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23 de agosto de 2026

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Falta de armazéns desafia o agro de MT e impulsiona uso do silo bolsa

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A colheita do milho segunda safra em Mato Grosso voltou a escancarar um dos principais gargalos do agronegócio: a falta de capacidade para armazenar a produção. Em um ano marcado por chuvas fora de época durante a retirada dos grãos, produtores enfrentam filas nos armazéns, dificuldades no transporte e aumento do risco de perdas na qualidade do cereal.

O problema se reflete diretamente na rotina das propriedades. Com o escoamento mais lento e os armazéns operando próximos do limite, muitos agricultores precisam desacelerar a colheita ou buscar alternativas para não deixar o milho exposto às condições climáticas.

Em uma fazenda com 5.090 hectares cultivados com milho segunda safra em Santa Rita do Trivelato, quase metade da área já estava pronta para ser colhida. Mas, além de retirar o grão da lavoura, o desafio passou a ser encontrar espaço para armazená-lo.

O gerente de produção Edivandro Milani explica que a sequência de chuvas atípicas em junho alterou completamente o planejamento da fazenda. Com estradas em piores condições, caminhões demorando para chegar e o armazém sem capacidade para acompanhar o ritmo da colheita, foi preciso buscar uma “válvula de escape”. “Esses dias choveu 50 milímetros, depois deu 30. Ninguém esperava essa chuva nessa época. No armazém o suporte é pequeno, então precisa ir colhendo e tirando”.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Chuva aumenta pressão sobre a logística

Além de atrasar a colheita, a chuva compromete toda a logística da propriedade. O transporte fica mais lento, o fluxo entre a lavoura e os armazéns perde eficiência e o milho permanece mais tempo no campo.

“Com chuva piora porque a estrada fica ruim, caminhão não vem, o processo de colheita enrola. Tudo é mais difícil”, relata Milani ao Patrulheiro Agro.

Ele conta que a situação não era vista havia vários anos. Enquanto as colheitadeiras trabalham apenas durante o dia, a estrutura de armazenagem opera ininterruptamente em quatro turnos para receber a produção. Ainda assim, a capacidade não acompanha o volume retirado das lavouras. “Há muitos anos que a gente não via isso. Hoje todo mundo está querendo tirar o produto, então é caminhão para todo lado. Muitas vezes a gente se obriga a jogar no tempo porque o armazém não suporta”.

Com o milho permanecendo mais tempo na lavoura, cresce também a preocupação com a qualidade dos grãos. Conforme Milani, as espigas ficam mais suscetíveis à entrada de água, o que pode elevar o índice de avarias. “Começa entrar chuva pela ponteira se ela não fecha direito e começa a acumular embaixo. Já tem danos nos primeiros plantados. Tem carga que não dá nada e tem carga que sai com 5%, 8%, 10% de avariado”.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Estrutura na fazenda faz diferença

A umidade elevada também aumentou os custos para quem precisa secar o milho antes da comercialização. O presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum, Paulo Zen, afirma que muitos produtores consumiram rapidamente toda a lenha reservada para esta safra, enquanto o preço do cavaco também subiu.

“Há relatos de produtores que já chegou em 60% o consumo na sua propriedade e já gastou toda a lenha que ele tinha feito toda a safra o ano passado. O custo hoje do cavaco subiu 40%”.

Mesmo com esse gasto adicional, quem possui estrutura própria consegue reduzir parte dos impactos. De acordo com Zen, secar e beneficiar o milho dentro da fazenda permite iniciar a colheita mais cedo, estender o trabalho por mais tempo e entregar um produto com melhor qualidade. “Agora o pessoal que tira da lavoura e leva direto para empresa, além da umidade, as impurezas que no final vira um grande desconto”.

Em Santa Rita do Trivelato, onde a família Batistela cultivou 1.410 hectares de milho nesta segunda safra, o agricultor Enéas Gláucio Batistela afirma que a falta de armazenagem se repete em grande parte dos municípios produtores do estado. Em anos de chuva durante a colheita, o problema se agrava e as filas aumentam.

“A maioria dos municípios do interior tem dificuldade e déficit de armazenagem, e Santa Rita do Trivelato não é diferente. Você pega um ano igual a esse, chovendo, umidade no milho, avariado, as filas dos armazéns só aumentam”, pontua à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

Na avaliação dele, ampliar a armazenagem dentro das propriedades depende de linhas de financiamento de longo prazo. “Hoje precisaria uma condição de financiamento a longo prazo para produtores, incentivo do governo federal para construção de armazém. A maioria dos produtores não têm armazém ainda”.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Produção cresce acima da infraestrutura

O déficit de armazenagem também preocupa produtores em Sorriso. Conforme o presidente do Sindicato Rural, Diogo Damiani, mesmo com a ampliação das estruturas nos últimos anos, elas continuam insuficientes para atender a demanda. “Apesar de termos as maiores construção de armazéns na região, nós produzimos quase 4,5 milhões de toneladas e não temos onde armazenar todo esse produto”.

Damiani avalia que o acesso ao crédito continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar essa estrutura. O presidente do Sindicato Rural frisa que a burocracia das linhas do Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) e as dificuldades envolvendo o licenciamento ambiental acabam desestimulando novos investimentos. “A gente precisa de um trabalho conjunto para que o produtor tenha acesso a essas linhas de armazenagens e consiga taxas de juros também adequada”.

Para o presidente da Aprosoja Brasil, Lucas Costa Beber, a armazenagem precisa deixar de ser tratada apenas como uma demanda do setor produtivo e passar a integrar uma política de governo. “A armazenagem deve ser uma política de governo, não só do setor agropecuário, já que é estratégico para segurança alimentar e também para a comercialização”.

Beber lembra que a previsão é de uma safra brasileira de cerca de 360 milhões de toneladas, enquanto a capacidade de armazenagem permanece muito abaixo da necessidade. Esse descompasso, afirma, pressiona o escoamento da produção, reduz os preços recebidos pelos produtores durante a safra e contribui para o aumento do frete. “Há uma supervalorização nos fretes no pico da safra, o que acaba desvalorizando ainda mais a nossa produção”.

Além da deficiência de armazenagem, o setor estima que Mato Grosso deixe de movimentar mais de R$ 8 bilhões por ano devido à falta de concorrência no transporte ferroviário.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Silo bolsa ganha espaço

Enquanto os investimentos em infraestrutura não acompanham o crescimento da produção, alternativas de armazenamento dentro das próprias fazendas vem ganhando força. O uso do silo bolsa tem se consolidado como alternativa para aliviar a pressão sobre os armazéns tradicionais durante a colheita.

O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Cleiton Gauer, observa que Mato Grosso ampliou significativamente sua capacidade estática de armazenagem nos últimos anos. Ainda assim, o crescimento da produção continua em ritmo superior.

“Hoje nós temos 50 milhões de capacidade estática. É um volume que se desenvolveu drasticamente ao longo dos últimos anos, mas a velocidade de crescimento da produção acaba sempre superando esse investimento”.

Conforme Gauer, o estado produz atualmente mais de 110 milhões de toneladas de grãos e possui déficit superior a 50 milhões de toneladas em capacidade de armazenagem. Para ele, qualquer dificuldade no transporte ou no escoamento amplia a preocupação dos produtores. “É realmente um período sensível. Qualquer falha de escoamento, desafio de transporte, logística… acaba sendo uma preocupação não só pensando no lado da produção, mas também no escoamento da próxima temporada”.

Na prática, o silo bolsa tem permitido que muitos agricultores mantenham a colheita mesmo quando os armazéns estão lotados ou o transporte desacelera. O produtor rural Flávio Kroling afirma que a tecnologia já faz parte da rotina da propriedade tanto na soja quanto no milho.

“A cada ano a gente produz mais, a capacidade estática é praticamente a mesma. A saída é uma só, silo bolsa”. Para ele, a ferramenta também amplia as possibilidades de comercialização. “É uma ferramenta que nos ajuda muito. Para quem não tem armazém, é uma maneira de guardar o milho e esperar preços melhores mais tarde”.

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Embrapa identifica plantas resistentes à praga que pode comprometer até 100% da produção

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Foto: Sebastião Araújo/Embrapa

A cigarrinha-do-arroz (Tagosodes orizicolus) é um inseto que ganhou importância nos últimos anos na rizicultura, devido a surtos de infestação e aos danos que causa pela alimentação, através da sucção de seiva das plantas.

As perdas, seja em sistemas irrigados ou em terras altas, podem chegar a 100% dependendo da intensidade de ataque. Uma das maneiras de ajudar no controle do inseto é o uso de variedades resistentes.

A Embrapa Arroz e Feijão (GO) identificou dois materiais com resistência à sogata que podem auxiliar os produtores no manejo dessa praga. A cultivar BRS A705, lançada em 2022, e o genótipo BGA 6914, armazenado no Banco Ativo de Germoplasma do centro de pesquisa, foram os mais resistentes.

Também conhecida como sogata, a cigarrinha-do-arroz possui o tamanho da cabeça de um alfinete (entre 2 e 3 milímetros). Apesar de minúscula, suas populações podem crescer rapidamente. A praga suga a seiva das folhas, colmos e panículas, provocando secamento, amarelecimento e morte das folhas.

Como consequência da alimentação, o inseto elimina também substância rica em açúcar que serve para o crescimento de fungo responsável pelo desenvolvimento de fumagina, estruturas pretas sobre as folhas que diminuem a área de fotossíntese. 

O pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão José Alexandre Barrigossi é um dos coordenadores das pesquisas envolvendo o controle da cigarrinha-do-arroz. Ele conta que se trata de uma praga emergente, ou seja, era um inseto encontrado no Brasil que não representava um problema para o arroz irrigado, nem para o arroz de terras altas, mas infestações regionalizadas vêm despertando a preocupação do setor produtivo.

Houve relatos em lavouras irrigadas em Santa Catarina, a partir de 2018, e, em 2020, em outras partes do Brasil, como o Vale do Paraíba, em São Paulo.

“Até bem pouco tempo, a cigarrinha-do-arroz não chamava a atenção dos agricultores, porque não eram registradas ocorrências de altas populações da praga no País. Possivelmente, isso acontecia porque existia forte pressão de controle biológico natural.

A partir de 2020, passaram a existir surtos que podem estar ligados a vários fatores, como verões mais secos e quentes, favorecendo a reprodução da espécie; ou ainda a aplicação de inseticidas nas lavouras, que acabam eliminando inimigos naturais da praga”, explica Barrigossi. 

Como uma praga emergente, ela ainda não está inclusa entre os principais insetos que atacam o arroz, tanto que não existem inseticidas registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para seu controle, informa o pesquisador.

Manejo integrado da praga

A Embrapa Arroz e Feijão realizou experimentos, ao longo de dois anos, para conhecer o nível de resistência de suas cultivares e identificar fontes de resistência ao inseto que possam ser usadas no programa de melhoramento de arroz. Esses testes foram realizados em ambientes controlados de laboratório e casa telada, em Santo Antônio de Goiás (GO).

Os estudos envolveram avaliações relacionadas à interação inseto-planta, tais como a atividade e preferência alimentar da espécie e aspectos relacionados à sua reprodução. A cultivar BRS A705 e o genótipo BGA 6914 foram os menos preferidos pela praga e os que mais interferiram negativamente no desenvolvimento e sobrevivência dela. 

“A identificação dessas fontes de resistência é um importante passo para apoiar o controle da cigarrinha-do-arroz, pois essas alternativas podem ser usadas pelo melhoramento de plantas como doadoras de genes para o desenvolvimento de cultivares, possibilitando que novas variedades da Embrapa apresentem mais um diferencial, o de resistência à cigarrinha”, diz Barrigossi.

O pesquisador pontua que, mesmo que uma cultivar não seja totalmente resistente, ela pode ser combinada a outros métodos de controle e diminuir consideravelmente a necessidade de aplicação de inseticidas. 

O manejo integrado de pragas, com diferentes métodos de controle associados, dentre eles, plantas mais resistentes, é o caminho sustentável para o controle da sogata, complementa Barrigossi. Ele aponta que utilizar exclusivamente o controle químico para combater a cigarrinha-do-arroz nem sempre é o meio mais eficaz. 

Para o futuro, a pesquisa deve seguir aprimorando o manejo integrado de pragas com sistemas de monitoramento da infestação de lavouras pela cigarrinha-do-arroz, geração de cultivares mais resistentes, estudo de agentes biológicos para o desenvolvimento de bioinseticidas e testes com produtos químicos.

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BNDES aprova R$ 42,8 milhões para ampliar armazenagem da Coasul no Paraná

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O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 42,8 milhões para a Coasul Cooperativa Agroindustrial ampliar a capacidade de armazenagem de grãos no Paraná. O projeto prevê acréscimo de 24 mil toneladas em Laranjal e São João, além da instalação de uma estrutura integrada de atendimento ao produtor rural. Os recursos serão liberados pelo Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA).

Com contrapartida de R$ 803 mil da cooperativa, o investimento total do projeto soma R$ 43,6 milhões. Segundo o BNDES, a iniciativa deve beneficiar a base de 16,7 mil cooperados da Coasul, concentrada no sudoeste paranaense.

Em Laranjal, o plano prevê investimento de R$ 33,7 milhões para a construção de silos com capacidade estática de 12 mil toneladas. A unidade também contará com barracão para armazenagem de insumos e defensivos, área de atendimento ao público, refeitório, moradia para funcionário, cercamento e projeto executivo para um trevo rodoviário de acesso à filial.

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A estrutura em Laranjal também deve abrigar loja de peças e equipamentos para manutenção de máquinas, além da oferta de insumos e assistência técnica aos produtores.

Em São João, o investimento previsto é de R$ 9,9 milhões. O projeto inclui a construção de dois silos de 6 mil toneladas cada, um silo-moega de 780 toneladas, instalações elétricas e a compra de máquina de limpeza de grãos. Com a ampliação, a capacidade total da unidade passará de 135 mil para 147 mil toneladas.

De acordo com o BNDES, as intervenções devem ampliar a autonomia de armazenagem da cooperativa e dar mais fluidez à descarga de caminhões no pico da safra, com redução de gargalos logísticos. Em nota, o presidente do banco, Aloizio Mercadante, afirmou que o projeto contribui para a geração e a distribuição de renda no campo e para a redução do déficit histórico de capacidade de armazenagem.

A operação aprovada pelo BNDES concentra recursos em infraestrutura de silos, recebimento de grãos e atendimento ao cooperado, com expansão da capacidade estática e reforço da estrutura operacional da Coasul em duas unidades no Paraná.

Fonte: Estadão Conteúdo

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Pesquisadores transformam grãos quebrados de feijão em proteína para bebidas, cappuccino e snacks

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Foto: Mapa

Uma proteína concentrada desenvolvida a partir de grãos quebrados de feijão carioca pode abrir novas possibilidades para o uso da leguminosa pela indústria de alimentos. O ingrediente, criado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas (SP), apresenta entre 40% e 50% de proteína e contém todos os aminoácidos essenciais ao organismo humano.

A tecnologia utiliza as chamadas “bandinhas”, como são conhecidos os grãos partidos durante o beneficiamento do feijão e que possuem menor valor comercial. A proposta é aproveitar esse coproduto para produzir ingredientes que possam ser utilizados em bebidas, pós instantâneos e snacks, entre outros alimentos.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), sediada no Ital e criada em 2021 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Além do aproveitamento de um subproduto da produção agrícola, os pesquisadores apontam que a tecnologia pode ajudar a reduzir a dependência da indústria brasileira de proteínas vegetais de soja ou ervilha, atualmente importadas em grande parte.

“Nosso objetivo foi obter uma proteína de uma fonte vegetal brasileira. Como o Brasil é um grande produtor de feijão carioca, pensamos em transformá-lo em um ingrediente proteico para ser usado pela indústria alimentícia”, explicou Mitie Sonia Sadahira, pesquisadora do Ital e coordenadora do projeto, à Agência Fapesp.

Grãos quebrados ganham nova utilização

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de feijão, com produção anual de aproximadamente 3 milhões de toneladas. A variedade carioca responde por cerca de 54% desse volume.

Durante o beneficiamento, entre 1% e 5% dos grãos acabam quebrados e perdem valor comercial. Foi justamente esse material que chamou a atenção dos pesquisadores.

“Tivemos a ideia de agregar valor a esse coproduto”, afirmou Isabela Emiliorelli, pesquisadora do Ital e participante do projeto.

Para transformar os grãos em ingredientes, a equipe utiliza uma técnica conhecida como fracionamento a seco. O método não utiliza solventes e demanda menos água e energia do que processos convencionais de extração úmida.

O feijão é inicialmente moído e transformado em farinha integral. Em seguida, um processo de separação mecânica divide o produto em duas partes: uma fração rica em amido e outra com maior concentração de proteína.

Dessa forma, uma única matéria-prima permite a obtenção de dois ingredientes que podem ser aproveitados pela indústria.

Proteína tem todos os aminoácidos essenciais

A fração proteica desenvolvida pelos pesquisadores alcançou concentração entre 40% e 50% de proteína.

As análises também mostraram que o ingrediente apresenta todos os aminoácidos essenciais ao organismo humano e supera as metas do padrão de referência estabelecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Segundo os pesquisadores, essa característica diferencia o produto de outras fontes vegetais que podem precisar ser combinadas com proteínas de cereais para complementar seu perfil de aminoácidos.

“Normalmente, as proteínas vegetais apresentam um ou dois aminoácidos essenciais a menos [que o necessário] e, por isso, precisam ser complementadas com uma proteína de cereal. Na farinha que obtivemos, isso não aconteceu”, explicou Sadahira.

Processo reduz fatores antinutricionais em até 95%

Outro resultado do estudo foi a redução de até 95% dos chamados fatores antinutricionais naturalmente encontrados no feijão.

Entre eles estão fitatos, inibidores de protease, taninos, lectinas e oligossacarídeos, substâncias que podem dificultar a absorção de nutrientes e provocar desconforto digestivo.

Para alcançar o resultado, os pesquisadores aplicaram métodos de pré-tratamento térmico antes da moagem dos grãos.

Com a combinação desse tratamento e do fracionamento, o ingrediente alcançou digestibilidade superior a 60%.

O procedimento também ajudou a reduzir características que poderiam limitar o uso do feijão como ingrediente industrial, como o sabor residual associado à leguminosa e a coloração escura.

Segundo a equipe, a proteína obtida apresenta sabor neutro e coloração clara, características que facilitam sua incorporação em diferentes alimentos.

Proteína de feijão é testada em bebidas e cappuccino

Os pesquisadores desenvolveram produtos para demonstrar as possibilidades de aplicação do novo ingrediente.

A fração proteica foi utilizada na elaboração de um pó instantâneo para cappuccino sem açúcar, com 5 gramas de proteína por porção.

O ingrediente também foi combinado com frutas tropicais, como manga e maracujá, para a produção de pós instantâneos posteriormente utilizados em bebidas vegetais fermentadas e saborizadas, sem necessidade de aromas ou corantes artificiais.

A parte rica em amido, que ainda mantém entre 10% e 20% de proteína, também foi aproveitada. Os pesquisadores desenvolveram snacks nas versões neutra, salgada e doce. Uma das formulações utiliza pó de manga desidratada enriquecido com 8% de proteína.

Tecnologia chega à fase de testes industriais

A proposta é oferecer ao mercado tanto a tecnologia para obtenção da proteína quanto as possibilidades de aplicação em alimentos por meio de pacotes tecnológicos.

A PBIS reúne, além do Ital, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nove empresas do setor de alimentos e a Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia.

Em quatro anos e meio de operação, a plataforma desenvolveu mais de 30 ingredientes alimentícios e mais de 20 processos industriais.

No caso da proteína de feijão carioca, a tecnologia já passa por testes de processamento em escala industrial conduzidos pela SL Alimentos, uma das empresas participantes do projeto.

Segundo Gisele Anne Camargo, gestora executiva e pesquisadora principal da PBIS, a tecnologia alcançou os níveis 5 e 6 na escala TRL (Technology Readiness Level), que mede a maturidade tecnológica de uma solução em uma escala de 1 a 9.

A partir dessa etapa, o avanço da proteína de feijão carioca até os alimentos disponíveis aos consumidores dependerá do interesse e das próximas etapas de desenvolvimento conduzidas pela indústria.

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