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‘Ano que vem será melhor’, crença do produtor pode dificultar sucesso da RJ, diz advogada

O momento em que o pedido de recuperação judicial de um produtor rural chega ao Judiciário é tão relevante quanto o tamanho da dívida. Essa é a análise da advogada Renata Abalém, especializada em Direito do Agronegócio.
Ela ressalta que em atividades sujeitas a ciclos de safra, necessidade constante de financiamento e compromissos assumidos antes da geração da receita, a deterioração financeira costuma deixar sinais muito antes de a operação se tornar inviável.
Para a advogada, o problema é que, especialmente nas estruturas familiares, reconhecer os sinais de que o negócio “não anda bem das pernas” pode significar admitir que uma atividade construída ao longo de gerações precisa ser revista.
“A crise não vem de uma vez. A escassez do crédito também não. No caso do agro, estima-se que, ao menos três anos antes do ponto sem volta, o produtor já começa a perceber os sinais de não recuperabilidade, até porque a atividade é cíclica e minimamente previsível. Por óbvio que os eventos não previsíveis agravam e antecipam a crise, mas, pelo que tenho acompanhado ao longo dos anos, a falta de planejamento e antecipação do diagnóstico é causa preponderante da dificuldade em reorganizar a atividade como um todo”, afirma Renata.
Aumento nos pedidos de recuperação judicial
O Brasil registrou 474 pedidos de recuperação judicial ligados ao agro no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em relação aos 389 casos do mesmo período do ano passado, conforme dados da Serasa Experian.
Entre os produtores rurais pessoa jurídica, o crescimento foi ainda maior: 73,5%, passando de 113 para 196 solicitações. Já no universo dos agricultores pessoa física, pequenos proprietários responderam por 44 pedidos e médios por outros 37 no período.
A advogada salienta que a incapacidade de diagnosticar a situação e demorar na busca pela resolução do problema traz situações ainda mais delicadas quando se tratam de pequenos e médios produtores. Isso porque a gestão financeira costuma conviver com relações familiares, patrimônio, tradição e identidade pessoal, o que pode dificultar decisões como venda de ativos, renegociação antecipada, revisão da estrutura de crédito ou procura por assessoria jurídica antes da perda de liquidez.
Para Renata, a expectativa de que uma safra futura seja suficiente para recompor as perdas pode consumir justamente o período em que ainda existiriam alternativas à judicialização.
“É muito difícil para o pequeno ou médio produtor ter um olhar técnico, financeiro e jurídico sobre a sua atividade, que na maioria das vezes está na sua história há gerações. A crença de que ‘vai dar certo’, ‘ano que vem será melhor’, ‘na próxima safra resolvemos’ é o maior entrave para um diagnóstico precoce e para se traçar estratégias jurídicas de sucesso”, comenta.
Assim, quem olha para a atividade com olhar técnico e longe de paixão acaba por ter mais condições de traçar planejamento e estratégias realmente efetivas.
Problema se estende por toda a cadeia
O efeito de uma atividade agropecuária em apuros tende a ser mais relevante em municípios cuja força econômica está intimamente ligada à produção rural.
Quando um produtor reduz compras, atrasa pagamentos ou interrompe investimentos, o impacto pode chegar a revendas de insumos, transportadores, armazenadores, oficinas, prestadores de serviços e fornecedores que dependem do mesmo ciclo de produção.
“A saída judicial não atinge somente produtores rurais, mas empresas de apoio direto ao agronegócio, como armazéns gerais e holdings familiares ligadas à atividade rural, impactando de fornecedores locais a prestadores de serviços. Não é possível olhar para o agro problemático sem observar os problemas que dele orbitam”, pontua Renata.
Nesse contexto, a advogada salienta que a recuperação judicial pode preservar uma operação economicamente viável ao permitir a reorganização de determinadas obrigações, mas sua capacidade de cumprir esse papel depende das condições existentes no momento do pedido.
Desta forma, se o produtor já perdeu capital de giro, deteriorou a relação com fornecedores e comprometeu sua capacidade de financiar uma nova safra, o processo judicial passa a enfrentar uma limitação prática: suspender ou reorganizar dívidas não gera, por si só, os recursos necessários para continuar produzindo.
“Quanto mais tardio o pedido e mais fragilizada a relação com fornecedores no momento do protocolo da recuperação judicial, menor a chance de ela efetivamente sustentar a continuidade da produção e maior o risco de o instrumento se tornar apenas uma sobrevida temporária, sem resolver de fato o problema estrutural que levou à crise”, afirma a advogada.
Por isso, conforme a especialista, a discussão sobre recuperação judicial no campo precisa começar antes do processo. A avaliação deve considerar a capacidade futura de geração de caixa, o capital necessário para manter a atividade, o nível de comprometimento das receitas e as alternativas disponíveis para reorganizar as obrigações.
“A recuperação judicial deve servir para preservar a atividade, mas precisa ser intentada antes que o produtor tenha esgotado o capital de giro necessário para continuar plantando ou operando. É preciso olhar com tecnicidade e dureza para o binômio necessidade e efetividade. E esse momento é o quanto antes: ontem, mês passado, ano passado”, conclui.
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El Niño pode reduzir produtividade da soja em 13 estados do Brasil
Um estudo da Serasa Experian indica que a ocorrência de um El Niño muito forte pode resultar em uma redução significativa na produtividade da soja em 13 estados do Brasil. A pesquisa compara a produtividade da oleaginosa em períodos de neutralidade e em anos de El Niño intenso, revelando um cenário preocupante para os produtores.
Impactos regionais
De acordo com o relatório, a expectativa é de que a produtividade da soja diminua em diversas regiões, enquanto apenas quatro estados devem registrar aumento na produção. Os estados que enfrentam a maior queda incluem:
- Paraná
- São Paulo
- Minas Gerais
- Bahia
- Tocantins
Por outro lado, o Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul podem se beneficiar de condições climáticas mais favoráveis, com a possibilidade de uma produtividade acima da média.
Previsões de produtividade
O estudo projeta uma queda de cerca de 10% na produtividade nacional, resultando em uma produção estimada de 16 milhões de toneladas a menos em comparação a anos neutros. Isso representa um prejuízo significativo, estimado em 33 bilhões de reais para os produtores.
Condições climáticas
As condições climáticas atuais, como temperaturas elevadas e irregularidades na umidade do solo, também contribuem para a redução da produtividade. A previsão é de que as chuvas se concentrem em Minas Gerais e Goiás nos próximos dias, mas a situação ainda é crítica em estados como Piauí e Pará, que devem enfrentar dificuldades na produção.
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ExpoCal 2026 abre programação com foco técnico para produtores no Paraná

A ExpoCal 2026 começa neste sábado (31), em Campina da Lagoa, na região Centro-Oeste do Paraná, e segue até 3 de novembro no Parque de Exposições Municipal. Com entrada gratuita, o evento reúne atrações culturais e atividades voltadas ao setor agropecuário. A expectativa é receber aproximadamente 15 mil pessoas ao longo dos quatro dias de programação.
A feira é promovida pela Prefeitura de Campina da Lagoa, com apoio da Câmara Municipal, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e do Governo do Estado, por meio da Secretaria do Turismo.
Entre as atividades voltadas ao campo, o IDR-Paraná participa com palestras técnicas sobre os impactos das mudanças climáticas na agricultura e com uma oficina prática sobre o uso de bioinsumos nas lavouras. A proposta é levar orientação técnica e conhecimento aos produtores rurais da região.
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Na oficina, os agricultores terão contato com a produção de bokashi, composto orgânico obtido por fermentação natural. Segundo o engenheiro agrônomo do IDR-Paraná Antonio Padua, o conhecimento busca ampliar a autonomia do produtor na preparação de compostos orgânicos de classe A para uso na propriedade. De acordo com o instituto, o processo contribui para melhorar a qualidade do solo a médio e longo prazo, fornece nutrientes, estimula a multiplicação de microrganismos benéficos e reduz as perdas de nitrogênio.
A programação também incluirá a produção de biofertilizantes líquidos a partir do bokashi. Enquanto a formulação sólida atua na melhoria das condições físicas e biológicas do solo, a versão líquida permite disponibilizar nutrientes e microrganismos benéficos para aplicação nas folhas e raízes das plantas.
Outro tema das atividades técnicas será a influência das condições climáticas na agricultura. O engenheiro agrícola Pablo Niiche, doutor em Agronomia com ênfase em Meteorologia do IDR-Paraná, afirmou que o planejamento e a adoção de medidas preventivas são ferramentas para reduzir perdas e melhorar as condições de plantio e colheita.
Além da programação técnica, a ExpoCal 2026 terá shows nacionais, rodeio profissional, atrações do setor agropecuário e opções de lazer para moradores e visitantes. O evento será realizado no Parque de Exposições Municipal, que completa 40 anos em 2026.
Fonte: agricultura.pr.gov.br
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tecnologia na lavoura, resultados entre gerações

A história do milho na Fazenda Helena, em Juscimeira (MT), acompanha as transformações da agricultura no Vale do São Lourenço. Quando Osvaldo Pasqualotto começou a experimentar o cultivo após a soja, a produção ainda tinha pouca expressão econômica na região. Décadas depois, a cultura passou a influenciar o planejamento das lavouras e a rentabilidade da propriedade.
A trajetória de Osvaldo na fazenda começou em 1982, quando a família adquiriu a área. Gaúcho de Cruz Alta (RS), ele se formou em engenharia elétrica em Cuiabá e, depois da faculdade, dedicou-se à agricultura. Ao longo de 44 anos, acompanhou mudanças na infraestrutura, no manejo e na tecnologia que ajudaram a ampliar a produção em Mato Grosso.
No início, a estrutura era limitada. A fazenda tinha apenas parte da área aberta para o plantio e ainda não contava com energia elétrica. O trabalho envolvia a família, que participou da expansão das lavouras e da construção do negócio. O nome da propriedade, inclusive, homenageia Helena, mãe de Osvaldo, que também ajudou nos primeiros anos.
As mudanças na agricultura foram acompanhadas pela evolução da própria região. A chegada da energia elétrica, a melhoria das estradas e a instalação de grandes tradings facilitaram a rotina no campo e o escoamento da produção. Nesse cenário, o milho começou a ganhar espaço, inicialmente mais pela contribuição ao solo do que pelo retorno financeiro.
Ao recordar os primeiros anos, Osvaldo também destaca a relação da família com a atividade rural. “A agricultura está no sangue da gente”, afirma ao Especial Mai Milho. Para ele, o vínculo com a terra foi construído pelo trabalho diário e pelas dificuldades enfrentadas ao longo da trajetória.
Do cultivo experimental à rentabilidade
A decisão de plantar milho veio da observação da própria lavoura. Depois de colher a soja, Osvaldo passou a testar a cultura em áreas menores, mesmo diante das limitações de maquinário e do calendário agrícola. Nas primeiras experiências, a produtividade ficava entre 30 e 40 sacas por hectare.
“Só que a gente percebeu que cada área que plantamos o milho, ia melhorando o solo”, lembra o produtor.
Naquele período, o consumo de milho em Mato Grosso era pequeno, e o transporte para os grandes centros consumidores encarecia a operação. A cultura, portanto, tinha pouco peso na composição da renda da propriedade. Esse cenário começou a mudar a partir dos anos 1990, com o crescimento da demanda estadual e melhorias na logística.
A evolução das variedades de soja também contribuiu para transformar o planejamento. Com materiais mais precoces, tornou-se possível antecipar a colheita e abrir espaço para o milho segunda safra. O avanço do setor de etanol ampliou ainda mais a importância da cultura no estado.
Hoje, a decisão de antecipar o plantio da soja está diretamente ligada à janela disponível para o milho. Osvaldo observa que, nos últimos anos, a cultura passou a apresentar resultados econômicos superiores aos da soja em sua avaliação. “Passou a ser a principal cultura. Hoje, se você olhar economicamente, de dois anos para cá, o milho está dando mais lucro que a soja. É interessante isso porque a gente não percebia lá atrás. Mas ele chegou a esse ponto”.
Tecnologia amplia a produtividade
O salto de produtividade é uma das mudanças mais expressivas observadas pelo produtor. Das 50 a 60 sacas por hectare obtidas anteriormente, a produção passou a superar 140 sacas em condições atuais na fazenda.
Os ganhos estão associados ao melhoramento genético, às técnicas de plantio e colheita e ao uso mais eficiente dos insumos. Para Osvaldo, a genética do milho tem papel central nesse avanço, mas os resultados também dependem das decisões tomadas pelo produtor no manejo da lavoura.
“A maior produtividade hoje, ela está na genética do milho”, avalia ao programa do Canal Rural Mato Grosso. Ele também atribui parte dos resultados à adoção de técnicas mais eficientes de plantio e ao investimento em adubação, fatores que contribuíram para melhorar o desempenho da cultura.
A experiência acumulada ao longo das décadas também se reflete na gestão da propriedade. A formação em engenharia, segundo ele, contribuiu para desenvolver o raciocínio aplicado à atividade rural. O conhecimento técnico, aliado à prática, passou a integrar as decisões sobre produção e investimento.
Sucessão mantém a família no campo
A continuidade do negócio acompanha a evolução das lavouras. Os filhos e sobrinhos de Osvaldo foram incorporados à atividade enquanto ainda estudavam agronomia e passaram a participar do cotidiano das fazendas. Para o produtor, esse envolvimento gradual foi determinante para a sucessão familiar.
“Não tem uma fórmula de você dizer assim, como é feita a sucessão, não tem uma fórmula, mas a fórmula principal é pegar o filho e colocar a trabalhar”, afirma.
A experiência reproduz, em parte, o caminho percorrido pela geração anterior. O pai de Osvaldo também trabalhou na fazenda e, aos 60 anos, deixou a agricultura para se dedicar à pecuária, permitindo que os filhos assumissem os negócios agrícolas.
Além da continuidade da propriedade, Osvaldo espera que os filhos preservem os valores construídos ao longo da trajetória familiar. O cuidado com os recursos naturais também faz parte desse legado, com a proteção das áreas de preservação permanente e do curso d’água que atravessa a fazenda.
O orgulho pela participação dos filhos no negócio está ligado ao envolvimento deles com a atividade. “Não existe negócio diferente de ser uma propriedade rural, uma fábrica, uma empresa ou mercado financeiro, se você não tem amor por aquilo que você faz”, diz.
Para Osvaldo, produzir alimentos e conservar a propriedade são responsabilidades que caminham juntas. Ao falar sobre o papel do produtor rural, ele destaca a contribuição da atividade para a sociedade: “Ser produtor rural é saber que você está produzindo algo útil para a sociedade”.
Na Fazenda Helena, a história do milho reflete essa combinação entre experiência, inovação e continuidade familiar: uma cultura que começou em pequenas áreas, ganhou importância econômica e hoje integra as decisões de uma nova geração de produtores.

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