Agro Mato Grosso
Contrato com a Rumo não garante a chegada da ferrovia em Cuiabá

Em nota técnica, concessionária diz que ramal para a Capital não tem viabilidade econômica e prioriza trecho até Lucas
A chegada dos trilhos da Ferrovia Vicente Vuolo a Cuiabá, a partir de Rondonópolis (212 km ao Sul), está praticamente descartada.
O Contrato de Adesão (edital) n° 021/2021, celebrado entre o Governo de Mato Grosso e a Rumo S.A., regulamentando a execução do ramal ferroviário, não confirma a Capital.
O documento coloca em xeque as prioridades do Executivo Estadual, notadamente no setor de transporte ferroviário.
Enquanto o eixo principal, que liga Rondonópolis a Lucas do Rio Verde, avança em direção ao Norte do Estado, o ramal destinado a Cuiabá tem sua execução, por assim dizer, indefinida.
Uma nota técnica, que analisa os dispositivos do Contrato de Adesão, assinado em 20 de setembro de 2021 – no Governo Mauro Mendes (União) -, identifica hipóteses em que a não execução desse ramal “não implica penalidade ou caducidade” para a concessionária – no caso, a Rumo.
A nota observa que o Sistema Ferroviário Rondonópolis/Cuiabá/Lucas do Rio Verde compreende dois eixos distintos: o principal (Rondonópolis–Lucas, ~530 km), em construção avançada, e o ramal de Cuiabá (~210 km), cuja execução “permanece indefinida”.
Audiências públicas realizadas na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, no ano passado, destacaram que a Rumo não havia apresentado pedido de licenciamento ambiental para o ramal de Cuiabá até 2023.
Tampouco havia concluído o projeto executivo do trecho, sem estabelecer prazo.
O Conselho de Administração da Rumo aprovou apenas os investimentos relativos ao denominado “Eixo Norte”.
A nota técnica assinala, ainda, que o eixo principal apresenta viabilidade econômica consolidada: perfil de carga predominantemente outbound (grãos e fertilizantes), TKU elevado, integração com a Malha Norte da Rumo em Rondonópolis.
O financiamento da obra, aprovado pelo BNDES, em dezembro de 2025, é de R$ 2 bilhões.
Em relação ao ramal de Cuiabá, segundo a nota técnica, há “natureza predominantemente político-institucional, tendo servido como contrapartida para obtenção do suporte do Governo Estadual ao modelo de autorização”.
Destaca que, do ponto de vista da “racionalidade de negócios da Rumo”, o ramal não está em linha com seu core business (escoamento de grãos) e enfrenta alguns “obstáculos estruturais”.
“DOIS MATO GROSSO” – Membro da Comissão UFMT Pró-Ferrovia Senador Vicente Vuolo, o economista Vicente Vuolo Filho criticou a forma como o contrato com Rumo foi feito para a execução das obras da ferrovia estadual.
“A Rumo Logística, que controla a maior malha ferroviária do país, os principais impactos econômicos e com uma posição dominante no Governo de Mato Grosso, está prejudicando o desenvolvimento da Baixada Cuiabana e incentivando a criação de 2 estados: um cada vez mais rico e outro cada vez mais pobre (Baixada e Grande Cáceres)”, disse.
Ele observou que, iniciadas as obras da Ferrovia Estadual que leva o nome do seu pai, a partir de Rondonópolis, a concessionária não priorizou os 150 km entre Juscimeira (157 km ao Sul) e Cuiabá, mas tão-somente o trecho para Lucas do Rio Verde (345 km ao Norte da Capital), com mais de cinco mil operários trabalhando na obra.
“Como não há concorrente, a Rumo tende a ter maior poder para definir traçados, datas e tarifas, menosprezando a capital do Estado e região. Se tivéssemos um outro ambiente mais competitivo, democrático e transparente, operadores disputariam clientes e seriam incentivados a reduzir preços e melhorar serviços”, completou o economista.
Vuolo também lembrou que a ferrovia é, em geral, muito mais barata que o transporte rodoviário para longas distâncias.
Citou que, nos países desenvolvidos, a redução do frete pode chegar a 50%, “enquanto em Mato Grosso (graças ao monopólio da Rumo) o frete não reduziu mais que 15%”.
CORREDOR BIOCEÂNICO – O projeto de extensão da Ferrovia Senador Viente Vuolo, de Rondonópolis a Cuiabá e até Cáceres (225 km a Oeste), nasceu na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Uma comissão composta por 23 professores concluiu o estudo preliminar do EVTEA (Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental) da Ferrovia Senador Vuolo, com foco no trecho Cuiabá-Cáceres.
A proposta viabilizaria um novo corredor ferroviário, tendo como destinos a Bolívia e o Oceano Pacífico.
NOTA TÉCNICA Ferrovia de Mato Grosso — FMT
Análise do Ramal de Cuiabá: Riscos de Não Execução e Fundamento Contratual
Assunto Risco de não execução do ramal de Cuiabá — análise das cláusulas do Contrato de Adesão nº 021/2021 Data Maio de 2026 Base legal Edital de Chamada Pública nº 001/2021 — SINFRA-MT / Anexo II — Minuta do Contrato de Adesão Classificação Uso restrito — documento de trabalho
1. Objeto e Escopo
A presente nota técnica analisa os dispositivos do Contrato de Adesão nº 021/2021, celebrado entre o Estado do Mato Grosso (SINFRA) e a Rumo S.A., que regulam a execução do ramal ferroviário destinado a Cuiabá, identificando as hipóteses em que a não execução desse ramal não implica penalidade ou caducidade para a Autorizatária, com base na leitura direta da Minuta do Contrato constante do Anexo II do Edital de Chamada Pública nº 001/2021.
2. Contexto
O contrato de autorização para construção da Ferrovia Estadual Senador Vicente Emílio Vuolo foi assinado em 20 de setembro de 2021, pelo Governo do Estado de Mato Grosso e a Rumo S.A. O Sistema Ferroviário Rondonópolis/Cuiabá/Lucas do Rio Verde compreende dois eixos distintos: o eixo principal (Rondonópolis–Lucas do Rio Verde, ~530 km), em construção avançada, e o ramal de Cuiabá (~210 km), cuja execução permanece indefinida. Audiências públicas realizadas na Assembleia Legislativa de Mato Grosso registraram que a Rumo não havia apresentado pedido de licenciamento ambiental para o ramal de Cuiabá até 2023, nem havia concluído o projeto executivo do trecho, sem estabelecer prazo. O Conselho de Administração da Rumo aprovou apenas os investimentos relativos à Fase 1 (eixo norte).
3. Fundamento Jurídico — Regime de Autorização
O contrato é regido pelo regime de autorização em direito privado, nos termos da Lei Complementar Estadual nº 685/2021 e do Decreto nº 881/2021. A Cláusula 2.2.1 estabelece que ‘a liberdade de iniciativa e de empresa da AUTORIZATÁRIA será a regra para todos os aspectos envolvidos na exploração da ferrovia’, e a Cláusula 2.2.4 vincula os investimentos às ‘estratégias empresariais e planos de negócio’ da Autorizatária. Esse regime privatístico diferencia o contrato de uma concessão clássica e tem consequências diretas sobre o grau de exigibilidade das obrigações de construção — especialmente do ramal de Cuiabá, cujo perfil econômico difere substancialmente do eixo principal.
4. Análise das Cláusulas Contratuais
4.1 Sobre o Eixo Principal (Rondonópolis–Lucas do Rio Verde)
O eixo principal apresenta viabilidade econômica consolidada: perfil de carga predominantemente outbound (grãos e fertilizantes), TKU elevado, integração com a Malha Norte da Rumo em Rondonópolis, e financiamento aprovado pelo BNDES de R$ 2 bilhões (dezembro de 2025). O Conselho de Administração da Rumo aprovou os investimentos correspondentes. Não há risco relevante de não execução das Fases 1 a 3 nesse eixo.
4.2 Sobre o Ramal de Cuiabá
Com base na leitura direta da Minuta do Contrato de Adesão (Anexo II do Edital de Chamada Pública nº 001/2021 — SINFRA), conclui-se que o ramal de Cuiabá possui natureza predominantemente político-institucional, tendo servido como contrapartida para obtenção do suporte do Governo Estadual ao modelo de autorização. Do ponto de vista da racionalidade de negócios da Rumo, o ramal não está em linha com seu core business (escoamento de grãos) e enfrenta os seguintes obstáculos estruturais, alguns deles com respaldo contratual expresso:
a) Inexecução justificada por razão econômica não gera penalidade
A Cláusula 7.5 da Minuta dispõe expressamente: “O atraso ou a eventual inexecução dos investimentos, desde que devidamente justificados e acatados pela AGER, por razões de ordem técnica, ambiental, fundiária ou econômica, não ensejarão a aplicação de penalidade à AUTORIZATÁRIA.” O rol de justificativas admitidas é amplo e inclui expressamente a inviabilidade econômica — precisamente o argumento disponível à Rumo em relação ao ramal de Cuiabá, dado seu perfil de carga predominantemente inbound (consumo urbano), com menor TKU e margem operacional frente ao grão exportado.
b) Desativação de ramais expressamente vedada de sanção
A Cláusula 6.5 faculta à Autorizatária desativar trechos já operacionais ‘a seu exclusivo critério’, mediante simples comunicação à AGER-MT com antecedência de 180 dias. A Cláusula 6.5.4 complementa: “A desativação de ramais ferroviários não será motivo para sanção da AUTORIZATÁRIA, cabendo-lhe garantir a alienação ou a cessão para outra operadora ferroviária, ou, ainda, reparar ou indenizar os danos decorrentes de suas atividades, além de executar integralmente os atos de recuperação ambiental determinados pelos órgãos competentes.” Ou seja, mesmo que o ramal venha a ser construído e operado por período mínimo, sua posterior desativação não implica penalidade contratual, bastando oferecer cessão a terceiro.
c) Prorrogações sucessivas do cronograma sem caducidade A Cláusula 7.2.1 permite prorrogação dos prazos do Anexo II mediante simples comunicação à AGER por até 24 meses (inciso I, alínea a); com possibilidade de reiteração mediante autorização expressa por mais 24 meses (inciso II, alínea b); e ainda prorrogação adicional de até 36 meses em caso de impedimentos ambientais, indígenas ou judiciais (Cláusula 7.2.1.1). A combinação desses mecanismos permite postergação superior a 7 anos sem configurar inadimplemento sujeito a caducidade, período durante o qual o eixo principal opera normalmente e gera receita. Adicionalmente, a Cláusula 7.2.2 esclarece que alterações no cronograma, desde que observadas as regras do item 7.2.1, ‘não poderão ensejar a abertura de nova chamada pública ou a celebração de novo contrato de adesão’.
d) A cláusula de caducidade não protege o ramal de Cuiabá isoladamente A Cláusula 17.4.1 estabelece: “A não execução da interligação das cidades de Cuiabá e de Lucas do Rio Verde ao Terminal Ferroviário de Rondonópolis, conforme autorizado por esse CONTRATO, implicará na caducidade integral da autorização.” Contudo, a redação conjuntiva — Cuiabá e Lucas do Rio Verde — condiciona a caducidade à não execução simultânea de ambos os ramais. Como o eixo norte (Rondonópolis–Lucas do Rio Verde) está em construção avançada e entrará em operação antes de Cuiabá, a condição de caducidade torna-se estruturalmente impossível de ser atingida enquanto aquele eixo operar. Adicionalmente, a caducidade depende de processo administrativo prévio com contraditório e ampla defesa (Cláusula 17.2), e a Rumo pode apresentar plano de cura a ser aprovado pela AGER (Cláusula 17.4).
e) Ausência de aprovação do Conselho de Administração para fases posteriores à Fase 1 Conforme registros públicos das teleconferências de resultados da Rumo (4T24 e Guidance 2025), o Conselho de Administração aprovou apenas os investimentos relativos à Fase 1 (eixo Rondonópolis–Lucas do Rio Verde). Nenhuma deliberação societária formalizou compromisso de capital para o ramal de Cuiabá, o que, nos termos da Cláusula 2.2.4 — que vincula os investimentos às ‘estratégias empresariais e planos de negócio’ da Autorizatária — reforça a ausência de obrigação exigível no curto prazo.
Síntese das proteções contratuais disponíveis à Rumo para não executar o ramal: Situação Dispositivo Efeito Não execução por razão econômica aceita pela AGER Cláusula 7.5 Sem penalidade Atraso por prorrogações sucessivas Cláusula 7.2.1 Sem caducidade por até 7+ anos Desativação após operação mínima Cláusulas 6.5 e 6.5.4 Sem sanção Caducidade por não execução de Cuiabá isolado Cláusula 17.4.1 Não se aplica enquanto Lucas do Rio Verde operar.
4.3 Condições Necessárias para Viabilização Econômica do Ramal
Para que o ramal de Cuiabá se torne economicamente atrativo à Rumo, seria necessária uma das seguintes condições:
• Concessão de benefícios adicionais pelo Estado (isenções fiscais, subvenção de infraestrutura de pátio ou terminal, participação pública no custo da via);
• Crescimento expressivo da demanda outbound cuiabana (frigoríficos, celulose, madeira) que altere o perfil de receita do ramal;
• Incorporação do ramal a um modelo multimodal (terminal de contêineres + combustíveis + granéis) com âncora contratual de longo prazo com agentes industriais da Grande Cuiabá;
• Concorrência com investimentos prioritários na Malha Paulista e no Porto de Santos, que disputam o mesmo capital de investimento — condição que só se reverte com melhor atratividade do ramal.
5. Recomendações
Recomenda-se que o Governo do Estado de Mato Grosso, a Assembleia Legislativa e os demais atores institucionais interessados na execução do Ramal de Cuiabá adotem postura proativa de negociação com a Rumo, oferecendo condições econômicas que compensem o diferencial de atratividade frente ao eixo principal. A dependência exclusiva do compromisso moral firmado perante o TCE-MT não é suficiente para garantir a execução do ramal dentro de horizonte relevante. Adicionalmente, recomenda-se a inclusão, em eventual renegociação ou aditamento do Contrato de Adesão nº 021/2021, dos seguintes dispositivos:
• Prazo máximo improrrogável para conclusão do ramal de Cuiabá, desvinculado do cronograma do eixo norte;
• Penalidade autônoma e proporcional para o caso de não execução do ramal de Cuiabá isoladamente, desvinculada da condição conjuntiva da Cláusula 17.4.1 atual;
• Vedação expressa de invocação da Cláusula 7.5 como justificativa econômica para inexecução do ramal sem prévia negociação formal com o Outorgante e manifestação expressa da AGER;
• Previsão de reversão parcial da área de influência ao Estado caso o ramal não seja iniciado até data determinada, permitindo nova chamada pública para o trecho.
6. Fontes de Referência
Esta Nota Técnica baseou-se nas seguintes fontes primárias e secundárias:
• Edital de Chamada Pública nº 001/2021 — SINFRA-MT (Julho/2021), incluindo Anexo II — Minuta do Contrato de Adesão nº [•]/2021
• AGER-MT — Portaria nº 030/2022 — Declaração Técnica à Rumo S.A. (REIDI), publicada no IOMAT
• BNDES — Nota de Aprovação de R$ 2 bilhões para a FMT (dezembro de 2025)
• Rumo Logística S.A. — Relatório de Sustentabilidade 2025 (publicado em março de 2026)
• Rumo Logística S.A. — Teleconferência de Resultados 4T24 e Guidance 2025
• Ferrovia MT — Site oficial do projeto (ferroviamt.com.br)
• TCE-MT — Carta Compromisso firmada com a Rumo (agosto de 2024)
• Assembleia Legislativa de Mato Grosso — Audiência Pública sobre o Ramal de Cuiabá (outubro de 2023)
• Lei Complementar Estadual nº 685/2021 e Decreto Estadual nº 881/2021
• CenárioMT — Ferrovia de Mato Grosso atinge 73% de execução (novembro de 2025)
Agro Mato Grosso
TCE propõe mudança na Lei para destravar mais de 2,7 mil obras municipais paralisadas em MT

O presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo, vai propor mudanças na Nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021) para priorizar a retomada de obras paralisadas. A proposta será encaminhada ao Congresso Nacional e apresentada ao presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre.
O anúncio foi feito durante reunião transmitida ao vivo nesta quarta-feira (22). Em Mato Grosso, somente no que diz respeito às prefeituras, há 2.705 obras paralisadas, que somam R$ 3,6 bilhões
“Esses números são preocupantes e o dinheiro gasto é desperdiçado, já que a obra fica desgastada e precisa ser refeita. A principal sugestão que iremos fazer é a de que os municípios possam contratar empresas locais para retomarem as obras, mesmo que não tenham participado do processo licitatório, desde que atendam aos critérios estabelecidos pelo edital”, explicou Sérgio Ricardo.
Informações disponíveis no módulo “Obras Paralisadas” do Radar de Controle Público do TCE-MT apontam ainda que, das 2.705 obras paralisadas, pleiteadas pelo Poder Executivo Municipal, 1.705 estão nesta situação há mais de 90 dias. As prefeituras que mais enfrentam o desafio atualmente são as de Várzea Grande, Barra do Bugres e Rondonópolis, e os setores mais afetados são infraestrutura e transporte, educação e saúde.
De acordo com o conselheiro-presidente, o TCE-MT dispõe de informações exclusivas que, quando reunidas nas plataformas Platão e Radar de Controle Público, desenvolvidas pela Secretaria Executiva de Tecnologia da Informação (SETI), contribuem para além da fiscalização, agregando nas orientações oferecidas pelo órgão.
“Essas ferramentas têm contribuído muito com a elaboração do Plano de Metas Mato Grosso 2050, com apoio da equipe técnica e dos especialistas do Tribunal. Com informações exclusivas, podemos dar uma contribuição ímpar aos próximos governantes com um projeto de gestão para os próximos 24 anos”, pontuou.
O presidente acrescentou ainda que obras paralisadas passarão a ser ponto de controle na análise das contas por parte do TCE. “Na prestação de contas desse ano, os prefeitos deverão informar quais obras estão paralisadas, quanto foi gasto, o motivo da paralisação e a empresa contratada. Essa situação não pode continuar assim”, concluiu.
Platão
A inteligência artificial foi desenvolvida pelo TCE-MT e lançada em 2025 com o objetivo de fortalecer o trabalho da instituição e, por consequência, a gestão pública e os serviços prestados à população. A ferramenta, que conta com modelo próprio de consultas em linguagem natural, hospedado no data center do órgão, agiliza processos internos e amplia a capacidade de fiscalização preventiva.
Desde maio deste ano, a plataforma passou a monitorar e analisar em tempo real todos os editais de licitação publicados pelos órgãos públicos de Mato Grosso, ampliando o controle preventivo sobre contratos e obras públicas no estado e evitando prejuízos financeiros.
Obras paralisadas no Radar de Controle Público
Desde 2021, o TCE-MT disponibiliza, no módulo “Obras Paralisadas” do Radar de Controle Público, um panorama em tempo real das obras paralisadas no estado, com detalhes, valores gastos e tempo de paralisação.
As informações são provenientes do Sistema Geo-Obras, também do TCE-MT, que são declaratórias e cadastradas pelas próprias unidades gestoras responsáveis pelo empreendimento. A ferramenta foi desenvolvida pela Secretaria Executiva de Tecnologia da Informação (SETI) do TCE-MT e é gerenciada pela Secex de Obras e Infraestrutura.
Agro Mato Grosso
FS e AMAGGI concluem acordo estratégico em MT na produção de etanol no Brasil

A FS e a AMAGGI concluíram o acordo que une uma das líderes na produção de etanol no Brasil e a maior empresa brasileira de grãos e fibras, após a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do cumprimento de todas as condições precedentes.
A transação, por meio da qual a AMAGGI adquire uma participação de 40% do capital social da FS, contempla um aporte de US$ 100 milhões na companhia, por meio de uma emissão primária de ações. Além disso, prevê a aquisição de participações detidas por acionistas da FS.
Com raízes no estado de Mato Grosso, tanto a FS quanto a AMAGGI compartilham uma trajetória marcada por inovação, crescimento sustentável e protagonismo na cadeia agrícola. Fundada com foco na produção de biocombustíveis e nutrição animal a partir do milho, a FS foi pioneira na produção de etanol de milho no Brasil e protagonista no desenvolvimento do setor, consolidando-se como referência em eficiência, inovação e sustentabilidade.
A AMAGGI, que completa 50 anos no próximo ano, tornou-se a maior empresa de capital integralmente brasileiro na cadeia da soja, do milho e do algodão. Atua na produção, exportação, industrialização, logística, geração e comercialização de energia, produtos e serviços financeiros, insumos, produção de biodiesel, entre diversas outras atividades do agronegócio. A companhia também é referência em sustentabilidade, com diversos reconhecimentos internacionais e posição de liderança em rankings globais sobre o tema.
A parceria tem como foco apoiar o crescimento da FS e capturar conhecimentos e sinergias relevantes em áreas estratégicas, incluindo originação de milho, otimização logística e exportações, fortalecendo ainda mais a competitividade das duas organizações. Para a AMAGGI, trata-se de mais um passo em sua estratégia de industrialização e verticalização das operações, contribuindo para a crescente diversificação de seu portfólio de negócios.
A FS deve inaugurar sua quarta unidade produtiva ao fim de 2026, em Campo Novo do Parecis, e a quinta, em Querência, em julho de 2027. Ao fim desse ciclo de expansão, a empresa terá capacidade produtiva estimada de 3,9 bilhões de litros de etanol e de aproximadamente 3,0 milhões de toneladas de DDG.
Sobre a FS – A FS foi a primeira empresa a produzir etanol exclusivamente a partir de milho no Brasil, e sua visão de negócio é ser a maior companhia de combustível carbono negativo do mundo. Desde o início das atividades, em 2017, o negócio cresceu mais de 10 vezes e vive um novo ciclo de expansão. A receita líquida da companhia alcançou R$ 13 bilhões ao fim do ano-safra 2025/2026, com lucro líquido de R$ 1,6 bilhão.
A companhia processa atualmente mais de 6 milhões de toneladas de milho por ano-safra e produz 2,6 bilhões de litros de etanol e 2,2 milhões de toneladas de DDG (proteína de milho para nutrição animal). O etanol de milho produzido pela FS possui a menor pegada de carbono do mundo.
Sobre a AMAGGI – Fundada em 1977, a AMAGGI é a maior empresa brasileira de grãos e fibras. Presente em diversas etapas da cadeia do agronegócio, a companhia atua na produção agrícola de grãos, fibras e sementes; na originação, processamento e comercialização de grãos e insumos; além de transporte fluvial e rodoviário, operações portuárias e geração e comercialização de energia elétrica renovável.
Com sede em Cuiabá (MT), a AMAGGI está presente em todas as regiões do Brasil, com fazendas, armazéns, escritórios, fábricas, frota fluvial e rodoviária, terminais portuários e centrais hidrelétricas. No exterior, possui unidades e escritórios na Argentina, China, Holanda, Noruega, Suíça, Singapura e Panamá.
A empresa comercializa 24,7 milhões de toneladas de grãos e fibras em todo o mundo, das quais 1,7 milhão de toneladas é proveniente de suas próprias fazendas. Além disso, mantém relacionamento comercial com aproximadamente 5,6 mil produtores rurais.
Agro Mato Grosso
Wilson Heidemann: pioneiro relembra a história que ajudou a construir Campo Novo do Parecis

Produtor rural acompanhou o nascimento do município, participou dos primeiros anos da agricultura na região e acredita que a honestidade foi seu principal legado
A história do agronegócio mato-grossense é formada por milhares de produtores que deixaram suas cidades de origem em busca de novas oportunidades. Entre eles está Wilson Walter Heidemann, um dos pioneiros de Campo Novo do Parecis, que, aos 95 anos, carrega lembranças de uma época em que o município ainda não existia, as estradas eram precárias e a agricultura dava seus primeiros passos na região.
Nascido no Rio Grande do Sul e criado no Paraná, Wilson chegou ao então norte de Mato Grosso na década de 1970, após receber o convite de um sobrinho para conhecer uma área que começava a ser ocupada por agricultores vindos do Sul do país. Na época, ele trabalhava com uma pequena serraria e vivia em Santa Helena (PR), mas a perspectiva de conquistar uma área maior para produzir despertou sua curiosidade.
“Meu sobrinho me chamou para conhecer uma área aqui. Lá onde a gente morava cada um tinha só um pedacinho de terra e não tinha mais para onde crescer. Quando cheguei e vi aquela imensidão, pensei que era terra para nunca mais acabar”, relembra.
A viagem até a região foi muito diferente da realidade encontrada hoje. Segundo Wilson, praticamente não existiam estradas e boa parte do trajeto era feita por caminhos abertos anos antes por seringueiros. Foi durante essa expedição que um topógrafo realizou a medição das primeiras áreas destinadas aos produtores.
“Ele mediu cinco quilômetros para cada um dos produtores que estavam ali e meu sobrinho resolveu me ceder uma parte da área dele. Foi assim que consegui minha primeira terra em Campo Novo.”
Mesmo tendo conquistado sua propriedade, Wilson conta que o início não foi fácil. Sem máquinas e sem recursos para investir na produção, precisou trabalhar para outros agricultores enquanto preservava a área que havia recebido.
“Eu não tinha trator, não tinha colheitadeira, não tinha dinheiro. Tinha vontade de vencer. Então fui trabalhar para os outros, construindo casas e ajudando onde precisava, enquanto cuidava da minha terra.”
Naquele período, a cooperação entre os produtores era essencial para que a agricultura pudesse se desenvolver. Quem possuía plantadeira ajudava quem tinha colheitadeira e todos compartilhavam equipamentos e mão de obra para viabilizar as primeiras lavouras. “Foi um ajudando o outro. Um plantava, o outro colhia e assim a gente foi começando. Se não fosse essa união, talvez Campo Novo não tivesse crescido da forma como cresceu.”
Segundo Wilson, a soja ainda não fazia parte da realidade da região. Nos primeiros anos, o arroz era a principal cultura cultivada e somente depois começaram a surgir informações sobre a adaptação da soja ao Cerrado brasileiro.
“Ninguém sabia que dava soja aqui. Primeiro nós plantamos arroz. Depois vieram as notícias de Brasília dizendo que a soja podia ser cultivada na região e começamos também a investir nessa cultura.”
Décadas depois, Campo Novo do Parecis se consolidou como um dos principais polos produtores de grãos do Brasil, realidade que Wilson afirma nunca ter imaginado quando chegou à região.
“Ninguém pensava que isso aqui ia virar um município. A gente queria produzir, construir uma vida melhor para a família. Depois foram chegando mais pessoas, surgiu comércio, vieram as estradas e Campo Novo foi crescendo.”
Ao longo da vida, o produtor ampliou sua área de produção e formou o patrimônio que mais tarde seria repassado aos filhos. Atualmente, eles administram o Grupo Heidemann, criado para dar continuidade ao trabalho iniciado pelo pai.
Apesar das conquistas, Wilson acredita que seu maior patrimônio nunca foi a quantidade de terras ou os bens adquiridos, mas a confiança conquistada ao longo dos anos. Ele lembra de um episódio que considera decisivo para sua trajetória. Depois de administrar uma fazenda para outro produtor e cuidar do gado da propriedade, recebeu a proposta de comprar a área, mesmo sem ter dinheiro para isso.
“Eu disse que não tinha condições de comprar. Mesmo assim ele respondeu que venderia para mim. Primeiro eu pagaria o gado, depois teria alguns anos para pagar a terra. Ele confiava que eu cumpriria a palavra.”
Para Wilson, foi justamente essa confiança que abriu muitas portas ao longo da vida. “Eu acho que a minha honestidade foi o que mais me ajudou a crescer aqui. As pessoas confiavam em mim, faziam negócio comigo porque sabiam que eu cumpria o que prometia.”
Hoje, aos 95 anos, ele acompanha o trabalho desenvolvido pelos filhos e netos e sente orgulho ao ver que o esforço de uma vida continua produzindo resultados. “Graças a Deus consegui construir alguma coisa e deixar para eles. Isso me deixa muito feliz.”
Ao relembrar sua trajetória, Wilson também deixa uma mensagem para as novas gerações de produtores rurais que continuam escrevendo a história da agricultura mato-grossense.
“O começo foi difícil para todo mundo. Nada veio fácil. Mas, com trabalho, união e honestidade, a gente conseguiu construir uma vida e ajudar a construir uma cidade inteira. É isso que espero que nunca se perca.”
A história de Wilson Walter Heidemann se mistura à própria história de Campo Novo do Parecis. Mais do que testemunhar o desenvolvimento da região, ele participou ativamente da construção de um município que hoje é referência na produção agrícola nacional, deixando como legado valores que seguem tão importantes quanto a terra que ajudou a cultivar: trabalho, cooperação e honestidade.
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