Agro Mato Grosso
Agroindústria abre nova frente de expansão em MT e impulsiona PIB acima da média nacional

Combinação do agro com a indústria gera novo ciclo de crescimento econômico no estado, o que atrai investimentos e mão de obra para sanar desafios de décadas, como a logística.
Apesar da desaceleração econômica a nível nacional, a economia mato-grossense parece refletir as altas temperaturas de Cuiabá e se mantém aquecida, inclusive acima da média. O que traz esse ganho nos indicadores econômicos é o resultado da agropecuária e, mais recentemente, a combinação da produção agrícola com a expansão da base industrial.
Isso pode ser medido por meio da projeção do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, que saltou de 4,1%, em janeiro, para 6,6%, em setembro, de acordo com o boletim mensal do Banco do Brasil. Assim, Mato Grosso dispara na frente de todos os estados quando o assunto é crescimento econômico.
Com os resultados dos últimos meses, o estado vai na contramão do país. A atividade econômica nacional começa a dar sinais de desaceleração conforme esperado pelo Banco Central (BC), que mantém a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, sendo a maior taxa em quase 20 anos.
O BC usa essa ferramenta para trazer a inflação para dentro da meta estipulada pelo governo e, com isso, provoca um esfriamento na atividade econômica, no acesso ao crédito e em investimentos. Portanto, a previsão do PIB do país neste ano foi revisada para baixo, de 2,1% para 2%, de acordo com o relatório de Política Monetária do BC.
🔍O PIB é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos num período de tempo. O cálculo leva em conta o produto final para evitar dupla contagem. Se um país produz R$ 100 de trigo, R$ 200 de farinha de trigo e R$ 300 de pão, por exemplo, seu PIB será de R$ 300, porque os valores da farinha e do trigo já estão embutidos no valor do pão. Diante disso, o PIB não reflete a riqueza de um país, mas aponta somente o fluxo de novos bens e serviços finais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O diferencial de Mato Grosso ao se manter na liderança nacional em termos de crescimento econômico, nos últimos anos, tem sido a combinação do agro com a indústria, o que gerou um novo ciclo produtivo.
“O agronegócio foi o motor do primeiro ciclo econômico. Agora, a agroindústria é a frente de expansão, agregando valor, industrializando matérias-primas e gerando empregos qualificados. O setor já emprega mais de 200 mil pessoas direta e indiretamente no estado, com forte absorção de jovens”, destaca a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico (Sedec).
A indústria estadual como um todo deve crescer 6,7% em 2025, acima da média nacional, conforme a Sedec. Além do setor de grãos, frigoríficos de carne bovina, aves e suínos estão se expandindo, o que fortalece a industrialização da proteína animal.
Nos últimos dez anos, o PIB industrial do estado triplicou, puxado especialmente pelos segmentos de alimentos (carne bovina e derivados), bebidas e combustíveis renováveis (etanol de milho), de acordo com a Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (FIEMT). Conforme últimos dados, o PIB industrial foi de R$ 37,7 bilhões, o que correspondeu a cerca de 16,3 % do PIB do estado.
“O que ainda falta é superar gargalos históricos: logística mais eficiente e estabilidade tributária. Com a expansão da infraestrutura de transporte e a modernização do ambiente regulatório, o estado pode acelerar ainda mais sua industrialização e reduzir a dependência da exportação de commodities in natura”, segundo a FIEMT.
A agroindústria transforma os produtos do campo. No estado, há abundância de matérias-primas estratégicas. É o caso das usinas de etanol de milho, que se expandiram e impulsionaram o crescimento da produção do grão e das indústrias de biodiesel, que utilizam a soja como base.
Municípios consolidados em agroindústria:
- Cuiabá: 364 estabelecimentos agroindustriais
- Sinop: 263
- Rondonópolis: 203
- Várzea Grande: 195
A Sedec explicou ainda que Sorriso, Lucas do Rio Verde, Sapezal e Campo Novo do Parecis contam com tecnologia no campo, sobretudo em soja, milho e algodão.
Municípios que crescem com agroindústria:
- Colniza: de 9 agroindústrias, em 2014, saltou para mais de 70, em 2023;
- Nova Ubiratã e Nova Mutum: estão entre os 100 municípios mais ricos do agro no país, seguem expandindo capacidade produtiva e base industrial;
- Campo Verde: é o maior polo têxtil do estado com 23 algodoeiras e 2 fiações em operação, com aproximadamente 2,5 mil toneladas ao mês de fios;
- Água Boa: será ponto logístico-industrial estratégico do traçado da Fico, que virá de Mara Rosa (GO) até o município. Será o marco da 1ª etapa da ferrovia no estado e tende a captar terminais, indústrias de processamento e armazenagem.
🛣️Desafios logísticos
Com uma área equivalente ao território da França e da Alemanha, Mato Grosso possui o maior pacote de obras de infraestrutura do país, de acordo com dados da Sedec. Desde 2019, já foram entregues 6.037 km de asfalto novo e há outros 1.417km em andamento.
Contudo, apenas 14% de todo o território é usado pelo agronegócio, enquanto outros 60% são preservados em terras indígenas, unidades de conservação e áreas protegidas pelos produtores.
A questão logística, contudo, ainda é um desafio a ser superado no estado. Afinal, toda a produção de soja, milho e algodão precisa escoar para os portos até os navios, e as estradas ainda são os meios mais usados para essa tarefa.
Apesar disso, a expectativa é de que o estado se torne um dos maiores hubs logísticos da América Latina, conforme a Sedec, caso os projetos de infraestrutura e ferroviários avancem nos próximos anos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/X/n/n5f0hPTySy2fW2M09uAA/mt-uso-da-terra.png)
Especialistas precisam cruzar dados de diferentes instituições para monitorar uso da terra — Foto: Imea
Ainda assim, a logística pouco acompanha o ritmo da produção agrícola, o que gera um desequilíbrio entre o que é produzido e o que é escoado. A superintendente de inteligência de mercado da Infra — estatal do Ministério dos Transportes — Lilian Campos ressaltou as razões desse desequilíbrio logístico.
“Temos condições de poder atuar e sanar os desafios logísticos que o estado tanto precisa. Nós temos um paradoxo, porque temos uma produção agrícola de classe mundial, e temos infraestrutura que precisa acompanhar essa produção”, afirmou.
Como diagnóstico, ela destacou alguns projetos estratégicos que estão encaminhados e, assim que concluídos, poderão conectar o estado além das rodovias. Lilian cita exemplos. “Temos a Fico, a Ferrogrão e as rotas bioceânicas, que estão em curso e vão transformar a matriz no estado.”
Para isso, Mato Grosso abre diferentes frentes, tanto por terra, água e ar, para escoar toda a produção agrícola.
A Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico) já possui cerca de 39% de execução. A expectativa é que a obra possa ampliar o escoamento da safra na região, e deve ligar Água Boa a Lucas do Rio Verde, dois municípios do agro.
Já as obras da Ferrogrão estão em fase de reestruturação e a constitucionalidade da ferrovia é analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Quando concluída, o traçado deve ligar o Arco Norte e reduzir os custos logísticos, ligando Sinop ao Porto de Miritituba, no Pará, para onde escoa grande parte da produção agrícola.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/W/v/wqJ9wZR8AUCFsX8x1zCw/trajeto-ferrograo.png)
Governo estuda maneiras de viabilizar a Ferrogrão — Foto: g1 Arte
Outra ferrovia em andamento é a Senador Vicente Vuolo, a primeira estadual no país, que conta com 700 km ligando Rondonópolis a Lucas do Rio Verde e um ramal até Cuiabá. Com investimento privado estimado em R$ 14 bilhões, a obra deve gerar 180 mil empregos.
Nas estradas, a duplicação de cerca de 450 km da BR-163 e todas as obras previstas em contrato de concessão devem receber investimentos de R$ 9 bilhões, segundo a Sedec. “A previsão para conclusão das obras de duplicação é de oito anos, conforme o contrato e a meta interna é antecipar o cronograma para quatro anos.”
Já a MT-170 — antiga BR-174 — vai interligar Juruena a Castanheira, e conta com 155 km executados, com investimentos de R$ 675 milhões. Outra rota é a hidrovia do Rio Paraguai, que segue em processo de concessão. A expectativa é de reduzir as interrupções na navegação e, com isso, ampliar a competitividade.
Nos aeroportos, sob concessão da Centro Oeste Airports, foram realizadas obras de ampliação e modernização, com investimento de R$ 570 milhões em Várzea Grande, Sinop, Rondonópolis e Alta Floresta.
Diante desse quadro geral de obras em andamento, a economia mato-grossense é vista como um adolescente que cresceu rápido demais, conforme Lilian. “Agora as roupas precisam caber no corpo. A solução aqui não vai promover apenas a economia do estado, mas também a do Brasil”, salientou.
Para o superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) Cleiton Gauer, a agroindústria deve contribuir para a economia do estado sair da fase de adolescente para a adulta.
“Quando falo de desenvolvimento e fase de amadurecimento, a economia passa por processo de agroindustrialização. Então, as indústrias estão surgindo e ganhando tração no estado. A gente tem uma planta na área de esmagamento de soja para atender a demanda de biocombustíveis”, explicou.
Segundo Gauer, a logística no estado é o principal desafio a ser superado. “Nunca existiu logística em Mato Grosso. Se a gente esperasse tudo acontecer e chegar primeiro para desenvolver a produção, o estado não seria o que é hoje. Então, a produção veio primeiro, o que forçou o desenvolvimento logístico, a abertura de estradas, ferrovia e hidrovia. Nós passamos por desafios no passado e podemos nos planejar e desenvolver um futuro diferente.”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/y/b/BFDAqTRAaMdS6BrUAbGA/image-32-.png)
Imagem aérea das obras da BR 163 em MT — Foto: TVCA/Reprodução
A situação das estradas também impacta outro fator de peso na balança de todo empresário e produtor: o custo do frete.
“Mato Grosso enfrenta desafios de infraestrutura logística, com estradas precárias e altos custos de escoamento da produção, além de dificuldades de armazenamento para pequenos produtores”, destacou Fernando Henrique Dias, professor de economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Para se ter uma ideia desse custo, um caminhão que sai de Sorriso para Rondonópolis tem um frete cobrado em US$ 30,27 por tonelada. De Rondonópolis até o Porto de Santos, por ferrovia, o frete já sobe para US$ 46,59 por tonelada, e de Santos para a China, de navio, o custo vai para US$ 37,00. No total, foi gasto US$ 113,86 por tonelada, enquanto a mesma logística nos Estados Unidos custa, ao todo, US$ 84,90 por tonelada.
O principal destino das exportações do estado incluem a China, Rússia, Japão e Estados Unidos. Enquanto na balança comercial do país, a participação do agro mato-grossense corresponde a 36,4%, segundo dados do Imea. No cenário doméstico, Mato Grosso lidera com folga o ranking do Centro-Oeste em toneladas exportadas (veja infográfico abaixo.)

O professor lembra ainda que, para a agroindústria se desenvolver plenamente no estado, é preciso mão de obra qualificada. “Mas é preciso preparar a população local para ocupar essas vagas”, afirmou.
Essa preparação passa, antes, pela distribuição de renda. “Apesar do crescimento econômico, existe um problema de distribuição de renda, com o poder econômico concentrado, o que maqueia os números e causa empobrecimento em algumas regiões. Então, a solução passa por uma transferência de políticas sociais para as regiões empobrecidas, com foco em moradia e qualificação profissional para diversificar a economia e reduzir a dependência do agronegócio.”
💰Investimentos
A Sedec aponta que Mato Grosso é o único estado do país que segue com a população crescendo até 2070. Atualmente, o estado tem 3,84 milhões de habitantes, sendo o 16º maior do país. Isso significa que o estado tem atraído migrantes e profissionais de outros estados, o que reflete na geração de empregos e na confiança do crescimento econômico.
Para seguir atrativo, contudo, o estado precisa de investimentos. Em 20 municípios, o governo estadual informou que já investiu R$ 106 milhões em obras para melhorar a infraestrutura de aeroportos e aeródromos.
“Todos esses investimentos têm como objetivo reduzir custos logísticos, aumentar a eficiência e consolidar Mato Grosso como o principal corredor de exportação de alimentos e energia do país”, informou a Sedec.
A secretaria estima ainda que, somando os recursos públicos e privados em infraestrutura, além dos aportes privados das agroindústrias e de biocombustíveis, os investimentos no estado ultrapassem R$ 60 bilhões na próxima década, consolidando Mato Grosso como a fronteira mais dinâmica do agronegócio brasileiro.
Para o Imea, o estado tem diferentes oportunidades a serem desenvolvidas e investidas até 2034:
- 15,6 milhões de hectares de pastagens plantadas poderão ser convertidas para agricultura.
- A produção de soja deve crescer 65% (de 39 milhões para 64 milhões de toneladas).
- O milho deve expandir 70% (atingindo 80 milhões de toneladas).
- O algodão deve avançar 52%, alcançando mais de 4 milhões de toneladas de pluma.
Desde 2019 foram investidos R$ 7,8 bilhões em pavimentação e duplicação de rodovias pela Secretaria Estadual de Infraestrutura e Logística (Sinfra).
Apenas a ferrovia estadual representa R$ 14 bilhões em capital privado e outros R$ 9 bilhões devem ser injetados na BR-163 em oito anos.
Agro Mato Grosso
Inmet emite alerta de perigo para baixa umidade em 69 municípios de MT; veja como se cuidar

Umidade do ar pode chegar a 12% nesta quarta-feira (12), com risco de incêndios florestais e problemas de saúde.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta laranja, de perigo, para baixa umidade em 69 municípios de Mato Grosso, com início às 12h30 desta quarta-feira (12). A umidade relativa do ar deve variar entre 20% e 12%, aumentando o risco de incêndios florestais e de problemas de saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a umidade relativa do ar ideal para o organismo humano deve ficar entre 40% e 70%. Quando os índices caem abaixo desse patamar, aumentam os riscos de problemas como irritação nos olhos, nariz e garganta, ressecamento da pele, crises alérgicas e complicações respiratórias.
Além de Cuiabá, veja os municípios impactados: Água Boa, Alto Araguaia, Alto Boa Vista, Alto Garças, Alto Taquari, Araguaiana, Araguainha, Barão de Melgaço, Barra do Garças, Bom Jesus do Araguaia, Campinápolis, Campo Verde, Canabrava do Norte , Canarana , Chapada dos Guimarães, Cláudia, Cocalinho, Confresa, Diamantino, Dom Aquino, Feliz Natal, Gaúcha do Norte, General Carneiro, Guiratinga, Itiquira, Jaciara, Juscimeira, Luciara, Marcelândia, Nobres, Nova Brasilândia, Nova Mutum, Nova Nazaré, Nova Ubiratã, Nova Xavantina, Novo Santo Antônio, Novo São Joaquim, Paranatinga, Pedra Preta, Peixoto de Azevedo, Planalto da Serra, Pontal do Araguaia, Ponte Branca, Porto Alegre do Norte, Primavera do Leste, Poxoréu, , Querência, Ribeirão Cascalheira, Rondonópolis, Rosário Oeste, Santa Carmem, Santa Cruz do Xingu, Santa Rita do Trivelato, Santa Terezinha, Santo Antônio do Leste, Santo Antônio do Leverger, São Félix do Araguaia, São José do Povo, São José do Xingu, São Pedro da Cipa, Serra Nova Dourada, Sorriso, Tesouro, Torixoréu, União do Sul, Vera e Vila Rica.
Veja os cuidados durante o tempo seco
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/e/V/XS5KFST5AWm3KHoWUwqw/videos-g1-31-.jpg)
Segundo o Inmet,69 municípios serão impactados pela baixa umidade em MT — Foto: Inmet
Além dos impactos na saúde, o tempo seco também favorece a ocorrência de incêndios em áreas urbanas e rurais.
O tempo seco pode causar ressecamento da pele e desconforto nos olhos, na boca e no nariz. Diante da baixa umidade, é recomendado alguns cuidados para reduzir os impactos do clima:
- Beber bastante água ao longo do dia, mesmo sem sentir sede;
- Evitar atividades físicas ao ar livre e exposição ao sol entre os horários mais quentes;
- Usar hidratantes para proteger a pele do ressecamento;
- Umidificar os ambientes com umidificadores, bacias com água ou toalhas úmidas;
- Manter a casa limpa e arejada, utilizando pano úmido em vez de vassoura para evitar levantar poeira;
- Evitar fumaça de cigarro e não colocar fogo em lixo ou vegetação;
- Procurar atendimento médico em caso de agravamento de problemas respiratórios.
As autoridades também orientam que a população acompanhe os avisos da Defesa Civil e dos órgãos de meteorologia, especialmente durante o período de estiagem, quando as condições do tempo podem aumentar o risco de queimadas e comprometer ainda mais a qualidade do ar.
Agosto é marcado por calor e baixa umidade
O alerta ocorre durante um período de temperaturas elevadas em Mato Grosso. Em julho deste ano, Cuiabá registrou 38,6°C no domingo (26), segundo o Inmet. Essa foi a maior temperatura registrada na capital em 2026 até então.
Na mesma época em 2024, Cuiabá registrou temperaturas acima de 40°C por seis dias consecutivos e foi apontada como a cidade mais quente do Brasil. Na ocasião, o Inmet chegou a prever máxima de 41°C para a capital, com umidade relativa do ar entre 10% e 30%.
Em 2025, Cuiabá também enfrentou uma onda de calor e registrou algumas das maiores temperaturas do país. A capital mato-grossense chegou a superar os 40°C e teve previsão de máxima de 39°C em um dos dias mais quentes daquele período.
Agro Mato Grosso
Pesquisa aponta linhagens de soja tolerantes a percevejos

Materiais podem contribuir para cultivares mais resistentes e para o manejo integrado de pragas
Por meio de um programa de melhoramento genético, pesquisadores brasileiros identificaram quatro linhagens de sementes de soja tolerantes à infestação por percevejos. A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de uma cultivar capaz de reduzir a necessidade do uso de produtos químicos para controle dos insetos nas lavouras.
O grupo de trabalho, composto por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Botucatu, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), focou em duas linhagens parentais, uma tolerante e outra não tolerante a percevejos, além de 12 linhagens recombinantes – híbridos gerados a partir dos parentais, que se comportam ora tolerantes, ora suscetíveis à praga (doi.org/10.1002/ps.70904).
O experimento foi feito em duas regiões produtoras de soja, em cenários de manejo com e sem aplicação de inseticidas. Um dos campos de teste foi a Fazenda Lageado, da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, em Botucatu. O outro foi a Estação Experimental do Departamento de Genética e Melhoramento de Plantas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Anhumas, no município de Piracicaba.
“Tentamos trabalhar em dois ambientes que têm certo contraste. Botucatu tem altitude mais elevada e clima mais ameno. Anhumas [Piracicaba], altitude mais baixa e ambiente mais quente. Tentamos representar um pouco da diferença de ambientes em que se cultiva soja no país”, explica Larissa Chamma, coautora do trabalho realizado durante seu doutorado no Departamento de Produção Agrícola da FCA-Unesp.
Ela ressalta que ainda se estuda muito pouco a qualidade das sementes sob ataque de pragas considerando a forma como a genética da planta reage a diferentes condições de clima e solo – embora a tolerância natural da soja seja um componente central para o manejo integrado de pragas. Essa estratégia agrícola sustentável combina diferentes métodos de controle, utilizando os agrotóxicos apenas como último recurso.
“O estudo conecta melhoramento genético a manejo de pragas e seu impacto está em não tratar apenas a tolerância ao percevejo, no sentido de aplicar ou não inseticida. Ele mostra que a resposta dos genótipos depende do ambiente e do regime de manejo. Começamos pensando sob a perspectiva do melhoramento genético e depois o artigo foi enquadrando também a questão do manejo e isso foi muito importante para que fosse publicado na PMS. A pergunta deixa de ser ‘qual linhagem é a melhor?’, e passa a ser ‘qual linhagem é mais estável e útil sob diferentes condições reais de cultivo?’”, sublinha o biólogo Rômulo Pedro Macêdo Lima, também autor do trabalho.
O professor da FCA-Unesp Edvaldo Aparecido Amaral da Silva, orientador de Chamma, ressalta que a estratégia não exclui a necessidade de fazer o manejo integrado de pragas. “A seleção e o melhoramento de sementes são parte de uma série de estratégias que podem ajudar o ambiente. Não vão eliminar completamente os inseticidas químicos, mas vão facilitar a vida do agricultor, reduzir os custos e os problemas ambientais.”
Segundo o pesquisador, 30% das lavouras de grãos – de todos os tipos, não apenas a soja – podem ser perdidas por conta de percevejos.
Quatro cenários
A equipe partiu de um estudo anterior do Programa de Melhoramento de Soja do Departamento de Genética da Esalq-USP, liderado pelo professor José Baldin Pinheiro, que abarcava inicialmente 180 linhagens endogâmicas (formadas a partir do cruzamento repetido entre indivíduos geneticamente semelhantes).
“Fizemos uma fenotipagem inicial, selecionando os materiais que continham as características que nos interessavam: resistência ao percevejo, alta produtividade e alta qualidade fisiológica de sementes. A partir dessa seleção, desenhamos um experimento para saber como esse material se comportaria em ambientes com o controle químico de percevejos e sem ele”, conta Chamma.
Em ambas as áreas experimentais foram realizadas, antes da semeadura, a calagem (adição de calcário na terra para diminuir a acidez e melhorar a absorção de nutrientes pelas raízes) e a adubação mineral de acordo com a análise do solo. O controle de plantas daninhas foi feito com herbicida e houve aplicação de fungicida quando necessário.
As sementes destinadas à exposição aos produtos químicos foram tratadas conforme as recomendações do fabricante, com fungicida, inseticida e inoculantes. As aplicações de inseticida foram realizadas com base no monitoramento de pragas: semanalmente, ou sempre que o método de “batida com pano” detectasse pelo menos um percevejo por metro quadrado.
“Nas lavouras comerciais, sabe-se quando aplicar o inseticida pelo seguinte método: eles colocam um pano no meio das plantas de soja e batem as plantas para ver quantos percevejos caíram. Se tem um percevejo por metro quadrado em uma lavoura direcionada ao cultivo de sementes, eles já sabem que têm de aplicar”, conta Chamma.
Ela lembra que as regiões de Anhumas e Botucatu apresentaram populações de percevejos acima desse limite, considerado o máximo tolerável para a produção de sementes de soja. Na região de Anhumas, a população atingiu um pico de cinco percevejos por metro quadrado, enquanto em Botucatu chegou a aproximadamente três percevejos por metro quadrado. As espécies detectadas em ambas as regiões foram Nezara viridula, Piezodorus guildinii, Diceraeus melacanthus e Euschistus heros.
Nas parcelas tratadas com inseticida, foram aplicados os compostos tiametoxam + lambda-cialotrina, clorantraniliprole + bifentrina, imidaclopride + beta-ciflutrina, deltametrina e imidaclopride + bifentrina. No tratamento sem inseticida, nenhum deles foi usado, mas o preparo do solo e o controle com herbicida e fungicida foram feitos.
“Nas duas áreas experimentais, tínhamos o grupo-controle, sem inseticida, e o outro grupo, com inseticida. Foram dois ambientes, mas tratamos como se fossem quatro, e isso foi importante, pois havia duas diferenças a considerar: a climática e a do grupo-controle. Percebemos que o ambiente em que não foi feita a aplicação de inseticida funciona melhor para filtrar os genótipos mais tolerantes à praga de percevejos, pois tem maior pressão de seleção”, detalha Lima.
Oito características fisiológicas das sementes relacionadas à germinação, ao vigor e à longevidade foram avaliadas para determinar as respostas da planta sob exposição aos percevejos. “Lançamos mão de um método robusto, com análises de interação genótipo-ambiente que incluem o uso de modelos estatísticos. Descobrimos que o fator genético tem forte influência na longevidade das sementes sob diferentes níveis de infestação por percevejos. Já o peso dos efeitos ambientais foi predominante para as características de vigor inicial da semente”, descreve Lima.
Longevidade
Em resumo, o estudo revelou que a longevidade é mais afetada pela genética do que pelos aspectos ambientais. Os cientistas, inclusive, sugerem que ela pode servir como um indicador para antecipar o desempenho geral das sementes sob estresse de pragas.
“A longevidade das sementes apresentou um controle genético comparativamente mais forte que o ambiental. Trata-se de uma característica associada à qualidade fisiológica da semente e que pode, quem sabe, um dia, ser adicionada aos programas de melhoramento genético”, estima Chamma.
“Atualmente, pouco se faz melhoramento com o objetivo de aprimorar a qualidade das sementes. Há uma demanda por outras coisas, como a tolerância da planta a doenças, ao estresse, à falta ou ao excesso de água, e a qualidade de sementes vai ficando para depois”, esclarece Amaral.
Segundo ele, a longevidade é importante porque uma semente mais longeva preserva o seu vigor, que é um componente de qualidade fisiológica. “Longevidade é tempo de prateleira, mas com vigor. Não basta a semente estar viva. Tem de estar viva e em boas condições. Quanto maior o vigor, mais capacidade de enfrentar as adversidades, germinar mais rápido, emergir, formar planta rapidamente e começar a fazer fotossíntese. É isso que o agricultor quer, porque isso traz ganhos.”
“Usar somente o manejo químico nessas grandes lavouras que temos no Brasil é insustentável, pois favorece a seleção de populações resistentes de insetos, e cria-se muita resistência. O ideal é o manejo integrado de pragas, uma combinação entre prática de melhoramento, que é o que estamos fazendo, com aplicação de inseticida, controle biológico e outras ferramentas. Assim, é possível só aplicar o inseticida químico quando realmente for necessário”, pondera Chamma.
Agro Mato Grosso
Evandro Pellenz mantém vivo o legado da família na agricultura

Em Sinop, o produtor rural dá continuidade à história iniciada pelo pai e já compartilha com as filhas o amor pela agricultura
O campo, para o produtor rural de Sinop, Evandro Pellenz, não é apenas o lugar onde a família produz. É também onde ele aprendeu valores que carrega para a vida e que hoje procura transmitir às próprias filhas. A história começou com o pai, que deixou o Rio Grande do Sul e chegou a Mato Grosso em 1981. Mais de quatro décadas depois, o legado construído ao longo desse caminho continua sendo cultivado pela família.
“Meu pai sempre falava que o lucro da lavoura está no capricho. Então, acho que é um ensinamento que eu sigo até hoje, que eu acho que faz sentido. E a gente vem buscando trabalhar da forma como ele ensinou a gente”, conta Evandro.
Antes de a agricultura se tornar a principal atividade da família, outros capítulos foram escritos. Ao chegar a Mato Grosso, o pai de Evandro trabalhou durante dez anos no setor madeireiro. Em 1990, deixou a atividade e passou a investir na pecuária, transformando em pastagens as áreas que antes eram utilizadas para a extração de madeira.
Foi somente nos anos 2000 que a agricultura voltou a fazer parte da trajetória da família. Mas a ligação de Evandro com a terra havia começado muito antes. Ainda criança, ele acompanhava o pai nas atividades da propriedade e, aos 12 anos, passou a viver na fazenda, onde começou a participar diretamente da rotina do campo.
“Desde pequenininho, a gente vinha no mato aqui, acompanhava, retirava de touro. Depois, nos anos 90, com a separação do meu pai e da minha mãe, a gente veio morar aqui na fazenda. Eu tinha 12 anos. Comecei a trabalhar na roça e ajudar, cuidar do gado, fazer cerca e mecanizar as áreas que a gente tem hoje”, relembra.
A convivência transformou o trabalho em aprendizado e, com o passar dos anos, o aprendizado virou profissão. Evandro encontrou na agricultura não apenas uma atividade econômica, mas uma forma de vida que passou a fazer parte de sua identidade.
“Eu acho que está no sangue essa paixão pela agricultura. Então, a gente está até hoje trabalhando na agricultura e tudo que a gente faz, a gente faz com amor. Eu acho que tudo que faz com amor tem a bênção de Deus”, afirma.
A sucessão também foi construída no cotidiano. Enquanto o pai acompanhava o desenvolvimento do trabalho dos filhos, Evandro passou a experimentar a responsabilidade de conduzir a atividade e, ao mesmo tempo, perceber o significado de ter ao lado alguém que havia sido seu primeiro exemplo no campo.
“Ele vinha e dava uma olhada nas lavouras, via como é que estava, se estava tudo bonito. Então, ele ficava contente, gostava de vir junto na colheitadeira, dar uma volta para ver como é que estava a produção. Então, eu acho que é muito gratificante para um pai ver os filhos seguindo os caminhos deles. Eu acho que é muito prazeroso”, recorda.
Hoje, essa mesma cena começa a ganhar novos personagens. As filhas de Evandro ainda são pequenas, mas já fazem parte da rotina da propriedade e encontram na época da colheita uma das maiores diversões.
Para ele, permitir que as meninas estejam perto da lavoura desde cedo é uma forma de apresentar a elas o mesmo universo que um dia lhe foi apresentado pelo pai. Mais do que ensinar sobre máquinas ou produção, é criar memórias e vínculos com o lugar onde a família construiu sua história.
“Eu acho que o caminho é trazer os filhos para junto. Igual eu sempre procuro fazer, trazer as minhas filhas junto aqui, que é a diversão delas: ir junto na colheitadeira, vir junto na roça. Então, eu acredito que, com isso, elas vão pegando amor pela agricultura e, se Deus quiser, vão seguir os passos do pai”, diz.
Na colheita, a presença delas já virou parte da rotina. Levar um lanche, acompanhar o pai na lavoura e andar na colheitadeira são momentos que, para as meninas, representam diversão. Para Evandro, pode significar o início de uma nova história.
“Sempre quando é época de colheita, a alegria para elas é estar junto na colheitadeira, indo na roça, levar lanche, participar das atividades. É uma alegria para elas. Apesar de serem pequenininhas ainda, mas a gente sente que, eu acho que essa paixão vai continuar”, conta.
Da madeira ao gado, do gado à agricultura e de uma geração à outra, a trajetória da família Pellenz é marcada por transformações. O que permanece, porém, são os valores aprendidos dentro de casa: o cuidado com o trabalho, a dedicação à propriedade e o amor pela atividade.
Foi assim que Evandro recebeu o legado do pai. E é assim que, todos os dias, ele começa a construir o próximo capítulo dessa história ao lado das filhas.
Business15 horas agoAGCO e Senai abrem centro para capacitar profissionais de máquinas agrícolas
Business18 horas agoFertilizantes na soja: onde está o ganho de eficiência? Especialista da Yara Brasil explica
Sustentabilidade20 horas agoALGODÃO/CEPEA: Vendedor firme e alta externa elevam preços – MAIS SOJA
Business20 horas agoPedidos de recuperação judicial no agro crescem 22% no primeiro trimestre de 2026
Agro Mato Grosso17 horas agoPesquisa aponta linhagens de soja tolerantes a percevejos
Sustentabilidade18 horas agoArroz: Indicador CEPEA/IRGA-RS fecha julho em alta de 7,9% com retenção dos produtores e demanda forte – MAIS SOJA
Featured17 horas agoPrefeitura lança cadastro inédito para mapear artistas e revitalizar viadutos e praças de Cuiabá
Sustentabilidade17 horas agoCepea: Avanço da colheita e retração dos produtores sustentam alta dos preços do milho em julho – MAIS SOJA
















