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O fruto da Mata Atlântica que transformou o norte capixaba

Tem perfume no ar no norte do Espírito Santo. E ele nasce no meio da restinga, entre o vento do litoral, a areia clara e a vegetação nativa da Mata Atlântica. Pequena, vermelha e aromática, a pimenta-rosa deixou de ser apenas um fruto encontrado espontaneamente no campo para se transformar numa das cadeias produtivas mais promissoras do agro capixaba.
Hoje, ela está presente em pratos sofisticados, drinks, óleos essenciais e perfumes internacionais. Mas a história da pimenta-rosa capixaba começou de forma muito mais simples — e quase por acaso.
Na Fazenda Lagoa Seca, em São Mateus, uma conversa de família mudaria o destino da aroeira no Espírito Santo. No fim dos anos 1980, um pequeno vidro com especiarias chamou atenção do avô da produtora rural Ana Paula Martins Machado.
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Sentado à cabeceira da mesa da fazenda, ele olhou para aquele produto vindo do exterior e desconfiou: “Acho que eu conheço isso aqui. Isso aqui é a aroeira”, disse.
Na época, pouca gente imaginava que aquela árvore espalhada pelas áreas de restinga escondia uma especiaria valorizada internacionalmente.
“Isso aqui era praga de mato, praga de pasto, e ninguém dava valor”, relembra Ana Paula.
A partir dali, começaram as primeiras coletas na região do Sapê do Norte. O material foi enviado para a Europa e veio a confirmação: o Espírito Santo possuía uma pimenta-rosa comparável às mais valorizadas do mundo.
De onde vem a pimenta-rosa
Apesar do nome popular, a pimenta-rosa não é exatamente uma pimenta. Ela é o fruto da aroeira — árvore nativa da Mata Atlântica e muito comum nas áreas de restinga do litoral brasileiro.
Segundo a coordenadora de Recursos Naturais do Incaper, Fabiana Gomes Ruas, a planta encontrou no norte capixaba um ambiente praticamente perfeito para se desenvolver. “Ela encontrou aqui as condições ideais de temperatura, vento e solo. Produz aqui como em nenhum outro lugar”, conta.
A pesquisadora afirma que São Mateus possui uma combinação rara de fatores ambientais: solo arenoso, umidade presente no subsolo e clima quente, que favorece tanto a produtividade quanto a concentração dos aromas.
“A gente fala pimenta-rosa, mas na realidade ela é uma fruteira, o fruto da árvore aroeira, nativa da Mata Atlântica”, diz.
Fabiana também destaca que a ligação emocional com a planta é quase inevitável para quem trabalha com ela. “Quem é mordido pelo mosquitinho da pimenta-rosa acaba se viciando nisso”, brinca.
O aroma característico da planta acabou se tornando um dos maiores diferenciais da cadeia produtiva capixaba. “Você entra num galpão de beneficiamento ou numa lavoura de pimenta-rosa e sente aquele cheiro. Aquilo transmite bem-estar”, conta.
O perfume escondido na floresta
Foi justamente esse aroma que chamou atenção da indústria internacional. A pimenta rosa
capixaba começou a ganhar espaço primeiro na gastronomia. Depois vieram os óleos
essenciais, os cosméticos e os perfumes.
Segundo pesquisadores, o fruto possui notas aromáticas suaves, doces e frutadas, além de
propriedades antioxidantes e potencial medicinal.
“Ela lembra manga verde, aquele cheiro que toma conta do ambiente”, diz Fabiana.
A ligação com a perfumaria cresceu tanto que a produção capixaba passou a abastecer grandes marcas do setor. O momento mais simbólico dessa trajetória aconteceu em 2024. Depois de cinco anos de pesquisas, análises e acompanhamento técnico, Ana Paula Martins foi anunciada como fornecedora de pimenta rosa para uma linha de perfumes da Natura.
“Eles falaram assim: você não pode contar pra ninguém”, lembra Ana Paula.
O anúncio aconteceu durante um festival da própria pimenta-rosa. “Quando eles falaram meu nome, eu tomei um susto e comecei a chorar”, revelou.
Segundo ela, o reconhecimento chegou num momento muito delicado da vida pessoal. “Foi
uma satisfação muito grande saber que de onde surgiu a pimenta-rosa no Espírito Santo hoje nós somos referência para a Natura e para o mundo.”
Protagonismo feminino
Transformar uma planta extrativista em negócio exigiu coragem. E persistência. Administradora de formação, Ana Paula deixou a indústria para entrar na agricultura praticamente sem experiência no campo. “Eu entrei na agricultura meio que no ‘vai ou vai’”, conta.
No começo, quase não existiam informações técnicas sobre cultivo comercial da pimenta-rosa. Ela testou espaçamentos, podas, manejo e produtividade praticamente no dia a dia da
fazenda. “No primeiro ano produziu pouquíssimo”, relembra.
O crescimento da demanda trouxe outro problema: a falta de mão de obra. Foi aí que surgiu
uma das soluções mais curiosas da propriedade.
“No desespero eu falei: vou criar uma máquina.”
A produtora desenvolveu um equipamento próprio para ajudar na colheita da pimenta-rosa. Hoje, outros produtores já utilizam sistemas semelhantes. Além da inovação, Ana Paula também enfrentou os desafios de empreender num ambiente predominantemente
masculino.
“Veio uma mulher que não entendia nada de agricultura começar a produzir bem e virar referência.”
Ela resume a própria trajetória de forma simbólica: “A pimenta-rosa é o meu rubi.”
Pesquisa transformou extrativismo em negócio
Durante muitos anos, a coleta da pimenta-rosa acontecia apenas de forma extrativista. As comunidades colhiam os frutos diretamente da vegetação nativa, sem manejo técnico ou planejamento produtivo.
Isso começou a mudar a partir dos estudos conduzidos pelo Incaper ainda nos anos 2000. A pesquisa ajudou a definir manejo, poda, espaçamento, seleção genética e produtividade da cultura. “Hoje nós já temos materiais clonais e excelente produtividade”, afirma Fabiana.
Segundo ela, o desenvolvimento técnico foi essencial para atender a um mercado cada vez mais exigente. “A indústria precisa de quantidade e qualidade.”
Atualmente, produtores conseguem colher já no primeiro ano de plantio, com crescimento acelerado da produtividade nos anos seguintes. Além disso, a pimenta-rosa conquistou em 2023 a indicação geográfica (IG) de São Mateus, reconhecimento que fortalece a identidade territorial e agrega valor ao produto capixaba.
“Você consegue comercializar um produto com IG até 30% mais caro”, relata Fabiana.
A floresta que produz
Mas talvez o aspecto mais interessante da cadeia da pimenta-rosa esteja na ligação entre
produção e conservação ambiental. Na Reserva Natural Vale, em Linhares, a aroeira é utilizada em projetos de restauração ecológica e sistemas agroflorestais. A ideia é unir espécies nativas da Mata Atlântica com geração de renda para comunidades tradicionais.
“A Reserva Natural Vale é um laboratório a céu aberto”, diz a pesquisadora ligada ao projeto.
Segundo ela, a aroeira possui um papel estratégico na recuperação ambiental. “A aroeira cresce rápido, ajuda a recuperar áreas e serve de alimento para a fauna.”
Ao mesmo tempo, a planta cria oportunidades econômicas para produtores da região. “Ela tem potencial alimentício, medicinal e econômico.”
A espécie também já faz parte da cultura tradicional do litoral norte capixaba, principalmente
em comunidades extrativistas. “A aroeira pode conviver muito bem com a floresta de pé”, resume Fabiana.
Parte da produção cultivada dentro da Reserva Vale é beneficiada em parceria com produtores da região, fortalecendo um modelo que une conservação, pesquisa e empreendedorismo rural.
O futuro da pimenta-rosa
Hoje, a pimenta produzida no Espírito Santo já chega à Europa e aos Estados Unidos, e começa a avançar em mercados asiáticos. Mas o setor acredita que esse movimento ainda está só começando.
“Nós ainda temos muito o que caminhar”, afirma Fabiana Ruas.
Novos mercados ligados a bioinsumos, cosméticos, bebidas, fitoterápicos e produtos naturais seguem surgindo. Enquanto isso, o fruto vermelho da restinga continua espalhando aroma e oportunidades pelo Espírito Santo.
Da Mata Atlântica capixaba para cozinhas sofisticadas, perfumes internacionais e projetos de restauração ambiental, a pimenta rosa deixou de ser invisível: virou identidade, virou desenvolvimento, virou símbolo de um território inteiro.
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Mapa lança campanha nacional de promoção da produção orgânica

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) lançou, nesta terça-feira (26), em Brasília, a XXII Campanha Nacional de Promoção do Produto Orgânico 2026. Com o tema “Saúde no Campo e na Mesa”, a iniciativa busca ampliar a divulgação da produção orgânica e agroecológica e reforçar a articulação entre governo federal, sociedade civil e redes de produtores. O lançamento reuniu autoridades, representantes institucionais e agricultores ligados ao segmento.
Segundo o Mapa, a campanha de 2026 tem como foco conscientizar a sociedade sobre os sistemas orgânicos de produção, valorizar agricultores do setor, incentivar o consumo de alimentos produzidos sob esse modelo e ampliar a integração entre órgãos públicos e instâncias participativas.
Durante o evento, o secretário adjunto de Desenvolvimento Rural do Mapa, João Crescêncio, afirmou que a campanha está associada à promoção de práticas agrícolas sustentáveis e à preservação de recursos como solo, água e biodiversidade. Já a diretora de Planejamento e Estratégia do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária da Secretaria de Defesa Agropecuária, Judi Nóbrega, disse que a articulação institucional também busca fortalecer fiscalização e mecanismos de controle da produção orgânica.
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Atualmente, a pauta da produção orgânica no ministério está dividida em duas frentes. A Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) atua nas ações de fiscalização, enquanto a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) responde pelo fomento e pela promoção da produção orgânica e agroecológica.
A edição de 2026 também foi apresentada como instrumento de apoio à implementação do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo). Representantes da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO) e da Comissão Nacional da Produção Orgânica defenderam a atualização de instrumentos normativos e a continuidade das políticas para o segmento.
No evento, produtores relataram avanços na organização local da atividade. Um dos casos citados foi o de uma Organização de Controle Social (OCS) do Amapá, declarada em 2023, além da entrega de cadastros a produtores da OCS Pitaia Luz, do Distrito Federal. O material divulgado pelo ministério, no entanto, não informou metas quantitativas, orçamento ou prazos operacionais da campanha.
Para o setor, a campanha reforça o ambiente institucional da produção orgânica, mas os efeitos práticos sobre expansão da oferta, certificação e comercialização dependerão da execução das políticas públicas, da atualização regulatória e do alcance das ações de fiscalização e fomento já em curso.
Fonte: gov.br
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Ministro da Agricultura confessa ainda não ter data para anúncio do Plano Safra 26/27

O ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), André de Paula, disse nesta terça-feira (26) que ainda não há uma data específica para o anúncio do Plano Safra 2026/27, mas que espera ter clareza das cifras que serão oferecidas até a metade do próximo mês.
A declaração contraria fala proferida em 4 de maio, quando o chefe da pasta se reuniu com líderes do agro na sede da Sociedade Rural Brasileira (SRB), em São Paulo, e ressaltou que a perspectiva era de que o anúncio seria feito no início de junho.
“Estamos alinhando questões que precisam envolver não apenas o Mapa, mas vários ministérios de forma transversal, juntamente com o Congresso Nacional”, disse.
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Segundo de Paula, a expectativa do governo é de aumento de recursos ante o anunciado no Planto Safra do ano passado, de R$ 516 bilhões entre agricultura familiar e empresarial. “Nosso desafio é o de construir a menor taxa de juros possível para que caiba no bolso do produtor rural”, enfatizou.
Por fim, o ministro afirmou que nas conversas com outras pastas e com comissões no Congresso, o Mapa tem enfatizado a importância do valor do próximo plano, da questão do seguro e dos juros. “Queremos um Plano Safra à altura das expectativas e das dificuldades encontradas no campo.”
Em 2025, o Plano Safra foi divulgado em 1º de julho, data limite para o início da vigência. Em valores, o setor agropecuário espera um montante de pelo menos R$ 623 bilhões para o próximo programa, conforme documento entregue pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) ao governo em maio.
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No início da colheita, milho verão já enfrenta desafio de rentabilidade em MT

A colheita do milho verão começou em Jaciara, no sul de Mato Grosso, em meio a um cenário de preocupação no campo. Apesar do bom desenvolvimento das lavouras e da expectativa de produtividade positiva, produtores já enfrentam dificuldades quando o assunto é rentabilidade da cultura.
Os baixos preços oferecidos pelo cereal e o aumento dos custos de produção acendem o alerta tanto para o milho verão quanto para a segunda safra. A incerteza sobre a formação dos preços e o impacto nas margens de lucro já fazem produtores repensarem o planejamento para a próxima temporada.
Enquanto grande parte das áreas cultivadas na região ainda acompanha o desenvolvimento da segunda safra, as colheitadeiras já avançam sobre os milharais em propriedades que apostaram no milho verão. Em uma fazenda de Jaciara, cerca de 1,5 mil hectares começaram a ser colhidos nos últimos dias.
O clima favorável ao longo do ciclo ajudou no desempenho das lavouras. Mesmo com o frio registrado recentemente atrasando parte da operação, a expectativa é repetir os bons resultados da safra passada. O agricultor Murilo Degasperi Fritsch afirma que a lavoura apresentou bom desenvolvimento ao longo da safra.
“Apesar desse frio neste final de semana ter dado uma atrasada aqui na colheita, o clima ajudou bastante desde o começo. Tivemos bastante chuva, a lavoura se desenvolveu bem. Está bonito, está um resultado satisfatório, mesmo padrão do ano passado onde tivemos uma excelente produção”.
Boa produtividade, mas margem apertada
O problema, segundo ele, aparece no momento da comercialização. A expectativa criada a partir dos preços registrados no ano passado acabou não se confirmando nesta temporada.
“Ano passado, essas épocas aqui de abril e maio, o milho chegou a R$ 80 a saca aqui na região de Jaciara, e aí pegamos essa área justamente para plantar o milho verão na expectativa de vender milho nesse valor e esse ano tivemos essa surpresa do milho na faixa dos R$ 42, R$ 43. Não reage, valor ruim e não tem comprador”, relata ao projeto Mais Milho
Murilo afirma que o custo de implantação do milho verão pesa ainda mais no resultado final da atividade. “Esse milho verão é em um custo mais elevado, foram quase R$ 5 mil por hectare nessa área, e a rentabilidade no final ficou comprometida. Milho há R$ 40 não paga a conta. Então para a próxima safra já desmotiva plantar o milho verão”.
Safrinha também preocupa produtores
De acordo com informações do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), o milho em Mato Grosso na safra 2025/26 ocupa cerca de 7,39 milhões de hectares. A segunda safra segue como a principal responsável pela área cultivada no estado, enquanto o milho verão ocupa áreas pontuais e tem participação reduzida na produção estadual.
Entre os produtores que cultivam a segunda safra, a preocupação também é grande. O cenário econômico e os preços atuais do cereal aumentam a dificuldade para fechar as contas no campo.
O produtor rural Everton Jorge Schinoca afirma que os custos de produção seguem pressionando a atividade. “O custo dos insumos está de assustar. Tanto de insumos, quanto manutenção de máquinas, o que a gente está fazendo é trabalhar para não ficar parado, mas dentro disso tudo o que a gente está vendo é a dificuldade de fechar as contas”, afirma à reportagem do Canal Rural Mato Grosso
Conforme ele, a presença das usinas de etanol de milho ajuda a sustentar minimamente o mercado regional. “A gente teve uma baixa no milho e tem uma sorte danada de ter essas indústrias de etanol de milho. Se não fossem essas indústrias o milho hoje valeria R$ 12”.
Everton afirma que o custo para implantação da próxima safra preocupa cada vez mais os produtores. “Hoje está entre 85 e 95 sacas de milho por hectare para você fazer o plantio de milho para o ano que vem e aí como é que faz?”.
Clima ainda influencia resultado da safra
Além do mercado, o clima também segue no radar dos agricultores neste encerramento de ciclo da safrinha. Em Jaciara, áreas vinham sendo castigadas pela falta de chuva nas últimas semanas.
Na propriedade da família Schinoca foram cultivados 1,4 mil hectares de milho segunda safra. As chuvas recentes ajudaram parte das lavouras, mas a expectativa inicial de produtividade já sofreu redução.
“Tivemos algumas chuvas agora na semana passada. Por mais que tenha chovido, esse período de seca que veio e estava no limite prejudicou a produtividade. Então, a gente imaginava colher 90, 100 sacas na safrinha, mas vamos cair umas 10%.”
O produtor relata que algumas áreas vizinhas enfrentam situação ainda mais delicada. “Nós fomos abençoados com isso, mas temos vizinhos que infelizmente não foram agraciados com essas chuvas. Tem gente que está perdendo muita lavoura, até por plantar um pouco fora da janela”.
Mesmo com parte das perdas já contabilizadas, a expectativa agora é de que a umidade no solo se mantenha até o encerramento da colheita. “A gente acreditava que a chuva iria se prolongar mais, mas acabou não se confirmando”.
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