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Desastre de Mariana desequilibra população de abelhas e ameaça a polinização na região

O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, causou graves impactos ambientais na bacia do Rio Doce, e os efeitos do rejeito da mineração sobre os polinizadores revelaram um cenário ecologicamente complexo.
Ao investigar as áreas degradadas, pesquisadores constataram que os locais inundados pelo rejeito registraram quantidade de abelhas superior à encontrada em matas preservadas, mas esse aumento numérico reflete um forte desequilíbrio do ecossistema.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv), da UFMG, Universidade de Oxford, Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Instituto Nacional de Biodiversidade, do Equador, e Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). O grupo avaliou áreas cobertas por rejeitos e locais de referência para entender os efeitos da degradação.
Durante os trabalhos de campo, as equipes de pesquisadores coletaram 10.721 indivíduos pertencentes a 88 espécies e cinco famílias diferentes de abelhas. A média de espécies encontradas por localidade impactada foi de 14, número estatisticamente semelhante às 12 espécies registradas nas matas de referência, áreas preservadas.
Quantidade não é qualidade
Apesar da diversidade de espécies ser parecida, a abundância total dos insetos chamou a atenção imediata dos pesquisadores envolvidos no projeto. Foram identificados, em média, 197 indivíduos por ponto de coleta nas áreas devastadas pelo rejeito de minério. Nas matas bem preservadas, esse número ficou na casa de 160 abelhas por ponto amostrado.
Dar sentido a esses números exige um olhar mais aprofundado. “Entender a estrutura da comunidade de polinizadores, no caso as abelhas, é essencial para políticas públicas de restauração ambiental”, destaca a autora principal do estudo, Kamilla Castelan. Ela destaca que o rigoroso levantamento de campo conecta a sociedade à real e assustadora escala dos danos causados à biodiversidade.
Abelhas generalistas x especialistas
Com base nessa análise, os cientistas alertam que a abundância nas áreas afetadas está associada à predominância de abelhas classificadas como generalistas.
Esses polinizadores comuns têm dieta ampla, não exigem plantas específicas e apresentam altíssima capacidade de adaptação. Capazes de tolerar o ambiente degradado, eles dominam a região de forma oportunista e criam uma falsa impressão de saúde ecossistêmica.
Por outro lado, o desastre causou o sumiço das espécies definidas pelos biólogos como especialistas. Por terem maior especialização trófica, essas abelhas dependem vitalmente de plantas específicas para sobreviver. Como o rejeito destruiu sua fonte exata de alimento, esses insetos ficaram restritos apenas às matas preservadas, gerando enorme perda de interações ecológicas.
Comportamento na seca
Além das mudanças na composição de espécies, outro achado profundamente contraintuitivo revelado pela pesquisa diz respeito à influência direta das estações do ano. A maior quantidade de abelhas nas áreas atingidas foi registrada justamente durante o longo período seco, contabilizando 4.165 indivíduos. Já na época chuvosa, foram encontradas apenas 1.754 abelhas nesses mesmos locais amostrados.
Castelan detalha que as rigorosas amostragens ocorreram “por método de armadilhas durante as estações secas e chuvosa”, e o minucioso trabalho de monitoramento da fauna já avança para novas etapas.
“Queremos saber se o ambiente seleciona ou exclui abelhas com determinadas características e se a presença do rejeito é uma barreira para a ocorrência de alguma espécie baseada em algum atributo funcional”, explica a pesquisadora.
Esses dados chamam a atenção porque, em ambientes tropicais, o padrão ecológico comum é que a diversidade atinja sempre o seu nível de pico no período volumoso de chuvas.
A inversão observada agora sugere que a extrema falta de flores na seca força as abelhas a voarem para mais longe, concentrando-se nos refúgios florestais. O tempo seco também impede que os ninhos de solo acabem alagados.
Refúgios florestais e solo
Independentemente da estação do ano, o grande e vital trunfo ecológico para a inesperada resiliência das abelhas na região devastada é a cobertura florestal remanescente. O levantamento constatou que a abundância cresce de forma diretamente proporcional à presença de fragmentos de floresta nativa conservada num raio de até 500 metros.
Funcionando como essenciais “ilhas verdes”, essas matas ciliares incrivelmente preservadas atuam como refúgios de salvação da vida silvestre no meio da paisagem severamente alterada. Elas fornecem tanto os recursos florais para alimentação contínua quanto as cavidades nas árvores adultas onde as abelhas constroem os ninhos. Sem essas matas, a recolonização regional seria um processo impossível.
Mas, se as árvores oferecem abrigo, o cenário no chão é limitante. A textura do novo solo impôs limites drásticos e muitas vezes fatais para a sobrevivência das espécies que constroem seus ninhos na terra.
O rejeito depositado torna o chão da bacia extremamente compactado, o que impede o trabalho de escavação dos insetos. Solos argilosos e sem contaminação, por sua vez, são capazes de abrigá-los com sucesso.
Caminhos para a conservação
Diante dessa dependência dupla estrutural, a equipe do Biodiv propõe que a proteção dos raros remanescentes de floresta nativa se torne uma prioridade máxima de gestão. Para que o frágil ecossistema local possa se recuperar e florescer plenamente, é urgente garantir que esses fragmentos não sofram impactos adicionais, mantendo a função de pilar ecológico central.
No entendimento dos pesquisadores, os complexos esforços de recuperação ambiental na bacia do Rio Doce precisam ir muito além do simples plantio de árvores.
É fundamental aplicar técnicas que consigam restaurar as propriedades físicas originais do solo, descompactando a terra endurecida pelo minério, para viabilizar definitivamente o retorno dos polinizadores.
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Embrapa testa cereal que pode substituir trigo e transformar indústria de biscoitos

O triticale, um cruzamento entre trigo e centeio, ganhou aval da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para o uso na composição de produtos destinados à alimentação humana. Testes de panificação e confeitaria realizados pela empresa Vilma Alimentos (MG), parceira da Embrapa Trigo (RS), indicam a viabilidade de substituição da farinha de trigo pela farinha de triticale na composição, principalmente, de biscoitos.
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Segundo a pesquisadora da Embrapa Trigo, Jane Machado, a indústria de biscoitos deve ser um dos principais mercados para o triticale no Cerrado porque “o triticale garante a crocância e a firmeza dos biscoitos, permitindo eliminar o uso de aditivos químicos para atingir esses atributos”. Ela também destaca que os grãos de triticale, inteiros ou moídos, podem ser utilizados em cereais matinais e produtos dietéticos.
O triticale é um cereal de inverno, desenvolvido por meio do cruzamento do trigo com o centeio por melhoramento genético. O resultado foi a criação de uma planta com a qualidade do trigo e a rusticidade do centeio.
“Avaliamos a aplicação da farinha de triticale em 11 produtos. Os testes mostraram que é possível utilizá-la em seis deles, sendo que em dois foi possível substituir totalmente a farinha de trigo pela farinha de triticale sem perder qualidade”, conta Sérgio Gonçalves, diretor técnico da Vilma Alimentos.
A empresa elaborou uma tabela resumindo as conclusões dos testes práticos:
Imagem: Vilma Alimentos, agosto de 2026.
Na produção de biscoitos moldados, a substituição pode chegar a 100%, mantendo boa expansão e atributos similares ao padrão elaborado somente com farinha de trigo. Na panificação, a mistura indicada ficou em 50% de trigo e 50% de triticale, limitada à fabricação de pães de baixo crescimento.
No caso de biscoitos laminados doces (conhecidos no mercado como biscoito de maisena), os testes mostraram que é possível substituir até 30% da farinha de trigo por triticale, mantendo o padrão de textura, cor e sabor característicos dos produtos.
Mais de 40 anos de presença
Apesar dos testes práticos para produção industrial serem novos, o triticale começou a chegar às lavouras brasileiras na década de 1980, em razão dos primeiros trabalhos da Embrapa Trigo na adaptação das cultivares trazidas do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (Cimmyt), com sede no México.
Desde então, a cultura tem sido utilizada principalmente na Região Sul, como forragem na produção agropecuária ou como ração de suínos e aves. A primeira cultivar desenvolvida no Brasil é a BRS Minotauro, lançada pela Embrapa em 2005.
Atualmente, existem 24 cultivares de triticale cadastradas no Registro Nacional de Cultivares do Mapa, indicadas aos mais diversos usos. Em 2024, uma carga de 20 toneladas da cultivar de triticale BRS Saturno saiu do Rio Grande do Sul para ser avaliada no Cerrado Mineiro.
Os resultados iniciais mostraram que, na panificação, a farinha de triticale é mais escura e com menor força de glúten, exigindo mesclas com a farinha de trigo. Naquela ocasião, o triticale já se mostrou uma opção viável para uso na fabricação de biscoitos, massas para pizzas ou em misturas para bolo.
Na Fazenda Lagoa, em Carandaí, na Zona da Mata de Minas Gerais, foram conduzidos experimentos em oito hectares de triticale em 2026, um para cada cultivar disponível no mercado: BRS Piapara, BRS Saturno, BRS Surubim, BRS Tambaqui, BRS TL 51 e BRS Zênite (Embrapa e Fundação Meridional), além das cultivares IPR Aimoré e IPR Goitacá (IDR Paraná). A semeadura foi realizada em maio com colheita em setembro, sob irrigação.
Uma alternativa para o Brasil
No Brasil, que sempre enfrentou desafios na produção de trigo, o triticale apresenta uma possibilidade importante para a indústria nacional.
A média de produtividade do triticale no Cerrado varia de três a quatro toneladas por hectare em sistema irrigado, mas o rendimento em Carandaí superou as expectativas: “As parcelas de triticale chamaram a atenção dos produtores da região, mostrando excelente sanidade e com espigas bem formadas. O rendimento de grãos passou das seis toneladas por hectare”, avalia o engenheiro agrônomo Luiz Tarcísio Behm.
De acordo com Osmar Conte, pesquisador da Embrapa Trigo, o triticale também pode apresentar bom desempenho no cultivo de sequeiro: “O triticale tem boa tolerância à seca, com plantas de raízes profundas, bem adaptadas a solos ácidos e arenosos”, explica Conte, lembrando que nem todas as cultivares testadas são indicadas para produção de grãos no Cerrado. Após a colheita serão realizadas avaliações para subsidiar melhor as orientações técnicas.
A destinação de triticale para a alimentação humana ganhou impulso nos últimos anos, fomentada pelo marketing dos alimentos funcionais, com os grãos destinados à indústria de alimentos integrais, como pães e biscoitos.
O cultivo deste cereal no Cerrado ainda não aparece nas estatísticas oficiais, mas esta realidade pode mudar nos próximos anos com a adaptação de novas cultivares pela pesquisa e o interesse da indústria de alimentos.
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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Brasil inaugura pavilhão na Sial Paris 2026, uma das maiores feiras de alimentos do mundo

Com recorde de participação, o Salão Internacional da Alimentação (Sial) Paris 2026, na França, recebeu neste sábado (17) a abertura oficial do Pavilhão Brasil. A iniciativa conta com 156 empresas nacionais, organizadas em oito pavilhões, e recursos de cerca de R$ 28 milhões.
A presença no evento busca fortalecer a competitividade dos produtos brasileiros no exterior e abrir oportunidades em novos mercados internacionais.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa destacou a participação de 25 empresas brasileiras na Sial Paris 2026 e o investimento conjunto de R$ 7 milhões da entidade com a ApexBrasil para promover a carne bovina nacional. Segundo ele, a presença na feira também busca avançar nas negociações para a retomada das exportações ao mercado europeu, atualmente sujeito a restrições.
Perosa afirmou que há diálogo entre os governos brasileiro e europeu para buscar uma solução e retomar o fluxo comercial. “Estão tendo muitos diálogos, os governos estão se conversando, os privados estão se falando, nós mesmos temos reuniões agendadas aqui para que a gente possa o mais rápido possível retomar o fluxo comercial”, pontuou.
Apesar das restrições na Europa, o presidente destacou a importância da feira para estabelecer contatos com compradores internacionais, especialmente chineses, diante da abertura de um novo período de vendas para o país asiático.
Perosa também destacou que, embora a Europa represente uma parcela pequena da produção brasileira de carne bovina, o mercado tem influência na formação de preços e na percepção internacional do setor. “A gente exporta para a Europa apenas 5% do que nós produzimos, mas é um importante mercado formador de preços para o Brasil”, disse.
Ao falar sobre os objetivos da participação brasileira, ele enfatizou o potencial de geração de renda e divisas para o país por meio das exportações.
“Então, é isso que nós estamos fazendo aqui também, pelo lado do setor privado, representando os frigoríficos brasileiros, para que a gente possa cada vez mais ter oportunidade, gerar renda para o interior do nosso país, que é onde os frigoríficos estão instalados”, explicou Perosa.
Durante o evento, o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller destacou a abertura de mercados e a importância de promover os produtos nacionais no exterior.
Ao defender a presença brasileira em feiras internacionais, ele enfatizou a qualidade dos produtos nacionais, os padrões sanitários e a sustentabilidade como diferenciais competitivos.
“E a gente não faria isso se o nosso produto não fosse de alta qualidade, se não fosse sustentável, se não tivesse competitividade e se a gente não acreditasse no nosso produto, se vocês não acreditassem no produto de vocês”, destacou Müller.
Müller ainda reforçou a importância de manter a divulgação da carne brasileira no mercado europeu e em outros destinos. “A nossa carne é boa porque a nossa carne tem sustentabilidade, ela tem um alto padrão sanitário e o mundo quer a nossa carne também”, afirmou.
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STF derrubou cobrança do Funrural, mas restituição enfrenta obstáculos, diz advogada

A restituição da cobrança sobre a contribuição previdenciária do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural) de empregadores rurais pessoas físicas é a etapa mais sensível e litigiosa. Essa é a avaliação da advogada coordenadora de Contencioso Tributário do Serur Advogados, Cinthia Nascimento.
Segundo ela, a decisão desta quinta-feira (15) do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a inconstitucionalidade da imposição de pagamento do Fundo sobre a receita bruta da comercialização da produção para o período anterior a 1º de janeiro de 2018 deixa três questões em aberto.
“A primeira é a modulação, já que o STF não tratou dos efeitos temporais e pode restringir a restituição, por exemplo, a quem já tinha ação ajuizada. A segunda é a prescrição: como o período afetado termina em 2017, quem não ajuizou ação a tempo tende a ter os créditos prescritos. Por último, a legitimidade, pois é preciso definir quem pode pedir a devolução, se o adquirente que recolheu, o produtor que suportou o ônus ou ambos, conforme a operação”, detalha.
De acordo com a especialista, com a modulação pendente e a possibilidade de embargos de declaração, a definição final deve demorar. “A restituição não é automática e depende do acórdão, da modulação e da prova de quem recolheu e de quem suportou o encargo”, sublinha.
A advogada do Serur recomenda que, neste momento, o produtor rural que fez a contribuição ao Funrural antes de 2018 mapeie os débitos, as autuações, execuções fiscais e os processos, administrativos ou judiciais, inclusive os suspensos por força da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI). “Também deve separar os valores retidos pelo adquirente dos recolhidos diretamente pelo produtor, já que isso define quem pode pedir restituição”, instrui.
A ação foi apresentada pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), que questionava a cobrança da contribuição sobre a receita bruta dos produtores rurais pessoas físicas com empregados. A entidade defendia que o recolhimento deveria ocorrer com base na folha de salários.
Segundo Cinthia, os principais beneficiários da decisão da Suprema Corte são os adquirentes da produção de produtores rurais pessoas físicas, como frigoríficos, abatedouros, cooperativas, cerealistas, laticínios e agroindústrias.
“Eles deixam de responder, como sub-rogados, pela retenção e pelo recolhimento do Funrural relativo ao período anterior a 1 de janeiro de 2018. Isso afasta autuações e cobranças por retenções não feitas”, contextualiza.
Conforme ela, os produtores rurais pessoas físicas também se beneficiam, porque a própria contribuição foi declarada inconstitucional nesse período. “Como contribuintes e responsáveis pelo ônus econômico, são eles que, em regra, poderão pedir a restituição.”
A advogada lembra, ainda, que para as operações a partir de 1 de janeiro de 2018, a contribuição e a sub-rogação continuam válidas, e a retenção pelo adquirente deve ser mantida.
Abrafrigo comemorou decisão
Responsável pela ação, a Abrafrigo comemorou o resultado do julgamento e avaliou que o entendimento do STF poderá beneficiar não apenas as empresas do setor, mas também outros contribuintes envolvidos na controvérsia.
Na avaliação do advogado da entidade, Fabriccio Petreli Tarosso, do escritório
Tarosso Advogados, que patrocinou a causa, o STF restaurou a justiça ao agronegócio do país, garantindo ao setor agropecuário, em especial às indústrias frigoríficas, a segurança jurídica aguardada.
Em nota, a Abrafrigo ainda dfisse que a decisão representa um avanço na segurança jurídica após mais de 16 anos de discussão sobre a cobrança. A associação também destacou que o resultado ocorre em um momento de dificuldades financeiras enfrentadas por empresas frigoríficas, podendo contribuir para a manutenção das atividades e dos empregos.
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