e da interação com outros fatores oceânicos, especialmente o Atlântico Tropical e o Atlântico Sul.
Isso significa que o risco para a pecuária não está apenas em uma eventual seca. O excesso de chuvas também pode ser problemático, sobretudo quando compromete manejo, qualidade de forragens, sanidade, logística, colheita de grãos e conservação de volumosos. Portanto, a leitura mais adequada é tratar o El Niño 2026 como um fator de aumento da volatilidade climática e produtiva, com impactos regionais bastante distintos.
2. Os principais pontos de atenção para a pecuária
O primeiro ponto que requer atenção redobrada é a disponibilidade de pastagens e água. Em sistemas baseados em pasto, qualquer atraso na recuperação das chuvas, veranicos prolongados ou temperaturas acima da média podem reduzir o crescimento das forrageiras, diminuir a capacidade de suporte das áreas e pressionar o ganho de peso dos animais ou a produção de leite. Importante destacar que o período de maio a outubro é muito importante para a condição corporal da fêmea, para entrar em um ambiente favorável na estação reprodutiva – logo, oscilações climáticas e, consequentemente, na nutrição do animal nesse período têm impactos relevantes no ciclo produtivo. No semiárido, esse canal é ainda mais sensível, porque a oferta de água e a disponibilidade de forragem nativa determinam diretamente a capacidade de manutenção dos rebanhos.
Nas forragens, a atenção deve se concentrar em três frentes:
– Produção de pasto durante a transição seca-águas, especialmente no Centro-Oeste e Sudeste;
– Qualidade, disponibilidade e valor de mercado de forragens conservadas, seja por fermentação (silagens), secagem (feno) ou um mix dos dois (pré-secados);
– Capacidade produtiva regional de reservas estratégicas de forragens para o período seco, como pastagens diferidas, capineiras, cana-de-açúcar e, especialmente para o semiárido, palma forrageira.
O segundo fator envolve a produção e a qualidade das forragens conservadas. No caso do milho, a Conab estimava, em abril de 2026, produção total de 139,6 milhões de toneladas para a safra 2025/26, ligeiramente abaixo do ciclo anterior, com crescimento da área plantada, mas queda esperada de produtividade na segunda safra. A Conab também projeta avanço do consumo doméstico de milho, impulsionado pela indústria de etanol, o que pode manter o mercado sensível a qualquer alteração climática ou logística.
Para a soja, a estimativa da Conab era de produção recorde de aproximadamente 179,2 milhões de toneladas na safra 2025/26. Ainda assim, a disponibilidade de farelo e sua formação de preços dependem não apenas da produção brasileira, mas também do esmagamento interno, das exportações, da demanda internacional e da taxa de câmbio.
Do ponto de vista pecuário, isso significa que o risco climático sobre grãos não pode ser analisado apenas como risco de quebra de safra. É preciso observar também os efeitos sobre preços relativos, fretes, estoques, qualidade dos grãos, mercado futuro e decisões de compra de ração. Esse ponto é particularmente importante para aves e suínos, mas também afeta confinamentos bovinos, sistemas leiteiros intensivos e suplementação estratégica de ovinos e caprinos.
Em um cenário de El Niño, portanto, a segurança alimentar dos rebanhos dependerá menos da média nacional de produção de grãos e mais da combinação regional entre chuva, temperatura, estoques e capacidade de compra dos produtores.
No Sul, chuvas excessivas podem dificultar a colheita e a ensilagem, elevar perdas por compactação inadequada, fermentação ruim, contaminação ou redução da qualidade nutricional. No Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste, o risco maior está na menor produção de biomassa, no atraso da rebrota das pastagens e na necessidade de uso antecipado dos estoques de silagem, feno, palma ou concentrado.
O terceiro ponto é a ambiência, sanidade e logística, impactando de forma mais severa propriedades que fazem o uso de raças taurinas. Temperaturas elevadas reduzem conforto térmico, pioram conversão alimentar, reduzem consumo voluntário e podem afetar fertilidade, crescimento e produção de leite. Chuvas excessivas, por outro lado, aumentam lama, problemas de casco, mastite, doenças respiratórias, dificuldade de transporte, interrupções logísticas e perda de qualidade de insumos. Apesar do maior impacto em raças europeias, o alerta também é extremamente importante para aqueles que trabalham raças zebuínas que, a despeito da maior rusticidade, também podem ser afetados negativamente pelo cenário.
O quarto ponto é o custo da alimentação animal. Milho, farelo de soja, silagem, sorgo, feno e outros volumosos conservados entram no centro da análise porque conectam o clima às margens de praticamente todas as cadeias pecuárias. Mesmo quando não há quebra imediata da produção agrícola, a simples percepção de risco climático pode elevar a volatilidade dos preços, alterar estratégias de compra, retenção de estoques e formação de preços futuros.
4. Leitura regional dos riscos
No Sul, o El Niño pode favorecer a recuperação hídrica e melhorar a disponibilidade de pastagens e culturas de inverno em alguns momentos. Porém, o excesso de chuva é o risco mais relevante. Chuvas frequentes podem prejudicar o manejo de áreas de pastagem, aumentar lama, reduzir qualidade de forragens conservadas, dificultar colheitas e ampliar problemas sanitários. O Inmet destaca que o El Niño costuma estar associado a maiores volumes de precipitação na região Sul, especialmente no inverno e na primavera, com risco de encharcamento do solo, doenças fúngicas e dificuldades operacionais.
No Sudeste, por sua vez, o risco é mais ambíguo. A região pode enfrentar calor, irregularidade hídrica e atraso na recuperação das chuvas de primavera. Para pecuária de leite e corte, isso afeta diretamente pastagens tropicais, capineiras, produção de silagem e necessidade de suplementação. Em polos avícolas e suinícolas, o impacto aparece principalmente via custo de ração, conforto térmico, energia elétrica, ventilação e mortalidade.
Já para a região Centro-Oeste, a atenção deve se concentrar na transição seca-águas. Caso as chuvas atrasem ou ocorram de forma irregular, a recuperação das pastagens pode ser comprometida justamente no período em que os sistemas de cria, recria e engorda dependem da retomada do crescimento forrageiro. Isso pode aumentar a suplementação, encarecer a terminação e alterar decisões de venda, retenção ou confinamento.
No Norte, o risco está associado à redução de chuvas em parte da região, aumento do calor, déficit hídrico, e piora da logística. Para a pecuária, isso pode afetar disponibilidade de pasto, acesso à água, ganho de peso e sanidade. Em áreas de expansão agrícola, os efeitos sobre milho, soja e logística também podem repercutir sobre custos alimentares.
No Nordeste, o principal risco está na maior pressão sobre água e forragem, especialmente no semiárido. A região concentra grande parte da caprinovinocultura brasileira [1] e também conta com bacias leiteiras e áreas de bovinocultura em intensificação. Em caso de chuvas mais irregulares ou prolongamento do período seco, produtores podem enfrentar menor oferta de pasto, uso antecipado de reservas alimentares, maior dependência de palma, silagem, feno e concentrados, além de aumento dos custos de suplementação.
5. Bovinos de corte
Na pecuária de corte, os efeitos do El Niño tendem a se concentrar em quatro pontos: qualidade das pastagens, disponibilidade de água, estresse térmico e aumento dos custos de suplementação. Esses fatores podem ser especialmente relevantes no Centro-Oeste e no Norte, onde a irregularidade das chuvas e temperaturas mais elevadas podem comprometer a recuperação das pastagens durante a transição seca-águas.
Além dos efeitos sobre o ganho de peso e o ritmo de terminação, há um ponto específico importante para os sistemas de cria: a condição corporal das fêmeas. O período entre maio e outubro é estratégico para a preparação das matrizes que entrarão na estação reprodutiva. Caso a seca se prolongue, as pastagens percam qualidade ou o custo da suplementação aumente, a recuperação do escore corporal das vacas pode ser comprometida, afetando fertilidade, taxa de prenhez e desempenho reprodutivo do ciclo seguinte.
Do ponto de vista da oferta, o efeito pode ocorrer em duas direções. No curto prazo, a piora das condições de pasto pode estimular a antecipação da venda de animais, principalmente quando o produtor busca evitar perda de peso ou reduzir pressão sobre as áreas. Por outro lado, se os custos de suplementação e reposição se mantiverem elevados, a decisão de retenção pode se tornar mais difícil, limitando a recomposição futura da oferta.
No momento atual, esse ponto merece atenção porque os preços do boi gordo seguem em patamar elevado. Em 8 de junho de 2026, o Indicador do Boi Gordo CEPEA/ESALQ estava em R$ 353,15/@, com alta de 0,99% no mês, embora maio tenha mostrado alguma pressão negativa nos preços. Isso sugere que o mercado já opera em ambiente sensível, no qual alterações climáticas que afetem retenção, descarte ou ritmo de terminação podem ampliar a volatilidade da arroba.
6. Pecuária leiteira
Na pecuária leiteira, o impacto do El Niño tende a aparecer de forma combinada sobre produção de volumosos, custo do concentrado e conforto térmico dos animais. Sistemas mais dependentes de pastagens podem sofrer com atraso na rebrota e queda na qualidade das forrageiras, enquanto sistemas mais intensivos ficam mais expostos ao custo de milho, farelo de soja, silagem e energia.
Em períodos de calor e maior irregularidade hídrica, as vacas podem reduzir consumo de matéria seca, apresentar queda de produção e pior desempenho reprodutivo. Além disso, cresce a necessidade de estratégias de resfriamento, como sombra, ventilação, aspersão e maior disponibilidade de água. Isso eleva custos e pode pressionar margens, especialmente em sistemas com menor infraestrutura de ambiência.
No Sul, a maior umidade pode favorecer pastagens de inverno e produção de forragem em alguns momentos, mas também aumenta o risco de lama, mastite, problemas de casco, perdas de qualidade da silagem e dificuldades logísticas. No Sudeste e Centro-Oeste, o principal risco é a combinação entre calor, baixa umidade, atraso das chuvas e maior dependência de concentrado. No Nordeste, os efeitos podem aparecer na disponibilidade de palma, silagem, feno, capim de corte, água para dessedentação e custo de ração.
No momento atual, a pecuária leiteira já entra nesse cenário com custos pressionados. Segundo o Cepea, o preço do leite ao produtor subiu no primeiro trimestre de 2026, mas ainda estava abaixo do nível observado no mesmo período de 2025 em termos reais; ao mesmo tempo, o Custo Operacional Efetivo subiu em abril pelo quarto mês consecutivo, influenciado por nutrição, sanidade e operações mecanizadas. Assim, se o El Niño aumentar a necessidade de concentrado, resfriamento ou uso antecipado de volumosos, o efeito pode ser mais forte sobre margem do que necessariamente sobre volume imediato de produção.
7. Ovinos e caprinos
Na caprinovinocultura, o recorte regional é essencial. O Nordeste concentra a maior parte dos rebanhos de caprinos e ovinos do país, com sistemas frequentemente baseados em estratégias de convivência com o semiárido, uso de pastagens nativas, cultivares mais tolerantes à seca, palma forrageira, resíduos agrícolas e suplementação estratégica.
Em um cenário de El Niño, o principal risco para esses sistemas é a redução da disponibilidade de água e forragem. Caso o período seco se prolongue ou as chuvas se tornem mais irregulares, produtores podem ser levados a antecipar vendas, reduzir lotação, aumentar compras de ração ou consumir mais rapidamente reservas estratégicas. Isso pode pressionar margens e alterar a oferta regional de animais para abate.
No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, a ovinocultura tem uma dinâmica diferente, mais associada a sistemas de campo nativo, produção de carne, lã e integração com bovinos. Nessa região, o El Niño pode trazer risco oposto ao observado no semiárido: excesso de chuva, encharcamento de áreas, piora das condições de manejo, aumento de problemas sanitários e perdas de qualidade em forragens conservadas. Portanto, enquanto no Nordeste o ponto crítico é a escassez hídrica, no Sul o risco maior pode estar no excesso de umidade e nos efeitos sobre sanidade e manejo.
A questão sanitária também merece atenção. Estresse térmico, restrição alimentar e concentração de animais em áreas com acesso limitado à água podem aumentar vulnerabilidade a doenças, parasitoses e mortalidade de cordeiros e cabritos. Em sistemas leiteiros caprinos, a redução da qualidade da dieta pode afetar produção, reprodução e regularidade de fornecimento.
8. Suínos e aves
Em suínos e aves, os efeitos do El Niño são diferentes daqueles observados em cadeias baseadas em pastagens. O impacto direto sobre o campo é menor; o ponto central está no custo da ração, na ambiência, na energia elétrica e na logística. Milho e farelo de soja são componentes estruturais da alimentação dessas cadeias, de modo que qualquer volatilidade nos grãos pode se traduzir rapidamente em pressão sobre custos.
Nas aves de corte, ondas de calor podem reduzir consumo de ração, piorar conversão alimentar, elevar mortalidade e aumentar a necessidade de ventilação, nebulização e controle de ambiência. Na avicultura de postura, o impacto pode ser ainda mais sensível: temperaturas elevadas podem reduzir taxa de postura, afetar qualidade dos ovos, aumentar mortalidade e elevar o consumo de energia elétrica nas granjas.
Na suinocultura, o estresse térmico pode comprometer ganho de peso, consumo alimentar, fertilidade, desempenho reprodutivo de matrizes e reprodutores e resultados em fases sensíveis, como maternidade e creche. Portanto, mesmo que a oferta de grãos seja suficiente, a margem pode ser comprimida pela combinação entre ração, energia, perdas de desempenho e maior necessidade de manejo ambiental.
No momento atual, esse alerta é relevante porque o poder de compra do suinocultor paulista frente ao milho e ao farelo de soja estava em queda em maio de 2026. Segundo o Cepea, até 19 de maio, o poder de compra em relação ao milho registrava o oitavo mês consecutivo de baixa e era o pior desde fevereiro de 2023. Isso indica que qualquer novo choque de custo, mesmo moderado, pode encontrar produtores já pressionados.
9. Implicações de mercado
O possível El Niño de 2026 tende a adicionar um componente de incerteza às cadeias pecuárias brasileiras. Esse efeito pode aparecer antes mesmo de impactos produtivos concretos, porque agentes de mercado ajustam expectativas, preços futuros, estoques e estratégias de compra com base no risco climático.
Para bovinos de corte, o principal ponto de atenção é a interação entre clima, condição das pastagens e decisões de retenção ou descarte. Se a recuperação das pastagens atrasar no Centro-Oeste, Norte e parte do Sudeste, pode haver aumento de vendas no curto prazo, sobretudo de animais em sistemas menos suplementados. Ao mesmo tempo, custos mais altos de alimentação podem limitar a intenção de retenção, afetando a oferta futura. Em um mercado com arroba já em patamar elevado, essa combinação pode ampliar a volatilidade dos preços.
Para o leite, o risco está menos em uma quebra imediata da produção nacional e mais em uma pressão adicional sobre margens. O setor já vem de aumento do preço ao produtor, mas também de elevação dos custos operacionais. Caso o El Niño eleve gastos com concentrado, volumosos, energia e resfriamento, parte dos produtores pode reduzir investimentos produtivos ou ajustar dietas, limitando a recuperação da oferta e dando sustentação aos preços ao produtor.
Para ovinos e caprinos, especialmente no Nordeste, o impacto de mercado tende a depender da disponibilidade de água e reserva forrageira. Em regiões com maior escassez, pode haver antecipação de vendas e aumento temporário da oferta de animais. Porém, se a seca comprometer matrizes, cordeiros e cabritos, o efeito posterior pode ser de menor capacidade de recomposição dos rebanhos e oferta mais ajustada.
Para aves e suínos, o ponto central é o custo. O mercado de proteína animal intensiva é altamente sensível à relação entre preço do animal, milho, farelo de soja e energia. Em abril de 2026, o IPPA/Cepea já mostrava movimentos distintos dentro da pecuária: alta para boi gordo, leite e ovos, mas queda para frango vivo e suíno vivo. Esse tipo de divergência reforça que o El Niño não deve afetar todas as cadeias da mesma forma; em aves e suínos, o risco principal é a compressão de margens caso custos subam mais rapidamente que os preços recebidos pelos produtores.
A principal conclusão é que o possível El Niño de 2026 não deve ser analisado como uma ameaça homogênea à produção pecuária nacional. Ele tende a reorganizar riscos por região e por cadeia. O Sul pode enfrentar excesso de chuva; o Centro-Oeste e o Sudeste podem sofrer com irregularidade na retomada das pastagens; o Norte e o Nordeste ficam mais expostos ao déficit hídrico; e aves e suínos reagem sobretudo pela via dos grãos, da energia e da ambiência.
Portanto, o cenário atual ainda não permite afirmar que haverá uma quebra ampla da produção pecuária brasileira. Mas ele já justifica maior atenção a estoques de forragem, compra antecipada de insumos, monitoramento de preços de milho e farelo, planejamento hídrico e estratégias regionais de manejo. O risco central não é apenas produzir menos, mas produzir com maior custo, maior instabilidade e menor previsibilidade ao longo do segundo semestre.
[1] Segundo o IBGE, em 2024 o Brasil tinha 13,3 milhões de caprinos e 21,9 milhões de ovinos, com o Nordeste respondendo por 96,3% dos caprinos e 73,5% dos ovinos.
Fonte: CEPEA
Autores:
Natália Grigol – Pesquisadora de Pecuária do Cepea
Giovanni Penazzi – Pesquisador de Pecuária do Cepea
Thiago Carvalho – Pesquisador de Pecuária do Cepea
cepea@usp.br
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Controle biológico da mosca-da-haste em soja – MAIS SOJA

Considerada uma praga “silenciosa”, com difícil diagnose e crescente expansão em lavoura de soja, a mosca-da-haste da soja (Melanagromyza sojae), pode causar danos nos diferentes estádios do desenvolvimento da cultura. A praga realiza postura endofítica próxima às nervuras de folíolos jovens da soja, e após a eclosão, as larvas minam os tecidos, migram pelas nervuras e pecíolos até o caule, onde se desenvolvem internamente alimentando-se da medula e deslocando-se principalmente para a parte inferior da planta, causando o dano característico da mosca-da-haste (Sosa-Gómez et al., 2023).
Figura 1. Plantas de soja com injúrias ocasionadas por Melanagromyza sojae: Murcha das folhas opostas (A), Brotos mumificados (B), pupa e orifício de saída na haste principal (C), haste danificada (D), folíolo seco (E), pupa e orifício de saída no pecíolo (F), nervura danificada na folha oposto (G), puncturas de alimentação dos adultos (H).
Embora a mosca-da-haste da soja possa ocorrer durante todo ciclo da cultura, as perdas mais significativas são observadas quando as plantas são atacadas nos estádios iniciais do desenvolvimento, sendo que o período crítico para infestação se dá quatro a cinco semanas após a emergência das plantas (Ramon, 2023). A praga é nativa da Ásia, mas estabeleceu-se com sucesso no Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia (Pozebon et al., 2021). Embora sua ocorrência no Brasil seja relatada desde a década de 1980, o primeiro registro de M. sojae no Cerrado Brasileiro data de 2018 (Czepak et al., 2018).
Figura 2. Larva da mosca-da-haste-da-soja (Melanagromyza sojae) em soja voluntária, em área do Cerrado brasileiro.

Com relação aos impactos da praga, pesquisas demonstram que a cada ponto percentual da haste injuriada, há a redução de 0,18 cm na estatura e de 0,11 g planta-1 na produtividade de grão (Ramon, 2023). Nesse contexto, considerando a expansão da praga para regiões de relevância econômica na produção de soja, os impactos sobre a produtividade e a dificuldade de identificação dos sintomas, a adoção de estratégias integradas torna-se essencial para o manejo eficiente da mosca-da-haste da soja.
Figura 3. Adulto da mosca-da-haste-da-soja (Melanagromyza sojae).

Ainda que o controle químico concentre a base do manejo da mosca-da-haste da soja, há uma limitada oferta de inseticidas químicos com registro para o controle da praga na soja. Atualmente, apenas três inseticidas baseados no princípio ativo Clotianidina (Neonicotinóide), apresentam registro para o controle da Melanagromyza sojae em soja (Agrofit, 2026). Esse cenário torna evidente a necessidade de medidas integradas para o controle da mosca-da-haste da soja, dentre elas, o controle biológico.
Controle biológico da mosca-da-haste da soja
Até então, há poucas informações relacionadas ao controle biológico da mosca-da-haste da soja, com uma oferta limitada de produtos comerciais destinados a esse manejo. Sabe-se que além do uso de cultivares com resistência genética e do controle químico com inseticidas, o biocontrole da mosca-da-haste da soja com parasitoides constitui uma das principais estratégias para o manejo da praga (Pozebon et al., 2021). O parasitismo nas fases larval e de pupa da praga contribui para reduzir o nível populacional da mosca-da-haste da soja em áreas agrícolas, no entanto, com resultados variáveis de eficácia de acordo com a espécie parasitoide e condições ambientais (Talekar & Chen, 1986).
Dentre os parasitoides mais conhecidos utilizados no biocontrole da mosca-da-haste da soja, destacam-se a vespa Syntomopus parisii (Figura 4). Conforme destacado por Beche et al. (2018), essa espécie de vespa é responsável por altas taxas de parasitismo da mosca-da-haste Melanagromyza sojae e sua presença foi confirmada pelos autores, parasitando pupas da mosca-da-haste da soja no Brasil e no Paraguai.
Figura 4. Macho (esquerda) e fêmea (direita) de Syntomopus parisii (Hymenoptera: Pteromalidae).

De acordo com Beche et al. (2018), o elevado número de pupas de M. sojae parasitadas, associado à baixa taxa de emergência de adultos observada nas plantas avaliadas, indica que o controle biológico natural desempenha papel importante na supressão da praga, contribuindo para evitar surtos generalizados da mosca-da-haste em lavouras de soja. Tal fato evidencia a aptidão das vespas Syntomopus parisii como agentes para o controle biológico da mosca-da-haste da soja.
Além dos parasitoides das larvas e pupas das mosca-da-haste da soja, há consenso que fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae podem atuar no biocontrole da mosca-há-haste da soja, apresentando ação larvicida a pupicida e, portanto, sendo agentes promissores para o biocontrole da praga (Forgiarini, 2023). Contudo, vale destacar que ação desses fungos no parasitismo e controle da mosca-da-haste da soja é altamente dependente das condições ambientais e climáticas, o que torna altamente condicionável a eficácia do controle.
Além dos fungos supracitados, há relatos na literatura da infecção de adultos de Melanagromyza sojae pelo fungo entomopatogênico Ophiocordyceps dipterigena, o qual também apresenta potencial como agente de controle biológico da mosca-da-haste da soja (Salgado-Neto et al., 2018). Entretanto, ainda são escassas as informações relacionadas à eficácia e à eficiência desses bioagentes no manejo da praga, tornando necessários estudos que ampliem o conhecimento sobre sua atuação e possibilitem novas perspectivas para o controle biológico. Embora diferentes agentes de controle sejam conhecidos, a limitada disponibilidade de informações sobre sua aplicação em escala comercial reforça a necessidade de pesquisas voltadas ao desenvolvimento de estratégias práticas e viáveis para o manejo da mosca-da-haste da soja.
Referências:
AGROFIT. CONSULTA ABERTA. Ministério da Agricultura e Pecuária, 2026. Disponível em: < https://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons >, acesso em: 15/06/2026.
BECHE, M. et al. OCCURRENCE OF Syntomopus parisii (Hymenoptera: Pteromalidae) PARASITIZING Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) IN BRAZIL AND PARAGUAY. Genetics and Molecular Research, 2018. Disponível em: < https://geneticsmr.com/wp-content/uploads/2024/03/gmr18074.pdf >, acesso em: 15/06/2026.
CZEPAK, C. et al. FIRST RECORD OF THE SOYBEAN STEM FLY Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) IN THE BRAZILIAN SAVANNAH. Pesq. Agropec. Trop., 2018. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/pat/a/SS3XwW9RZ7DKXjVdML4HrRy/?lang=en >, acesso em: 15/06/2026.
FORGIARINI, S. E. CONTROLE DA MOSCA-DA-HASTE [Melanagromyza sojae (Zehntner, 1900) (DIPTERA: AGROMYZIDAE)] NA SOJA COM INSETICIDAS VIA TRATAMENTO DE SEMENTES. Universidade Federal de Santa Maria, Dissertação de Mestrado, 2023. Disponível em: < https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/31818/DIS_PPGAGRONOMIA_2023_FORGIARINI_SARAH.pdf?sequence=1&isAllowed=y >, acesso em: 15/06/2026.
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Foto de capa: Lucas Vitorio.

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