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‘Condições impossíveis’: produtores do RS relatam dificuldades de acesso a crédito

Após quatro safras seguidas de prejuízos, o Rio Grande do Sul caminha para mais perdas na temporada 2025/26. Segundo a Emater-RS, tanto a soja quanto o milho segunda safra enfrentam um cenário crítico devido à estiagem e às altas temperaturas. Diante desse cenário, as duas culturas devem ter o potencial produtivo reduzido.
Enquanto as lavouras sofrem com o déficit hídrico, os produtores rurais gaúchos lutam para sobreviver. A soma dos prejuízos em campo resulta em dívidas que se acumulam a cada safra, sem perspectiva de solução no médio e longo prazo.
Arlei Romeiro, presidente da Associação de Produtores e Empresários Rurais do Rio Grande do Sul (Aper), avalia que as instituições financeiras têm parcela de culpa no cenário que se desenha no estado. “Muitos produtores procuram os bancos, mas os critérios de enquadramento são tantos que acabam não conseguindo os recursos”, aponta.
Romeiro também questiona sobre relatos de produtores mais idosos, que estariam sendo excluídos sob a justificativa de não se enquadrarem no público-alvo. A situação, na avaliação dele, indicaria possível divergência entre a circular operacionalizada pelos bancos.
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Recursos que não chegam
Em outubro de 2025, a abertura de uma linha de crédito com orçamento de R$ 12 bilhões operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prometia um respiro para a saúde econômica das propriedades rurais com perdas de safra. Esse alívio, contudo, não chegou para muitos produtores do Rio Grande do Sul.
Encerrado em 10 de fevereiro, o programa do BNDES liberou um total de R$ 7,5 bilhões em operações de renegociação de dívidas. Sobre a linha emergencial, criada a partir de uma medida provisória, o presidente da Aper aponta critérios impostos pelos bancos que são praticamente impossíveis de serem cumpridos.
A dificuldade relatada pela associação se reflete em casos concretos no interior do estado. Em Toropi, o produtor Tarlen Schach afirma que tentou renegociar dois custeios de R$ 340 mil junto à cooperativa de crédito. Segundo ele, apenas um dos contratos foi enquadrado na MP 1314/2025, com prazo de oito anos e juros controlados. O outro precisou ser renegociado com juros livres, após a instituição não aceitar o parcelamento na modalidade prevista na medida provisória.
Schach relata que quitou pendências para retirar o nome do Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin), mas afirma que, mesmo com a emissão de certidão negativa de débitos, o parcelamento não foi formalizado. “Disseram que eu tinha perdido o prazo e que não havia mais recurso”, afirma.
De acordo com o produtor, a dívida inicial, de cerca de R$ 700 mil, já estaria sendo cobrada em aproximadamente R$ 1 milhão para novo parcelamento em nove anos, com juros livres. Ele diz ainda que foi notificado de que, caso não assine o acordo, a instituição poderá executar garantias vinculadas às áreas dadas em alienação. “Agora não sei mais o que fazer”, desabafa.
Bancos de um lado, produtores do outro
Outro ponto relatado é sobre o prazo final de acesso à linha do BNDES. Na circular enviada às instituições financeiras, constava que as operações precisariam ser protocoladas até 6 de fevereiro de 2026. Porém, o prazo para contratação do financiamento deveria ser feito até 10 de fevereiro.
Romeiro avalia que faltou clareza, o que fez com que muitos produtores não conseguissem acessar os recursos. “Isso não pode ser um problema que acaba sendo descontado e cobrado do produtor rural”, diz.
Para José Carlos Vaz, consultor jurídico e ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, as normas que compõem a MP 1314/2025 e a MP 1316/2025, que tratam da liquidação de dívidas rurais, “foram mal redigidas”, acarretando dificuldade no cumprimento de prazos e entrega de documentos.
Na avaliação dele, a maior parte dos produtores que estão enquadrados na MP está em situação de endividamento e de vulnerabilidade financeira significativa. Nesse contexto, Vez argumenta que as instituições optam por não correr o risco e pedir garantias que diminuam a possibilidade de desonra dos compromissos financeiros.
“Contudo, a regra geral é que se o produtor está enquadrado na norma e o banco diz que aceita o risco dele, o banco tem que cumprir o compromisso”, pondera.
Vaz também alerta que se o produtor comprovar que já cumpria todas as exigências e faltava apenas o processamento das certidões ou da operação, pode recorrer à Justiça para garantir o enquadramento na linha.
RS vive ciclo sem precedentes
Em dezembro do ano passado, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) encaminhou um ofício ao governo federal pedindo mudanças na MP 1314/2025 por causa de entraves na adesão dos produtores rurais gaúchos.
“A linha de R$ 12 bilhões foi insuficiente e mal construída e não faltaram avisos e reuniões para demonstrar”, afirma Antonio da Luz, economista-chefe da Farsul. Segundo ele, dados do Banco Central mostram que a maior parte das dívidas foi renegociada com recursos livres, a juros entre 18% e 22%.
Para Luz, isso desmente o argumento de que teria faltado demanda. “Quem em sã consciência preferiria juros mais altos a mais baixos?”, questiona.
Sobre a situação vivida pelo estado, o economista é categórico e afirma que se trata de uma crise sem precedentes. “Os produtores têm que se adaptar”, diz. Nesse sentido, ele aponta que só uma boa colheita seria capaz de reverter o cenário.
Para a safra 2025/26 do Rio Grande do Sul, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma produção de 38,9 milhões de toneladas de grãos, um avanço de 8,4% em relação à temporada anterior. O resultado, porém, depende das condições climáticas e pode influenciar diretamente a capacidade de recuperação financeira do setor.
O Canal Rural procurou o BNDES para comentar os relatos de exclusão apresentados na reportagem, mas não recebeu retorno até a publicação deste texto.
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Estudo da FAO aponta que bioinsumos podem reduzir custos no campo

A adoção de bioinsumos pode aumentar a rentabilidade das propriedades rurais e reduzir os custos de produção, desde que a tecnologia seja utilizada nas condições adequadas para cada sistema produtivo. A conclusão é de um novo estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A publicação reúne estudos de caso realizados em Argentina, Bolívia, Brasil, Costa Rica e México e aponta que o uso de bioinsumos pode trazer benefícios econômicos, ambientais e produtivos. Segundo a FAO, porém, os resultados dependem de fatores como a cultura cultivada, o tipo de solo, as condições agroecológicas, a escala da propriedade e o nível de tecnologia adotado.
O levantamento destaca que a América Latina e o Caribe é a região onde o mercado de bioinsumos mais cresce no mundo, com expansão superior a 10% ao ano. Enquanto a média global de adoção de bioestimulantes, biofertilizantes e agentes de biocontrole é de 38%, no Brasil esse índice chega a 67%, um dos mais elevados do planeta.
Alta dos fertilizantes impulsionou busca por alternativas
Segundo a FAO, o interesse pelos bioinsumos ganhou força após a disparada dos preços dos fertilizantes, provocada pelo aumento do custo do gás natural e pelos impactos da guerra na Ucrânia.
De acordo com o estudo, o valor das importações de fertilizantes pela América Latina e pelo Caribe cresceu 137% em 2022, cenário que acelerou a procura por alternativas capazes de reduzir a dependência de insumos importados e aumentar a resiliência da produção agrícola.
Além do potencial de reduzir custos, os bioinsumos também podem contribuir para preservar a fertilidade do solo, diminuir o impacto ambiental da atividade agrícola e tornar os sistemas produtivos mais resistentes a crises externas.
Casos mostram ganhos em diferentes culturas
A pesquisa avaliou diferentes modelos de adoção e produção de bioinsumos, incluindo o uso de produtos comerciais, a fabricação dentro das propriedades rurais e a operação de biofábricas cooperativas.
Entre os resultados positivos, o estudo cita os casos da cana-de-açúcar no México e das culturas de soja e uva na Bolívia. Nesses sistemas, a combinação de bioinsumos comerciais com a redução parcial do uso de agroquímicos aumentou a rentabilidade, seja pelo ganho de produtividade, seja pela redução dos custos de produção.
Já nas propriedades que produzem os próprios bioinsumos, os resultados variaram mais. Em algumas situações, o aumento da necessidade de mão de obra diminuiu parte das vantagens econômicas.
Ainda assim, a FAO conclui que a produção na própria fazenda pode ser competitiva em relação à compra de produtos comerciais, principalmente em regiões distantes dos centros de abastecimento, desde que sejam adotados protocolos técnicos e controle de qualidade para garantir a eficácia e a segurança dos produtos.
O estudo também aponta que biofábricas organizadas de forma cooperativa tendem a ser financeiramente viáveis quando a capacidade de produção acompanha a demanda local e aproveita a infraestrutura disponível.
Benefícios vão além da economia
Além dos resultados financeiros, a publicação destaca ganhos ambientais associados ao uso de bioinsumos, como a redução das emissões de gases de efeito estufa e o uso mais eficiente da água.
Os autores, porém, ressaltam que esses benefícios podem ser ainda maiores do que os registrados na pesquisa, já que ainda faltam dados para mensurar impactos sobre a saúde do solo, a biodiversidade e até a saúde humana.
Outro ponto destacado é o potencial dos bioinsumos para facilitar o acesso a mercados internacionais mais exigentes, especialmente para produtos exportados, como café, cacau, banana e abacate, ao contribuir para o atendimento dos limites máximos de resíduos de pesticidas.
FAO defende incentivo a políticas públicas
Com base nos resultados, a FAO recomenda ampliar os investimentos e as políticas públicas voltadas à adoção de bioinsumos na região.
Entre as principais medidas sugeridas estão o fortalecimento das linhas de financiamento e da assistência técnica para apoiar principalmente os pequenos produtores durante a transição, além da ampliação das pesquisas científicas, do aperfeiçoamento dos sistemas de controle de qualidade e da consolidação de marcos regulatórios que aumentem a confiança do mercado e incentivem a expansão dessa tecnologia na agricultura.
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Espírito Santo lança mostra para vender café conilon de alta qualidade em grandes volume

Antes vista apenas em concursos de qualidade, a valorização do café conilon agora ganha um novo formato no Espírito Santo. Pela primeira vez no Brasil, grandes lotes comerciais de alta qualidade dessa variedade serão apresentados diretamente a compradores em uma rodada de negócios, conectando quem produz a quem compra e abrindo novas oportunidades para o mercado.
O estado vai sediar uma iniciativa inédita no Brasil voltada ao café conilon. A Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) e o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) lançaram a 1ª Mostra de Negócios de Conilon Fine Cup em Volume, uma rodada de negócios criada para comercializar grandes lotes de café conilon de alta qualidade.
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A proposta marca uma mudança na forma de promover o produto. Em vez de premiar pequenos lotes, como acontece nos tradicionais concursos de qualidade, a mostra reunirá produtores e compradores para negociar volumes comerciais de cafés que atendam a elevados padrões físicos e sensoriais. É a primeira iniciativa do gênero voltada exclusivamente ao café conilon no Brasil.
A expectativa é reconhecer o trabalho de produtores que vêm investindo na melhoria da qualidade dos grãos e dos processos pós-colheita, além de ampliar o acesso do café capixaba a novos mercados e fortalecer sua presença nos cenários nacional e internacional.
“O Espírito Santo é referência nacional na produção de café conilon e agora avança para mostrar ao mercado que também possui capacidade de ofertar grandes volumes com elevado padrão de qualidade. A mostra aproxima produtores e compradores, agrega valor à produção e fortalece a imagem do nosso café nos mercados nacional e internacional”, afirma o secretário de estado da Agricultura, Enio Bergoli.
Segundo a gerente de Projetos de Cafeicultura da Seag, Aline Silva, a iniciativa representa uma nova etapa para o setor.
“Estamos falando de lotes comerciais que reúnem volume, padronização e qualidade. É uma oportunidade para valorizar o trabalho realizado nas lavouras e no pós-colheita, conectando essa produção diferenciada a compradores que buscam grandes lotes com qualidade comprovada”, destaca.
Como funciona a mostra de café conilon
Podem participar produtores de café conilon com lavouras localizadas no Espírito Santo, além de cooperativas e associações de produtores que desejarem inscrever lotes coletivos.
Cada lote deverá ter, no mínimo, 420 sacas de 60 quilos da safra atual. Não há limite de inscrições por participante. As amostras passarão por análises físicas e sensoriais realizadas por provadores certificados, seguindo os critérios definidos no regulamento.
Inscrições
As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até o dia 28 de agosto nos Escritórios Locais de Desenvolvimento Rural (ELDRs) do Incaper, distribuídos em todos os municípios capixabas.
Cupping e negócios
A mostra será realizada em 17 de setembro. Durante o evento, compradores convidados participarão de sessões de cupping para avaliar física e sensorialmente os lotes habilitados.
As negociações serão feitas diretamente entre produtores e compradores, enquanto a Seag e o Incaper atuarão apenas como facilitadores da aproximação entre as partes.
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A disputa pelo prato do futuro, e por que não associamos o feijão à proteína?

Há mais de 30 anos acompanho diariamente o mercado de Feijão. Nesse período, aprendi que, quando falamos desse alimento, estamos tratando de muito mais do que uma commodity agrícola. Estamos falando do Prato Feito brasileiro, da segurança alimentar e da forma como milhões de famílias se alimentam.
Posso afirmar que poucas vezes vi tantas mudanças acontecendo ao mesmo tempo, e não apenas na lavoura, mas principalmente no consumidor.
Durante décadas, uma pergunta orientou grande parte das análises sobre o consumo de alimentos: quanto o consumidor pode gastar?
Ela continua indispensável. Inflação, juros, renda, emprego e câmbio determinam o tamanho da cesta de compras. Quando o orçamento aperta, as famílias substituem marcas, reduzem quantidades, procuram promoções e reorganizam o cardápio.
Mas uma segunda pergunta começa a ganhar protagonismo, silenciosamente, no Brasil e no exterior: o que merece ocupar espaço no prato?
Pode parecer uma mudança pequena, mas ela tem potencial para redesenhar uma parte importante do mercado de alimentos. O consumidor continua atento ao preço. Compara ofertas e troca de marca quando necessário. Porém, cada vez mais, sua decisão também considera saúde, praticidade, origem, confiança, qualidade nutricional e a história por trás do produto.
Em outras palavras, ele não procura apenas o alimento mais barato. Procura aquilo que, dentro de seu orçamento, entrega mais valor. Essa transformação merece a atenção do agronegócio brasileiro.
Durante muito tempo, concentramos nossa comunicação na produção. Quantos hectares foram plantados? Qual será a produtividade? Quanto exportamos? Como estão os preços?
Essas questões continuarão essenciais para produtores, empacotadores, cerealistas e exportadores. Mas, se desejamos aumentar o consumo dos alimentos de verdade, precisamos olhar com mais atenção para quem está do outro lado da cadeia: a pessoa que decide, todos os dias, o que colocar na mesa da família.
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Essa decisão passou a ser influenciada por fatores que, até poucos anos atrás, quase não apareciam nas análises agrícolas.
O envelhecimento da população aumenta a preocupação com a alimentação preventiva. A incidência de doenças metabólicas amplia a procura por dietas equilibradas. A disseminação de medicamentos voltados ao controle do diabetes e da obesidade também começa a alterar o comportamento alimentar de milhões de pessoas.
Posso falar por experiência própria. Ao iniciar o uso de um medicamento da classe GLP-1, ouvi do médico uma orientação muito clara: seria necessário prestar ainda mais atenção ao consumo de proteína.
Quando a fome diminui, cada refeição passa a ter um peso maior. Não se trata apenas de comer menos. É preciso escolher melhor o que será consumido. Foi então que me fiz uma pergunta: quando se recomenda proteína, por que quase ninguém se lembra do Feijão?
A publicidade costuma relacionar proteína principalmente às carnes, aos laticínios, aos suplementos, às barras e a uma nova geração de produtos industrializados. Ao mesmo tempo, um dos alimentos mais completos, acessíveis e presentes na cultura brasileira permanece quase invisível nessa conversa. Esse é um dos grandes paradoxos da alimentação moderna.
Enquanto a indústria trabalha para adicionar proteínas e fibras a diferentes formulações, o Feijão já reúne naturalmente proteína vegetal, fibras, vitaminas e minerais. Além disso, carrega uma história construída ao longo de gerações.
O mesmo vale para o grão-de-bico, a lentilha e a ervilha. Esses alimentos, conhecidos internacionalmente como pulses, ocupam espaço crescente nos debates sobre nutrição, sustentabilidade e segurança alimentar.
No Brasil, porém, continuamos tratando-os quase exclusivamente como commodities ou produtos básicos de abastecimento. Não está na hora de mudar essa narrativa?
Outro movimento importante ocorre dentro dos supermercados. As grandes redes estão ampliando suas marcas próprias e procurando produtos que combinem qualidade, diferenciação e preço competitivo.
Isso não deve ser visto apenas como ameaça para a indústria. Pode representar uma oportunidade para empacotadores e processadores brasileiros desenvolverem novas linhas de Feijões, pulses, pipoca, gergelim e outras colheitas especiais.
Também cresce o interesse por alimentos minimamente processados, por ingredientes de origem conhecida e por produtos cuja história possa ser contada. O consumidor quer entender quem produz, como produz e por que aquele alimento merece sua confiança.
Isso aproxima o campo da mesa de uma maneira que ainda não compreendemos completamente. E o Brasil possui vantagens extraordinárias nesse cenário.
Somos capazes de produzir durante praticamente todo o ano. Temos uma enorme diversidade de Feijões, além de pulses, pipoca, gergelim e outras culturas especiais. Contamos com pesquisa científica, produtores tecnificados, agricultura familiar, cooperativas, empresas de beneficiamento e presença crescente no comércio internacional.
Mas ainda precisamos conectar essa capacidade produtiva com aquilo que realmente move o consumidor.
Não basta produzir mais. É preciso comunicar melhor. Não basta exportar mais. É preciso construir reputação.
Não basta afirmar que o alimento é saudável. É necessário explicar, demonstrar e participar ativamente da conversa sobre saúde e alimentação.
Quem não ocupar esse espaço corre o risco de produzir alimentos extraordinários e continuar invisível aos olhos do consumidor. É por isso que tenho defendido o conceito de Agroalimento.
O século 21 provavelmente não será lembrado apenas pela expansão do agronegócio. Será lembrado como o período em que a sociedade passou a discutir, com muito mais profundidade, a qualidade daquilo que come.
Quem compreender essa mudança deixará de vender somente produtos agrícolas e passará a oferecer soluções alimentares. Essa diferença é enorme.
O produtor continuará olhando para o clima, os custos, a produtividade, o câmbio e os mercados internacionais. Mas precisará olhar também para o consumidor final, entender suas preocupações, suas aspirações e seus novos hábitos.
A próxima grande disputa do agro não acontecerá apenas pela terra, pela produtividade ou pelos mercados externos. Será também uma disputa por espaço no prato.
O futuro do agronegócio continuará sendo construído na lavoura. Mas será confirmado — ou não — todos os dias, diante de milhões de consumidores.
Quem compreender isso primeiro deixará de disputar apenas mercados. Passará a disputar algo ainda mais valioso: a confiança de quem escolhe o que colocar no prato.

*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
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