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4 de agosto de 2026

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Entre a colheitadeira e a chuva: o desafio da soja no oeste de Mato Grosso

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A colheita da soja avança sob forte pressão em Mato Grosso, especialmente em Campo Novo do Parecis. As chuvas frequentes em janeiro têm limitado as horas de trabalho no campo e colocado produtores em uma corrida contra o tempo para retirar a safra no momento mais sensível do ciclo.

Na região, a preocupação não se resume apenas à produtividade. O excesso de umidade ameaça a qualidade dos grãos, enquanto os custos elevados e os preços mais baixos das commodities apertam ainda mais o orçamento das propriedades.

O agricultor Milton Bazila vive esse cenário diariamente. Nesta safra, ele cultivou 3.170 hectares de soja em Campo Novo do Parecis e relata a dificuldade para avançar com as máquinas em meio às chuvas quase constantes.

“A chuva está bem intensa, está todo dia chovendo praticamente. São poucas horas em que a gente consegue colher, chuva de mangas, forma precipitação muito rápida e a chuva vem”, conta ao Patrulheiro Agro desta semana. Segundo ele, a escolha por uma soja precoce foi estratégica para garantir o plantio do algodão logo na sequência.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Corrida contra o tempo e custos elevados

Bazila explica que o atraso na colheita pode gerar perdas significativas. “Nós precisamos recolher o quanto antes da lavoura, então é um desafio. A gente pega uma época chuvosa para colheita e o plantio do algodão tem que vir logo atrás, porque a melhor janela está aí e é agora”, afirma. Para tentar minimizar os impactos, ele reforçou a operação com máquinas terceirizadas.

A pressão também é emocional. “A gente passa por uma angústia muito grande, a gente fica com uma ansiedade muito grande de não dormir direito, é um negócio a céu aberto”, relata o produtor ao Canal Rural Mato Grosso. Ele observa ainda que o volume de chuvas em janeiro foge do padrão histórico. “Isso está um pouco anormal para janeiro, normalmente a nossa chuvarada mais pesada é a partir de fevereiro e início de março”.

Com os custos em alta e a queda nas cotações, o produtor faz contas apertadas. “Os custos estão altíssimos esse ano, as commodities caíram. Nos últimos anos, comparando caiu muito, esse ano a gente está na faixa de 60 sacas hoje só de custo, então está pesado o orçamento”, diz. Dependendo do clima, resume: “A gente está com a lavoura pronta para ser retirada agora e dependemos do clima, exclusivamente do clima”.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Safra avançando lentamente

Na Fazenda Três Marcos, o produtor Junior Masanobu Utida também enfrenta dificuldades. Nesta temporada, a propriedade cultivou 5,7 mil hectares de soja, mas pouco mais de 800 hectares haviam sido colhidos até agora.

Conforme ele, o ciclo começou com falta de chuva, mas rapidamente mudou de cenário. “Foi um início seco. De outubro para frente começou a chover e depois não faltou mais chuva”, explica. O acumulado impressiona: “Em 15 dias mais ou menos choveu 350 milímetros só no finalzinho de dezembro, e agora mais uns 120, 130 milímetros em janeiro”.

Mesmo com boa estrutura de máquinas, o avanço depende de dias de sol. “Temos bastante máquinas também, uma máquina para cada 600 hectares, mas precisa dar um sol para a gente colher”, afirma Utida. Parte da soja mais precoce sofreu impactos, comenta. “Essa soja plantada mais cedo em setembro é a que sofreu um pouquinho mais na questão de germinação, na questão de população”.

Diante do cenário, o produtor já projeta um ano mais conservador. “É um ano de austeridade. Vamos ter que cortar despesas, não vai investir muita coisa. A lucratividade está baixa”, relata. Ainda assim, mantém cautela. “Todo ano vai ser diferente, então não dá para a gente fazer expectativa com chuva, deixa acontecer que a gente vai vencer”.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Visão do setor produtivo

De acordo com o Sindicato Rural de Campo Novo do Parecis, a movimentação nas lavouras tende a aumentar a partir da segunda quinzena do mês, quando mais áreas entram em ponto de colheita. O presidente da entidade, Antônio César Brólio, explica que, até o momento, não há registros de perdas severas.

“Ainda não temos relatos de lavouras estragadas, com grãos estragados, mas sabemos que muita chuva em cima tira o peso desse grão que já está pronto para colheita”, alerta.

A área semeada com soja no município gira em torno de 450 mil hectares nesta safra. A expectativa é de uma produtividade semelhante à do ano passado, suficiente para cobrir os custos, mas longe de uma safra altamente rentável. “O preço hoje paga a conta para quem consegue colher bem”, resume Brólio.

O município já registra um acumulado de aproximadamente 850 milímetros de chuva, enquanto a média histórica chega a cerca de 1,6 mil milímetros ao longo do período chuvoso. Com meses ainda pela frente, o setor segue atento ao clima.

“Resta janeiro, fevereiro, março e abril. Então a gente tem longos meses pela frente para a gente finalizar essas duas safras”, diz o presidente do sindicato ao Canal Rural Mato Grosso. Apesar das dificuldades, ele mantém a perspectiva positiva. “Eu já sofri com seca, eu prefiro que caia um pouco mais de chuva do que a falta de água. Secou, não tem o que colher. É a esperança de todo agricultor que esse tempo venha abrir depois do dia 15”.

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Trigo do Paraná atinge maior preço em quase um ano com oferta restrita

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Foto: Embrapa

Os preços do trigo seguem firmes no mercado brasileiro. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as cotações no Paraná voltaram ao maior patamar, em termos reais, desde agosto de 2025, impulsionadas pela baixa disponibilidade de produto no mercado spot.

No fechamento desta segunda-feira (3), o Indicador CEPEA/ESALQ Paraná ficou em R$ 1.406,32 por tonelada, leve alta de 0,03% no dia. No encerramento de julho, o indicador estava em R$ 1.405,92 por tonelada, acumulando valorização de 2,72% no mês.

No Rio Grande do Sul, o preço médio alcançou R$ 1.325,69 por tonelada, avanço diário de 0,29%. Em 31 de julho, o indicador fechou em R$ 1.321,88 por tonelada, com recuo de 0,57% no acumulado do mês.

De acordo com o Cepea, a necessidade de recomposição dos estoques tem levado compradores a elevar gradualmente as ofertas na tentativa de adquirir lotes de melhor qualidade. Do outro lado, produtores seguem com disponibilidade limitada de trigo da safra 2025, mantendo as negociações pontuais.

Além da oferta restrita, o Centro de Pesquisas destaca que os primeiros reflexos do El Niño já começaram a ser sentidos na última semana de julho. O elevado volume de chuvas e os ventos intensos deixaram triticultores em alerta no Sul do país e contribuíram para sustentar os preços, principalmente no mercado de balcão do Paraná.

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Tecnologia da Embrapa conquista certificação e impulsiona agricultura familiar

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Ivone Santana da Silva e Silval Martins dos Santos. Foto: Evellyn Santana dos Santos

O Sistema Agroecossistema de Produção Policultural Integrado de Alimentos (Appia), desenvolvido pela Embrapa Agropecuária Oeste, em Mato Grosso do Sul, recebeu em 2026 a certificação de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil (FBB). O reconhecimento amplia o potencial de expansão da metodologia para comunidades quilombolas, assentamentos rurais, povos indígenas e outros territórios da agricultura familiar em todo o país.

Segundo a Embrapa, o Sistema Appia integra horticultura diversificada, manejo sustentável do solo, irrigação e piscicultura em um modelo que busca gerar renda contínua, fortalecer a segurança alimentar e tornar as pequenas propriedades mais resilientes e economicamente viáveis. Além das tecnologias de produção, o sistema reúne planejamento da propriedade, assistência técnica, gestão e apoio à comercialização.

Tecnologia começa antes do plantio

Um dos diferenciais do Appia é a metodologia participativa. Antes da implantação das tecnologias, pesquisadores e instituições parceiras realizam um diagnóstico da comunidade para identificar potencialidades, limitações e necessidades locais.

Com base nesse levantamento, são implantadas Unidades de Referência Tecnológica (URTs), que funcionam como espaços de demonstração e capacitação. Nelas, agricultores acompanham o desenvolvimento das práticas, participam de cursos, dias de campo, oficinas e intercâmbios, facilitando a adoção gradual das tecnologias.

O sistema é implantado inicialmente em módulos de cerca de 2.500 metros quadrados, estratégia que reduz custos e facilita a adoção pelas famílias agricultoras. A proposta reúne soluções em horticultura, fruticultura, irrigação, piscicultura, consórcios de culturas, manejo agroecológico do solo e gestão da produção.

Área de cultivo de mandioca no Sistema Appia. Foto: Orismar Espíndola/Embrapa

Pesquisa, assistência técnica e organização

Idealizador do Sistema Appia, o pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste Ivo de Sá Motta afirma que a proposta vai além da transferência de tecnologia.

Segundo ele, o modelo busca fortalecer toda a cadeia produtiva, desde o planejamento da propriedade até a organização dos produtores, agregação de valor e acesso aos mercados, considerando que produzir mais não é suficiente sem estratégias de comercialização e organização coletiva.

A iniciativa também integra diferentes instituições para oferecer assistência técnica, capacitação, acesso a crédito, infraestrutura e apoio à comercialização, além de incentivar o associativismo e o cooperativismo como ferramentas para ampliar a competitividade da agricultura familiar.

Comunidade quilombola já colhe resultados

Um dos exemplos da aplicação do Sistema Appia está na Comunidade Quilombola Furnas do Dionísio, em Jaraguari (MS), onde a propriedade do agricultor Sinval Martins dos Santos tornou-se uma Unidade de Referência Tecnológica.

Com a implantação das tecnologias, a família diversificou a produção e passou a integrar diferentes atividades agropecuárias, melhorando o planejamento da propriedade e ampliando a oferta de alimentos.

“Nós precisamos de apoio em todas as etapas, desde a assistência técnica até à venda da
produção”, conta o agricultor.

“Quando a comunidade unida se organiza e as instituições trabalham em sintonia, tudo fica
mais fácil. O Sistema Appia mostrou que o serviço não termina na lavoura. Tem que
pensar desde o manejo dos solos, passando pela produção até a hora de colocar o alimento
na mesa do consumidor”.

Além dos ganhos produtivos, a experiência influenciou a trajetória da filha do agricultor, Evellyn, que ingressou no curso de Engenharia Agronômica da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (Uems) com o objetivo de futuramente atuar na assistência técnica da própria comunidade.

Modelo integra sustentabilidade e geração de renda

Entre as estruturas implantadas na comunidade estão um tanque de piscicultura com capacidade para 10 mil litros de água, sistema de irrigação por gotejamento, barracão multifuncional, compostagem, consórcios de culturas e práticas de conservação do solo e da água.

Também foram introduzidas culturas como mandioca, maracujá, mamão, pimenta, alface, berinjela, jiló e abacate, voltadas tanto ao consumo das famílias quanto à comercialização nos mercados locais.

Segundo a Embrapa, o Sistema Appia promove ainda o reaproveitamento de resíduos orgânicos, reduz a dependência de insumos externos, melhora a fertilidade do solo e fortalece a organização comunitária, consolidando-se como uma estratégia de desenvolvimento rural sustentável.

Certificação amplia potencial de expansão

Para a Embrapa, a certificação da Fundação Banco do Brasil reconhece o potencial da tecnologia social de transformar conhecimento científico em soluções práticas para a agricultura familiar.

A expectativa é que o reconhecimento facilite a replicação do Sistema Appia em novas comunidades, ampliando o acesso a tecnologias sustentáveis, assistência técnica e oportunidades de geração de renda para milhares de famílias agricultoras em diferentes regiões do país.

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Europa pode fechar uma porta, a Ásia pode abrir várias

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Foto: Porto de Paranaguá

A decisão da União Europeia de manter suspensas as compras de carne bovina brasileira por, no mínimo, dois anos representa um desafio para o setor. O motivo está ligado às exigências europeias sobre o controle de antimicrobianos na produção animal, um tema que ganhou importância crescente no comércio internacional.

É um revés para um mercado tradicional e de elevado valor agregado. Mas seria um erro analisar essa notícia apenas pelo lado negativo.

Ela também reforça uma necessidade que o Brasil já deveria ter transformado em estratégia: ampliar o número de destinos para a carne bovina nacional.

O centro do mercado mundial mudou

Durante muitos anos, a Europa ocupou posição de destaque entre os compradores da carne brasileira. Hoje, porém, o eixo do consumo mundial está cada vez mais concentrado na Ásia.

A China tornou-se, com ampla vantagem, o maior destino das exportações brasileiras. Ao lado dela estão mercados importantes como Hong Kong, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Israel, Filipinas, Singapura, Malásia, Vietnã, Jordânia, Kuwait, Catar, Omã e Líbano.

Essa mudança não é circunstancial. Ela acompanha o crescimento populacional, o aumento da renda e a expansão do consumo de proteínas em boa parte do continente asiático.

As próximas fronteiras

Dois mercados permanecem como prioridades para a pecuária brasileira: Japão e Coreia do Sul.

São países com elevado poder de compra, consumidores tradicionais de carne bovina e que ainda mantêm restrições sanitárias à carne in natura produzida no Brasil.

A abertura desses mercados reduziria a concentração das exportações na China e ampliaria significativamente as oportunidades para toda a cadeia pecuária.

Outro fator que merece atenção é a situação dos Estados Unidos. O país atravessa um dos menores ciclos de oferta bovina de sua história recente, resultado da redução do rebanho e dos efeitos prolongados da seca. Dependendo da evolução desse cenário e das condições comerciais, os americanos poderão ampliar suas importações de carne, abrindo mais uma oportunidade para o Brasil.

O desafio agora é adaptar-se

O mercado internacional tornou-se cada vez mais exigente.

Questões sanitárias, ambientais e de rastreabilidade deixaram de ser diferenciais para se transformar em requisitos básicos para acessar os principais compradores do mundo.

Nesse aspecto, a pecuária brasileira possui uma vantagem importante. O setor alcançou elevado grau de profissionalização, incorporou tecnologia, aumentou a produtividade e demonstrou capacidade de responder rapidamente às exigências dos mercados internacionais.

Na questão dos antimicrobianos, por exemplo, o Brasil já está reforçando seus controles e adequando seus protocolos para atender às exigências dos países importadores.

Competitividade também se constrói

A discussão não deve ser apenas sobre recuperar o mercado europeu.

Ela deve servir para acelerar a abertura de novos mercados e consolidar a imagem da carne brasileira como uma das mais competitivas, seguras e eficientes do mundo.

Quem depende de poucos compradores fica mais vulnerável às mudanças de regras. Quem amplia mercados ganha estabilidade, reduz riscos e fortalece toda a cadeia produtiva.

A Europa continua sendo importante. Mas o futuro da pecuária brasileira dependerá cada vez mais da capacidade de conquistar novos clientes, atender padrões sanitários cada vez mais rigorosos e transformar qualidade em vantagem competitiva. Esse é o caminho para que o Brasil continue sendo uma potência mundial da carne, independentemente das portas que eventualmente se fechem.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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