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Política externa e agronegócio: o impacto das decisões globais no campo brasileiro

Em um mundo cada vez mais marcado por disputas comerciais, novas regulações ambientais e tensões geopolíticas, decisões tomadas fora do Brasil passaram a influenciar diretamente o futuro do agronegócio nacional. Durante décadas, o produtor rural brasileiro acostumou-se a acompanhar de perto variáveis como clima, produtividade, custo de insumos e preços internacionais das commodities. Esses fatores continuam sendo determinantes para o desempenho do setor.
Nos últimos anos, porém, uma nova variável passou a influenciar cada vez mais o dia a dia do agro: a política externa. O agronegócio brasileiro tornou-se profundamente integrado ao comércio global. Grande parte da produção nacional de soja, milho, carnes, café, suco de laranja e açúcar tem como destino mercados internacionais. Isso significa que decisões tomadas fora do país, em governos, parlamentos e organismos multilaterais, podem ter impacto direto sobre o acesso do Brasil a esses mercados e sobre a competitividade dos nossos produtos.
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Esse movimento pode ser observado em diferentes frentes da política internacional. Nos Estados Unidos, decisões de política comercial como o tarifaço anunciado por Donald Trump evidenciam como medidas adotadas por grandes economias podem alterar fluxos globais de comércio. Na Europa, novas regulações ambientais, como o mecanismo de ajuste de carbono na fronteira (CBAM) e a legislação contra o desmatamento (EUDR), vêm redefinindo as regras de acesso ao mercado europeu. Já em países asiáticos, decisões sanitárias ou comerciais podem levar, de forma repentina, ao fechamento temporário de mercados para determinados produtos, como já ocorreu em momentos específicos com proteínas animais.
Esses exemplos refletem uma transformação mais ampla no comércio internacional. Tarifas comerciais, exigências sanitárias, regras ambientais e padrões de rastreabilidade tornaram-se instrumentos cada vez mais relevantes nas disputas por acesso a mercados. Na prática, uma decisão regulatória em Bruxelas, uma negociação em Washington ou uma nova exigência sanitária em Pequim podem alterar significativamente as condições de concorrência para os produtos brasileiros.
A geopolítica recente também ajuda a explicar essa nova realidade. Tensões e conflitos no Oriente Médio, incluindo a escalada envolvendo o Irã, costumam provocar volatilidade no preço do petróleo e gerar incertezas nos mercados globais. Esses movimentos acabam repercutindo também no setor agropecuário, seja pelo impacto no custo de insumos e logística, seja pelas oportunidades que surgem em áreas como os biocombustíveis.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição estratégica. Como um dos maiores produtores agrícolas do mundo e líder na produção de biocombustíveis, o país tem capacidade de contribuir tanto para a segurança alimentar quanto para a segurança energética em um momento de instabilidade internacional. O etanol e o biodiesel, por exemplo, ganham relevância sempre que o mundo busca alternativas mais estáveis e sustentáveis às oscilações do mercado de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, cresce o papel da diplomacia e da articulação política na defesa do agronegócio brasileiro. Parlamentares e lideranças do setor têm atuado cada vez mais no cenário internacional para acompanhar debates regulatórios, ampliar o acesso a mercados e defender os interesses do país.
A senadora Tereza Cristina, por exemplo, assumiu recentemente a relatoria do acordo entre Mercosul e União Europeia no Senado, um dos temas mais relevantes para o comércio exterior brasileiro. Parlamentares ligados à Frente Parlamentar da Agropecuária também têm participado de missões internacionais voltadas à promoção do agro brasileiro, à defesa comercial e à abertura de novos mercados. Essas iniciativas refletem uma realidade cada vez mais evidente. O sucesso do agronegócio brasileiro não depende apenas da eficiência produtiva dentro da porteira. Ele também está diretamente ligado à capacidade do país de se posicionar estrategicamente no cenário internacional.
A política externa, portanto, deixou de ser um tema distante para o campo. Hoje, ela influencia oportunidades comerciais, padrões regulatórios e as próprias perspectivas de crescimento do setor. Em um mundo marcado por disputas comerciais, transformações energéticas e crescente complexidade regulatória, compreender os movimentos da política internacional tornou-se parte do ambiente de negócios do agro.

*Rebeca Lucena é diretora de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e cofundadora da rede Women Inside Trade (WIT)
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Futuro da alimentação global passa por produção sustentável e protagonismo brasileiro

Garantir alimento suficiente, acessível e produzido de forma sustentável para uma população global crescente é um dos maiores desafios da atualidade. Com cerca de 670 milhões de pessoas em situação de fome e mais de 2 bilhões vivendo algum grau de insegurança alimentar, o debate sobre segurança alimentar ganha cada vez mais urgência.
Além de aumentar a produção, especialistas defendem que será necessário ampliar a eficiência dos sistemas produtivos, reduzir desperdícios e investir em práticas sustentáveis.
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Nesse cenário, o Brasil surge como protagonista, tanto pelo volume de alimentos que produz quanto pelo potencial de expandir a produção sem avançar sobre novas áreas.
“São nesses países, nessas nações, onde você tem a maior dependência de alimentos. Portanto, será obrigatório que esses países se desenvolvam também e passem a ter um agronegócio viável e sustentável. Nesse sentido, quem aprendeu a fazer isso no mundo foi o Brasil”, afirma o professor em agronegócio na Fecap, José Luiz Tejon.
Descarte de alimentos
Hoje, quase um terço de tudo o que é produzido no mundo não chega a ser consumido. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 13% dos alimentos se perdem entre a colheita e o varejo, enquanto outros 19% são descartados no consumo, em residências, restaurantes e supermercados.
Para especialistas, reduzir essas perdas é parte essencial da solução. A cadeia produtiva e o consumidor têm papel importante nesse processo, seja por meio da conscientização sobre o aproveitamento de alimentos, seja pela criação de alternativas para reutilizar produtos que perderam valor comercial, mas continuam próprios para o consumo.
“Maior parte desse desperdício, ela tá concentrada no consumidor e principalmente pela falta de conhecimento em relação ao que está se consumindo. Eu acho que também existem oportunidades de reutilização e reaproveitamento de produtos”, professor na Harven Agribusiness School, Vinícius Cambaúva.
De acordo com Cambaúva, algumas redes varejistas já adotam estratégias para reduzir o desperdício de alimentos, ajustando a comercialização conforme o estágio de conservação dos produtos.
Inicialmente, frutas, legumes e verduras são vendidos in natura, mas, à medida que avançam no processo de maturação e perdem atratividade para o consumidor, podem passar por um microprocessamento, sendo cortados e embalados para nova oferta.
Em estágios mais avançados, esses alimentos ainda podem ser aproveitados na produção de sucos, bebidas e outros itens processados, ampliando o aproveitamento e reduzindo perdas ao longo da cadeia.
População mundial
Atualmente, o planeta abriga cerca de 8,2 bilhões de pessoas e deve ultrapassar 9 bilhões nas próximas décadas, o que ampliará ainda mais a demanda por alimentos e a pressão sobre os sistemas produtivos.
Segundo a chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, Paula Packer, o agro tem dado esses passos, um pouco mais lento em alguns setores e um pouco mais avançado em outros. Técnicas como agricultura de baixo carbono, uso de bioinsumos, sistemas integrados e manejo regenerativo do solo vêm ganhando espaço no campo
“Tudo isso hoje está em jogo para que realmente a agricultura do futuro seja a agricultura do Brasil. Não dá para pensar no verde se você estiver no vermelho, mas também tem um complemento. Se você não pensar no verde, você fica no vermelho”, alerta Packer.
Solo
Mesmo com o avanço da tecnologia, o campo segue com muitos desafios. O produtor lida com cenários de instabilidade que vão desde conflitos geopolíticos que afetam rotas comerciais e o custo de produção até eventos climáticos extremos, como secas e chuvas irregulares. Diante disso, é preciso se adaptar e é no solo que parte dessas soluções se constrói.
“Pela adoção das boas práticas, pela adoção da melhor genética, pela integração de um conjunto de soluções tecnológicas, nós podemos então trabalhar sistemas cujo o balanço de carbono é mais favorável comparativamente a outros sistemas que não adotam na plenitude essas boas práticas e essas tecnologias”, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Clenio Pillon.
O solo é o ativo mais importante, um sistema vivo, dinâmico, onde diferentes organismos interagem e contribuem para uma produção de alimentos mais eficiente.
Agricultura regenerativa
A agricultura regenerativa tem se mostrado uma ferramenta importante para reduzir perdas e aumentar a resiliência das lavouras diante das adversidades climáticas
“A agricultura regenerativa está evitando você de perder no futuro. E isso já é perceptível em uma fazenda que aplica a prática para uma que não aplica. O jeito talvez de engajar o vizinho que não aplica é quando ele vê um veranico e vê que o milho do outro vizinho germinou, não perdeu produtividade e ele perdeu 50% da lavoura”, destaca a head de agricultura regenerativa da Nestlé Brasil, Bárbara Sollero.
Na agricultura regenerativa, cada planta utilizada no sistema desempenha uma função específica que contribui para a saúde do solo e para o aumento da produtividade.
Ao aproveitar essa inteligência natural de forma estratégica, o produtor consegue melhorar a fertilidade do solo, aumentar a resiliência da lavoura e sustentar altos níveis de produtividade, mesmo em cenários desafiadores.
“Temos cinco biomas, diferentes tipos de solo, diferentes tipos de clima. Lá fora, plantio direto, ninguém sabe o que é. Quando você fala de bioinsumos, muito menos. Quando você fala de sistemas integrados, então… nós estamos falando grego. Nós temos que trazer o que nós fazemos, mostrar realmente o que nós fazemos e de forma uníssona”, destaca Packer.
Relações comerciais
O país já ajuda a alimentar quase 1 bilhão de pessoas no mundo e se destaca entre os maiores exportadores globais de soja, milho, carnes, algodão, café, suco de laranja e açúcar.
De acordo com Cambaúva, nós estamos passando por um processo de desglobalização, onde os países que antes focavam muito em exportar relações comerciais estão cada vez mais olhando para si mesmos e para minha autossuficiência e deixando de participar mais ativamente do comércio global.
“Isso porque está ficando cada vez mais claro que esses conflitos têm trazido riscos, para as economias, para os negócios e talvez se proteger seja o melhor caminho. Ou seja, nós precisamos repensar muita coisa e talvez esse seja um grande desafio também” afirma.
Avanço
O Brasil ainda tem espaço para ampliar a produção sem avançar sobre novas áreas. São dezenas de milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser recuperadas e convertidas em áreas produtivas.
Essa transformação tá no centro do plano ABC+, coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A meta é produzir mais, com menos recursos e menor impacto ambiental.
Atualmente, o Brasil possui cerca de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser recuperadas e convertidas em áreas produtivas. “Então, a ideia é ampliar a área plantada sem precisar desmatar nada, ou seja, manter todo esse todo esse grande programa que temos hoje intacto”, o professor emérito da FGV Agro, Roberto Rodrigues.
Para o futuro
A expectativa é que o futuro da segurança alimentar mundial dependa da capacidade de produzir mais com menos recursos, aliando inovação, preservação ambiental e eficiência. Nesse processo, o Brasil desponta como peça estratégica para garantir o abastecimento global nas próximas décadas.
“As estimativas do mundo apontam para 2032 o Brasil tendo uma área agrícola superior a dos Estados Unidos. Então, o Brasil no planeta Terra a médio prazo, é o único país que pode crescer de tamanho, não apenas na área, mas com os modelos agroambientais, como por exemplo, integração lavoura pecuária, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF)”, completa Tejon.
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Encontro Mulheres do Agro em Ação reúne 600 produtoras e 3 pré-candidatos à Presidência da República

A quarta edição do Encontro Mulheres do Agro em Ação reuniu cerca de 600 mulheres na 31ª Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), nesta quarta-feira (29), de acordo com a organização do evento.
Além de produtoras rurais e de palestrantes, a ação promovids pelo Sistema Faesp/Senar-SP contou com a presença de três pré-candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026: o ex-ministro Aldo Rebelo, do partido Democracia Cristã; o psiquiatra e escritor Augusto Cury, do Avante; e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, do Partido Social Democrático (PSD).
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Os pré-candidatos abordaram temas como a segurança da mulher e seu papel na produção de alimentos.
“Mais de 80% dos feminicídios acontecem dentro de casa. É importante que a assistente social, que o agente comunitário de saúde, que a defensora pública, que o ministério público possam também avisar as autoridade para que eles tomem providências. Aí sim, você identifica o risco e aí não haverá omissão da polícia”, declarou Caiado.
“Precisamos dobrar a produção de alimentos, até porque, se a FAO [Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura] estiver correta, em 2050 nós precisaremos aumentar em 70% a produção agrícola. isso vai dar mais ou menos ‘seis Brasis’, o que não fecha a conta. Se a FAO estiver correta, vai haver problemas gravíssimos internacionais”, disse Cury.
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Milho fora da janela ideal eleva riscos e acende alerta no campo em MT

O<a href="http://<iframe width="1334" height="750" src="https://www.youtube.com/embed/m_mGnmfqfqI" title="Atraso do plantio do milho em MT já começa a ter reflexos no campo | Mais Milho" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen> atraso no plantio do milho em Mato Grosso já começa a mostrar reflexos nas lavouras. Em diferentes regiões do estado, a falta de chuva compromete o desenvolvimento das plantas, enquanto o aumento dos custos de produção e a queda nos preços ampliam a preocupação dos produtores. A combinação desses fatores acende um alerta para a produtividade e reforça um desafio cada vez mais presente no agro, que é produzir com eficiência, reduzir riscos e manter a sustentabilidade.
Em áreas cultivadas fora da janela considerada ideal, o cenário é preocupante. Talhões desuniformes, falhas no estande de plantas e um grande número de espigas mal desenvolvidas refletem a falta de umidade. Em Nova Mutum, no médio-norte do estado, produtores relatam que entre 35% e 40% das áreas foram plantadas fora do período adequado.
“Trata-se de um desafio, pois seriam necessários pelo menos mais 15 dias de chuva para recuperar parte dessas lavouras. Há regiões em que as precipitações ocorreram de forma irregular, com áreas onde choveu e outras onde a estiagem se antecipou”, explica Paulo Zen, presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum (MT).
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As perdas já começam a ser contabilizadas, embora ainda dependam das condições climáticas nos próximos dias. “As estimativas iniciais indicam perdas de seis a sete sacas por hectare em função do atraso no plantio. A evolução da produtividade dependerá diretamente do volume de chuvas nas próximas semanas”, relata. Segundo o sindicato rural, o atraso foi provocado pelo excesso de chuvas durante a colheita de soja, o que comprometeu o calendário do milho.
A irregularidade das lavouras também chama atenção. Em uma mesma propriedade, é possível observar diferentes estágios de desenvolvimento das plantas. “Há áreas com colheita prevista para 35 a 40 dias, enquanto outras ainda apresentam milho em estágio inicial de desenvolvimento. Trata-se de um cenário bastante heterogêneo”, explica Zen.
Produtores já contabilizam prejuízos. Em uma fazenda com 1.600 hectares, cerca de 30% a 40% da área foi plantada fora da janela ideal. “As perdas já se aproximam de 5% e podem atingir ao menos 10%, caso não ocorram chuvas regulares até o fim de abril”, pontua Marcos Beber.
Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária indicam que mais de 1 milhão de hectares de milho foram plantados fora da janela ideal na safra 2025/26, o que eleva o risco para o desenvolvimento da cultura. Além disso, o cenário de mercado agrava a situação. Com a saca do milho em torno de R$ 43 para os próximos meses, os preços são considerados pouco atrativos.
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