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17 de setembro de 2026

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Do crédito aos fertilizantes, incertezas se acumulam no campo de Mato Grosso, diz Imea

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Foto: Maruan Bello/Canal Rural Mato Grosso

A agricultura de Mato Grosso chega a um momento de decisões mais complexas. O produtor precisa manter o fluxo de caixa e garantir a continuidade da atividade em meio à restrição de crédito, enquanto o cenário internacional adiciona novas incertezas aos custos dos fertilizantes.

O aperto financeiro não significa necessariamente falta de patrimônio. Há produtores com ativos de alto valor, mas que precisam de recursos para fazer a operação continuar funcionando. Sem dinheiro para custear o ciclo seguinte, a dificuldade deixa de ser apenas financeira e passa a comprometer a própria capacidade de produzir.

Nos últimos dois anos, parte dos produtores renegociou dívidas, alongou compromissos ou deixou de pagar determinadas obrigações. Ao mesmo tempo, bancos e instituições financeiras reduziram a oferta de recursos, diante do receio com o aumento da inadimplência, e passaram a exigir mais garantias.

É nesse ponto que o fluxo de caixa ganha peso. “Se eu restringir esse crédito, estressar o produtor, ele não conseguir captar recursos para a próxima safra, ele vai cair porque a roda não vai continuar girando”, explica Cleiton Gauer, superintendente da Famato, Imea e AgriHub, em entrevista ao Direto ao Ponto. Para ele, manter essa circulação de recursos é fundamental para que o produtor consiga seguir plantando e produzindo.

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Cleiton Gauer imea foto Maruan Bello Canal Rural Mato Grosso
Foto: Maruan Bello/Canal Rural Mato Grosso

Menos espaço para errar

A dificuldade financeira se soma a um cenário em que produzir continua caro. As duas últimas safras de soja e milho foram marcadas por custos elevados, enquanto os preços médios das culturas não acompanharam esse movimento na mesma proporção.

A produtividade acabou sendo determinante para melhorar o resultado das propriedades. Mesmo com preços próximos das médias dos últimos anos, os ganhos de produtividade ajudaram a ampliar a rentabilidade. Para produtores arrendados ou com maior alavancagem financeira, porém, a situação chegou a ficar próxima do equilíbrio ou até negativa.

“Era até o momento a safra mais cara da história para as duas culturas, pensando em custo de produção”, afirma Gauer. Na avaliação dele, o aumento da produtividade foi o que ajudou a sustentar as margens nos últimos dois ciclos.

O problema é que esse mecanismo não pode ser considerado garantido. Para a próxima temporada, os custos continuam partindo de níveis elevados, enquanto os preços projetados não oferecem uma compensação suficiente para afastar a pressão sobre as margens.

No caso da soja, os contratos para a próxima safra estavam sendo negociados entre R$ 110 e R$ 115 por saca em algumas regiões. Embora o mercado físico tenha apresentado valorização, os preços futuros ainda não representam uma mudança significativa na perspectiva de rentabilidade.

O resultado é uma sequência de anos em que o produtor precisa fazer mais contas antes de decidir quanto investir. A margem operacional, medida pelo Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Lajida), ainda é positiva, mas está bem abaixo do que foi observado nos últimos três anos.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Fertilizante vira decisão de risco

A pressão sobre os custos encontra outro fator de incerteza no mercado internacional. As tensões entre Irã e Estados Unidos provocaram alta nos nitrogenados e também afetaram outros fertilizantes, que já vinham acumulando aumentos por razões diferentes.

Depois, com as discussões em torno de um acordo, os preços recuaram gradativamente em Mato Grosso. A retomada das tensões e a elevação do petróleo voltaram a mudar as expectativas, abrindo espaço para manutenção dos preços ou novas altas caso o conflito se prolongue.

Mais do que tentar prever exatamente o comportamento do mercado, o produtor precisa lidar com a falta de clareza sobre o que acontecerá nas próximas semanas. “O principal ponto nesse momento, que todo mundo olha, é a incerteza. Ninguém tem certeza de nada do que vai acontecer, quanto tempo vai durar e o que isso pode acarretar para todas as cadeias de fornecimento”, diz Gauer.

A questão ganha uma dimensão ainda maior pelo tempo necessário entre a compra do fertilizante e a chegada do produto à propriedade. O insumo precisa desembarcar nos portos brasileiros e ser interiorizado até Mato Grosso, o que reduz a margem de espera para quem ainda não fechou suas compras.

A janela de decisão também começa a apertar para a segunda safra. O produtor que esperava uma queda maior nos preços agora precisa avaliar se continua esperando ou se antecipa a compra diante da possibilidade de uma nova alta.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Produtor já revê investimento

Essa cautela começa a aparecer dentro das propriedades. Na soja, Gauer relata ao programa do Canal Rural Mato Grosso que já há movimentos representativos de redução no uso de fertilizantes fosfatados. “A gente tem um movimento representativo do mercado de todos fazendo essa redução”, afirma.

A estratégia é possível em algumas áreas porque parte dos produtores recompôs os níveis de nutrientes do solo nos últimos anos. Depois da forte alta dos fertilizantes no período posterior à pandemia, a recuperação das margens permitiu retomar investimentos e reconstruir parte dessa reserva.

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Agora, em um cenário de maior aperto financeiro, algumas propriedades conseguem utilizar esse estoque acumulado para reduzir a aplicação. É uma forma de diminuir o desembolso sem necessariamente abandonar completamente o manejo construído nos últimos anos. Como explica Gauer, há produtores com áreas mais antigas que podem recorrer à reserva construída no solo neste momento de maior pressão sobre os custos.

No milho, a possibilidade é mais limitada. O nitrogênio tem papel central na cultura e, por isso, existe menos espaço para reduzir sua aplicação sem comprometer o potencial produtivo. “No caso do milho acho que o desafio é porque não há muito espaço”, pontua Gauer.

A alternativa passa então pela escolha do nível de tecnologia e pelo momento de realizar as compras. O movimento mostra como o produtor está tentando preservar margem sem simplesmente deixar de produzir. Tecnologias de menor custo, produtos genéricos e mudanças nos níveis de investimento passam a ser considerados dentro desse processo.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Milho mantém produtividade elevada

Mesmo diante desse ambiente, Mato Grosso deve encerrar mais uma safra de milho com números expressivos. Pelo segundo ano consecutivo, a produção da segunda safra deve superar a primeira safra de soja, conforme as projeções do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

A estimativa do Instituto foi revisada para uma produtividade média de 128 sacas por hectare, acima das 127 sacas da temporada anterior. Com o avanço da área cultivada, a produção deve alcançar 57 milhões de toneladas.

O resultado surpreendeu positivamente porque parte das lavouras foi implantada fora da janela considerada ideal. Nesta temporada, foram cerca de 1 milhão de hectares cultivados fora da janela no Estado.

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Mesmo assim, as chuvas que se estenderam por abril e maio ajudaram as lavouras a atravessar períodos que poderiam ter comprometido o potencial produtivo. Algumas precipitações ainda ocorreram no final de junho e início de julho, consideradas fora de época, embora não tenham alterado diretamente a produtividade final.

O Médio-Norte concentra áreas de maior potencial, com médias superiores a 130 e 135 sacas por hectare. O desempenho mostra o quanto a cultura se adaptou ao sistema produtivo de Mato Grosso e como o produtor passou a dominar melhor o manejo ao longo dos anos.

A evolução também aparece no nível de investimento. Gauer observa que o produtor passou a trabalhar com cultivares mais adaptadas, melhor manejo de fertilizantes e maior utilização de fungicidas para preservar a longevidade das folhas. “O produtor de Mato Grosso aprendeu a cultivar milho com o passar do tempo, principalmente com uma adoção de cultivares mais adaptadas”, destaca.

A estrutura de máquinas também foi ajustada para acelerar o plantio e a colheita. Segundo Gauer, o produtor passou a organizar melhor o cultivo da primeira safra, inclusive com materiais de ciclo mais curto, para tornar mais eficiente a implantação do milho.

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Foto: Canal Rural Mato Grosso

Sorgo aparece entre as alternativas

Nesse ambiente de margens mais apertadas, o sorgo também aparece como uma possibilidade para o produtor. A cultura ainda enfrenta limitações de mercado e armazenagem em Mato Grosso, já que a quantidade de compradores e de unidades que recebem o produto é menor em comparação com o milho.

A abertura do mercado chinês, porém, começa a criar uma oportunidade. A demanda já levou indústrias a firmarem contratos e melhorou a precificação do sorgo destinado à exportação.

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A alternativa, portanto, passa a ser considerada dentro de uma estratégia mais ampla de adequação do sistema produtivo. O produtor pode avaliar culturas, tecnologias e níveis de investimento de acordo com a margem disponível e com o risco que está disposto a assumir.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Clima acrescenta outro risco às contas

Além do ambiente financeiro e dos custos, assim como as questões geopolíticas que envolvem os conflitos e taxações, o produtor precisa considerar uma possível mudança no comportamento climático. A perspectiva de El Niño para a próxima temporada aumenta o nível de atenção, principalmente porque o risco de ocorrência de um fenômeno com impacto sobre as lavouras é maior do que nos últimos anos.

A questão influencia inclusive a decisão sobre o milho. Em vez de definir antecipadamente toda a área e comprar todos os insumos, o produtor pode esperar o desenvolvimento da soja para avaliar a janela disponível para a segunda safra.

A recomendação, nesse caso, não é abandonar o investimento, mas dimensioná-lo de acordo com o risco. A avaliação envolve acompanhar a semeadura da soja, estimar quando ela será colhida e só então definir quanto da área terá condições de receber milho dentro de uma janela adequada.

Para Gauer, o cuidado é evitar que a combinação de crédito restrito, margens apertadas e risco climático leve o produtor a uma exposição maior do que a propriedade consegue suportar. “O risco existe e aí o desafio que nós estamos comentando de aperto de margens, risco de crédito, toda a problemática que nós estamos discutindo, tem uma nova elevação de risco na próxima temporada”, afirma.

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Empresas que descumprem piso do frete podem ter RNTRC suspenso pela ANTT

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Empresas que insistem em contratar ou subcontratar transporte rodoviário de cargas por valores abaixo do piso mínimo poderão ter o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) suspenso pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A agência já iniciou os procedimentos para aplicar a medida em casos considerados recorrentes.

A suspensão cautelar não será aplicada de forma automática. Segundo a ANTT, cada situação será analisada individualmente e as empresas identificadas serão formalmente notificadas antes da publicação dos atos no Diário Oficial da União.

O foco está nas empresas que acumularem mais de quatro autuações, em datas diferentes, dentro de seis meses. Para a adoção da suspensão cautelar, também será avaliada a existência de risco de continuidade da infração, prejuízo à fiscalização ou comprometimento da política de pisos mínimos do frete.

A medida será conduzida pelas áreas de fiscalização e de serviços de transporte rodoviário e multimodal de cargas da ANTT. Quando determinada, a suspensão produzirá efeitos 72 horas após a publicação do ato e poderá durar de cinco a 30 dias.

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Reincidência pode ampliar as penalidades

A fiscalização sobre o cumprimento do piso mínimo também passou a contar com mecanismos adicionais de rastreabilidade. Conforme a ANTT, a Medida Provisória nº 1.343/2026 e as Resoluções nº 6.077 e nº 6.078 reforçaram as regras para identificação das operações de transporte remunerado de cargas.

Entre as mudanças está a obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), que deve estar vinculado ao Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e). Com isso, as informações das operações ficam integradas para fins de acompanhamento e fiscalização.

Nas operações de carga lotação, o CIOT não é gerado quando o valor informado estiver abaixo do piso mínimo. A regra cria um mecanismo de controle ainda no registro da operação, antes de uma eventual reincidência pela empresa.

Se houver repetição da irregularidade depois de uma decisão administrativa definitiva, a suspensão poderá chegar a 45 dias. A reincidência também pode levar ao cancelamento do RNTRC por até dois anos e à aplicação de multa majorada de até R$ 1 milhão.

A ANTT ressalta que as medidas de suspensão e cancelamento não atingem o Transportador Autônomo de Cargas quando ele atua exclusivamente como contratado.

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Faesp debate ações para controle populacional de javalis

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Fotos: Marcelo Catacci/Faesp

O Fórum Javali: Impactos, Estratégias e Ação Coordenada, realizado pelo Departamento de Sustentabilidade da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) reuniu especialistas, caçadores e produtores rurais, que discutiram a necessidade de medidas urgentes para evitar perdas econômicas pela ação dos animais, assim como riscos ambientais e sanitários.

Com base em uma pesquisa realizada pela Faesp, que contou com a participação de 76 sindicatos paulistas, José Luiz Fontes, coordenador do Departamento de Sustentabilidade, mostrou que os animais são realidade em todas as regiões do estado. As principais vítimas dos javalis são os produtores de grãos, mas há casos de perdas de cítricos e olericultura, assim como a contaminação de recursos hídricos que abastecem as propriedades.

“A maior parte dos produtores paulistas são pequenos, familiares, o que impacta decisivamente na sua permanência no campo. É necessária uma ação coordenada e efetiva para controlar os animais e levar mais segurança ao meio rural”, frisou Fontes.

Foram apresentados casos de sucesso no Brasil, nos Estados Unidos e na Austrália, sempre mostrando a necessidade de uma força-tarefa que envolva todos os atores, desde a legislação – para que os produtores não sejam penalizados – até plataformas de monitoramento e cadastro de profissionais de manejo e caça.

“Hoje temos uma plataforma que é declaratória e o Ibama vem desenvolvendo uma nova, que pretende mostrar a realidade da situação no país. Eventos como esse são essenciais para criar essa rede de informações e construir um mapa real da presença dos javalis em todo o território nacional”, explicou a diretora de Biodiversidade e Florestas do Ibama, Livia Martins.

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O consultor da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Júlio Daniel do Vale, da JDV Ambiental, ajudou na construção das propostas que deram origem ao documento final do fórum. Ele reiterou, assim como o subsecretário da Agricultura e Abastecimento de São Paulo (SAA), Diógenes Kassaoka, a necessidade de que esse seja um primeiro passo a estruturar as ações futuras.

O presidente da Faesp, Tirso Meirelles, na abertura do fórum, já havia colocado o Sistema Faesp/Senar à disposição, fosse na defesa de políticas públicas mais eficazes, ou na definição de cursos que atendessem a essa urgência do campo.

“Acho que esse evento dedicado à palestras, debates e construção de uma matriz de compromissos visando a erradicação da praga dos javalis e javaporcos, é essencial para que possamos sair daqui realmente com uma estrutura pronta de ação, o que vamos fazer daqui para frente”, disse Meirelles.

Pontos do documento final

A partir dos debates e da matriz de compromissos, foram consolidadas quatro premissas inegociáveis que orientarão as ações.

  • Tratamento com o rigor proporcional à gravidade do problema: é necessário enfrentar a invasão do javali reconhecendo a extensão dos seus severos danos econômicos nas lavouras, os graves impactos ambientais em nascentes e áreas de preservação, e os riscos sanitários que ameaçam nossos rebanhos e a saúde pública.
  • Estruturação de uma Política Pública de Estado integrada: o combate ao javali não pode depender de iniciativas fragmentadas. Exigimos e trabalharemos por uma política pública articulada com as pastas envolvidas – agricultura, meio ambiente, saúde e segurança pública entre outras e os entes federativos, garantindo a participação direta e ativa dos produtores rurais, que vivenciam o problema diariamente no campo.
  • Estratégias fundamentadas em ciência e coordenação governamental: as ações operacionais e técnicas devem ser estritamente pautadas no conhecimento técnico-científico, no monitoramento populacional contínuo e na plena integração entre o setor produtivo e o poder público, sob a necessária coordenação do governo.
  • Aceleração e efetividade das medidas no campo: burocracia não pode continuar mais lenta que a capacidade reprodutiva da praga. Exigimos ações céleres, eficazes e seguras do ponto de vista jurídico, focadas na mitigação dos riscos, no controle populacional rigoroso e, onde for técnica e territorialmente viável, na erradicação completa desta espécie exótica invasora.

Realidade do campo

Considerado uma das cem piores espécies exóticas invasoras do mundo, o javali já tem registros em 15 unidades da Federação e apresenta elevada capacidade de adaptação e reprodução. Além de consumir e destruir plantações, os animais provocam pisoteio, danos ao solo, cercas e estruturas das propriedades, elevando os gastos dos produtores com proteção e controle.

Há relatos localizados, em 2026, de perdas de até 40% na cultura do milho em áreas severamente atingidas. Estudo econômico publicado em 2025 indica ainda que, em cenário intermediário envolvendo milho, soja e cana-de-açúcar, o controle populacional poderia resultar, até 2030, em um PIB 0,15% superior ao cenário-base, com benefício estimado em aproximadamente R$ 1.016 para cada animal manejado.

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DDG muda manejo e aumenta eficiência da pecuária, avalia diretor da Acrimat

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Foto: Israel Baumann/ Canal Rural Mato Grosso

O uso do DDG na alimentação bovina está mudando o manejo da pecuária e aumentando a capacidade de produção na mesma área. O coproduto do etanol de milho passou a ter uma função mais importante na dieta dos animais e permite reduzir a dependência do pasto.

A mudança é observada principalmente na recria e na terminação intensiva a pasto. Nesse sistema, o gado permanece na área de pastagem e recebe a alimentação no cocho, o que permite aumentar a quantidade de animais mantidos na propriedade.

Para o diretor técnico da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Francisco Manzi, o DDG passou a ter um efeito diferente na produção. “Hoje ele já tem um efeito substitutivo. Ou seja, no lugar onde cabia um animal, hoje você põe dois, você põe três, você põe quatro, você põe cinco se você usar esses produtos”.

A utilização do coproduto também mudou a forma de conduzir a recria e a terminação. A alimentação concentrada permite trabalhar com maior intensidade sem necessariamente levar os animais para uma estrutura convencional de confinamento.

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Direto ao Ponto Francisco Manzi Acrimat DDG Foto: Israel Baumann/ Canal Rural Mato Grosso
Foto: Israel Baumann/ Canal Rural Mato Grosso

DDG amplia possibilidades de intensificação

O DDG possui diferentes níveis de proteína e energia, além de outros componentes que podem ser considerados na formulação da dieta. A utilização do coproduto também trouxe uma alternativa para sistemas que buscam intensificar a produção sem retirar o gado da pastagem.

Manzi destaca, em entrevista ao programa Direto ao Ponto, que esse modelo ganhou espaço com a possibilidade de fornecer a alimentação diretamente no pasto. “Em vez de você trazer o boi, fechar numa área pequena, e ali você realmente tem que fazer silagem, utilizar o volumoso, você vai lá no pasto onde ele já está, coloca o cocho e leva a ração para ele lá”.

Outro efeito está na necessidade de processamento do milho. Dependendo do sistema adotado, o produtor pode deixar de realizar a trituração do grão para a alimentação do gado. “Outra coisa interessante do DDG é que você aposenta o triturador de milho, que é uma operação cara, demanda energia elétrica”.

A expansão das usinas de etanol de milho em Mato Grosso aumenta a disponibilidade desses coprodutos para os sistemas pecuários. Para o diretor técnico da Acrimat, a utilização do DDG também reforça a integração entre agricultura e pecuária, mesmo quando o pecuarista não produz os grãos utilizados na alimentação.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Pecuária passa por mudança de modelo

A intensificação ocorre em um momento de mudança na própria forma de conduzir a atividade. Durante muito tempo, a pecuária foi considerada uma produção de baixo risco e também funcionou, para muitos produtores, como uma espécie de poupança.

Esse cenário, porém, exige outra postura do pecuarista. “Hoje não tem mais espaço para amador. Hoje a pecuária você chega, você tem que ter conhecimento sobre a atividade e você também tem que saber os seus próprios custos”.

A avaliação de Manzi é que uma pecuária eficiente pode apresentar resultados competitivos em relação à agricultura.

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O tempo necessário para obter retorno, no entanto, continua sendo uma diferença importante. Enquanto soja e milho têm ciclos mais curtos, a pecuária exige um período maior entre a reprodução e a venda do animal terminado.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Crédito ainda é desafio para atividade de longo prazo

O ciclo mais longo também pesa no acesso ao crédito. Na agricultura, o financiador consegue visualizar em menos tempo o momento em que o produtor colherá e terá receita para quitar o investimento. Já na pecuária, o intervalo é maior. Entre a reprodução, o nascimento, a desmama, a recria e a terminação, o ciclo completo pode se aproximar de quatro anos.

Durante muito tempo, essa característica fez com que o pecuarista dependesse principalmente de recursos próprios. A atividade também acabou sendo usada como reserva patrimonial, com a formação do rebanho ocorrendo aos poucos.

A intensificação muda essa dinâmica ao permitir que o produtor busque mais produção dentro da área que já possui. Um exemplo citado por Manzi, durante o programa do Canal Rural Mato Grosso, é de uma propriedade no Vale do Paraíba, em São Paulo, que passou de uma para cinco vacas por hectare.

A propriedade, de acordo com ele, utiliza agricultura e pecuária de forma integrada, com produção de milho, soja e sorgo, além de silagem e alimentação no cocho. As vacas são inseminadas e os animais seguem um sistema intensivo desde o nascimento até o abate, entre 17 e 18 meses.

Para Manzi, experiências como essa mostram que a transformação da pecuária ainda está no início. “Eu acho que nós estamos só começando”.

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