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31 de julho de 2026

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Do crédito aos fertilizantes, incertezas se acumulam no campo de Mato Grosso, diz Imea

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Foto: Maruan Bello/Canal Rural Mato Grosso

A agricultura de Mato Grosso chega a um momento de decisões mais complexas. O produtor precisa manter o fluxo de caixa e garantir a continuidade da atividade em meio à restrição de crédito, enquanto o cenário internacional adiciona novas incertezas aos custos dos fertilizantes.

O aperto financeiro não significa necessariamente falta de patrimônio. Há produtores com ativos de alto valor, mas que precisam de recursos para fazer a operação continuar funcionando. Sem dinheiro para custear o ciclo seguinte, a dificuldade deixa de ser apenas financeira e passa a comprometer a própria capacidade de produzir.

Nos últimos dois anos, parte dos produtores renegociou dívidas, alongou compromissos ou deixou de pagar determinadas obrigações. Ao mesmo tempo, bancos e instituições financeiras reduziram a oferta de recursos, diante do receio com o aumento da inadimplência, e passaram a exigir mais garantias.

É nesse ponto que o fluxo de caixa ganha peso. “Se eu restringir esse crédito, estressar o produtor, ele não conseguir captar recursos para a próxima safra, ele vai cair porque a roda não vai continuar girando”, explica Cleiton Gauer, superintendente da Famato, Imea e AgriHub, em entrevista ao Direto ao Ponto. Para ele, manter essa circulação de recursos é fundamental para que o produtor consiga seguir plantando e produzindo.

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Foto: Maruan Bello/Canal Rural Mato Grosso

Menos espaço para errar

A dificuldade financeira se soma a um cenário em que produzir continua caro. As duas últimas safras de soja e milho foram marcadas por custos elevados, enquanto os preços médios das culturas não acompanharam esse movimento na mesma proporção.

A produtividade acabou sendo determinante para melhorar o resultado das propriedades. Mesmo com preços próximos das médias dos últimos anos, os ganhos de produtividade ajudaram a ampliar a rentabilidade. Para produtores arrendados ou com maior alavancagem financeira, porém, a situação chegou a ficar próxima do equilíbrio ou até negativa.

“Era até o momento a safra mais cara da história para as duas culturas, pensando em custo de produção”, afirma Gauer. Na avaliação dele, o aumento da produtividade foi o que ajudou a sustentar as margens nos últimos dois ciclos.

O problema é que esse mecanismo não pode ser considerado garantido. Para a próxima temporada, os custos continuam partindo de níveis elevados, enquanto os preços projetados não oferecem uma compensação suficiente para afastar a pressão sobre as margens.

No caso da soja, os contratos para a próxima safra estavam sendo negociados entre R$ 110 e R$ 115 por saca em algumas regiões. Embora o mercado físico tenha apresentado valorização, os preços futuros ainda não representam uma mudança significativa na perspectiva de rentabilidade.

O resultado é uma sequência de anos em que o produtor precisa fazer mais contas antes de decidir quanto investir. A margem operacional, medida pelo Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Lajida), ainda é positiva, mas está bem abaixo do que foi observado nos últimos três anos.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Fertilizante vira decisão de risco

A pressão sobre os custos encontra outro fator de incerteza no mercado internacional. As tensões entre Irã e Estados Unidos provocaram alta nos nitrogenados e também afetaram outros fertilizantes, que já vinham acumulando aumentos por razões diferentes.

Depois, com as discussões em torno de um acordo, os preços recuaram gradativamente em Mato Grosso. A retomada das tensões e a elevação do petróleo voltaram a mudar as expectativas, abrindo espaço para manutenção dos preços ou novas altas caso o conflito se prolongue.

Mais do que tentar prever exatamente o comportamento do mercado, o produtor precisa lidar com a falta de clareza sobre o que acontecerá nas próximas semanas. “O principal ponto nesse momento, que todo mundo olha, é a incerteza. Ninguém tem certeza de nada do que vai acontecer, quanto tempo vai durar e o que isso pode acarretar para todas as cadeias de fornecimento”, diz Gauer.

A questão ganha uma dimensão ainda maior pelo tempo necessário entre a compra do fertilizante e a chegada do produto à propriedade. O insumo precisa desembarcar nos portos brasileiros e ser interiorizado até Mato Grosso, o que reduz a margem de espera para quem ainda não fechou suas compras.

A janela de decisão também começa a apertar para a segunda safra. O produtor que esperava uma queda maior nos preços agora precisa avaliar se continua esperando ou se antecipa a compra diante da possibilidade de uma nova alta.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Produtor já revê investimento

Essa cautela começa a aparecer dentro das propriedades. Na soja, Gauer relata ao programa do Canal Rural Mato Grosso que já há movimentos representativos de redução no uso de fertilizantes fosfatados. “A gente tem um movimento representativo do mercado de todos fazendo essa redução”, afirma.

A estratégia é possível em algumas áreas porque parte dos produtores recompôs os níveis de nutrientes do solo nos últimos anos. Depois da forte alta dos fertilizantes no período posterior à pandemia, a recuperação das margens permitiu retomar investimentos e reconstruir parte dessa reserva.

Agora, em um cenário de maior aperto financeiro, algumas propriedades conseguem utilizar esse estoque acumulado para reduzir a aplicação. É uma forma de diminuir o desembolso sem necessariamente abandonar completamente o manejo construído nos últimos anos. Como explica Gauer, há produtores com áreas mais antigas que podem recorrer à reserva construída no solo neste momento de maior pressão sobre os custos.

No milho, a possibilidade é mais limitada. O nitrogênio tem papel central na cultura e, por isso, existe menos espaço para reduzir sua aplicação sem comprometer o potencial produtivo. “No caso do milho acho que o desafio é porque não há muito espaço”, pontua Gauer.

A alternativa passa então pela escolha do nível de tecnologia e pelo momento de realizar as compras. O movimento mostra como o produtor está tentando preservar margem sem simplesmente deixar de produzir. Tecnologias de menor custo, produtos genéricos e mudanças nos níveis de investimento passam a ser considerados dentro desse processo.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Milho mantém produtividade elevada

Mesmo diante desse ambiente, Mato Grosso deve encerrar mais uma safra de milho com números expressivos. Pelo segundo ano consecutivo, a produção da segunda safra deve superar a primeira safra de soja, conforme as projeções do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

A estimativa do Instituto foi revisada para uma produtividade média de 128 sacas por hectare, acima das 127 sacas da temporada anterior. Com o avanço da área cultivada, a produção deve alcançar 57 milhões de toneladas.

O resultado surpreendeu positivamente porque parte das lavouras foi implantada fora da janela considerada ideal. Nesta temporada, foram cerca de 1 milhão de hectares cultivados fora da janela no Estado.

Mesmo assim, as chuvas que se estenderam por abril e maio ajudaram as lavouras a atravessar períodos que poderiam ter comprometido o potencial produtivo. Algumas precipitações ainda ocorreram no final de junho e início de julho, consideradas fora de época, embora não tenham alterado diretamente a produtividade final.

O Médio-Norte concentra áreas de maior potencial, com médias superiores a 130 e 135 sacas por hectare. O desempenho mostra o quanto a cultura se adaptou ao sistema produtivo de Mato Grosso e como o produtor passou a dominar melhor o manejo ao longo dos anos.

A evolução também aparece no nível de investimento. Gauer observa que o produtor passou a trabalhar com cultivares mais adaptadas, melhor manejo de fertilizantes e maior utilização de fungicidas para preservar a longevidade das folhas. “O produtor de Mato Grosso aprendeu a cultivar milho com o passar do tempo, principalmente com uma adoção de cultivares mais adaptadas”, destaca.

A estrutura de máquinas também foi ajustada para acelerar o plantio e a colheita. Segundo Gauer, o produtor passou a organizar melhor o cultivo da primeira safra, inclusive com materiais de ciclo mais curto, para tornar mais eficiente a implantação do milho.

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Foto: Canal Rural Mato Grosso

Sorgo aparece entre as alternativas

Nesse ambiente de margens mais apertadas, o sorgo também aparece como uma possibilidade para o produtor. A cultura ainda enfrenta limitações de mercado e armazenagem em Mato Grosso, já que a quantidade de compradores e de unidades que recebem o produto é menor em comparação com o milho.

A abertura do mercado chinês, porém, começa a criar uma oportunidade. A demanda já levou indústrias a firmarem contratos e melhorou a precificação do sorgo destinado à exportação.

A alternativa, portanto, passa a ser considerada dentro de uma estratégia mais ampla de adequação do sistema produtivo. O produtor pode avaliar culturas, tecnologias e níveis de investimento de acordo com a margem disponível e com o risco que está disposto a assumir.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Clima acrescenta outro risco às contas

Além do ambiente financeiro e dos custos, assim como as questões geopolíticas que envolvem os conflitos e taxações, o produtor precisa considerar uma possível mudança no comportamento climático. A perspectiva de El Niño para a próxima temporada aumenta o nível de atenção, principalmente porque o risco de ocorrência de um fenômeno com impacto sobre as lavouras é maior do que nos últimos anos.

A questão influencia inclusive a decisão sobre o milho. Em vez de definir antecipadamente toda a área e comprar todos os insumos, o produtor pode esperar o desenvolvimento da soja para avaliar a janela disponível para a segunda safra.

A recomendação, nesse caso, não é abandonar o investimento, mas dimensioná-lo de acordo com o risco. A avaliação envolve acompanhar a semeadura da soja, estimar quando ela será colhida e só então definir quanto da área terá condições de receber milho dentro de uma janela adequada.

Para Gauer, o cuidado é evitar que a combinação de crédito restrito, margens apertadas e risco climático leve o produtor a uma exposição maior do que a propriedade consegue suportar. “O risco existe e aí o desafio que nós estamos comentando de aperto de margens, risco de crédito, toda a problemática que nós estamos discutindo, tem uma nova elevação de risco na próxima temporada”, afirma.

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A trajetória da família Kröling na consolidação da soja e do milho em Mato Grosso

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

O milho, que hoje representa a principal fonte de renda da família Kröling, ocupava um espaço muito diferente na agricultura de Mato Grosso quando os produtores começaram a cultivar a cultura. A consolidação da segunda safra, a evolução da estrutura produtiva e a chegada da industrialização mudaram a relação com o cereal e também o perfil da propriedade em Diamantino.

Atualmente, são 1,8 mil hectares de soja e 1,6 mil hectares de milho, além da pecuária, incorporada ao sistema produtivo há cerca de dez anos. A integração começou em áreas marginais e mistas, com braquiária e posterior entrada do gado. O manejo contribuiu para melhorar o solo e elevar a produtividade da soja.

“A gente começou com a pecuária naquelas áreas marginais, área mista, plantando braquiária para melhorar o solo, aí pôs o gado em cima, e todo ano a gente tem melhorado a média da soja. Vem melhorando o solo e aí vem produzindo soja todo ano melhor”, explica Altemar ao Especial Mais Milho.

A produção é conduzida por Altemar e mais três irmãos, que dividiram as responsabilidades entre financeiro, pecuária, transporte e operação agrícola. A gestão compartilhada também passou a contar com a tecnologia, permitindo que decisões sejam tomadas mesmo quando os irmãos estão em locais diferentes.

O planejamento das safras considera principalmente o comportamento do clima, além da escolha dos materiais e da adubação. Em um cenário de margens mais apertadas, a estratégia é antecipar as decisões, mas manter espaço para ajustes durante o ciclo.

“É claro que você não consegue acertar tudo. Mas a gente começa, primeira coisa o clima, materiais, adubação. Fazemos um planejamento antecipado. É claro que planejamento nunca você consegue executar e fazer ele dar certo em 100%. Mas sempre fazemos um planejamento para tentar errar menos”, frisa Altemar.

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Uma trajetória marcada pelo retorno a Mato Grosso

A relação da família com Mato Grosso começou ainda nos anos 1950. O avô de Altemar deixou o Espírito Santo durante a Segunda Guerra Mundial e foi para Sertanópolis, no Norte do Paraná, onde cultivou café. As geadas da década de 1950 destruíram os cafezais e fizeram a família buscar uma região de clima mais quente.

Foi nesse contexto que surgiu a primeira passagem por Diamantino. A propriedade foi comprada em 1954, mas a família só se mudou para o município em 1958. O período foi marcado por dificuldades de acesso e pela falta de estrutura para os filhos estudarem. “Na década de 50 era muito difícil o acesso, recurso. Aí, as crianças tinham que estudar e não tinha meio aqui. Aqui era um interiorzão mesmo”, lembra Altemar.

Em 1962, a família decidiu voltar ao Paraná e se estabeleceu em Corbélia, no Oeste do estado, próximo a Cascavel. Foi ali que os Kröling tiveram contato com o cultivo mecanizado de soja e milho. Anos depois, quando a mecanização começou a avançar em Mato Grosso, a família retomou o caminho para Diamantino.

“Quando começou a mecanização aqui na região de Mato Grosso, nos anos 70, aqui em Diamantino, a família começou retornar aos poucos, porque daí já tinha recurso. Já tinham empresas, já tinha uma estrutura, Diamantino já tinha uma estrutura”, conta.

Altemar tinha oito anos quando chegou novamente a Diamantino, em 1978. A produção começou com arroz, que ocupou um ciclo. Depois veio uma pequena atividade pecuária e, entre 1982 e 1983, a soja entrou gradualmente no sistema. “E aí não deixamos mais de plantar soja”, resume ao programa que integra o projeto Mais Milho.

A primeira safra da oleaginosa, contudo, foi produzida em condições muito diferentes das atuais. Sem silo e sem estrutura para armazenagem, a soja era seca e ensacada antes de ser comercializada para compradores de São Paulo. “A primeira safra de soja foi secada no secadorzinho e ensacada porque não tinha silo, não tinha estrutura nenhuma para soja. Então, vendia a soja lá no estado de São Paulo, os caminhões vinham, cortava o barbante do saco e aí do saco ia para o caminhão para levar granel”.

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

A fertilidade precisou ser construída

A transformação das áreas ocorreu junto com a construção da fertilidade do solo. Quando a família chegou a Diamantino, praticamente não havia região agrícola aberta. A abertura do Cerrado e a preparação das áreas acompanharam o avanço da produção.

A presença de calcário em Nobres foi um dos fatores que facilitaram esse processo. “A nossa sorte é que estamos numa região que já tinha calcário. Nobres já existia, já tinha as calcalhadeiras. Então tudo ajudou nessa transformação, porque esse solo aqui é muito pobre. Nós tivemos que construir ele inteiro para ter essa produção que nós temos hoje”, afirma Altemar.

A experiência adquirida no Paraná com a mecanização também foi importante para a nova etapa em Mato Grosso. A família encontrou uma região que começava a receber empresas, máquinas e estrutura para sustentar a expansão da agricultura.

A mudança, entretanto, não ocorreu apenas dentro da propriedade. O desenvolvimento da agricultura em Diamantino acompanhou a transformação de todo o Cerrado mato-grossense, com áreas sendo abertas, corrigidas e incorporadas ao sistema produtivo.

Essa trajetória ajuda a dimensionar a distância entre a primeira safra de soja da família e os atuais 1,8 mil hectares cultivados. O que começou com sacas transportadas manualmente para o caminhão evoluiu para uma operação mecanizada e integrada a diferentes atividades.

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Ferrugem asiática abre caminho para a segunda safra

A história do milho começou a partir de uma mudança no calendário da soja, de acordo com o produtor. A ocorrência da ferrugem asiática levou os produtores a anteciparem o plantio da oleaginosa, que antes começava em meados de outubro e passou a ser semeada em setembro.

A mudança abriu uma janela para o cultivo do cereal. “Chovia em setembro e teve alguém que começou a plantar e foi dando certo, a gente foi antecipando o plantio e aí vimos aquela janela: ‘Opa, se eu plantar o milho em fevereiro, eu vou conseguir fazer uma safra de milho, uma segunda safra’”, relata Altemar.

Os primeiros testes foram feitos aos poucos. Conforme os resultados apareceram, a segunda safra ganhou espaço e passou a fazer parte da produção da região. Para Altemar, a origem da cultura no calendário mato-grossense mostra como uma dificuldade pode abrir espaço para uma nova oportunidade. “Às vezes, através de um problema, surgem oportunidades”.

O avanço do milho também recuperou uma história familiar. Quando o pai de Altemar deixou o Paraná, em 1978, vendeu uma pequena suinocultura, atividade que era sua paixão. A falta do cereal em Mato Grosso foi uma das frustrações com a mudança.

“Era uma frustração dele vir para o Mato Grosso e ele falava: ‘O Mato Grosso não produz milho. Como que eu vou criar meus porcos?’. Ele sempre pensava nisso”, lembra Altemar ao Canal Rural Mato Grosso. Conforme o Cerrado passou a ser dominado pela agricultura e o milho ganhou espaço, a família entrou no cultivo, entre 2011 e 2012.

A produção do cereal permitiu que o pai retomasse aos poucos a suinocultura, mesmo sem grande escala. “Ele realizou o sonho dele em criar suíno no Mato Grosso”, conta. O pai do produtor morreu em 2020, mas chegou a acompanhar a expansão do milho no estado. “Ele sempre foi apaixonado pela suinocultura. Ele veio a falecer em 2020 e chegou a ver essa produção extraordinária que o Mato Grosso tem hoje de milho”.

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Milho muda a composição da renda

A propriedade atualmente reúne soja, milho e pecuária. São 1,8 mil hectares de soja e 1,6 mil hectares de milho todos os anos, além do gado, atividade incorporada há cerca de uma década.

Entre as três atividades, o gado é apontado por Altemar como aquele que atualmente apresenta a melhor resposta econômica. A integração, que começou como uma forma de aproveitar áreas com menor potencial, tornou-se parte permanente do sistema produtivo.

Na composição da renda, porém, o milho assumiu o protagonismo. “O milho, ele hoje, dá para se dizer já que é nossa renda principal da fazenda. A soja, ela tem pagado a conta, pagado os investimentos e o milho nos anos em que temos uma boa produtividade, conseguimos acertar as vendas, é o que tem deixado uma margem para o produtor”, explica.

O cereal também passou a ser considerado indispensável dentro do planejamento da propriedade. A industrialização regional, especialmente com o avanço das usinas de etanol, ampliou a demanda e aproximou o processamento das áreas produtoras.

“Hoje, eu não consigo ver o milho fora do nosso sistema aqui. Cada vez mais a industrialização está chegando, a usina de etanol, o milho cada vez mais sendo processado aqui na nossa região. Então é uma coisa consolidada. Todo mundo hoje faz o seu planejamento em cima da safra do milho”, afirma Altemar.

A mudança surpreende até a própria família. Quando o milho começou a ser introduzido na propriedade, em 2011 e 2012, não havia expectativa de que o cereal chegasse à atual importância. “Não só ele duvidaria disso [o pai], mas nós também. Quando a gente começou a introduzir a cultura do milho aí no ano de 2011, 2012, a gente duvidaria se alguém falasse que o milho seria a cultura principal do Mato Grosso um dia”.

Para Altemar, houve uma mudança de patamar. “E eu acho que a gente virou a chave. Hoje em Mato Grosso, a cultura principal é o milho”.

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Clima interfere no resultado da safra

A importância do milho também aumenta o peso das decisões tomadas a cada ciclo. Na safra atual, a expectativa era repetir o desempenho do ano anterior, considerado muito bom em produtividade. A distribuição das chuvas, entretanto, mudou o resultado.

“Choveu a quantia que tinha que chover, mas mais dividido. Por exemplo, nós tivemos um início do cultivo do milho com muita chuva”, pontua Altemar.

O excesso de precipitação no começo do ciclo trouxe perdas de parte das aplicações. Mais tarde, depois do florescimento, o problema foi a falta de chuva para o enchimento dos grãos. “Você faz uma aplicação, te dá uma chuva de 80 a 100 milímetros e você perde boa parte da aplicação. E aí, no final do plantio do milho, a hora que precisava de chuva para ele, pós-florescimento, para encher o grão, faltaram umas duas chuvas”.

O resultado deve ficar abaixo da expectativa inicial. “Vai ser um ano que vai produzir bem abaixo do que a gente estimava, mas são anos totalmente diferentes um do outro. Cada ano tem a sua história”, avalia.

No ciclo anterior, a propriedade alcançou produtividade entre 154 e 156 sacas por hectare. Nesta safra, até o momento da entrevista, o máximo colhido era de 132 sacas por hectare. Ainda havia talhões a serem colhidos e com potencial de apresentar resultados melhores.

A propriedade trabalha com um nível intermediário de tecnologia e evita investimentos muito elevados. A decisão está relacionada à gestão do negócio e à necessidade de avaliar o cenário de cada safra antes de definir onde colocar recursos.

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

A tecnologia a favor da gestão

A administração da fazenda é compartilhada entre Altemar e mais três irmãos. As responsabilidades são diferentes, mas as decisões permanecem conectadas. A tecnologia passou a ser uma ferramenta importante para manter os quatro irmãos alinhados mesmo quando não conseguem estar juntos na propriedade.

“Hoje a tecnologia nos acrescenta muita coisa. Por exemplo, a gente tem um grupo, então qualquer assunto a gente joga lá dentro. Às vezes, não dá tempo de sentar os quatro. Põe lá no grupo e dali a pouco um responde, o outro responde”, conta Altemar ao Canal Rural Mato Grosso.

A comunicação permite que os irmãos trabalhem de onde estiverem e mantenham a operação em andamento. “A gente acaba trabalhando de onde está. Às vezes está na fila para descarregar e eu estou aqui e a gente vai se desenrolando. Dá seu jeito”.

O modelo de gestão acompanha a própria diversificação da propriedade. Soja, milho e pecuária têm necessidades diferentes, e a divisão das responsabilidades permite que cada área seja acompanhada mais de perto sem perder a visão conjunta do negócio.

Entidades acompanham evolução da agricultura

A trajetória de Altemar também se conecta à organização dos produtores. Ele atua há duas décadas na Aprosoja Mato Grosso e é presidente do Sindicato Rural de Diamantino. Para ele, a atuação das entidades foi importante para acompanhar e impulsionar a transformação do setor.

“As instituições, tanto Sindicato Rural, a nossa Federação e a Aprosoja Mato Grosso contribuíram demais nessas últimas duas décadas. A Aprosoja, eu com 20 anos na entidade, foi fundamental para entendermos o processo, para termos forças”, afirma.

O produtor acompanhou o crescimento da Aprosoja Mato Grosso desde os primeiros anos. “Nós começamos a Aprosoja Mato Grosso com 500, 600 associados e hoje estamos encostando em 10 mil. Você vê que as entidades se fortaleceram nesse período. E hoje a gente tem força junto para levar certas reivindicações e tem um poder de negociação em vários setores”.

A logística é um dos exemplos citados por Altemar. Durante parte da trajetória da família, o transporte da produção estava entre os principais entraves para o avanço da agricultura. A mobilização dos produtores e das entidades ajudou a colocar essas demandas em negociação.

“A gente sofria muito com logística, as entidades foram para cima, hoje vemos que o Mato Grosso cresceu demais, evoluiu. Temos logística. Então tudo foram as entidades que correram atrás. O produtor levava as demandas, as entidades corriam atrás e hoje estamos colhendo o resultado”, avalia.

A agricultura que a família encontrou em Diamantino, portanto, passou por transformações profundas desde a primeira propriedade adquirida em 1954. A soja deixou de ser ensacada e transportada para São Paulo, o solo foi construído, a mecanização avançou, o milho ganhou espaço com a segunda safra e a industrialização criou novas possibilidades para o cereal.

Depois de quase cinco décadas convivendo com a atividade, Altemar considera que as dificuldades também foram responsáveis pelo amadurecimento da agricultura. “As dificuldades fazem a gente prosperar e nos deixa mais forte, né? Olha que são quase cinco décadas convivendo na agricultura. Quanta dificuldade passamos. Então isso nos torna mais fortes. Quem chega aqui hoje não sabe o que era isso daqui há 30, 40 anos atrás”.

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Levantamento projeta safra de soja de 185,6 milhões de toneladas em 2026/27

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O primeiro levantamento Datagro Grãos de Intenção de Plantio para a safra 2026/27 indica expansão da área de soja no Brasil pelo 20º ano consecutivo. A projeção é de 49,3 milhões de hectares, alta de 0,3% sobre os 49,2 milhões de hectares de 2025/26. Com isso, o potencial produtivo foi estimado em 185,6 milhões de toneladas, volume 1% superior ao da temporada anterior.

Segundo a Datagro, a estimativa para a soja considera condições climáticas relativamente positivas, ainda que com alguma instabilidade localizada. A consultoria projeta produtividade média nacional de 3.763 quilos por hectare. Se confirmada, ela ficará 1% acima do recorde de 3.718 quilos por hectare registrado em 2025/26.

Para o milho, a primeira estimativa para 2026/27 aponta avanço de área tanto na safra de verão quanto na de inverno. De acordo com a empresa, o movimento é sustentado por produtividade ainda positiva, renda predominantemente positiva no cereal e forte incremento da demanda doméstica.

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Na primeira safra, a área foi projetada em 4,3 milhões de hectares, crescimento de 2% ante os 4,2 milhões de hectares de 2025/26. Desse total, 2,8 milhões de hectares estão no Centro-Sul e 1,5 milhão de hectares no Norte/Nordeste. A produção tem potencial para alcançar 29,4 milhões de toneladas, 1% abaixo das 29,7 milhões de toneladas da safra anterior, com produtividade média de 6.871 quilos por hectare, 3% menor que os 7.098 quilos por hectare de 2025/26.

No milho de inverno, responsável por mais de 80% da produção nacional, a área estimada é de 19,4 milhões de hectares, 3% acima dos 18,7 milhões de hectares do ciclo anterior e em nível recorde. No Centro-Sul, a área deve atingir 15,9 milhões de hectares, ante 15,6 milhões de hectares. No Norte/Nordeste, a projeção é de 3,5 milhões de hectares, ante 3,2 milhões de hectares.

A produtividade média preliminar da safrinha foi estimada em 6.606 quilos por hectare, com potencial produtivo de 118,1 milhões de toneladas, 2% acima das 115,5 milhões de toneladas calculadas para 2025/26. Somadas as duas safras, a produção brasileira de milho em 2026/27 pode chegar a 147,5 milhões de toneladas, 2% acima do ciclo anterior e em novo recorde histórico.

Fonte: Estadão Conteúdo

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Colheita de milho na Argentina chega a 69,8% e plantio de trigo atinge 98,4%

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A colheita de milho na Argentina alcançou 69,8% da área apta na última semana, com avanço de 3 pontos porcentuais em relação à semana anterior, informou na quinta-feira (30) a Bolsa de Cereais de Buenos Aires. O ritmo dos trabalhos segue lento no sudeste da província de Buenos Aires, onde o excesso de umidade dificulta a secagem dos grãos. No trigo, o plantio da safra 2026/27 chegou a 98,4% da área prevista.

Segundo a Bolsa de Cereais de Buenos Aires, a produtividade média nacional do milho está em 7,94 toneladas por hectare. A estimativa de produção foi mantida em 64 milhões de toneladas.

O avanço da colheita ocorreu apesar das restrições climáticas em parte da província de Buenos Aires. A entidade informou que o excesso de umidade no sudeste da região tem reduzido a velocidade dos trabalhos no campo, principalmente por dificultar a secagem dos grãos.

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No trigo, o plantio da safra 2026/27 avançou 0,7 ponto porcentual na semana e alcançou 98,4% da área projetada de 6,5 milhões de hectares. Assim como no milho, a semeadura também enfrenta desaceleração no sudeste de Buenos Aires.

De acordo com a bolsa, os solos encharcados dificultam a entrada de máquinas nas áreas agrícolas da região. Esse quadro tem limitado a continuidade dos trabalhos de campo tanto na reta final da implantação do trigo quanto no andamento da colheita de milho.

Com isso, a Argentina encerrou a semana com a colheita de milho próxima de 70% da área apta, produtividade média de 7,94 toneladas por hectare e projeção de 64 milhões de toneladas, enquanto o plantio de trigo alcançou 98,4% da área prevista de 6,5 milhões de hectares.

Fonte: Estadão Conteúdo

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