Sustentabilidade
Pesquisas sobre manejo integrado de pragas, desenvolvidas na Epagri de Chapecó, foram destaque em 2025 – MAIS SOJA

Por: Karin Helena Antunes de Moraes, jornalista bolsista Epagri/Fapesc
Duas pesquisas, desenvolvidas no Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar (Epagri/Cepaf), em Chapecó, ganharam reconhecimento em importantes eventos científicos realizados ao longo deste ano. Em maio, durante o II Encontro Sul-Brasileiro de Fitossanidade (Enfit-Sul), a bolsista Epagri/Fapesc, Maíra Chagas Morais, foi premiada na categoria Entomologia, com o trabalho “Misturas de desalojantes e inseticidas sintéticos no manejo da lagarta-do-cartucho: Avaliações em laboratório e campo”. Em setembro, foi a vez da mestranda Helene Jardim Pedó conquistar o prêmio de melhor comunicação oral, apresentando os resultados de seu estudo “Compatibilidade físico-química entre dimpropyridaz e micoinseticidas à base de Beauveria bassiana e Cordyceps javanica”, durante o 18° Simpósio de Controle Biológico (SICONBIOL).
Os dois trabalhos foram coordenados pelo pesquisador da Epagri/Cepaf, Leandro do Prado Ribeiro. Desde 2017, o pesquisador tem avaliado os efeitos de moduladores de comportamento sobre pragas que afetam as culturas da soja e do milho, que são os principais grão cultivados de Santa Catarina. Por outro lado, em 2021, Leandro abriu uma nova linha de pesquisa para avaliar a associação de estratégias de controle químico e biológico no manejo de pragas de sistemas de produção de milho e soja.
Os moduladores de comportamento são substâncias utilizadas para alterar determinadas ações dos insetos, como orientação, alimentação, reprodução e deslocamento. No manejo integrado de pragas, são misturados aos defensivos agrícolas e aplicados para induzir uma maior exposição ao inseticida, reduzindo os danos causados por pragas como a cigarrinha-do-milho, a lagarta-do-cartucho e os percevejos marrom e barriga-verde. Impulsionados pelos benefícios divulgados, os moduladores comerciais, assim como as soluções caseiras, ganharam espaço entre os produtores rurais. O pesquisador recorda que, em 2017, surgiram populações da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) resistentes a alguns eventos transgênicos (Bt). Diante disso e dos impactos provocados pelos insetos nas lavouras, muitos agricultores passaram a adicionar creolina aos tanques de pulverização, acreditando que o cheiro forte da substância ajudaria a movimentar ou desalojar as pragas. Entretanto, essa prática carecia de respaldo técnico, já que não existiam evidências científicas que comprovassem a eficácia dessas combinações.
Para oferecer suporte a estas ações, a Epagri uniu esforços com o setor produtivo, universidades e agências de fomento, como a Fapesc, para analisar os benefícios e possíveis incompatibilidades do uso associado desses produtos. “A ausência de base científica, até então, posiciona a Epagri como protagonista da produção de conhecimento sobre o uso de mistura no manejo integrado de pragas. Os trabalhos desenvolvidos aqui são inéditos e estão sendo publicados nas principais revistas científicas internacionais, servindo de base para recomendação de manejo no Brasil e no exterior”, afirma Leandro.
O pesquisador destaca que a repercussão do trabalho desenvolvido no Laboratório de Entomologia da Epagri em Chapecó tem despertado interesse da iniciativa privada e de diversos órgãos públicos de pesquisa, que buscam aplicar métodos semelhantes em estudos conduzidos em outras regiões do país. “Nossa maior satisfação é que isso tem gerado uma implicação prática nas recomendações e na tomada de decisões dos agricultores catarinenses”, diz.
O reconhecimento, como o que Maíra e Helene receberam, também o enche de orgulho. “Como supervisor dos dois trabalhos premiados em importantes eventos científicos este ano, digo que é uma grande satisfação, porque, além de contribuir para o desenvolvimento regional e para a solução dos problemas do campo, as pesquisas também contribuem para a formação de pessoas. Os profissionais que passam por aqui, sejam estagiários ou bolsistas, saem com um nível de capacitação muito elevado e ajudam a divulgar o nome da Epagri em pesquisas pioneiras, inéditas e que servem de referência para todo o país”, observa.
Compatibilidade de inseticidas e micoinseticidas no controle da cigarrinha-do-milho
Helene realizou seu estágio final de graduação na Epagri. Natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, viveu também em Aracaju, onde ingressou na faculdade de Medicina Veterinária. No entanto, ela admite que não havia se identificado plenamente. Vinda de uma família de engenheiros-agrônomos, cresceu entre os corredores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e sempre sonhou em estudar ali. Quando decidiu trocar a veterinária pela Agronomia, não teve dúvidas de para onde queria ir.
Ela considera que a experiência no Laboratório de Entomologia da Epagri foi um divisor de águas em sua formação acadêmica, porque trouxe novos conhecimentos e a permitiu conhecer o sistema produtivo no Oeste de Santa Catarina, que possui características diferentes das do Sul do Rio Grande do Sul. Durante o período em que estagiou na Epagri, desenvolveu pesquisas relacionadas ao manejo da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), integrando produtos químicos e biológicos, tema que continua desenvolvendo no mestrado sob orientação do professor Daniel Bernardi e coorientação de Leandro.
O trabalho apresentado por Helene durante o SICONBIOL analisou a compatibilidade físico-química do inseticida dimpropyridaz, recentemente registrado no Brasil para o manejo de pragas sugadoras como a cigarrinha-do-milho, associado a micoinseticidas. Os micoinseticidas são produtos biológicos desenvolvidos a partir de fungos utilizados no controle de insetos. Esses fungos, conhecidos como entomopatogênicos, são microrganismos capazes de causar doenças em diferentes espécies de insetos e têm sido amplamente empregados como agentes de controle biológico aplicado em diversas culturas agrícolas.
Helene explica que, no caso da cigarrinha-do-milho, “o controle químico de forma isolada não tem se mostrado eficaz. Por isso, o manejo integrado, associando produtos químicos e biológicos, é cada vez mais recomendado aos produtores. Além disso, o uso de produtos biológicos também é uma boa alternativa, pensando em um manejo mais sustentável, pois utiliza elementos que oferecem menos riscos para a saúde dos seres humanos”, diz. Por esse motivo, estudos de compatibilidade são cada vez mais necessários para saber se a composição dos produtos utilizados na mistura não irá interferir na eficácia dos agentes biológicos. Isso ajuda os produtores a adotarem as práticas mais eficazes de manejo, reduzindo prejuízos econômicos decorrentes de aplicações incorretas.

Os dados apresentados indicam que não foi observada incompatibilidade físico-química na mistura de calda do inseticida dimpropyridaz com micoinseticidas à base dos fungos Beauveria bassiana e Cordyceps javanica. A pesquisadora ressalta que estes são resultados preliminares e, para descartar qualquer dissonância, é necessário que também sejam realizadas verificações de compatibilidade biológica. Segundo Leandro, o uso de produtos compatíveis pode resultar em ganhos de produtividade que variam entre 9 e 11 sacas por hectare na cultura do milho.
Outro benefício dos agentes de controle biológico é a redução do uso de moléculas sintéticas. “Os produtos biológicos já representam cerca de 6% do mercado de defensivos agrícolas e a expectativa é que sua participação cresça de três a quatro vezes nos próximos dez anos. Em Santa Catarina, praticamente todas as culturas de relevância econômica, das hortaliças aos cereais de inverno, passando por pastagens e grãos, apresentam potencial para adoção do manejo biológico, sobretudo aquelas que buscam reduzir resíduos e avançar na produção sustentável”, assegura Leandro.
O SICONBIOL recebeu 1.000 trabalhos científicos, dos quais apenas 36 foram escolhidos para apresentação oral. Entre eles, Helene não apenas foi selecionada, como também conquistou o prêmio de melhor apresentação. Entre os palestrantes do evento estavam a bolsista Epagri/Fapesc, Michele Trombin De Souza, e os pesquisadores Leandro do Prado Ribeiro e Marcelo Mendes de Haro, da Estação Experimental de Itajaí.
Misturas de desalojantes e inseticidas sintéticos no manejo da lagarta-do-cartucho
Assim como Helene, Maíra também é natural do Sul do Rio Grande do Sul. Nascida na cidade de Camaquã, estudou Agronomia na Universidade Federal de Pelotas, instituição onde também realizou o mestrado e o doutorado, no programa de pós-graduação em Fitossanidade, sob orientação do professor Daniel Bernardi. Sua pesquisa de doutorado, voltada ao estudo de desalojantes e arrestantes disponíveis no mercado para o controle da lagarta-do-cartucho e dos percevejos-marrom e barriga-verde, foi desenvolvida na Epagri. Atualmente, Maíra é bolsista Fapesc e atua, principalmente, no projeto voltado ao manejo da cigarrinha-do-milho com produtos naturais derivados de nim. No entanto, ela não se desvencilhou totalmente do objeto de sua tese e segue conduzindo ensaios sobre os efeitos dos moduladores de comportamento sobre os percevejos e a lagarta-do-cartucho, tema que lhe rendeu o prêmio de melhor trabalho na categoria de Entomologia no II Enfit-Sul.
O trabalho inclui desde a manutenção das criações laboratoriais das pragas-alvo até a análise da compatibilidade físico-química de misturas de tanque e do acompanhamento do comportamento dos insetos em diferentes cenários. Com ajuda de um software, que atua como uma espécie de GPS, Maíra consegue observar parâmetros como distância total percorrida e velocidade de caminhamento dos insetos quando expostos às misturas e ao controle (água).
No artigo que foi premiado e recentemente publicado na revista Journal of Crop Helath, Maíra se concentrou sobre a eficácia das misturas de inseticidas sintéticos e desalojantes, como enxofre e creolina, no combate à lagarta-do-cartucho. Para ser considerada apta, além da compatibilidade química, a calda deve apresentar determinadas características físicas, como, por exemplo, ausência de grumos. “Se a mistura formar grumos, ela não é indicada para o uso porque vai entupir o bico dos pulverizadores. Outros fatores a serem considerados são a separação de fases e alterações de parâmetros, como pH. A separação de fases é resolvida com agitação. Os tanques de pulverização possuem, em sua grande maioria, um sistema de agitação, então é só manter a calda agitando o tempo todo para resolver. Agora, o pH, se estiver muito elevado, prejudica a performance do inseticida. Por exemplo, um desalojante com pH na faixa de 10, misturado a um inseticida que tem pH 5, tem uma mistura elevada para 11, então, esse inseticida não vai ser eficaz no controle da praga-alvo”, explica.

O uso de misturas em tanque é uma prática comum entre agricultores e está autorizado pela legislação brasileira. Contudo, sem os devidos cuidados, aquilo que deveria ser um aliado no controle de pragas e na redução de custos com insumos, combustível e mão de obra pode se tornar um risco à produtividade, comprometendo o desempenho das lavouras. Antes da aplicação, a pesquisadora recomenda que os produtores realizem testes de pH, que podem ser feitos com as fitas utilizadas para medir a acidez ou alcalinidade de piscinas. É preciso estar atento aos valores especificados no rótulo do produto, garantindo que estejam dentro da faixa adequada para seu pleno funcionamento.
Os ensaios indicaram que a combinação de inseticidas com desalojantes à base de enxofre aumentou a eficácia dos inseticidas sintéticos associados. No entanto, quando misturado à creolina se observou uma redução significativa na efetividade do controle da lagarta-do-cartucho. Este resultado refuta a ideia que norteou a hipótese inicial da pesquisa de Leandro, de que a creolina poderia potencializar o manejo de pragas.
Segundo Maíra, uma das maiores dificuldades para escrever o artigo foi encontrar referências científicas que respaldassem seus resultados, dado o pioneirismo dos ensaios realizados na Epagri. Apesar disso, ela afirma que esta tem sido uma experiência muito gratificante: “A gente se empolga com o trabalho e, quanto mais pesquisamos, mais descobertas surgem. Cada nova resposta abre caminho para outras perguntas, e assim acabamos com mais dúvidas”, diz. Leandro destaca que os trabalhos desenvolvidos no Laboratório de Entomologia, em Chapecó, sobre os moduladores de comportamento de pragas, especialmente os desalojantes utilizados no manejo da lagarta-do-cartucho, servem de guia para as práticas a serem adotadas no campo. Além disso, eles revelam que estes estudos abriram caminho para novas abordagens e hipóteses de investigação.
Dentre as novas questões a serem analisadas estão os efeitos da pressão atmosférica sobre o comportamento dos insetos-praga sob ação dos moduladores, estudo que está sendo realizado pela estagiária do curso de agronomia da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Ana Paula Madaloz. “Nós detectamos em alguns dos nossos insetos-modelo que a pressão atmosférica exerce um papel importante nos parâmetros comportamentais avaliados”, conta Leandro. Outra linha aberta recentemente é a avaliação da habituação, uma vez que os receptores olfativos das pragas podem ser ativados ou desativados quando expostos a produtos com cheiro forte, geralmente desagradável ou marcante”, esclarece Leandro.
Os resultados obtidos reforçam a importância da produção científica desenvolvida pela Epagri e evidenciam a necessidade de que os produtores adotem cuidados específicos no manejo integrado de pragas, garantindo maior eficiência dos produtos e resultados positivos nas lavouras.
Fonte: Epagri

Autor:Karin Helena Antunes de Moraes, jornalista bolsista Epagri/Fapesc
Site: Epagri
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Projeto que amplia proteção de cultivares foi aprovado na Câmara – MAIS SOJA

A Câmara dos Deputados aprovou, na última quarta-feira (1º), o Projeto de Lei 2.143/2025, que altera a Lei de Proteção de Cultivares para ampliar o prazo de proteção de determinadas variedades vegetais. O texto foi relatado em plenário pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), e agora retorna para análise do Senado Federal.
Pelo substitutivo aprovado, o prazo geral de proteção das cultivares permanece em 15 anos. A ampliação para 25 anos será aplicada a videiras, árvores frutíferas, árvores florestais, árvores e plantas ornamentais, seus respectivos porta-enxertos, quando houver, e cultivares de cana-de-açúcar.
Segundo o relator, a proposta aproxima o Brasil do padrão internacional previsto pela União Internacional para a Proteção de Novas Variedades de Plantas (UPOV) e reduz assimetrias jurídicas que dificultam a atração de investimentos em melhoramento genético.
“Estamos falando de um assunto que implica diretamente a evolução da pesquisa científica no nosso País, da pesquisa agrícola particularmente, e o desenvolvimento de novos cultivares, resistentes a doenças e mais produtivos”, afirmou Arnaldo Jardim. O deputado também defendeu que a matéria buscou um “justo equilíbrio” entre a proteção à inovação e os impactos para o setor produtivo.
O que muda
O parecer aprovado manteve a ampliação do prazo de proteção apenas para espécies perenes ou de ciclo produtivo mais longo. A avaliação do relator foi de que, nessas culturas, o tempo necessário para pesquisa, desenvolvimento e retorno econômico é maior.
No caso das culturas anuais, como soja, milho, feijão e arroz, o prazo atual de 15 anos foi preservado. De acordo com o parecer, esse período já garante retorno adequado aos obtentores e evita aumento desnecessário no custo das sementes e dos alimentos.
O texto também reforça a diferença entre culturas de rápida multiplicação e espécies de longo ciclo. A lógica é que o tempo de amortização dos investimentos em melhoramento genético varia de forma significativa entre esses segmentos.
Foco em florestas plantadas e cana-de-açúcar
O relatório destaca o impacto da medida em setores que dependem fortemente de inovação genética, como florestas plantadas, flores e plantas ornamentais e a cadeia sucroenergética.
No caso do eucalipto, por exemplo, o relator aponta que o ciclo de cultivo no Brasil é de seis a sete anos, enquanto a obtenção de um clone comercial pode levar de 12 a 20 anos. Para espécies de pinus, esse período pode ser ainda maior.
Na cana-de-açúcar, a ampliação da proteção dá mais segurança aos investimentos em variedades voltadas a uma cadeia estratégica para o país, com produção de açúcar, etanol, bioeletricidade e biometano.
O parecer mantém, para a cana-de-açúcar, regra específica sobre as exceções ao direito de propriedade de cultivares protegidas em lavouras destinadas ao processamento industrial. Pelo texto, a regra passa a considerar produtores que detenham posse ou domínio de propriedades rurais com área equivalente a, no mínimo, quatro módulos fiscais ou 150 hectares, o que for maior. A medida preserva tratamento diferenciado para produtores de menor escala, sem retirar a segurança jurídica necessária aos investimentos em melhoramento genético.
Fonte: FPA
Autor:FPA
Site: FPA
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Senado debate regulamentação da Lei dos Defensivos Agrícolas e cobra segurança jurídica – MAIS SOJA

A regulamentação da Lei dos Defensivos Agrícolas e os desafios para sua implementação foram debatidos, nesta quarta-feira (1º), na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) do Senado Federal. A audiência pública foi requerida pelo senador Jaime Bagattoli (PL-RO), vice-presidente no Senado da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
O debate tratou da aplicação da Lei nº 14.785/2023, alterada pela Lei nº 15.070/2024, que moderniza as regras de pesquisa, registro, produção, comercialização e fiscalização de defensivos agrícolas no país.
Bagattoli afirmou que o novo marco legal reduz a burocracia, amplia a segurança jurídica e dá mais eficiência ao processo regulatório, sem flexibilizar critérios de proteção à saúde e ao meio ambiente.
“O objetivo do Parlamento nunca foi flexibilizar a proteção ambiental ou a saúde humana. Sempre buscamos eficiência regulatória para que a ciência chegue ao campo com a celeridade que a agricultura brasileira exige.”
O senador também criticou a demora na regulamentação da norma e apontou riscos de insegurança jurídica na aplicação da lei. “Não aceitaremos que interpretações administrativas limitem a eficácia da lei. O papel do Parlamento é fiscalizar e garantir que a administração pública observe os princípios da legalidade e da segurança jurídica.”
Bagattoli destacou ainda que o sistema precisa acompanhar a dinâmica da produção agropecuária brasileira. “Não podemos permitir que o processo de registro de um novo insumo leve de cinco a sete anos.”
Participantes defendem regulamentação e apontam impactos da implementação
Representando a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ana Lígia Aranha Lenat afirmou que a lei trouxe mais previsibilidade ao setor, ao estabelecer critérios técnicos mais modernos para o registro de defensivos agrícolas e bioinsumos. Segundo ela, a falta de regulamentação e eventuais interpretações divergentes podem comprometer a competitividade do setor agropecuário.
“Não estamos pedindo menos fiscalização. Estamos pedindo fiscalização eficiente, baseada em prazos claros e respeito aos termos da lei. Não podemos permitir que o arcabouço regulatório se torne um gargalo que freie nosso desenvolvimento.”
O secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Goulart, afirmou que o novo marco torna o sistema mais eficiente sem reduzir os critérios de proteção à saúde e ao meio ambiente. Ele destacou que o Brasil leva, em média, cerca de sete anos para aprovar novas moléculas, enquanto outros países levam aproximadamente quatro anos.
“Não se trata de retrocesso. Trata-se de dar eficiência regulatória que acompanhe a excelência da produção de alimentos. O Ministério da Agricultura tem feito tudo o que é possível para cumprir a lei, nos limites que ela determina.”
A gerente-geral de Toxicologia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Cássia de Fátima Rangel Fernandes, defendeu a regulamentação como forma de reduzir divergências entre os órgãos envolvidos e dar mais previsibilidade ao processo. Segundo ela, a agência mantém os prazos legais e vem reduzindo o estoque de análises pendentes.
“A ausência dessa regulamentação tem trazido mais incertezas para o processo. A Anvisa entende que essa lei precisa ser regulamentada o quanto antes para garantir previsibilidade e segurança jurídica.”
Representando a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Rafael Grilli Felizardo afirmou que a regulamentação é essencial para garantir estabilidade regulatória e previsibilidade aos investimentos. Ele defendeu maior harmonização entre os órgãos e alinhamento a práticas internacionais.
“Os procedimentos definidos na regulamentação devem traduzir com objetividade as diretrizes da lei, reduzindo ambiguidades, fortalecendo a integração entre os órgãos e garantindo estabilidade regulatória.”
Também presente na audiência, o deputado Rafael Simões (União-MG), integrante da FPA, defendeu a regulamentação para ampliar a competitividade do setor. Produtor rural, ele criticou a demora na liberação de novas moléculas e afirmou que o Brasil perde espaço para outros países.
“Não é possível sermos competitivos enquanto levamos oito anos para aprovar uma molécula que já foi aprovada e utilizada em outros países. Precisamos que os órgãos caminhem juntos para garantir eficiência e segurança jurídica ao produtor rural.”
Fonte: FPA
Autor:FPA
Site: FPA
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Embrapa alerta para impactos do El Niño – MAIS SOJA

O aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico conhecido como El Niño está de volta ao radar de produtores rurais, governos e analistas internacionais. Embora ainda seja cedo para classificá-lo como um “super El Niño”, o fenômeno já altera padrões climáticos em todo o planeta e ameaça desencadear uma combinação perigosa de quebra de safras, inflação de alimentos, instabilidade social e conflitos geopolíticos. A avaliação é do professor Daniel Pérez, chefe-geral da Embrapa Solos, em entrevista à Sociedade Nacional de Agricultura (SNA).
Segundo Pérez, o El Niño não é apenas um fenômeno climático isolado. Ele funciona como um gatilho que amplifica fragilidades já existentes na produção mundial de alimentos. O pesquisador lembra que, desde 2007, o mundo já atravessou praticamente cinco crises globais que combinam extremos climáticos, insegurança alimentar e conflitos, o que demonstra que essa dinâmica veio para ficar. Na avaliação dele, a variável geopolítica deixou de ser um fator secundário e passou a pesar diretamente nas decisões que agricultores precisam tomar antes mesmo de iniciar o plantio.
Grãos básicos sob pressão
Um dos primeiros efeitos do fenômeno é o calor extremo no Hemisfério Norte, que compromete a produção dos três grãos que sustentam a alimentação mundial: arroz, trigo e milho. Monções irregulares já são esperadas no sul da Ásia, o que deve atingir diretamente Índia e Vietnã, os dois maiores produtores globais de arroz; um mercado que já vem sendo castigado por eventos climáticos extremos ao longo dos últimos anos.
Segundo o chefe-geral da Embrapa Solos, o trigo enfrenta cenário semelhante. Áreas de seca já afetam a principal região produtora de trigo de inverno nos Estados Unidos, enquanto a Austrália, outro grande exportador, corre risco de quebra de safra. Com a redução dos estoques mundiais, cai também a capacidade de exportação, um problema grave, já que apenas nove países no mundo são grandes exportadores líquidos de alimentos, entre eles o Brasil. Para ele, todos os demais dependem, em algum grau, de importações.
Logística, água e diplomacia
Os impactos do El Niño também atingem a infraestrutura logística e energética global. O Canal do Panamá, cujo funcionamento depende do volume de chuvas na América Central, já opera com fluxo reduzido diante da diminuição das precipitações, encarecendo o transporte internacional de cargas.
Na África Central, na Ásia Central e no Oriente Médio, a alteração nos regimes hídricos intensifica a disputa por recursos compartilhados. Paquistão enfrenta secas prolongadas, enquanto Irã e Afeganistão vivem tensões diplomáticas ligadas ao uso de bacias hidrográficas comuns, fricções que têm potencial de repercussão geopolítica em dois países estratégicos para o comércio mundial.
Brasil: excesso de chuva de um lado, seca do outro
No território brasileiro, de dimensão continental, o El Niño provoca efeitos opostos entre regiões. Enquanto o Sul tende a receber mais chuva e, com ela, o risco de temporais severos, como os observados no Rio Grande do Sul em 2024, o Centro-Oeste e o Nordeste sofrem com a redução das precipitações, afetando culturas como soja e milho, especialmente em áreas de solo arenoso como o Matopiba, mais vulneráveis à falta de água.
Pérez destaca que o momento em que as chuvas ocorrem é decisivo. “Se chegam antes do plantio ou durante a colheita, o prejuízo pode ser enorme; se chegam em outro período do ciclo, o impacto tende a ser menor. Foi o que aconteceu no Rio Grande do Sul em 2024, quando cerca de 70% a 80% da safra de arroz já havia sido colhida antes das chuvas torrenciais que ultrapassaram 700 milímetros. Para este ano, já se estima que ao menos 20% da produção de trigo da região Sul possa ser comprometida.”
Transporte
O transporte de grãos pelas hidrovias amazônicas, essenciais para o escoamento via Arco Norte, também é sensível ao timing das chuvas. Eventos climáticos após a colheita podem travar a logística, já que o país não dispõe de capacidade de armazenamento suficiente para absorver grandes volumes represados.
Contribuições da Embrapa
Diante desse cenário, a Embrapa e parceiros do sistema nacional de pesquisa agropecuária têm investido em soluções para aumentar a resiliência do campo. Entre as iniciativas citadas por Pérez estão o desenvolvimento de cultivares de soja, milho e trigo tolerantes à seca por meio de edição genética CRISPR, e bioinsumos como o Auras, bioestimulante derivado de uma bactéria isolada do mandacaru, capaz de estimular o crescimento das raízes e ajudar as plantas a captar água em camadas mais profundas do solo.
Na área de inteligência climática, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), desenvolvido pela Embrapa, em parceria com o Ministério da Agricultura, orienta produtores sobre as melhores janelas de plantio considerando tipo de solo, ciclo da cultura e riscos climáticos, recomendando o adiantamento ou atraso da semeadura conforme o caso.
Práticas de manejo sustentável, como a integração lavoura-pecuária-floresta e o sistema de plantio direto, também ganham destaque por ajudarem a reter umidade no solo e reduzir o estresse térmico dos animais. Já no semiárido, o aplicativo GuardeÁgua auxilia agricultores e técnicos a identificar locais adequados para a construção de barragens subterrâneas, transformando o próprio solo em reservatório de água.
Alimento como questão de segurança nacional
Para Pérez, que também integra um grupo de pesquisa voluntário na Escola de Guerra Naval dedicado à simulação de cenários, a história mostra que a segurança alimentar sempre esteve por trás dos grandes conflitos da humanidade; deste a migração dos primeiros hominídeos em busca de terras mais férteis até guerras mais recentes. “Enquanto você não tem nada a perder, você não entra em uma guerra. Mas quando você e sua família estão passando fome, a decisão muda”, resume o pesquisador, ao defender que segurança alimentar deve ser tratada como segurança nacional.
Como exemplo recente, ele cita a Ucrânia, que era um dos grandes exportadores mundiais de alimentos antes da guerra e viveu entre 2022 e 2024 uma severa crise de abastecimento interno, mostrando como a condição de um país pode se inverter rapidamente. É esse tipo de risco que reforça, segundo ele, a importância de estoques estratégicos de alimentos e do monitoramento simultâneo de diferentes “celeiros” do mundo, já que choques climáticos concomitantes em várias regiões produtoras, como Ásia e China ao mesmo tempo, no caso do arroz, podem esgotar rapidamente os estoques globais de um grão específico, sem que existam substitutos culturalmente viáveis para consumidores tradicionais daquele alimento.
Pérez pondera que o tom do alerta pode soar apocalíptico, mas defende que a população, especialmente nas cidades, que não produzem seu próprio alimento e por isso são mais vulneráveis, precisa se atentar mais a essas questões e valorizar o papel dos produtores rurais na manutenção da segurança alimentar do país. Segundo ele, a experiência recente da pandemia de Covid-19, quando a insegurança alimentar cresceu de forma acentuada, deveria servir de lembrete permanente de que a prevenção é a principal ferramenta para evitar instabilidade civil, política e militar decorrente da falta de comida.
Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
Confira a entrevista na íntegra.
Fonte: SNA
Autor:SNA
Site: SNA
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