Sustentabilidade
Resiliência da agricultura do Rio Grande do Sul – MAIS SOJA

Por José Eloir Denardin e Álvaro Augusto Dossa, da Embrapa Trigo
A expressão popular “chover no molhado”, amplamente consagrada no imaginário coletivo, é usualmente empregada para designar a repetição do óbvio – aquilo que já é sabido e, portanto, considerado redundante. Contudo, ao transpor essa metáfora para o cenário da gestão de risco na agricultura, diante da imprevisibilidade do regime pluviométrico, revela-se um paradoxo inquietante.
A distribuição e o volume das chuvas, em suas dimensões temporal e espacial, constituem variáveis críticas e potencialmente disruptivas, com efeito direto sobre o desempenho das safras em distintos ambientes de produção. Essa é uma realidade amplamente reconhecida e de domínio técnico evidente e consolidado. Ainda assim, a persistente negligência na adoção de estratégias preventivas para mitigar os impactos de excesso ou da escassez de chuvas sobre a produtividade e a rentabilidade das lavouras evidencia, por um lado, fragilidade estrutural dos sistemas produtivos, no que tange à gestão integrada de riscos. Por outro, expõe lacunas relevantes tanto nas políticas públicas voltadas ao reconhecimento, valorização e incentivo de práticas agronômicas preventivas e resilientes, quanto na transferência dessas tecnologias ao produtor rural pelos serviços de consultoria e assistência técnica – lacunas que, embora não invalidem os esforços já empreendidos, sugerem que a intensidade, a qualidade e a efetividade das ações requerem aprimoramentos de modo a fortalecer, de forma consistente, a mitigação de riscos de natureza pluviométrica no setor agrícola.
Insistir na obviedade da necessidade de planejamento e diversificação tecnológica frente à instabilidade do regime de chuvas, sem promover mudanças efetivas na condução dos sistemas agrícolas e no suporte institucional, é, ironicamente, “chover no molhado”.
A agricultura é, por sua própria natureza, altamente vulnerável a fatores que escapam ao controle direto do produtor rural e dos demais agentes da cadeia produtiva. Os produtores são tomadores de preço de insumos, de máquinas e de equipamentos, e sua “indústria” opera literalmente a céu aberto, com reduzida capacidade de mitigar os efeitos de eventos climáticos extremos. Diante dessas limitações estruturais, é possível – e necessário – adotar medidas técnicas e gerenciais que viabilizem a resiliência dos sistemas produtivos, ainda que impliquem custos adicionais. Nesse sentido, há tecnologias consolidadas e acessíveis capazes de subsidiar projetos e orientar o produtor na mitigação dos impactos decorrentes da imprevisibilidade pluviométrica.
De acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger, o estado do Rio Grande do Sul apresenta, em 86,7% de seu território, clima subtropical úmido, caracterizado por verões quentes e precipitação distribuída ao longo do ano. Nos 13,3% restantes, predomina o clima temperado oceânico, com verões mais amenos e precipitação igualmente distribuída durante todo o ano. Essas classes climáticas apresentam regimes altamente dinâmicos e instáveis, com comportamento irregular e imprevisível, principalmente da pluviosidade, resultante da interação entre massas de ar tropicais e polares e de fenômenos oceânico-atmosféricos de escala global – El Niño e La Niña (Alvares et al., 2013). Embora o excesso de chuva seja mais frequente nos anos de El Niño e a escassez nos anos de La Niña, essas oscilações pluviométricas podem ocorrer, até mesmo, ao longo de uma mesma safra. Por essa razão, esse regime pluviométrico se consolida como o principal fator de risco intempestivo à produção agropecuária regional.
Assim, as recorrentes interferências das irregularidades pluviométricas na atividade agrícola – em especial os episódios de déficit hídrico que comprometem a expressão do potencial produtivo das culturas de milho e soja –, foram registradas, respectivamente, em 65% e 73% das 49 safras analisadas nas séries históricas compreendidas entre 1977 e 2025, como pode ser inferido dos dados da Conab (2025), registrados na Figura 1. As reduções de produtividade, visíveis na Figura 1 a partir dos anos em que se verificaram ganhos históricos de rendimento, revelam não apenas a magnitude das perdas produtivas, mas também os impactos adversos sobre a rentabilidade, com desdobramentos de ordem econômica, ambiental e social.
A imprevisibilidade do regime de chuvas no Rio Grande do Sul – seja por excesso, escassez ou mesmo por padrões considerados normais – garante que alternância de eventos pluviais adversos e favoráveis continuará a ocorrer. Nessa abordagem, o ditado “chover no molhado” ressurge como advertência oportuna à gestão de riscos nos estabelecimentos rurais, reforçando a necessidade premente de adoção de tecnologias indutoras de resiliência e sustentabilidade na agricultura do Estado.
A expressiva magnitude e frequência desses eventos evidenciam a vulnerabilidade dos sistemas produtivos diante da ausência de estratégias robustas de gestão de riscos, tanto intempestivos (de natureza climática e ambiental) quanto não intempestivos (de ordem econômica, jurídica, social e operacional), com destaque para o manejo do solo e das culturas. O panorama reforça a urgência de reconfigurar os mecanismos que viabilizam maior resiliência ao setor agrícola do Estado, diante da imprevisibilidade pluviométrica e da complexidade dos desafios estruturais.
Figura 1. Séries históricas de produtividade de grãos de milho e soja no Rio Grande do Sul, no período de 1977 a 2025, evidenciando os efeitos da recorrente instabilidade pluviométrica.
Fonte: Conab (2025)
Riscos são inerentes aos processos produtivos e, por sua própria natureza, não podem ser completamente eliminados ou evitados. Ainda que risco e incerteza não sejam conceitos equivalentes – sendo a incerteza, por definição, não mensurável (Ghadge et al., 2017; Kolmar, 2017) –, o risco pode ser gerenciado por meio de ações estruturadas de mitigação.
No contexto agrícola, e especialmente diante dos riscos associados à irregularidade das chuvas, Brick e Visser (2015) ressaltam que tais ações devem envolver medidas administrativas de cunho comercial (como vendas antecipadas), jurídica (contratos e créditos), atuariais (seguros) e tecnológicas-operacionais (práticas de manejo de solo e de culturas). Embora frequentemente percebidas como custos adicionais e dispensáveis em anos de normalidade climática, essas medidas se justificam plenamente e revelam sua eficácia nos períodos de adversidade.
Este artigo propõe uma reflexão fundamentada sobre os eixos estratégicos que devem permitir a resiliência agrícola do Estado frente à imprevisibilidade pluviométrica, destacando práticas gerenciais, administrativas e operacionais que podem e devem ser incorporadas como parte de uma abordagem sistêmica, integrada e proativa de adaptação.
Práticas gerenciais e administrativas para mitigação de riscos
A propriedade rural é, muitas vezes, percebida como uma extensão da residência do produtor, sobretudo quando se trata de pequenas áreas conduzidas predominantemente por membros da família. Ainda assim, é essencial compreendê-la como uma empresa rural, que demanda práticas consistentes de gestão. Nunes e Scarpelli (2001) já destacavam, há mais de duas décadas, a necessidade de que o empreendimento rural moderno seja suficientemente flexível para se ajustar às constantes mudanças que o afetam. Nesse sentido, torna-se imprescindível a adoção de um modelo de gestão organizado e funcional, que contemple a geração sistemática de dados da própria propriedade (custos, séries históricas de produtividade, variabilidade entre talhões, histórico da fertilidade do solo etc.), a elaboração de informações úteis, o planejamento formal de curto, médio e longo prazo, além de uma logística de operações bem estruturada.
Mesmo assim, um bom modelo de gestão, por si só, pode não ser suficiente. A prática mais simples de gestão de riscos – e, paradoxalmente, uma das mais complexas – consiste na constituição de reservas financeiras. A formação de poupança não é amplamente difundida entre brasileiros em geral: pesquisa realizada pelo DataFolha em 2023 indicou que sete em cada dez brasileiros não possuem reservas, enquanto pesquisa realizada pelo Federal Reserve (2025) mostrou que 55% dos adultos norte-americanos dispõem de recursos suficientes para cobrir ao menos três meses de despesas. Peter Drucker, referência mundial em Administração, enfatiza que organizações bem geridas constroem reservas e capacidades estratégicas antes dos períodos de turbulência. Dispor de recursos para custeio de ao menos uma safra à frente pode resultar em uma grande diferença diante da ocorrência de um sinistro. No setor agropecuário, há registros recentes de produtores do Cerrado brasileiro que mantêm reservas capazes de custear até quatro safras. Os produtores do Rio Grande do Sul, de modo geral, necessitam avançar nessa direção.
O controle de custos talvez seja a prática gerencial mais necessária – e, simultaneamente, uma das mais negligenciadas. Muitos produtores delegam integralmente esse acompanhamento aos técnicos ou o realizam de forma superficial. Adicionalmente, a aquisição de pacotes tecnológicos padronizados e calendarizados, frequentemente incentivados por vendedores e revendedores, pode transmitir a impressão de eficiência técnica-operacional ou de descontos vantajosos, sem necessariamente resultar em viabilidade técnica ou econômica quando considerados cenários de instabilidade climática ou de oscilação de preços. Cada propriedade, como cada família e cada empresa, apresenta singularidades – modelos de produção, cultivares e híbridos adotados, características e propriedades edáficas, região de produção, regime climático e costumes e hábitos, até mesmo, étnicos – que influenciam de maneira decisiva a tecnologia a ser empregada. A adoção de insumos ou práticas desnecessárias eleva custos e, consequentemente, amplia riscos. Assim, a utilização indiscriminada de pacotes tecnológicos pode tornar o produtor dependente de gastos incompatíveis com momentos que exigem contenção de custos, sem que haja ganhos reais proporcionais.
Outro elemento frequentemente negligenciado na mitigação de riscos é o investimento em capacitação. Não apenas o técnico responsável necessita manter-se atualizado: o produtor e seus colaboradores também devem receber formação contínua nas práticas que empregam, de modo a maximizar o aproveitamento dos recursos disponíveis. Não é racional adquirir uma máquina ou implemento agrícola de elevado valor e não explorar plenamente suas funcionalidades. Nesse mesmo sentido, impõem-se reflexões: considerando os juros vigentes, os custos de produção e os preços de mercado, é realmente necessário investir em máquinas e implementos de grande porte e tecnologia avançada? As funcionalidades embarcadas nesses equipamentos são, de fato, indispensáveis para a realidade em pauta? Essa racionalidade deve ser estendida ao conjunto dos custos da lavoura: este insumo é realmente imprescindível? A análise de solo justifica a aplicação deste fertilizante? Há indicação técnica da necessidade de aplicação desse fungicida, mesmo que o pacote tecnológico padronizado e calendarizado assim o recomende? É compreensível que muitos produtores respondam “sim”, considerando a mitigação de riscos como parte de sua estratégia de decisão – afinal, a percepção de que “é melhor prevenir do que remediar” é intuitiva. No entanto, permanece a questão central: tais escolhas são técnica e administrativamente adequadas? E, sobretudo, como responderão a cenários de excesso ou escassez de chuvas?
Ainda nessa mesma categoria de mitigação de riscos, a diversificação das estratégias de comercialização dos produtos gerados constitui prática amplamente recomendada e ainda pouco explorada na agricultura do Rio Grande do Sul e do Brasil. A dependência de um único modelo de comercialização acentua os riscos inerentes à atividade agrícola. Em países como o Reino Unido, estratégias de comercialização são discutidas com produtores em dias de campo, da mesma forma que cultivares ou práticas de manejo. Além da venda à vista na colheita, recomenda-se a combinação de modalidades antecipadas, tais como: contrato de venda a termo (venda antes da colheita), venda antecipada por equivalência de produto (troca de parte da safra plantada e colhida), Cédula de Produto Rural (CPR), venda com preço antecipado (uma forma de hedging), venda com preço a fixar e venda em venda em comum (pooling) (Mendes e Júnior, 2007).
Ao firmar contratos de venda com preço pré-fixado, parte da exposição à volatilidade de preços é reduzida, conferindo previsibilidade de receita e facilitando o planejamento econômico da safra. Entretanto, recomenda-se prudência: a dependência exclusiva de um único instrumento de comercialização pode revelar-se contraproducente perante choques de mercado. A diversificação de mecanismos comerciais – combinando contratos a preço fixo, contratos futuros, vendas à vista em momentos oportunos e utilização de estoques estratégicos – constitui uma estratégia robusta de gerenciamento de risco, na lógica de não concentrar posições. Empresas e consultorias especializadas já prestam suporte técnico para o desenho e a implementação dessas estratégias de comercialização. Produtores que dispõem de capacidade própria de armazenagem, seja em silos convencionais ou em silos-bolsa, ampliam seu poder de barganha ao postergar a venda para janelas de preço mais favoráveis (Mendes & Júnior, 2007). Todos esses instrumentos, contudo, implicam custos operacionais, exigências logísticas e riscos específicos – aspectos que devem ser avaliados por meio de análises técnico-econômicas rigorosas e acompanhados de programas de formação e capacitação continuada, de modo a assegurar sua aplicação adequada e contextualizada aos sistemas produtivos locais.
No âmbito nacional, talvez a mais robusta ferramenta de mitigação de riscos seja o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). Esse instrumento considera culturas, regiões e janelas de plantio adequadas, orientando o produtor na redução de perdas decorrentes de eventos climáticos adversos. Seguir o ZARC é essencial, e sua integração com o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (PROAGRO) e com o Seguro Agrícola (SA) constitui um de seus pilares operacionais. De forma objetiva: produtores que não observam o zoneamento podem perder acesso ao crédito e ao seguro rural.
Entretanto, estudo de Colle (2025), apresentado no 63º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER), evidencia que os produtores do Rio Grande do Sul vêm se afastando dessas proteções – não por falhas do ZARC, mas pela não adesão ao SA ou ao PROAGRO. Entre 2020 e 2024, a área de trigo amparada reduziu-se de 96% para 51%. No milho, a cobertura caiu de 59,3% em 2021 para 32,5% em 2024. Na soja, o quadro é ainda mais preocupante: em 2021, 48% da área contava com proteção; em 2024, apenas 16,4%.
Nos últimos anos, o aumento dos custos (prêmios) do seguro reduziu expressivamente a demanda por esse sistema de mitigação de risco. Tanto o sistema público quanto o privado têm oferecido proteção aquém das necessidades, mesmo dispondo de uma ferramenta robusta como o ZARC.
Em um contexto marcado pela recorrência de excesso e escassez de chuvas, essa realidade torna-se particularmente alarmante. Cabe aos diversos agentes do setor – especialmente aos engenheiros agrônomos responsáveis por consultorias e pela assistência técnica aos produtores rurais – adotar posturas cada vez mais fundamentadas em evidências, pautadas por rigor técnico e critérios objetivos.
Práticas tecnológicas e operacionais para mitigação de riscos
No Rio Grande do Sul, o manejo da matriz produtiva de grãos e forragens encontra-se majoritariamente ancorado na técnica do Plantio Direto, e não na abordagem abrangente e sistêmica que caracteriza o Sistema Plantio Direto. Essa distinção, embora aparentemente sutil em termos operacionais, revela-se decisiva sob a ótica agronômica: compreender que Plantio Direto e Sistema Plantio Direto não são equivalentes é condição essencial para fortalecer a resiliência agrícola estadual diante da imprevisibilidade pluviométrica, marcada pela alternância entre excesso, escassez e regularidade de chuvas.
Em sua operacionalização, o Plantio Direto restringe-se a dois preceitos conservacionistas: a mobilização mínima do solo, limitada à linha de semeadura, e a manutenção permanente da cobertura superficial do solo. O Sistema Plantio Direto, por sua vez, amplia substancialmente esse escopo. Além de incorporar esses dois princípios básicos do Plantio Direto, exige a diversificação sistemática de culturas, incluindo plantas de serviço dotadas de sistemas radiculares capazes de gerar, manter e estabilizar atributos estruturais do solo agronomicamente desejáveis. Essas espécies desempenham papel central na construção biogênica de uma estrutura edáfica de qualidade – notadamente formação de agregados granulares estáveis, incremento da porosidade funcional e promoção da conectividade e continuidade dos poros. Tais atributos são indispensáveis para os fluxos de água, ar, calor e nutrientes no perfil, bem como para a penetração e o pleno desenvolvimento radicular das culturas em sucessão, independentemente da textura do solo (Denardin et al., 2012; Ologunde et al., 2025). Nesse sentido, impõe-se um axioma agronômico: toda planta pode cobrir o solo, mas somente algumas são capazes de construir, manter e estabilizar uma estrutura edáfica funcional, agronomicamente desejável.
Todavia, o modelo produtivo vigente no Estado, estruturado pelas técnicas restritivas do Plantio Direto, não contempla, entre as plantas de serviço, espécies dotadas de atributos radiculares capazes de induzir melhorias na estrutura do solo. Sob esse manejo, os 8,83 milhões de hectares, atualmente, destinados à produção de grãos e forragens permanecem, durante o inverno, com 78,7% da área ocupada por uma combinação de pousio vegetado espontaneamente e cultivo de espécies utilizadas exclusivamente para cobertura do solo – estimativas derivadas de dados da Conab (2025). Embora tal prática apresente certo caráter conservacionista, não gera fitomassa radicular em quantidade, qualidade e frequência suficientes para induzir a estruturação física desejável.
Nessa perspectiva, o Plantio Direto, assim conduzido, não se mostra eficaz como substituto das práticas mecânicas convencionais de preparo – como aração e gradagem – no que se refere ao condicionamento físico indispensável ao desenvolvimento radicular das culturas. Aplicado como estratégia predominante na matriz produtiva de grãos e forragens do Rio Grande do Sul, o Plantio Direto compromete a funcionalidade física-estrutural do perfil edáfico, ampliando a vulnerabilidade das lavouras à recorrente oscilação entre excesso e escassez de chuvas.
A adoção generalizada do Plantio Direto acumula ainda aspectos adicionais impeditivos à maximização da produtividade e da rentabilidade, comprometendo igualmente a resiliência da matriz produtiva de grãos e forragens no Rio Grande do Sul.
A adubação corretiva das deficiências de fósforo, potássio e da acidez do solo – prática destinada a mitigar limitações edáficas de natureza química, de origem geológica – não se consolidou como tecnologia efetivamente integrada ao Plantio Direto. A incorporação adequada dos corretivos, ao menos na camada de 0 a 20 cm do perfil, foi abandonada e permanece negligenciada, apesar de ser reiteradamente recomendada como necessária e indispensável pelo Núcleo Regional Sul da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, conforme registrado no Manual de Calagem e Adubação para os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina (SBCS, 2016).
A aplicação de calcário por centrifugação, embora reconhecida pela distribuição heterogênea do corretivo na superfície do solo e pela consequente indução de variabilidade horizontal nos indicadores químicos da fertilidade, continua sendo amplamente utilizada em detrimento do método gravitacional. Esse fator impede a maximização da produtividade e da rentabilidade da lavoura, com ênfase em anos com escassez de chuvas.
O somatório dessas inadequações frente às diretrizes estabelecidas em SBCS (2016) e por Kochhann e Denardin (2000), Denardin et al. (2012) entre outras publicações, ao desencadear tal sequência concatenada de processos, contribui de forma inequívoca para a intensificação dos riscos intempestivos impostos pela imprevisibilidade pluviométrica característica do Rio Grande do Sul.
Nesse contexto, a análise de 336 amostras de solo, coletadas nas camadas de 0 a 10 cm e 10 a 20 cm de profundidade em lavouras manejadas sob Plantio Direto, nos anos de 2021 a 2024, abrangendo as Regiões Fisiográficas das Missões, do Planalto Médio e dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, e do Planalto Serrano, em Santa Catarina, evidenciou que 79% dos solos apresentavam desequilíbrio nos indicadores químicos da fertilidade – pH, fósforo, potássio, bem como demais variáveis dependentes do pH. Esse resultado foi caracterizado pela ocorrência de deficiência dos indicadores químicos da fertilidade concomitante nas duas camadas ou pela suficiência restrita à camada superficial de 0 a 10 cm.
Em adição a esses aspectos incongruentes às recomendações da SBCS (2016) e às orientações técnicas publicadas por CNPT-Embrapa, Fundacep-Fecotrigo e Fundação ABC (1993), bem como por Kochhann e Denardin (2000), Denardin et al. (2012) e outros autores, observa-se que, em larga escala, o Plantio Direto não preconiza a adoção de práticas conservacionistas complementares como a semeadura em contorno e o terraço agrícola para o manejo da água pluvial incidente sobre a superfície do solo.
A omissão dessas tecnologias configura causa primária do escoamento superficial e da erosão hídrica, resultando em perdas substanciais de água, solo, matéria orgânica, corretivos, fertilizantes e nutrientes, além da remoção de frações expressivas da camada superficial, frequentemente evidenciada em sulcos que marcam a paisagem. Tais processos acarretam prejuízos diretos aos sistemas de produção e danos aos ecossistemas circundantes, cujas consequências, na prática, revelam-se incalculáveis.
O descaso a esse complexo de práticas conservacionistas tem imposto severas limitações técnicas à maximização da produtividade e da rentabilidade agrícola, mesmo em anos com regime hídrico regular. Além disso, tem ampliado as perdas por déficit hídrico em períodos de escassez de chuvas e agravado a perda de insumos em anos de chuva excessiva, em razão da intensificação do escoamento superficial. Do ponto de vista econômico, tem contribuído para o aumento dos custos de produção, a estagnação da produtividade e a redução da rentabilidade dos sistemas agrícolas. Em adição, tem comprometido a estabilidade financeira do produtor, fragilizado o abastecimento de matéria-prima para as diversas cadeias agroalimentares sustentadas pela agricultura e, sobretudo, colocado em risco a disponibilidade financeira para os investimentos indispensáveis à contínua modernização do setor.
Em síntese, o manejo praticado sob a égide do Plantio Direto – dissociado da abordagem sistêmica que fundamenta o Sistema Plantio Direto – tem conduzido a matriz produtiva de grãos e forragens no Rio Grande do Sul a uma rota de colisão com a capacidade de suporte do solo enquanto recurso natural. Todavia, o comportamento humano da culpabilização – ou projeção de culpa – manifesta-se com frequência como mecanismo de defesa destinado à preservação da autoimagem, mediante a transferência de responsabilidade por falhas operacionais ou estratégicas a agentes externos, evitando-se, assim, o enfrentamento das causas reais.
No contexto da matriz produtiva estadual, essa projeção de culpa é recorrentemente dirigida à irregularidade pluviométrica – seja pelo excesso, seja pela escassez de chuvas –, funcionando como racionalização inconsciente da impotência percebida ou da ineficiência metodológica e/ou operacional diante da complexidade edafoclimática regional.
Esse processo é ainda reforçado pela substituição progressiva da linguagem técnico-científica, fundamentada em evidências, por formas discursivas de natureza ideológica, persuasiva ou mesmo obscurantista, utilizadas na interpretação da funcionalidade dos recursos naturais e frequentemente permeadas por pressões comerciais associadas à oferta de tecnologias agrícolas promovidas como soluções milagrosas – mais consultoria vinculada ao insumo comercializado, menos assistência técnica orientada ao manejo integral do sistema de produção.
À luz desse quadro, torna-se imprescindível resgatar a centralidade da ciência agronômica e da gestão integrada do sistema de produção como condição para reverter a degradação progressiva dos recursos edáficos, reequilibrar a relação entre a matriz produtiva e a capacidade de suporte do solo, restabelecer a racionalidade técnico-operacional, há mais de 30 anos preconizada pelo Sistema Plantio Direto, e, assim, fortalecer a resiliência da agricultura do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, é pertinente considerar, na gestão dos riscos impostos pela irregularidade pluviométrica, resultados de pesquisa consolidados a partir de meados da década de 1980, referentes à diferenciação entre Plantio Direto e Sistema Plantio Direto e à descrição cronológica, passo a passo, das técnicas indispensáveis para a implementação do Sistema Plantio Direto. Destacam-se, nesse âmbito, as publicações CNPT-Embrapa, Fundacep-Fecotrigo e Fundação ABC (1993), Kochhann e Denardin (2000), Denardin et al. (2012), Denardin et al. (2025), entre outras.
O resgate proposto implica, fundamentalmente, na gestão do processo de transição do Plantio Direto para o Sistema Plantio Direto. Esse procedimento requer, de forma estruturada, o diagnóstico dos indicadores físicos e químicos da fertilidade do solo, bem como a análise crítica do modelo de produção vigente aplicado à matriz produtiva de grãos e forragens no Rio Grande do Sul. A partir desse diagnóstico, procede-se à prescrição de um plano de ação orientado para o alcance do prognóstico delineado. Esses procedimentos encontram-se descritos em inúmeras publicações, como CNPT-Embrapa, Fundacep-Fecotrigo e Fundação ABC (1993), Kochhann e Denardin (2000) e Denardin et al. (2012), com ênfase na mais recente contribuição de Denardin et al. (2025).
Denardin et al. (2025) destacam e priorizam, nessa transição do Plantio Direto para o Sistema Plantio Direto, a correção dos indicadores físicos e químicos da fertilidade do solo, mediante incorporação dos corretivos ao menos na camada de 0 a 20 cm, seguida, imediatamente, por um plano de diversificação de culturas aplicado à matriz produtiva de grãos e forragens do Estado. Esse cenário preconiza, de modo obrigatório, o cultivo sistemático e calendarizado de plantas de serviço com funcionalidade para gerar, manter e estabilizar atributos estruturais do solo agronomicamente desejáveis. Esse plano se concretiza pela implementação de um terceiro cultivo anual, intercalado entre as safras de verão e de inverno, ao menos uma vez a cada dois anos.
As culturas apropriadas para essa finalidade, considerando a classificação climática do Rio Grande do Sul – umidade e temperatura –, são as gramíneas de verão como capim-sudão, milheto, milho, sorgo, e braquiária, todas cultivadas como plantas de serviço, com densidade muito superior àquela indicada para a produção de renda direta e o menor espaçamento possível entre as linhas de semeadura. Essas espécies possuem raízes fasciculados, abundantes, espessas e lignificadas, com elevada relação C/N (carbono/nitrogênio) e, consequentemente, baixa taxa de mineralização. A reduzida taxa de mineralização é essencial e necessária para a geração, manutenção e estabilização da estrutura do solo, marcada por agregados granulares estáveis, com porosidade funcional, conectada e contínua ao longo do perfil.
Concluindo, o Sistema Plantio Direto – associado ao conceito que o fundamenta como de natureza genuinamente brasileira – está consolidado e é reconhecido internacionalmente como a mais conservacionista estratégia de manejo de solo e de culturas anuais dentre aqueles praticados nos demais países dos continentes americano, asiático e europeu, bem como da região mediterrânea do norte da África (Lahmar et al., 2007).
A adoção do Sistema Plantio Direto constitui-se, inequivocamente, na ação primordial, essencial e indispensável para a gestão de riscos intempestivos de origem pluviométrica.
Sua implementação orienta-se para a maximização da expressão do potencial genético das culturas, mediante a otimização da oferta ambiental e da qualidade biológica, física e química do solo. Adicionalmente, potencializa maior economicidade do sistema produtivo, reduz impactos sobre ecossistemas adjacentes e contribui para o bem-estar social, configurando-se como vetor de revitalização da resiliência da agricultura no Rio Grande do Sul e materializando o tripé da sustentabilidade agrícola.
Considerações finais
O produtor rural não pode ser concebido como uma entidade desprovida de racionalidade. Ao contrário, suas decisões são fundamentadas em conhecimento técnico, experiência prática e em condicionantes econômicos e ambientais. Compreender a lógica que orienta essa tomada de decisão é, portanto, elemento-chave para o aprimoramento da gestão e do manejo da propriedade, inclusive no que se refere à identificação e à mitigação dos riscos inerentes à atividade agrícola. A atualização permanente desses fundamentos é premissa da agronomia e encontra seu melhor desdobramento na assistência técnica orientada à gestão do sistema de produção, não na consultoria circunscrita ao manejo de insumos e equipamentos.
Não existem garantias de safras favoráveis nem de apoio governamental permanente. Nesse cenário de incerteza, cabe ao produtor adotar decisões estratégicas e ajustar suas operações de modo proativo, orientando-se sempre pela necessidade de mitigar riscos. Essa postura deve ser mantida mesmo em anos de pluviometria regular, funcionando como mecanismo de redução da vulnerabilidade e de prevenção de perdas em períodos adversos – afinal, insistir na prevenção pode parecer “chover no molhado”, mas é precisamente essa atitude que se revela como a única alternativa capaz de minimizar riscos diante da imprevisibilidade pluviométrica do Rio Grande do Sul.
Artigo na íntegra publicado na revista da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Porto Alegre (AEAPA), em dezembro de 2025, sob o título “Resiliência da agricultura do Rio Grande do Sul diante da imprevisibilidade do excesso e da escassez de chuvas – Gestão de Risco”.
Fonte: Embrapa

Autor:Joseani M. Antunes (MTb 9693/RS) Embrapa Trigo
Site: Embrapa
Sustentabilidade
Negócios são contidos em dia de USDA; confira as cotações de soja

O mercado brasileiro de soja encerrou a semana com negociações mais contidas no mercado interno, enquanto os melhores negócios foram registrados nos portos. Segundo o analista da Safras & Mercado, Rafael Silveira, os prêmios permaneceram firmes ao longo da semana, sustentando as cotações mesmo com o recuo do dólar.
De acordo com o analista, a Bolsa de Chicago avançou após a divulgação do relatório de oferta e demanda de julho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), enquanto a moeda norte-americana apresentou queda, mas sem grandes oscilações. Com isso, os preços variaram entre estabilidade e alta durante a sessão.
Silveira afirma que o produtor segue cauteloso e continua buscando preços ainda mais elevados para avançar nas negociações.
“O mercado segue com boas indicações, mas o produtor continua cauteloso, buscando cotações ainda maiores”, destaca.
Segundo o analista, a semana foi marcada por um volume expressivo de negócios, impulsionado pelas indicações mais firmes de preços. “O mercado ficou mais animado pelo ponto de vista do vendedor”, resume.
Preços de soja no Brasil
- Passo Fundo (RS): manteve em R$ 135,00 por saca
- Santa Rosa (RS): manteve em R$ 136,00 por saca
- Cascavel (PR): manteve em R$ 130,00 por saca
- Rondonópolis (MT): manteve em R$ 122,00 por saca
- Dourados (MS): subiu de R$ 121,00 para R$ 123,00 por saca
- Rio Verde (GO): manteve em R$ 124,00 por saca
Nos portos, Paranaguá (PR) manteve a referência em R$ 141,00 por saca, mesmo patamar observado em Rio Grande (RS).
Chicago fecha em alta após relatório do USDA
Na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT), os contratos futuros da soja encerraram a sexta-feira em alta, refletindo a repercussão do relatório mensal do USDA e a confirmação de uma venda de soja norte-americana para a China.
O USDA estimou a safra dos Estados Unidos em 4,475 bilhões de bushels na temporada 2026/27, o equivalente a 121,8 milhões de toneladas, acima da estimativa anterior de 4,435 bilhões de bushels (120,7 milhões de toneladas). O mercado esperava uma produção de 4,457 bilhões de bushels, ou 121,3 milhões de toneladas.
A produtividade foi mantida em 53 bushels por acre.
Já os estoques finais da safra 2026/27 foram projetados em 310 milhões de bushels, ou 8,44 milhões de toneladas, abaixo da expectativa do mercado, que estimava 324 milhões de bushels (8,8 milhões de toneladas). Para a temporada 2025/26, o USDA indicou estoques de passagem de 330 milhões de bushels, enquanto os analistas esperavam 337 milhões.
Outro fator de sustentação dos preços foi o anúncio de exportadores privados norte-americanos sobre a venda de 254 mil toneladas de soja para a China, com entrega prevista para a temporada 2026/27.
No fechamento da sessão, o contrato julho/2026 avançou 14 centavos de dólar, ou 1,18%, para US$ 11,91 por bushel. A posição novembro/2026 subiu 9,25 centavos, ou 0,78%, encerrando a US$ 11,90¾ por bushel. Na semana, o contrato novembro acumulou valorização de 3,62%.
Entre os derivados, o farelo para agosto/2026 avançou US$ 3,00 por tonelada, fechando em US$ 320,40, enquanto o óleo de soja para agosto subiu 0,77%, para 70,46 centavos de dólar por libra-peso.
Dólar recua na semana
No mercado de câmbio, o dólar comercial encerrou a sexta-feira com queda de 0,29%, cotado a R$ 5,1068 na venda e R$ 5,1048 na compra. Durante o pregão, a moeda oscilou entre R$ 5,0988 e R$ 5,1253. No acumulado da semana, a desvalorização foi de 1,19%.
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CESB 25/26: Campeão da Região Norte – Sequeiro obteve 136,64 sc/ha – MAIS SOJA

Com produtividade de 136,64 sacas por hectare, o produtor Pedro Foresto Crispim, Fazenda Bela, em Goiatins (TO), garantiu o título de campeão da Região Norte, categoria sequeiro, do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja do CESB da safra 25/26.
A impressionante produtividade foi obtida em uma área de 2,68 hectares, cujas práticas de manejo foram voltadas à construção da fertilidade do solo, à preservação do perfil físico e ao manejo criterioso da cultura ao longo de todo o ciclo. O histórico da área demonstra uma rotação de culturas envolvendo soja, milho, milheto e braquiária, além de sucessivas correções da acidez com aplicações de calcário e gesso em safras anteriores, além da calagem na safra 25/26, onde também foi realizada adubação de sistema com 300 kg/ha de 00-49-00 + S a lanço.
A cultivar NEO 820 IPRO foi semeada com espalhamento entrelinhas de 50 cm, população planejada de 260 mil plantas por hectare e profundidade de 3,5 cm. O tratamento de sementes continha inseticidas e fungicidas. Para a coinoculação realizada via sulco de semeadura foram utilizados Bradyrhizobium japonicum e Azospirillum brasilense, associados ao fornecimento de cobalto, molibdênio e níquel. Antes da semeadura também foi realizada dessecação com glufosinato de amônio, glifosato e flumioxazina, enquanto a adubação de plantio contemplou 100 kg/ha de fosfato (00-49-00 + S) e 150 kg/ha de cloreto de potássio (na pré-semeadura).
Durante o desenvolvimento vegetativo, o manejo nutricional incluiu nova aplicação de 150 kg/ha de KCl em V2, reforçando o suprimento de potássio. Paralelamente, foi realizado controle de plantas daninhas com aplicações sequenciais de cletodim e glifosato, além de um programa fitossanitário voltado ao manejo de pragas e doenças. As aplicações combinaram fungicidas protetores e sítio-específicos, inseticidas com diferentes mecanismos de ação e adjuvantes.
Na fase reprodutiva, o manejo foi intensificado com aplicações foliares de macro e micronutrientes, além de nova aplicação de Azospirillum brasilense em R1. O programa fitossanitário foi mantido até R5.5, alternando fungicidas como mancozebe, clorotalonil e difenoconazol, associados ao controle de insetos por meio de inseticidas como bifentrina, acetamiprido, abamectina, piriproxifem, imidacloprido e acefato. Também foi realizada suplementação de potássio em R5.3.
Entre os principais fatores responsáveis pelo elevado rendimento, o consultor Luiz Gabriel de Moraes Junior destaca a fertilidade e perfil do solo, a genética e qualidade das sementes e as boas condições climáticas, com precipitação acumulada de 1026 mm, elevada eficiência climática e agrícola. Esses fatores permitiram expressivo peso de mil grãos (263,3 g) resultando na produtividade de 136,64 sc/ha.
A partir desse ano, os Cases Campeões do CESB passam a ser disponibilizados mediante uma taxa de contribuição simbólica. Essa mudança tem como principal objetivo garantir a continuidade e a sustentabilidade das ações promovidas pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), sempre voltadas ao fortalecimento da sojicultura nacional (CESB, 2026).
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Referências:
CESB. Comitê Estratégico Soja Brasil. Case Campeões, 2026. Disponível em: < https://www.cesbrasil.org.br/category/cases-campeoes/ >, acesso em: 10/07/2026.
Redação: Equipe Mais Soja, com informações dos Cases CESB.
Sustentabilidade
recorde histórico de 156,13 sc/ha

A safra 2025/26 ficará marcada na história da sojicultura brasileira. O produtor Lourival Ruthes, da Agrícola Lourival Ruthes, de Major Vieira (SC), atingiu 156,13 sacas por hectare e se tornou o Campeão Nacional da 18ª edição do Desafio de Máxima Produtividade do CESB — o maior resultado já auditado pelo Comitê Estratégico Soja Brasil em dezoito anos de competição. Os resultados foram divulgados durante o Fórum Nacional de Máxima Produtividade de Soja, realizado nos dias 7 e 8 de julho em Indaiatuba (SP).
Mas o recorde individual não é o único dado que chama atenção. A média de produtividade de todas as áreas auditadas pelo CESB nesta safra chegou a 97,25 sc/ha. Mais revelador ainda: todos os dez melhores colocados da edição estão acima de 120 sacas por hectare — um patamar que era considerado fora do alcance prático há menos de uma década.
Uma evolução que os números comprovam
A trajetória do Desafio CESB ao longo de 18 anos deixa claro o avanço da sojicultura brasileira:
Na safra 08/09, o TOP 10 do Desafio registrava média de 77,8 sc/ha. Na safra 25/26, essa mesma faixa está em 138,53 sc/ha — um salto de mais de 60 sacas em menos de duas décadas.
Outro dado que ilustra essa evolução: na safra 08/09, nenhuma das áreas auditadas ultrapassava 90 sc/ha. Em 2025/26, 72% das áreas inscritas estão acima desse patamar. A média histórica do Desafio, ao longo dos 18 anos de competição, é de 84,81 sc/ha.
A edição atual também registrou crescimento de participação: foram 5.300 inscrições contra 4.726 na safra anterior, representando alta de 12%. Produtores de 1.061 municípios e 18 estados participaram, abrangendo 4,8 milhões de hectares — o equivalente a 10% da área brasileira cultivada com soja. O número de auditorias subiu de 812 para 922 áreas, crescimento de 13,5%.
O que explica os maiores resultados: o sistema, não a ação isolada
O ponto central debatido no Fórum foi a lógica que orienta os sistemas de maior desempenho. De acordo com Luiz Silva, Diretor Executivo do CESB, os pilares que se repetem nas áreas recordistas são: implantação da lavoura com genética bem posicionada, sementes de alto vigor, construção e manejo do perfil do solo, nutrição equilibrada ao longo do ciclo, fisiologia para mitigação de estresses, controle preventivo de doenças, pragas e plantas daninhas, e assistência técnica qualificada.
“O grande aprendizado é que as maiores produtividades são resultado da integração dessas práticas dentro de um sistema de produção eficiente”, afirmou Silva.
O desejo do CESB, segundo os palestrantes, é que os sistemas de alto rendimento alcancem margem líquida acima de 40% — combinando produtividade, eficiência e rentabilidade como tripé inegociável.
Case Sul/Nacional: 156,13 sc/ha em Major Vieira (SC)
A Agrícola Lourival Ruthes colheu 156,13 sc/ha em uma área inserida em um contexto desafiador: janela de semeadura estreita na região e acúmulo de apenas 781mm de chuva no ciclo.
A cultivar utilizada foi a BMX Zeus Ipro, semeada em 11 de novembro com ciclo de 136 dias. A população esperada era de 290.000 plantas/ha e a obtida chegou a 270.000 plantas/ha, com apenas 7% de falhas. A maioria das vagens apresentou três grãos, e o Peso de Mil Grãos (PMG) alcançou 243,33g frente à referência da obtentora de 209g — com 235 grãos por planta.
Entre os diferenciais do manejo, destacam-se aplicações foliares em V4 e V6 para melhorar a deposição e absorção dos produtos e prevenção ao mofo branco, além do uso de bico cone para fungicidas em velocidade abaixo de 10km/h. Em R5.5, foi realizada aplicação para o manejo do complexo de manchas, com inclusão de mancozebe — cujo efeito, segundo o consultor Daicon Godeski Moreira, é mais fisiológico do que fungicida nessa janela. A decisão de aplicação foi tomada com monitoramento de 50% dos trifólios ainda verdes.
O custo de produção da área foi de R$ 8.163,53/ha — bem acima do custo médio das áreas auditadas na região, de R$ 4.718,06/ha. A receita bruta alcançou R$ 18.735,60/ha, com preço médio de venda de R$ 120,00/sc. O ROI da área foi de 1,29, com eficiência agronômica de 91% e eficiência climática de 83%.
Case Nordeste: 143,77 sc/ha e a oitava conquista do Grupo Gorgen

O Grupo Gorgen, com consultoria de Edinei Fugalli, sagrou-se octacampeão da Região Nordeste na categoria Sequeiro, com 143,77 sc/ha na Fazenda Barcelona, em Riachão das Neves (BA).
A fazenda totaliza 3.300 hectares de soja com média de 95,8 sc/ha. O talhão campeão apresentou eficiência climática de 82% e eficiência agronômica de 92%, com acúmulo de 1.320mm de chuva durante o ciclo e alguns momentos de estiagem.
A cultivar foi a BMX Olimpo Ipro, semeada em 3 de novembro com 126 dias de ciclo. A população almejada era de 250.000 plantas/ha, com 230.666 plantas/ha obtidas (queda de 8%). A produção sobre algodão — cultura que exporta poucos nutrientes do solo, pois apenas a fibra sai da área — contribuiu para a construção da fertilidade. A resistência de penetração do solo atinge 1,5 MPa acima de 40cm, manejada com escarificação a cada quatro anos nas áreas de algodão.
Um ponto de destaque foi a ausência de glifosato na dessecação pós-emergência. “Um sonho realizado”, segundo o consultor Fugalli. A dessecação em pós foi realizada principalmente para controle do algodão tigueira. O ROI do talhão foi de 1,90.
Case Norte: 136,84 sc/ha com chuvas bem distribuídas no Tocantins

Na Fazenda Isabela, em Goiatins (TO), o produtor Pedro Foresto Crispim colheu 136,84 sc/ha com a cultivar NEO 820 Ipro, semeada em 2 de novembro com 123 dias de ciclo. A fazenda tem 1.000 hectares totais, dos quais 435 ha de soja, com média geral de 86 sc/ha.
O acúmulo de chuvas foi de 1.026mm durante o ciclo, com boa distribuição. A eficiência climática foi de 87% e a eficiência agronômica de 91%. A população obtida foi de 220.000 plantas/ha frente a 260.000 almejadas. O PMG alcançou 263,33g contra base de 205g da obtentora.
O ROI foi de 1,55, com preço médio de venda de R$ 118/sc e lucratividade líquida de 60,86% — o que evidencia o papel da rentabilidade como objetivo central do sistema, e não apenas da produtividade máxima.
Case Irrigado: 138,97 sc/ha e o manejo de solos arenosos em Goiás

A Fazenda Lago Bonito, do Grupo Santa Vitória, em Mundo Novo (GO), registrou 138,97 sc/ha na categoria Irrigado — recorde histórico do CESB nessa modalidade. A área total da fazenda é de 234 hectares, com média de 92,82 sc/ha. A operação iniciou em 2020 e já no primeiro ano de soja, em 2022, a média foi de 78,9 sc/ha.
O solo arenoso da área (12% argila) exigiu trabalho intensivo de correção de solo, incluindo alumínio tóxico entre 20 e 40cm de profundidade, descompactação com subsolador e uso de Brachiaria piatã para descompactação e translocação de nutrientes no perfil. A chuva acumulada no ciclo foi de 929mm, dos quais 128mm vieram da irrigação.
A cultivar foi a BMX Olimpo Ipro, semeada em 1º de outubro com 129 dias de ciclo. A população esperada era de 180.000 plantas/ha e a obtida foi de 172.000 plantas/ha, com apenas 7% de falhas. O PMG chegou a 193g contra referência de 171g. O custo de produção da área foi de R$ 6.106,33/ha frente a R$ 5.160,00/ha de custo médio regional. O ROI foi de 1,62, com eficiência climática de 72% e eficiência agronômica de 93%.
Case Centro-Oeste: 118,68 sc/ha em Confresa (MT)

Na Fazenda Monte Sinai, em Confresa (MT), o produtor Rodolfo Schlatter registrou 118,68 sc/ha com a cultivar BMX Olimpo Ipro, semeada em 30 de outubro com 122 dias de ciclo. A eficiência climática foi de 93% e a eficiência agronômica de 78%, com 1.320mm de acúmulo de chuvas no ciclo e solo com boa infiltração até 40cm de profundidade.
A população almejada era de 288.000 plantas/ha, com 251.777 plantas/ha obtidas. A altura de plantas foi de 110cm, com PMG de 220g contra referência de 171g da obtentora. O ROI foi de 1,24.
Case Sudeste: 122,66 sc/ha em Cambuquira (MG)

A Agropecuária Três Irmãos, na Fazenda Floresta em Cambuquira (MG), colheu 122,66 sc/ha com a cultivar DM 54IY57 RF12X, semeada em 10 de novembro com 128 dias de ciclo. A produtividade do talhão campeão foi de 86,39 sc/ha, com média da fazenda de 85,83 sc/ha — demonstrando que o talhão auditado supera significativamente a média da propriedade.
A eficiência climática foi de 90% e a agronômica de 79%, com 1.124mm de chuva acumulada no ciclo. O PMG obtido foi de 233,33g frente à referência de 170g, resultado atribuído à fotossíntese prolongada promovida por nutrição adequada ao longo de todo o ciclo. O cálcio esteve acima de 30% da CTC até mais de 1,80m de profundidade.
O custo de produção do talhão foi de R$ 7.218,00/ha ante um custo médio regional de R$ 6.205,00/ha. O ROI foi de 1,17, e a propriedade tem como regra não passar quatro anos sem trigo ou cobertura de inverno em nenhum talhão.
O que o CESB aprendeu em 18 safras
Ao longo de dezoito edições, o Desafio CESB construiu uma das bases de informação mais abrangentes sobre sistemas de alta produtividade da soja brasileira. A leitura conjunta dos casos campeões desta safra aponta padrões recorrentes: investimento em manejo de solo e nutrição em profundidade, posicionamento preciso de cultivares, populações de plantas ajustadas ao ambiente, monitoramento rigoroso para decisões de proteção fitossanitária e, sobretudo, manutenção de um sistema de produção coerente ao longo dos anos.

Como sintetizou Sergio Abud, vice-presidente do CESB: “Mais do que apresentar campeões, o Fórum busca aprofundar a discussão técnica por trás dos resultados, transformando a experiência acumulada em milhares de áreas auditadas em conhecimento aplicável ao campo.”
O número de 156,13 sc/ha é a expressão máxima desse esforço. Mas o dado mais estratégico para o produtor talvez seja outro: 72% das áreas auditadas na safra 25/26 já passam de 90 sacas. O teto está subindo — e a distância entre os melhores e a média está diminuindo.
Redação: Equipe Mais Soja com informações da assessoria de imprensa CESB.
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