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Produtores de Mato Grosso contestam descontos por milho avariado e alertam para crise de rentabilidade

As reclamações sobre os descontos aplicados na comercialização do milho ganharam força entre produtores de Mato Grosso nesta reta final da segunda safra. Em regiões onde o excesso de chuvas favoreceu o aumento de grãos avariados, agricultores afirmam que os critérios de classificação adotados pelas empresas variam e acabam ampliando os prejuízos no campo.
O cenário preocupa porque os problemas de qualidade se somam à desvalorização do cereal. Com a colheita em andamento e aproximadamente metade da produção já comercializada no estado, muitos produtores dizem que a rentabilidade da safra vem sendo comprometida tanto pelas perdas provocadas pelo clima quanto pelos descontos aplicados na entrega dos grãos.
Em Santa Rita do Trivelato, o agricultor Enéas Glaucio Batistela conta que a lavoura se desenvolveu dentro do esperado durante boa parte do ciclo. Os investimentos em manejo foram mantidos e a expectativa era de uma boa produtividade, até que as chuvas mudaram o cenário. “A safra vinha sendo conduzida perfeitamente. A gente investiu bem, cuidou bem, e acabou chovendo bastante fora do normal”, relata.
Para Batistela, o problema não está apenas no milho avariado, mas na forma como ele vem sendo classificado. O produtor observa que as reclamações se multiplicam entre agricultores da região e acredita que os critérios poderiam ser mais uniformes. “As empresas estão forçando muito as réguas de classificação. Isso prejudica demais e tem relatos de produtores reclamando bastante aqui na nossa região”, comenta ao Patrulheiro Agro.

Critérios de classificação dividem produtores e empresas
Na propriedade de Batistela, foram cultivados 1.410 hectares de milho nesta temporada. Ao acompanhar a entrega da produção, ele percebeu diferenças na avaliação feita pelas empresas compradoras, situação que, na visão dele, aumenta a insegurança durante a comercialização. “Muda muito de empresa para empresa, então tem que ficar de olho”, resume.
A preocupação também faz parte da realidade do produtor Silvésio de Oliveira, em Tapurah. Na propriedade, o milho ocupa 1.330 hectares, mas parte da área acabou sendo afetada pelas chuvas registradas entre abril e junho. Ele explica que algumas variedades resistiram bem às condições climáticas, enquanto outras apresentaram problemas com fungos e maior índice de grãos avariados.
Em uma área de 214 hectares, a expectativa é que o percentual de avarias fique entre 15% e 18%. Silvésio atribui esse resultado às quatro chuvas registradas em um intervalo de apenas uma semana, com volumes entre 10 e 15 milímetros, suficientes para provocar o acamamento de parte das plantas.
Mesmo reconhecendo os impactos causados pelo clima, o agricultor acredita que o maior prejuízo ocorre no momento da classificação. Ele explica que uma carga com percentual elevado de avarias pode influenciar diretamente o resultado financeiro da safra. “Você pode colher 100 mil sacas de milho padrão, com 1% ou até zero de avariado. A primeira carga chega com avariado, tem um desconto total e isso acaba afetando bem o lucro do produtor”, afirma.
Sem alternativa para recuperar parte da produção, os 214 hectares mais comprometidos serão destinados à fabricação de ração para o gado. Ainda assim, Silvésio considera que a forma como os descontos são aplicados agrava as perdas enfrentadas pelos agricultores. “Tivemos muito milho acima de 20% de avariado. O desconto é muito grande e, na entrega do produto, sempre quem perde é o produtor”, diz.

Classificação em debate
As divergências na classificação do milho também preocupam o presidente do Sindicato Rural de Tapurah, Dirceu Luiz Dezem. Para ele, o aumento do percentual de grãos avariados nesta safra é resultado de um cenário climático que fugiu do controle do produtor, mas a forma como parte das empresas aplicam os descontos acaba ampliando as perdas.
Na avaliação de Dezem, há situações em que apenas uma parcela da carga apresenta problemas, mas o impacto financeiro é maior do que o esperado pelo agricultor. “Existe milho avariado, existe. Saiu fora do controle do produtor”, observa. O dirigente acredita, porém, que é preciso buscar um equilíbrio na classificação. “Tem aqueles que se aproveitam da situação. Eu acho que tinha que encontrar alguma maneira de equilibrar isso”.
Outro fator pesa contra o produtor no momento da comercialização. Com déficit de armazenagem em diversas regiões e contratos já firmados, muitos agricultores acabam sem alternativa para negociar a entrega da produção. “Hoje nós temos poucos armazéns. O produtor tem que se livrar daquele grão, às vezes tem contrato e é obrigado a entregar e aceitar essa injustiça”, lamenta.
Quando há dúvidas sobre o resultado da classificação, o produtor pode recorrer ao Programa Classificador Legal, da Aprosoja Mato Grosso. A iniciativa disponibiliza profissionais habilitados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para realizar auditorias em cargas de milho e soja, tanto nas propriedades quanto nos armazéns.
O presidente da Aprosoja Brasil e Mato Grosso, Luiz Costa Beber, defende que os impactos provocados pelo clima sejam considerados durante a comercialização. Para ele, o produtor não pode arcar sozinho com prejuízos causados por fatores que escaparam ao seu controle. “Nós precisamos que as empresas também sejam compreensivas, flexibilizem, porque muitas vezes isso acontece além daquilo que está ao alcance do produtor”, pontua.
Beber destaca que o objetivo do programa é garantir segurança ao agricultor sempre que houver divergência na classificação. A auditoria é realizada por um classificador da entidade e, caso não haja consenso entre as partes, ainda é possível solicitar uma arbitragem com um segundo profissional habilitado. “O objetivo é sempre garantir que haja uma classificação justa e mostrar que a Aprosoja está sempre vigilante na defesa do produtor”, ressalta.

Preço pressiona a rentabilidade
Se os descontos aplicados sobre o milho avariado já preocupam os produtores, a desvalorização do cereal tornou o cenário ainda mais desafiador nesta reta final da colheita em alguns municípios. Agricultores relatam dificuldades para fechar as contas e demonstram preocupação com os investimentos para o próximo ciclo.
A necessidade de fazer caixa tem levado muitos produtores a vender a produção mesmo diante de preços considerados insuficientes para cobrir os custos. Para o presidente do Sindicato Rural de Tapurah, Dirceu Luiz Dezem, a situação é mais delicada para quem depende da comercialização imediata para manter as atividades da propriedade. “O produtor que está descapitalizado, que precisa comprar o diesel, manter os funcionários ou a oficina, é obrigado a vender abaixo do preço de custo”, afirma à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Em Tapurah, o agricultor Régis Adriano Desordi Porazzi já comercializou cerca de 50% da produção e colheu mais de 60% dos 800 hectares cultivados nesta safra. Para ele, a queda das cotações agravou um cenário que já vinha sendo pressionado pelo aumento dos custos de produção.
Porazzi calcula que o preço recebido hoje está cerca de 50% abaixo do registrado anteriormente e avalia que essa redução compromete diretamente o caixa das propriedades. “Caiu muito. Caiu 50% do preço. É uma prática selvagem, destrói o caixa do produtor”, diz. Na avaliação dele, muitos agricultores acabam comercializando o milho por falta de alternativa, mesmo sabendo que os valores não remuneram a atividade.
Segundo o produtor, a conta não fecha com os preços praticados atualmente. “Nesses preços não paga a conta. Mais uma vez trocamos dinheiro. Não dá mais para trabalhar desse jeito”, afirma.
Porazzi alerta que, se o cenário de custos elevados e preços deprimidos persistir, os reflexos poderão ir além das propriedades rurais. “O agricultor está sendo excluído da atividade se continuar nesses patamares de preços de soja e milho”, observa. Na visão dele, a redução do número de produtores representa um risco para toda a cadeia de produção de alimentos e exige atenção de todos os setores envolvidos com o agronegócio.
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Embrapa identifica plantas resistentes à praga que pode comprometer até 100% da produção

A cigarrinha-do-arroz (Tagosodes orizicolus) é um inseto que ganhou importância nos últimos anos na rizicultura, devido a surtos de infestação e aos danos que causa pela alimentação, através da sucção de seiva das plantas.
As perdas, seja em sistemas irrigados ou em terras altas, podem chegar a 100% dependendo da intensidade de ataque. Uma das maneiras de ajudar no controle do inseto é o uso de variedades resistentes.
A Embrapa Arroz e Feijão (GO) identificou dois materiais com resistência à sogata que podem auxiliar os produtores no manejo dessa praga. A cultivar BRS A705, lançada em 2022, e o genótipo BGA 6914, armazenado no Banco Ativo de Germoplasma do centro de pesquisa, foram os mais resistentes.
Também conhecida como sogata, a cigarrinha-do-arroz possui o tamanho da cabeça de um alfinete (entre 2 e 3 milímetros). Apesar de minúscula, suas populações podem crescer rapidamente. A praga suga a seiva das folhas, colmos e panículas, provocando secamento, amarelecimento e morte das folhas.
Como consequência da alimentação, o inseto elimina também substância rica em açúcar que serve para o crescimento de fungo responsável pelo desenvolvimento de fumagina, estruturas pretas sobre as folhas que diminuem a área de fotossíntese.
O pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão José Alexandre Barrigossi é um dos coordenadores das pesquisas envolvendo o controle da cigarrinha-do-arroz. Ele conta que se trata de uma praga emergente, ou seja, era um inseto encontrado no Brasil que não representava um problema para o arroz irrigado, nem para o arroz de terras altas, mas infestações regionalizadas vêm despertando a preocupação do setor produtivo.
Houve relatos em lavouras irrigadas em Santa Catarina, a partir de 2018, e, em 2020, em outras partes do Brasil, como o Vale do Paraíba, em São Paulo.
“Até bem pouco tempo, a cigarrinha-do-arroz não chamava a atenção dos agricultores, porque não eram registradas ocorrências de altas populações da praga no País. Possivelmente, isso acontecia porque existia forte pressão de controle biológico natural.
A partir de 2020, passaram a existir surtos que podem estar ligados a vários fatores, como verões mais secos e quentes, favorecendo a reprodução da espécie; ou ainda a aplicação de inseticidas nas lavouras, que acabam eliminando inimigos naturais da praga”, explica Barrigossi.
Como uma praga emergente, ela ainda não está inclusa entre os principais insetos que atacam o arroz, tanto que não existem inseticidas registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para seu controle, informa o pesquisador.
Manejo integrado da praga
A Embrapa Arroz e Feijão realizou experimentos, ao longo de dois anos, para conhecer o nível de resistência de suas cultivares e identificar fontes de resistência ao inseto que possam ser usadas no programa de melhoramento de arroz. Esses testes foram realizados em ambientes controlados de laboratório e casa telada, em Santo Antônio de Goiás (GO).
Os estudos envolveram avaliações relacionadas à interação inseto-planta, tais como a atividade e preferência alimentar da espécie e aspectos relacionados à sua reprodução. A cultivar BRS A705 e o genótipo BGA 6914 foram os menos preferidos pela praga e os que mais interferiram negativamente no desenvolvimento e sobrevivência dela.
“A identificação dessas fontes de resistência é um importante passo para apoiar o controle da cigarrinha-do-arroz, pois essas alternativas podem ser usadas pelo melhoramento de plantas como doadoras de genes para o desenvolvimento de cultivares, possibilitando que novas variedades da Embrapa apresentem mais um diferencial, o de resistência à cigarrinha”, diz Barrigossi.
O pesquisador pontua que, mesmo que uma cultivar não seja totalmente resistente, ela pode ser combinada a outros métodos de controle e diminuir consideravelmente a necessidade de aplicação de inseticidas.
O manejo integrado de pragas, com diferentes métodos de controle associados, dentre eles, plantas mais resistentes, é o caminho sustentável para o controle da sogata, complementa Barrigossi. Ele aponta que utilizar exclusivamente o controle químico para combater a cigarrinha-do-arroz nem sempre é o meio mais eficaz.
Para o futuro, a pesquisa deve seguir aprimorando o manejo integrado de pragas com sistemas de monitoramento da infestação de lavouras pela cigarrinha-do-arroz, geração de cultivares mais resistentes, estudo de agentes biológicos para o desenvolvimento de bioinseticidas e testes com produtos químicos.
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BNDES aprova R$ 42,8 milhões para ampliar armazenagem da Coasul no Paraná

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 42,8 milhões para a Coasul Cooperativa Agroindustrial ampliar a capacidade de armazenagem de grãos no Paraná. O projeto prevê acréscimo de 24 mil toneladas em Laranjal e São João, além da instalação de uma estrutura integrada de atendimento ao produtor rural. Os recursos serão liberados pelo Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA).
Com contrapartida de R$ 803 mil da cooperativa, o investimento total do projeto soma R$ 43,6 milhões. Segundo o BNDES, a iniciativa deve beneficiar a base de 16,7 mil cooperados da Coasul, concentrada no sudoeste paranaense.
Em Laranjal, o plano prevê investimento de R$ 33,7 milhões para a construção de silos com capacidade estática de 12 mil toneladas. A unidade também contará com barracão para armazenagem de insumos e defensivos, área de atendimento ao público, refeitório, moradia para funcionário, cercamento e projeto executivo para um trevo rodoviário de acesso à filial.
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A estrutura em Laranjal também deve abrigar loja de peças e equipamentos para manutenção de máquinas, além da oferta de insumos e assistência técnica aos produtores.
Em São João, o investimento previsto é de R$ 9,9 milhões. O projeto inclui a construção de dois silos de 6 mil toneladas cada, um silo-moega de 780 toneladas, instalações elétricas e a compra de máquina de limpeza de grãos. Com a ampliação, a capacidade total da unidade passará de 135 mil para 147 mil toneladas.
De acordo com o BNDES, as intervenções devem ampliar a autonomia de armazenagem da cooperativa e dar mais fluidez à descarga de caminhões no pico da safra, com redução de gargalos logísticos. Em nota, o presidente do banco, Aloizio Mercadante, afirmou que o projeto contribui para a geração e a distribuição de renda no campo e para a redução do déficit histórico de capacidade de armazenagem.
A operação aprovada pelo BNDES concentra recursos em infraestrutura de silos, recebimento de grãos e atendimento ao cooperado, com expansão da capacidade estática e reforço da estrutura operacional da Coasul em duas unidades no Paraná.
Fonte: Estadão Conteúdo
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Pesquisadores transformam grãos quebrados de feijão em proteína para bebidas, cappuccino e snacks

Uma proteína concentrada desenvolvida a partir de grãos quebrados de feijão carioca pode abrir novas possibilidades para o uso da leguminosa pela indústria de alimentos. O ingrediente, criado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas (SP), apresenta entre 40% e 50% de proteína e contém todos os aminoácidos essenciais ao organismo humano.
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A tecnologia utiliza as chamadas “bandinhas”, como são conhecidos os grãos partidos durante o beneficiamento do feijão e que possuem menor valor comercial. A proposta é aproveitar esse coproduto para produzir ingredientes que possam ser utilizados em bebidas, pós instantâneos e snacks, entre outros alimentos.
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), sediada no Ital e criada em 2021 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Além do aproveitamento de um subproduto da produção agrícola, os pesquisadores apontam que a tecnologia pode ajudar a reduzir a dependência da indústria brasileira de proteínas vegetais de soja ou ervilha, atualmente importadas em grande parte.
“Nosso objetivo foi obter uma proteína de uma fonte vegetal brasileira. Como o Brasil é um grande produtor de feijão carioca, pensamos em transformá-lo em um ingrediente proteico para ser usado pela indústria alimentícia”, explicou Mitie Sonia Sadahira, pesquisadora do Ital e coordenadora do projeto, à Agência Fapesp.
Grãos quebrados ganham nova utilização
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de feijão, com produção anual de aproximadamente 3 milhões de toneladas. A variedade carioca responde por cerca de 54% desse volume.
Durante o beneficiamento, entre 1% e 5% dos grãos acabam quebrados e perdem valor comercial. Foi justamente esse material que chamou a atenção dos pesquisadores.
“Tivemos a ideia de agregar valor a esse coproduto”, afirmou Isabela Emiliorelli, pesquisadora do Ital e participante do projeto.
Para transformar os grãos em ingredientes, a equipe utiliza uma técnica conhecida como fracionamento a seco. O método não utiliza solventes e demanda menos água e energia do que processos convencionais de extração úmida.
O feijão é inicialmente moído e transformado em farinha integral. Em seguida, um processo de separação mecânica divide o produto em duas partes: uma fração rica em amido e outra com maior concentração de proteína.
Dessa forma, uma única matéria-prima permite a obtenção de dois ingredientes que podem ser aproveitados pela indústria.
Proteína tem todos os aminoácidos essenciais
A fração proteica desenvolvida pelos pesquisadores alcançou concentração entre 40% e 50% de proteína.
As análises também mostraram que o ingrediente apresenta todos os aminoácidos essenciais ao organismo humano e supera as metas do padrão de referência estabelecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Segundo os pesquisadores, essa característica diferencia o produto de outras fontes vegetais que podem precisar ser combinadas com proteínas de cereais para complementar seu perfil de aminoácidos.
“Normalmente, as proteínas vegetais apresentam um ou dois aminoácidos essenciais a menos [que o necessário] e, por isso, precisam ser complementadas com uma proteína de cereal. Na farinha que obtivemos, isso não aconteceu”, explicou Sadahira.
Processo reduz fatores antinutricionais em até 95%
Outro resultado do estudo foi a redução de até 95% dos chamados fatores antinutricionais naturalmente encontrados no feijão.
Entre eles estão fitatos, inibidores de protease, taninos, lectinas e oligossacarídeos, substâncias que podem dificultar a absorção de nutrientes e provocar desconforto digestivo.
Para alcançar o resultado, os pesquisadores aplicaram métodos de pré-tratamento térmico antes da moagem dos grãos.
Com a combinação desse tratamento e do fracionamento, o ingrediente alcançou digestibilidade superior a 60%.
O procedimento também ajudou a reduzir características que poderiam limitar o uso do feijão como ingrediente industrial, como o sabor residual associado à leguminosa e a coloração escura.
Segundo a equipe, a proteína obtida apresenta sabor neutro e coloração clara, características que facilitam sua incorporação em diferentes alimentos.
Proteína de feijão é testada em bebidas e cappuccino
Os pesquisadores desenvolveram produtos para demonstrar as possibilidades de aplicação do novo ingrediente.
A fração proteica foi utilizada na elaboração de um pó instantâneo para cappuccino sem açúcar, com 5 gramas de proteína por porção.
O ingrediente também foi combinado com frutas tropicais, como manga e maracujá, para a produção de pós instantâneos posteriormente utilizados em bebidas vegetais fermentadas e saborizadas, sem necessidade de aromas ou corantes artificiais.
A parte rica em amido, que ainda mantém entre 10% e 20% de proteína, também foi aproveitada. Os pesquisadores desenvolveram snacks nas versões neutra, salgada e doce. Uma das formulações utiliza pó de manga desidratada enriquecido com 8% de proteína.
Tecnologia chega à fase de testes industriais
A proposta é oferecer ao mercado tanto a tecnologia para obtenção da proteína quanto as possibilidades de aplicação em alimentos por meio de pacotes tecnológicos.
A PBIS reúne, além do Ital, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nove empresas do setor de alimentos e a Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia.
Em quatro anos e meio de operação, a plataforma desenvolveu mais de 30 ingredientes alimentícios e mais de 20 processos industriais.
No caso da proteína de feijão carioca, a tecnologia já passa por testes de processamento em escala industrial conduzidos pela SL Alimentos, uma das empresas participantes do projeto.
Segundo Gisele Anne Camargo, gestora executiva e pesquisadora principal da PBIS, a tecnologia alcançou os níveis 5 e 6 na escala TRL (Technology Readiness Level), que mede a maturidade tecnológica de uma solução em uma escala de 1 a 9.
A partir dessa etapa, o avanço da proteína de feijão carioca até os alimentos disponíveis aos consumidores dependerá do interesse e das próximas etapas de desenvolvimento conduzidas pela indústria.
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