Connect with us
11 de maio de 2026

Business

O pêndulo do arroz: pânico na alta, abandono na baixa

Published

on


Foto: Freepik

Eu acompanho o mercado de arroz há muito tempo. E falo isso com a tranquilidade de quem já viu esse filme mais vezes do que gostaria. O Brasil insiste em tratar o arroz sempre pelo retrovisor. Quando surge qualquer sinal de escassez, o tema vira crise nacional. Quando o preço despenca, o assunto some do debate público. No meio desse pêndulo, quem paga a conta é sempre o produtor.

Durante os eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul, esse reflexo ficou escancarado. A reação imediata foi tentar importar arroz. Critiquei na época, e continuo criticando. Não porque importar seja um pecado, mas porque o problema não era falta de arroz. Era escoamento, logística, organização. O mercado se ajustou, o abastecimento não colapsou e ficou claro que o susto foi maior do que a realidade.

O erro não foi apenas econômico. Foi a leitura do mercado

Agora estamos no extremo oposto. O preço do arroz caiu a níveis que inviabilizam a atividade. E, mais uma vez, o produtor está sozinho, espremido entre custo alto, crédito caro, risco climático e um mercado que não oferece previsibilidade mínima.

O arroz sempre conviveu com essa fragilidade no Brasil. Não é uma cultura de margens largas. Precisa de preço compatível com custo, investimento e risco. Quando isso não acontece, o ajuste vem do jeito mais doloroso: redução de área, menos tecnologia, menos capitalização, e a semente da próxima crise é plantada.

O arroz não quebra de uma vez. Ele vai sendo desestimulado aos poucos

Há ainda um fator estratégico que não pode ser ignorado. A produção relevante está concentrada no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, justamente a região mais exposta a extremos climáticos. Quando o produtor gaúcho perde previsibilidade, o risco não é regional, é nacional. Segurança alimentar não combina com improviso.

Advertisement

Costuma-se dizer que o arroz brasileiro perde competitividade para os grandes produtores asiáticos. Isso é verdade, mas incompleta. Lá fora, arroz é tratado como política de Estado. Há planejamento, coordenação e previsibilidade. Aqui, o produtor enfrenta um mercado solto, reagindo depois que o problema já apareceu.

O problema do arroz no Brasil não é tecnologia. É governança

E aqui faço, de forma clara, um chamado às entidades que representam o setor. Não dá mais para produzir no escuro, empurrar oferta ao máximo e depois sair procurando mercado, pedindo socorro ou reclamando do preço. Oferta precisa conversar com demanda. Isso exige estudo, planejamento e coordenação.

As entidades do arroz precisam liderar esse processo:

  • estudar consumo interno e externo;
  • projetar demanda realista;
  • sinalizar área e produção compatíveis;
  • construir previsibilidade para o produtor antes do plantio, não depois da colheita.

Produzir o impossível e depois tentar “arrumar mercado” é receita certa para crise de preço.

Não basta esperar que instrumentos públicos resolvam tudo. A Conab pode, e deve, atuar com estoques, preços mínimos e apoio ao escoamento. Mas sem organização do próprio setor, qualquer política vira remendo.

O modelo atual é perverso:

Advertisement
  • quando o preço sobe, discute-se importação;
  • quando o preço cai, o produtor que se vire;
  • e as entidades entram tarde, reagindo, não liderando.

Isso destrói a confiança, desorganiza a produção e fragiliza o futuro do arroz.

Arroz não é uma commodity qualquer. É base da alimentação, é estabilidade social, é soberania silenciosa. O país sério não trata o alimento básico como um problema episódico. Trata como estratégia.

Para reflexão 

Se o Brasil quiser um mercado de arroz saudável, vai precisar ir além das críticas pontuais e das reações emocionais aos extremos. Esse debate não pode ficar restrito aos gabinetes nem a decisões tomadas no susto. Ele precisa nascer no campo, com o produtor no centro da discussão.

É hora de o produtor também chamar essa responsabilidade para si.

Sentar à mesa, discutir números, demanda, oferta, área, custo, risco e futuro. Pensar coletivamente. Cobrar das entidades, mas também participar ativamente da construção de uma estratégia que dê previsibilidade ao setor.

Sem maturidade no debate, continuamos presos ao mesmo ciclo: pânico na alta, abandono na baixa, e um produtor cada vez mais vulnerável.

Advertisement

O arroz que o Brasil vai colher amanhã depende das decisões que começarem a ser discutidas agora.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

O post O pêndulo do arroz: pânico na alta, abandono na baixa apareceu primeiro em Canal Rural.

Advertisement
Continue Reading
Advertisement

Business

Canetas emagrecedoras: o impacto no frango e na demanda por grãos

Published

on


Imagem gerada por IA para o Canal Rural

O número de usuários de canetas emagrecedoras no mundo pode ultrapassar os 100 milhões até 2030, segundo relatório da Cogo Inteligência em Agronegócio. Esse resultado deve-se à quebra de patentes de marcas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, fazendo com que os preços caiam exponencialmente e o consumo aumente.

Com a demanda crescente, aumenta também a preocupação com a possível redução do consumo de alimentos, uma vez que esse tipo de medicamento diminui o apetite de quem usa. Embora essa seja a lógica imediata, o estudo indica o oposto para o setor de grãos e para o consumo de proteína animal, com destaque para a carne de frango e os ovos.

Em um contexto em que o consumidor procura saciedade prolongada, as chamadas “proteínas magras” tendem a ser impactadas com maior intensidade. Segundo o relatório, as exportações brasileiras de carne de frango podem ter um incremento de 12% a 15% no médio prazo.

Mudança na dieta e no comportamento

Em relatório lançado em abril deste ano, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) já indica uma mudança estrutural no perfil do consumo global de proteínas.

O setor de ovos, por exemplo, atingiu a produção recorde de 62,3 bilhões de unidades em 2025. Segundo a ABPA, esse crescimento decorre da desmistificação do produto, que agora se consolida como essencial e saudável para o consumidor.

Advertisement

Em relação à carne de frango, a entidade aponta que o consumo per capita se manteve elevado no ano passado, com 46,7 kg por habitante.

Oportunidades estratégicas para o Brasil

Diante desse cenário, surgem oportunidades estratégicas para o setor exportador de grãos. Isso porque o aumento do consumo dessas proteínas eleva a demanda por ração, que é composta majoritariamente por milho e farelo de soja, com cerca de 60% e 25%, respectivamente.

As projeções da consultoria indicam que em um cenário otimista de 5 a 7 anos, a demanda para uso em ração pode crescer até 10% para o cereal e 12% para o derivado da soja.

Além dos impactos nos embarques brasileiros, outro ponto destacado no relatório é a ascensão dos Smart Foods — alimentos formulados para maximizar a saciedade e a densidade nutricional. Com isso, abrem-se oportunidades para frigoríficos investirem nesse mercado.

Por outro lado, não são todos os setores que deverão ser beneficiados. Para ultraprocessados, carboidratos e açúcares, a perspectiva é de queda significativa no consumo, o que indica uma virada nos hábitos alimentares que irá demandar cada vez mais resiliência e mudança nas estratégias.

Advertisement

.

O post Canetas emagrecedoras: o impacto no frango e na demanda por grãos apareceu primeiro em Canal Rural.

Continue Reading

Agro Mato Grosso

Valtra aposta nos motores biometano com economia de até 40% no agro

Published

on

Em meio a uma guerra no Oriente Médio que elevou o preço dos combustíveis fósseis e aumentou ainda mais a pressão sobre a rentabilidade do produtor rural brasileiro, as grandes indústrias de máquinas agrícolas trouxeram para a Agrishow, maior feira agrícola de tecnologia da América Latina, em Ribeirão Preto (SP), uma alternativa comum de descarbonização: os motores a etanol. A escolha do combustível se deve à vocação natural do país e aos aumentos de produção a partir do milho.

A tecnologia para mover os tratores e outrasmáquinas agrícolascom o etanol, no entanto, ainda está em testes, fase que antecede a validação. A Valtra é a única que faz uma estimativa de lançamento comercial do motor.

“As máquinas já completaram mais de 10 mil horas de testes em fazendas de cana de parceiros. Estamos agora na fase de pequenos ajustes, como a curva de potência, mas estamos maduros para entrar firme no mercado em 2027”, diz Cláudio Esteves, diretor de vendas da empresa do grupo AGCO.

A Fendt aposta no motor elétrico, que já está sendo comercializado na Europa e Estados Unidos. Mas também está testando outras opções de combustível. Marcelo Traldi, vice-presidente da Fendt e Valtra na América do Sul, diz que o motor elétrico pode vir para as máquinas da marca no Brasil, mas isso ainda não está decidido.

“Já temos a solução elétrica pronta, mas sabemos da dificuldade de recarga. Estamos trabalhando para trazer a melhor solução e superar as dificuldades, visando redução de consumo de combustível e utilização correta de todos os insumos.”

Advertisement

Torsten Dehner, vice-presidente global da Fendt, diz que o trator elétrico desenvolvido na Alemanha promete uma economia de até 20% em combustível nas operações no campo. A marca premium da AGCO trabalha o desenvolvimento de um trator híbrido.

“O ponto central é que não existe uma solução única. A transição energética no agro será híbrida e complementar: eletrificação, biometano, etanol e biodiesel atendem a diferentes perfis de operação, regiões e realidades produtivas.”

“O etanol do milho vai mudar a pressão sobre o uso desse combustível. A grande questão a ser respondida ainda é o poder calorífico do motor porque a máquina exige um torque maior.”

 

Biometano

 

Advertisement

Trator a biometano da Valtra — Foto: Eliane Silva/Globo Rural

Trator a biometano da Valtra — Foto: Eliane Silva/Globo Rural

Além do etanol, a Valtra aposta no biometano, combustível produzido com o passivo ambiental das propriedades, como os dejetos da suinocultura, criando um modelo de economia circular.

Nesse caso, os testes já somaram 20 mil horas e o lançamento está previsto para 2028. Segundo Esteves, atualmente as máquinas das marcas do grupo AGCO equipadas com a transmissão CVT entregam uma economia de 15% de diesel.

“Assumimos o compromisso em 2017 de explorar no Brasil o trator movido a biometano. As vendas vão se consolidando. Temos a ferramenta pronta para uso em várias culturas, como café e suinocultura, mas é na cana que a tecnologia tem sido mais adotada”, diz o diretor, que não revela o total de unidades vendidas desde o lançamento. Só diz que está na casa de dezenas.

Segundo as informações os tratores a biometano oferece a mesma potência do diesel, com uma economia de até 40%.

Advertisement
Continue Reading

Business

Imea estima 48,8 mi/t de soja na safra 26/27; milho é a maior preocupação

Published

on


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A safra 2026/27 de soja em Mato Grosso deve registrar uma produção de 48,882 milhões de toneladas. É o que estima a primeira projeção para o ciclo do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A cautela na oleaginosa aponta um volume 5,19% menor que o colhido no ciclo 2025/26, influenciada pelas incertezas climáticas e, principalmente, com os custos operacionais diante dos preços dos insumos, visto as tensões geopolíticas no Estreito de Ormuz. Fatores, inclusive, que preocupam em relação ao milho segunda safra, segundo o setor produtivo.

De acordo com o Imea, a área da safra futura deve crescer 0,25% e ficar em 13,046 milhões de hectares, “configurando como o possível menor crescimento dos últimos anos”, o que reflete um ambiente mais desafiador para o produtor rural.

Em relação a produtividade, a projeção aponta 62,44 sacas por hectare, decréscimo de quatro sacas por hectare em comparação às últimas duas safras, que registraram patamares recordes próximos a 66 sacas por hectare. O Instituto explica que a “redução está associada, principalmente, à mudança no padrão climático, com a transição de um cenário de La Niña, que favoreceu o desempenho recente das lavouras, para um ambiente com maior influência de El Niño, historicamente relacionado à impactos negativos no desenvolvimento da soja no estado”.

Milho é a maior preocupação

A perspectiva anunciada pelo Imea, na avaliação do presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, “é um número mais realistas” para o momento vivido. Conforme ele, além da questão do diesel, os fosfatados também passam pela região do Estreito de Ormuz.

Advertisement

Beber afirma que são grandes as preocupações dos produtores rurais mato-grossenses com o ciclo 2026/27 diante das tensões geopolíticas, em especial com o milho.

“Nós temos uma forte preocupação, já que o milho tem segurado um pouco da rentabilidade do produtor rural. Nós já temos o conflito da Rússia com a Ucrânia e temos agora esse conflito no Irã, que é um grande fornecedor de nitrogenados aqui para o país e um grande importador de milho”, pontua em entrevista ao Canal Rural Mato Grosso.

O presidente da Aprosoja-MT frisa que a tendência para o próximo ciclo é uma redução de investimento em tecnologia, visando uma diminuição dos custos para que o produtor rural “consiga ter uma rentabilidade razoável”.


Clique aqui, entre em nosso canal no WhatsApp do Canal Rural Mato Grosso e receba notícias em tempo real.

O post Imea estima 48,8 mi/t de soja na safra 26/27; milho é a maior preocupação apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.

Advertisement
Continue Reading
Advertisement
Advertisement
Advertisement

Agro MT