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O pêndulo do arroz: pânico na alta, abandono na baixa

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Foto: Freepik

Eu acompanho o mercado de arroz há muito tempo. E falo isso com a tranquilidade de quem já viu esse filme mais vezes do que gostaria. O Brasil insiste em tratar o arroz sempre pelo retrovisor. Quando surge qualquer sinal de escassez, o tema vira crise nacional. Quando o preço despenca, o assunto some do debate público. No meio desse pêndulo, quem paga a conta é sempre o produtor.

Durante os eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul, esse reflexo ficou escancarado. A reação imediata foi tentar importar arroz. Critiquei na época, e continuo criticando. Não porque importar seja um pecado, mas porque o problema não era falta de arroz. Era escoamento, logística, organização. O mercado se ajustou, o abastecimento não colapsou e ficou claro que o susto foi maior do que a realidade.

O erro não foi apenas econômico. Foi a leitura do mercado

Agora estamos no extremo oposto. O preço do arroz caiu a níveis que inviabilizam a atividade. E, mais uma vez, o produtor está sozinho, espremido entre custo alto, crédito caro, risco climático e um mercado que não oferece previsibilidade mínima.

O arroz sempre conviveu com essa fragilidade no Brasil. Não é uma cultura de margens largas. Precisa de preço compatível com custo, investimento e risco. Quando isso não acontece, o ajuste vem do jeito mais doloroso: redução de área, menos tecnologia, menos capitalização, e a semente da próxima crise é plantada.

O arroz não quebra de uma vez. Ele vai sendo desestimulado aos poucos

Há ainda um fator estratégico que não pode ser ignorado. A produção relevante está concentrada no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, justamente a região mais exposta a extremos climáticos. Quando o produtor gaúcho perde previsibilidade, o risco não é regional, é nacional. Segurança alimentar não combina com improviso.

Costuma-se dizer que o arroz brasileiro perde competitividade para os grandes produtores asiáticos. Isso é verdade, mas incompleta. Lá fora, arroz é tratado como política de Estado. Há planejamento, coordenação e previsibilidade. Aqui, o produtor enfrenta um mercado solto, reagindo depois que o problema já apareceu.

O problema do arroz no Brasil não é tecnologia. É governança

E aqui faço, de forma clara, um chamado às entidades que representam o setor. Não dá mais para produzir no escuro, empurrar oferta ao máximo e depois sair procurando mercado, pedindo socorro ou reclamando do preço. Oferta precisa conversar com demanda. Isso exige estudo, planejamento e coordenação.

As entidades do arroz precisam liderar esse processo:

  • estudar consumo interno e externo;
  • projetar demanda realista;
  • sinalizar área e produção compatíveis;
  • construir previsibilidade para o produtor antes do plantio, não depois da colheita.

Produzir o impossível e depois tentar “arrumar mercado” é receita certa para crise de preço.

Não basta esperar que instrumentos públicos resolvam tudo. A Conab pode, e deve, atuar com estoques, preços mínimos e apoio ao escoamento. Mas sem organização do próprio setor, qualquer política vira remendo.

O modelo atual é perverso:

  • quando o preço sobe, discute-se importação;
  • quando o preço cai, o produtor que se vire;
  • e as entidades entram tarde, reagindo, não liderando.

Isso destrói a confiança, desorganiza a produção e fragiliza o futuro do arroz.

Arroz não é uma commodity qualquer. É base da alimentação, é estabilidade social, é soberania silenciosa. O país sério não trata o alimento básico como um problema episódico. Trata como estratégia.

Para reflexão 

Se o Brasil quiser um mercado de arroz saudável, vai precisar ir além das críticas pontuais e das reações emocionais aos extremos. Esse debate não pode ficar restrito aos gabinetes nem a decisões tomadas no susto. Ele precisa nascer no campo, com o produtor no centro da discussão.

É hora de o produtor também chamar essa responsabilidade para si.

Sentar à mesa, discutir números, demanda, oferta, área, custo, risco e futuro. Pensar coletivamente. Cobrar das entidades, mas também participar ativamente da construção de uma estratégia que dê previsibilidade ao setor.

Sem maturidade no debate, continuamos presos ao mesmo ciclo: pânico na alta, abandono na baixa, e um produtor cada vez mais vulnerável.

O arroz que o Brasil vai colher amanhã depende das decisões que começarem a ser discutidas agora.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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Paraná estabelece novo prazo para colheita do pinhão; veja mudanças

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Foto: Luiz Costa/Embrapa

O Instituto Água e Terra (IAT) anunciou uma mudança importante no calendário do pinhão no Paraná. A partir deste ano, a temporada para colheita, transporte, comercialização e armazenamento da semente começa no dia 15 de abril, ao invés de 1º de abril como nos anos anteriores. A medida vale tanto para o consumo humano quanto para uso em sementeiras.

A alteração atende a Instrução Normativa nº 03/2026 e busca alinhar a legislação estadual ao regramento federal.

O objetivo é garantir a extração sustentável da semente, proteger o ciclo reprodutivo da espécie e conciliar a geração de renda das comunidades produtoras com a conservação do meio ambiente.

A multa em caso de desobediência é de R$ 300 a cada 50 quilos apreendidos (ou fração equivalente), além da responsabilização por crime ambiental.

Ciclo sustentável

O chefe da Divisão de Licenciamento de Fauna e Flora do IAT, José Wilson de Carvalho afirma que o adiamento da temporada fará com que pinhas imaturas não sejam mais coletadas, garantindo o ciclo sustentável do pinhão. De acordo com ele, a medida tem impacto direto na saúde da população.

“Já observamos casos de pessoas coletando pinhas que ainda estão verdes, com casca esbranquiçada e alto teor de umidade. Essa prática é proibida, já que nesse estado elas são impróprias para o consumo, podendo favorecer a presença de fungos. Por isso estabelecemos essa nova data-limite. Após o dia 15, as pinhas já estão com um aspecto mais marrom-avermelhado e caem naturalmente das árvores”, explica Carvalho.

Fiscalização

A fiscalização durante toda a temporada de pinhão será feita por agentes do IAT e pelo Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA). As denúncias podem ser encaminhadas à Ouvidoria do IAT, aos escritórios regionais pelos telefones (41) 3213-3466 e (41) 3213-3873 ou 0800-643-0304 e, ainda, à Polícia Ambiental (41) 3299-1350.

Destaque econômico

A cultura movimentou R$ 25,7 milhões em 2024 (dado mais recente), de acordo com o Valor Bruto de Produção (VBP), levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab).

Os municípios que mais se destacaram na produção foram Pinhão (17,5%), Inácio Martins (14,9%), Turvo (8,7%), Guarapuava (7,3%) e Prudentópolis (5,2%).

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Mercado do boi inicia semana travado, com preços estáveis e consumo lento

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Foto: Pixabay

O mercado físico do boi gordo começou a semana com preços acomodados e pouca movimentação nas negociações. Apesar de ainda ocorrerem pontualmente negócios acima da média, o cenário predominante é de estabilidade. A oferta restrita de animais terminados segue dificultando a formação das escalas de abate, que permanecem entre cinco e sete dias úteis na média nacional.

Segundo o analista da consultoria Safras & Mercado, Fernando Henrique Iglesias, fatores externos continuam no radar, como as tensões no Oriente Médio e o avanço da cota chinesa, que podem influenciar a formação de preços ao longo do semestre.

Preços da arroba no Brasil:

  • São Paulo: R$ 352,17, na modalidade a prazo
  • Goiás: R$ 339,29
  • Minas Gerais: R$ 342,35
  • Mato Grosso do Sul: R$ 338,52
  • Mato Grosso: R$ 344,80, a arroba

Atacado

No mercado atacadista, o cenário também é de acomodação. O escoamento da carne segue mais lento, refletindo o menor apelo ao consumo neste período. Proteínas mais acessíveis, como frango, ovos e embutidos, continuam ganhando espaço na preferência do consumidor brasileiro, pressionando a demanda por carne bovina.

Entre os cortes, o quarto traseiro segue cotado a R$ 27,30 por quilo, enquanto o dianteiro permanece em R$ 21,00 por quilo. A ponta de agulha é negociada a R$ 19,50 por quilo.

Câmbio

No câmbio, o dólar comercial encerrou o dia em queda de 1,31%, cotado a R$ 5,24, após oscilar entre R$ 5,21 e R$ 5,31 ao longo da sessão, movimento que também influencia a dinâmica do mercado pecuário.

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Milho recua com pressão da safrinha e cenário externo incerto

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Foto: Embrapa/Semeali Sementes

O mercado de milho registrou queda nas cotações ao longo da última semana, tanto no Brasil quanto no exterior. Na B3, o contrato com vencimento em maio de 2026 recuou para a faixa de R$ 72,00 por saca, refletindo o avanço da safrinha e o aumento da oferta interna, mesmo diante da valorização do dólar.

Plantio

No campo, o plantio da segunda safra ganhou ritmo no Centro-Sul, favorecido por uma trégua nas chuvas mais intensas. Apesar disso, parte das lavouras foi semeada fora da janela ideal, elevando os riscos climáticos para o desenvolvimento das plantas nas próximas semanas.

Segundo dados da plataforma Grainsights, da Grão Direto, o milho em Chicago apresentou leve queda de 0,21% na semana. Já no Brasil, o movimento foi mais intenso, com recuo de 4,38% na B3, encerrando a R$ 71,99 por saca. No mercado físico, também houve desvalorização, como em Lucas do Rio Verde (MT), onde os preços caíram 3,25%, para cerca de R$ 48,12 por saca.

O que vem por aí?

Para o curto prazo, o mercado segue atento ao relatório de intenção de plantio do USDA, previsto para 31 de março. A expectativa é de redução da área de milho nos Estados Unidos, o que pode dar suporte aos preços no cenário global.

Por outro lado, o conflito no Oriente Médio traz preocupações relevantes. A região é importante fornecedora de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, e eventuais interrupções no fluxo podem elevar os custos de produção da próxima safra. Além disso, o Irã, um dos principais compradores do milho brasileiro, pode reduzir suas importações em caso de agravamento do cenário, o que pressionaria ainda mais os preços internos.

O clima também será determinante para a safrinha 2026. Com parte das lavouras fora da janela ideal, a dependência por chuvas regulares em abril aumenta, sendo fator decisivo para o potencial produtivo.

No campo macroeconômico, o dólar acima de R$ 5,30 ajuda a sustentar os preços em reais, mesmo com a pressão negativa nas bolsas. Ainda assim, a volatilidade deve permanecer elevada, exigindo atenção redobrada dos produtores à gestão de custos e às oportunidades de comercialização.

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