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Plantas em alerta: elicitores no auxílio à defesa para lavouras mais produtivas

Entendimento de como microrganismos acionam resistência das plantas ao estresse biótico abre caminho para lavouras mais produtivas e sustentáveis
A agricultura moderna enfrenta desafios crescentes, com perdas significativas na produtividade causadas por doenças e pragas. Patógenos como fungos, bactérias e vírus são responsáveis por uma parcela considerável dessas perdas, forçando os produtores a investirem intensamente no controle químico.
Contrariando a percepção comum, as plantas apresentam uma defesa secreta contra patógenos. Ao longo de milhões de anos de coevolução com microrganismos, as plantas desenvolveram um sofisticado sistema imunológico, capaz de reconhecer invasores e ativar uma série de mecanismos de defesa. Este “sistema imunológico” vegetal é a chave para a sobrevivência das plantas em ambientes hostis e representa uma fronteira promissora para a inovação agrícola.
A indução de resistência é um mecanismo fundamental para as plantas se defenderem de patógenos e insetos. Isso significa que, após um contato inicial com microrganismos (benéficos ou patogênicos) ou substâncias específicas (elicitores), a planta se torna mais resistente a ataques ou infecção subsequentes. É como se a planta desenvolvesse um “estado de alerta”, permitindo-lhe reagir de forma mais rápida e intensa quando uma ameaça real se manifesta.
Essa ferramenta promove resistência a doenças e aumenta a produção de compostos de interesse, sendo fundamentais para o manejo sustentável. As plantas possuem mecanismos para resistir localmente à infecção, incluindo a imunidade desencadeada por padrões moleculares (PTI) e a imunidade desencadeada por efetores (ETI).
Ainda, possuem dois tipos de imunidade vegetal sistêmica, conhecidos como Resistência Sistêmica Adquirida (SAR) e Resistência Sistêmica Induzida (ISR). Estes mecanismos se relacionam entre si, mas cada um tem um sinalizador (gatilho), uma via e alcance distintos. Com base nesses mecanismos, destacamos como eles funcionam e como o uso de elicitores pode ser uma ferramenta valiosa no manejo integrado de doenças.
SAR x ISR: vias de resistência
A resistência sistêmica das plantas a patógenos pode ser obtida por duas vias principais. A primeira é a Resistência Sistêmica Adquirida (SAR), que depende do contato direto da planta com o patógeno. Após a infecção, a planta desenvolve uma espécie de “memória imunológica”. Este tipo de resistência requer ácido salicílico, de modo que as regiões infectadas enviam sinais para as partes ainda saudáveis, ativando defesas naturais e preparando todo o organismo contra futuros ataques.
Um dos mecanismos característicos da SAR é a resposta hipersensível, em que, no ponto da infecção, ocorre a morte celular programada. Neste caso, ocorre o isolamento do patógeno, impedindo que ele se mova para outros órgãos da planta, já que não encontra mais tecidos vivos com vasos condutores para se espalhar.
Além disso, a SAR ativa genes relacionados à patogênese, que estimulam a produção de enzimas e proteínas com ação direta contra fungos e bactérias. Esse tipo de resistência é especialmente importante contra patógenos biotróficos, que precisam de células vivas para completar seu ciclo.
A segunda via é a Resistência Sistêmica Induzida (ISR), que não depende da infecção, mas sim da interação da planta com microrganismos benéficos do solo, como rizobactérias. Esses organismos funcionam como elicitores, e o estabelecimento da ISR depende da sensibilidade da planta aos hormônios ácido jasmônico e etileno. Dessa forma, a planta entra em um estado de alerta, conhecido como “priming”, ficando preparada para responder mais rápido e de forma robusta a futuros ataques.
As defesas acionadas pela ISR incluem a produção de enzimas como quitinases e glucanases, que degradam a parede celular de fungos e oomicetos; e peroxidases, que reforçam as paredes celulares por meio da lignificação, criando barreiras físicas contra a penetração de patógenos; além da liberação de espécies reativas de oxigênio (ROS) e de metabólitos secundários com ação antimicrobiana.
PTI x ETI: camadas da imunidade
O reconhecimento de uma ameaça é o primeiro e crucial passo na ativação da imunidade vegetal. As plantas possuem uma rede complexa de receptores, localizados tanto na superfície celular quanto no interior das células, que são especializados em detectar elicitores. Existem dois grandes sistemas de reconhecimento que operam em camadas distintas.
A primeira linha de defesa, é conhecida como imunidade desencadeada por Pamp (PTI). Ela é ativada quando receptores reconhecem padrões moleculares típicos de patógenos (Pamps) ou de microrganismos (Mamps), como a quitina fúngica, a flagelina bacteriana e os polissacarídeos. Essa resposta pode ser acionada por estímulos endógenos que estão associados a danos (Damps) (Figura 1). Exemplos incluem a flagelina bacteriana (reconhecida pelo receptor FLS2) e a quitina fúngica. A PTI é uma resposta basal, rápida e de baixa intensidade, mas eficaz contra a maioria dos potenciais patógenos.
A segunda linha de defesa é conhecida como imunidade desencadeada por efetores (ETI). Patógenos mais virulentos desenvolveram a capacidade de suprimir a PTI, injetando moléculas chamadas efetores dentro das células vegetais (Figura 1). Em resposta, as plantas desenvolveram uma segunda linha de defesa, mais robusta, mediada por proteínas R (Resistência). Essas proteínas R, frequentemente localizadas no citoplasma, reconhecem diretamente ou indiretamente os efetores patogênicos, desencadeando uma resposta imune mais intensa, que muitas vezes inclui a morte celular programada (Resposta de Hipersensibilidade – HR) no local da infecção, para conter a disseminação do patógeno. Normalmente, a ETI pode gerar uma SAR.
Receptores: sensores que iniciam resposta
Para que a planta possa ativar suas defesas, ela precisa primeiro perceber que há uma ameaça. Essa percepção é realizada por receptores, localizados tanto na superfície externa das células vegetais quanto em seu interior.
Esses receptores funcionam como “antenas” altamente especializadas, capazes de captar sinais específicos que indicam a infecção ou o ataque, iniciando a cascata de sinalização. Um dos tipos mais importantes são os receptores de reconhecimento de padrões (PRRs) que são divididos em Receptor-Like Kinases (RLKs) e Receptor-Like Proteins (RLPs). Eles estão situados na membrana plasmática e são responsáveis por detectar Pamps, Mamps, Damps e Hamps (padrões associados à herbivoria), desencadeando a defesa da planta.
Um exemplo clássico é o receptor FLS2 (RLKs), que reconhece a flagelina, uma proteína presente no flagelo de muitas bactérias. Ao detectar a flagelina, o FLS2 desencadeia uma série de eventos intracelulares que alertam a planta para a presença bacteriana.
Os NRLs (receptores com domínio de ligação a nucleotídeos e repetições ricas em leucina) são a principal classe de receptores intracelulares responsáveis por detectar efetores de patógenos dentro das células vegetais, desencadeando respostas imunes potentes e específicas. Ativam a segunda linha de defesa (ETI), reconhecem efetores que escapam da detecção por PRRs de membrana e desencadeiam respostas como morte celular programada (hipersensibilidade).
Peptídeos sinalizadores
Uma vez que um receptor detecta uma ameaça, essa informação precisa ser transmitida e amplificada dentro da planta para que uma resposta de defesa adequada seja montada. É aqui que entram os peptídeos sinalizadores, comunicando o estado de perigo entre as células e os tecidos da planta.
Os peptídeos sinalizadores não atacam o patógeno diretamente. Eles ativam os mecanismos naturais de defesa da planta, como produção de fitoalexinas, reforço da parede celular e expressão de genes protetores, preparando-a para resistir melhor às doenças e manter produtividade com mais eficiência e segurança.
Peptídeo flg22 em plantas
Entre os Mamps mais bem estudados, está o flg22, um peptídeo de 22 aminoácidos derivado da proteína flagelina bacteriana, proteína que compõe os flagelos bacterianos – estruturas responsáveis pela locomoção dessas células. Quando fragmentos como o flg22 entram em contato com a planta, eles são rapidamente reconhecidos pelo receptor FLS2, localizado na membrana celular.
Esse reconhecimento funciona como um sinal de que há um microrganismo presente e coloca a planta em estado de defesa (Figura 2). A partir daí, diferentes respostas são disparadas em sequência: alterações nos níveis de cálcio (Ca²⁺) dentro das células, ativação de enzimas sinalizadoras como as MAPKs, produção de fitoalexinas e reforço da parede celular com calose, além do fechamento dos estômatos. Entre essas respostas, destaca-se a chamada explosão oxidativa, caracterizada pelo acúmulo de espécies reativas de oxigênio (EROs) e óxido nítrico (NO), que ajudam a conter a infecção e ainda sinalizam outras células a se prepararem. Esse exemplo mostra como um simples fragmento proteico é capaz de acionar uma rede complexa de defesas nas plantas.
Resultados LUMINUS
De acordo com informações da UPL Brasil, oficialmente registrado no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) LUMINUS se destaca como o único produto no mercado desenvolvido com base no componente flg-22, um inovador indutor de defesa vegetal. Sua exclusiva tecnologia de síntese e formulação permite a aplicação foliar direta, garantindo resultados comprovados no controle de doenças foliares em soja e milho (Figura 3, 4 e 5). LUMINUS representa um marco na agricultura moderna, unindo ciência, inovação e sustentabilidade para fortalecer as plantas de forma natural e eficaz.



Considerações finais
As plantas contam com um sistema imune sofisticado e multiestratificado, capaz de reconhecer patógenos, ativar sinalizações complexas e desencadear respostas locais e sistêmicas. O avanço no entendimento desses mecanismos abriu caminho para soluções aplicadas diretamente no campo, como os elicitores, que ativam as defesas vegetais de forma segura e compatível com insumos químicos, permitindo sua integração ao manejo integrado de pragas e doenças.
O Brasil, líder mundial no uso de bioinsumos, vem convertendo esse conhecimento em produtos comerciais, que reduzem a dependência de defensivos químicos, diminuem a pressão de seleção sobre patógenos e agregam sustentabilidade aos sistemas produtivos.
Camila Ferreira de Pinho,
Rita de Cássia Silva,
Lucas Rêgo Mendonça Marinho,
UFRRJ;
Gabriela de Souza da Silva,
Halina Schultz,
Metabolic Biosolutions;
Diego Henrique Mendes Costa,
gerente de Pesquisa e Desenvolvimento UPL;
Edson Sentinello,
pesquisador Global Fungicidas UPL
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Com compras da China e alta do petróleo, soja alcança maior patamar em três anos em Chicago

A semana foi marcada pela forte valorização dos contratos futuros da soja na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT). O movimento no mercado externo também fortaleceu os preços da oleaginosa no Brasil, embora a comercialização tenha seguido em ritmo moderado.
Na quinta-feira (10), os contratos futuros da soja fecharam nos melhores níveis em três anos. A demanda chinesa pelo produto norte-americano e a disparada do petróleo deram sustentação às cotações.
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A China comprou cerca de 1 milhão de toneladas de soja dos Estados Unidos nesta semana, ampliando as aquisições antes da visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington, prevista para o fim deste mês.
Com as novas compras, o volume de soja norte-americana adquirida pela China se aproxima da metade das 25 milhões de toneladas que a Casa Branca afirmou que Pequim havia se comprometido a comprar anualmente até 2028.
No Brasil, o mercado físico apresentou ofertas firmes, acompanhando as altas em Chicago. O analista da Safras & Mercado, Rafael Silveira, destaca que as cotações ficaram bastante aquecidas nos portos, com negócios reportados em Rio Grande (RS) e Paranaguá (PR).
A pouca oferta disponível mantém os produtores retraídos e sustenta a estrutura de preços diante das necessidades dos compradores. “Em regiões do Centro, como Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, resta muito pouco volume de soja”, destaca Silveira. No MAPITO, praticamente não há mercado disponível, com a movimentação concentrada nas ofertas da safra nova.
Segundo o analista, o basis local permanece extremamente forte. Em Mato Grosso, por exemplo, há ofertas muito acima da paridade, embora para poucos volumes. O spread entre compradores e vendedores também segue elevado.
A movimentação ficou mais concentrada nos portos, enquanto a originação no mercado interno permaneceu reduzida. Em Passo Fundo (RS), a saca de 60 quilos avançou de R$ 153,50 para R$ 155,00. Em Cascavel (PR), as cotações subiram de R$ 150,00 para R$ 151,50. Já em Rondonópolis (MT), os preços passaram de R$ 144,00 para R$ 147,00.
Nos portos, em Paranaguá (PR), a saca avançou de R$ 161,00 para R$ 162,50. Em Rio Grande (RS), as referências subiram de R$ 161,50 para R$ 163,00.
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‘O agro, de tão grande, se torna invisível’, diz presidente da ABMRA

O agronegócio brasileiro passou as últimas décadas investindo em tecnologia, ciência, produtividade e sustentabilidade. Mas, na avaliação de Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), deixou de lado uma frente que hoje se tornou estratégica: a comunicação.
“O agro nunca se comunicou, ele nunca construiu um projeto de comunicação”, afirmou durante o novo episódio do Radar Rural, videocast do Canal Rural. O programa foi ao ar na última sexta-feira (11), primeiro no Youtube. Assista:
Para o especialista, isso criou uma situação curiosa. O setor fala bastante, mas, em grande parte, conversa com ele mesmo. “O agro se comunica muito bem, mas para ele mesmo”, resumiu.
A consequência é uma distância entre o que acontece no campo e o que chega à população urbana. E, nesse espaço, segundo Nicodemos, surgem mitos, estereótipos e informações distorcidas.
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O problema de viver em uma bolha
Nicodemos avalia que parte do setor ainda enxerga sua relação com a sociedade a partir de uma lógica de confronto. Quando surge uma crítica, uma informação considerada falsa ou uma declaração contra o agro, a reação costuma aparecer em forma de resposta ou carta de repúdio.
O problema, segundo ele, é que reputação não se constrói apenas quando existe uma crise.
“O agro tem que sair da posição reativa para efetivamente uma comunicação efetiva”, disse.
A estratégia deveria ser permanente: mostrar o que o setor faz, como produz, quais tecnologias utiliza e também quais são as histórias de quem está no campo.
“Quando eu crio essa conexão, quando eu tenho a opinião pública ao meu lado, fica muito mais difícil de um mito, de uma informação irreal pegar”, afirmou.
Para ele, a lógica é simples: quanto mais a sociedade conhecer o setor, menor será o espaço para que outras pessoas contem essa história por ele.
O agro pode ser invisível justamente por estar em todo lugar
Um dos principais insights apresentados no programa foi justamente o paradoxo da presença do agro no cotidiano.
“O agro, de tão grande, ele se torna invisível”, afirmou Nicodemos.
O setor está presente na alimentação, na economia, na cultura e em diferentes hábitos da população, mas essa relação nem sempre é percebida. O especialista citou, por exemplo, a força da música sertaneja no país como uma manifestação cultural ligada às origens do campo que hoje faz parte da vida urbana.
O mesmo ocorre com os alimentos. Durante a pesquisa sobre a percepção do agro, entrevistados foram questionados sobre produtos consumidos diariamente e sobre a forma como são produzidos. Segundo Nicodemos, houve casos de pessoas que não sabiam sequer como o tomate é cultivado.
Para ele, esse desconhecimento é um problema de comunicação.
“Se você não conta, não mostra para o brasileiro, alguém vai contar da forma que ele acha mais conveniente.”
As histórias do campo ainda são pouco contadas
Outro ponto destacado no Radar Rural foi a dificuldade do próprio produtor em falar sobre suas conquistas.
Nicodemos considera que o agro acumulou histórias de superação nas últimas décadas, mas muitas delas permanecem restritas ao ambiente rural. O setor avançou em produtividade e tecnologia, mas não transformou esses resultados em histórias capazes de aproximar quem está fora da porteira.
“Nos últimos 50 anos, o agro coleciona diariamente histórias de superação, de conquistas”, afirmou.
Ele lembrou que o Brasil passou de um país que precisava importar alimentos para uma das principais potências agropecuárias do mundo. Essa transformação, porém, não é necessariamente conhecida pela população.
O desafio, portanto, não seria criar uma narrativa artificial para defender o setor, mas mostrar a realidade de quem produz.
“Eu não posso me comunicar só quando alguém faz algum tipo de declaração irreal, cria-se mitos e outras coisas mais.”
Do Jeca Tatu ao produtor conectado
A imagem do produtor rural também foi discutida no programa. Para Nicodemos, personagens históricos ajudaram a consolidar uma representação do homem do campo associada ao atraso e à falta de conhecimento.
Esse estereótipo, segundo ele, ainda aparece em situações cotidianas e não corresponde ao perfil do produtor atual.
O campo exige cada vez mais conhecimento, gestão, tecnologia e capacidade de tomar decisões diante de riscos climáticos e de mercado. Ainda assim, essa realidade nem sempre chega à população urbana.
Na visão do especialista, mudar essa percepção depende de uma comunicação que mostre o produtor como ele realmente é, e não apenas como uma figura associada às dificuldades do campo.
“O produtor é um herói”, afirmou.
Jovens são o principal desafio
Se o agro precisa construir uma relação mais próxima com a sociedade, a atenção aos jovens é estratégica. Nicodemos destacou que parte do público mais resistente ao setor está concentrada nessa faixa etária e que esse grupo tem forte presença nas redes sociais.
Isso cria um desafio adicional: opiniões e informações podem ganhar escala rapidamente no ambiente digital.
Para o especialista, o caminho não é tentar impedir a circulação de críticas, mas construir uma relação suficientemente forte com a sociedade para que informações falsas ou distorcidas tenham menos espaço.
Nesse processo, ele defende que o setor não abandone os meios tradicionais em favor exclusivamente das redes sociais.
O papel da mídia especializada
Nicodemos também destacou a importância de combinar diferentes canais de comunicação. Segundo ele, veículos especializados continuam tendo papel relevante na construção de marcas e, principalmente, na tarefa de mostrar para o público como funciona a produção rural.
A comunicação, na avaliação dele, precisa reunir televisão, rádio, revistas, mídia especializada e plataformas digitais.
“O digital, na verdade, é terra de ninguém. Você posta o que você quiser, dá a opinião que você quiser, fala o que você acha que é e não o que é de verdade”, afirmou.
Para o especialista, os veículos tradicionais ajudam a dar contexto e credibilidade às histórias que precisam chegar à população.
Mais do que responder às críticas, portanto, a tarefa do agro seria ocupar o espaço da comunicação antes que ele seja preenchido por outros.
“Precisamos trabalhar em conjunto”, disse Nicodemos. “Se nós unirmos todos esses tijolinhos, conseguiremos construir uma grande ponte” entre o campo e a cidade.
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Agro Mato Grosso
Pesquisa da UFMT transforma descarte da mandioca em ração para o gado em época de seca

Descoberta é uma alternativa nutritiva e de baixo custo para reduzir os impactos da escassez de pasto durante o período de seca, um dos principais desafios enfrentados pelos pecuaristas.
O que antes era descartado nas lavouras de mandioca pode se tornar uma alternativa para alimentar rebanhos durante a seca em Mato Grosso. Em parceria com a Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) desenvolvem um estudo que utiliza a parte aérea da mandioca — o terço superior da planta geralmente descartado — como suplemento nutritivo, sustentável e de baixo custo para a alimentação dos animais, especialmente durante o período de estiagem no estado.
🔍 O calor intenso em Mato Grosso ocorre principalmente por causa do período de estiagem. Nesta época, a quantidade de chuva diminui, o ar fica mais seco e há menos nuvens para bloquear a radiação solar. Com isso, o solo e o ambiente aquecem mais durante o dia, elevando as temperaturas e mantendo o tempo quente por vários dias.
O estudo é desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Extensão em Forragicultura e Conservação de Forragens (GEFOR), vinculado à Faculdade de Agronomia e Zootecnia da UFMT, sob orientação do professor Dr. Joadil Gonçalves de Abreu. Segundo ele, a proposta é oferecer uma alternativa nutritiva e de baixo custo para reduzir os impactos da escassez de pasto durante a seca, um dos principais desafios enfrentados pelos pecuaristas da região.
A Empaer desenvolve pesquisas com mandioca desde 2012, buscando identificar cultivares mais adaptadas às diferentes regiões de Mato Grosso e aumentar a produtividade. Além da pesquisa, a instituição trabalha para levar os resultados aos agricultores por meio de galhos do topo da mandioca, dias de campo, reuniões técnicas e orientações aos produtores.
Na UFMT, a pesquisa ainda está em fase inicial. Até o momento, foram analisadas algumas variedades de mandioca destinadas à indústria. Ainda falta avaliar as variedades de mandioca de mesa. Após a conclusão das análises, os resultados poderão ser publicados e apresentados aos produtores, inclusive durante os dias de campo promovidos pela universidade.
- Mandioca de mesa é aquela produzida principalmente para o consumo humano, como a mandioca cozida ou usada em receitas.
- Mandioca industrial é cultivada principalmente para a produção de farinha, fécula, amido e outros derivados.
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Variedades de mesa — Foto: Empaer
O poder nutritivo oculto na mandioca
Tradicionalmente, a mandioca é cultivada visando a comercialização de suas raízes e o aproveitamento do caule grosso para novos plantios. As folhas e ramos do topo, no entanto, costumam ser deixados no campo. A pesquisa do GEFOR, realizada em parceria com a Empaer — através da pesquisadora e engenheira agrônoma Dra. Dolorice Moreti —, identificou que esse material descartado é um verdadeiro “superalimento” para o gado.
Em pleno período de estiagem, as pastagens convencionais sofrem uma queda drástica de qualidade, registrando cerca de 5% a 6% de proteína bruta. Para não perder peso, um boi precisa de, no mínimo, 7%.
“A parte aérea da mandioca, em nossos dados, superou os 15% de proteína bruta, chegando a mais de 20% em algumas cultivares específicas, é um alimento que, além de manter o animal, garante ganho de peso em plena seca” destacou o professor Joadil.
Além da alta qualidade, a produtividade impressiona. Em testes de campo, a cultura atingiu a marca de 28 toneladas de massa verde por hectare. Para efeito de comparação, híbridos de milho utilizados para silagem produzem cerca de 35 toneladas. A proximidade dos números surpreende os pesquisadores, visto que a mandioca sequer é uma cultura melhorada geneticamente para a produção de folhas, e sim de raízes.
“Quando comparamos a produção de massa verde, percebemos que a mandioca se aproxima da produtividade do milho para silagem, mas com uma grande vantagem: ela suporta muito melhor os períodos de estiagem”, destaca Joadil.
Validação genética em campo
O trabalho na Empaer consiste em validar o comportamento desses materiais genéticos (provenientes da Embrapa, IAC e outros órgãos) nas diferentes regiões do estado. No Campo Experimental de Tangará da Serra, a instituição mantém hoje um banco vivo impressionante:
- 70 materiais genéticos de mandioca de mesa (de polpa branca, amarela e rosada);
- 25 materiais genéticos de mandioca voltados para a indústria.
Além do desenvolvimento de cultivares mais produtivas, as pesquisas também acompanham a evolução das tecnologias adotadas pelos agricultores. Segundo a pesquisadora, nos últimos anos os produtores passaram a investir cada vez mais em análise de solo, correção da fertilidade, adubação e irrigação, práticas que potencializam o desempenho das variedades melhoradas.
“Não avaliamos apenas produtividade. Observamos resistência a doenças, qualidade culinária, teor de amido, arquitetura da planta e adaptação às diferentes regiões do estado. O objetivo é recomendar ao produtor materiais que realmente tragam retorno econômico”, afirmou Dolorice.
Antes de ser oferecida aos animais, a parte da mandioca que fica acima do solo precisa passar por um período de secagem. Segundo o professor Joadil, esse processo reduz a presença de uma substância natural da planta que pode liberar compostos tóxicos e causar problemas de saúde nos animais quando o material ainda está úmido.
“O único cuidado que a gente sempre ressalta é fazer a secagem. O produtor não pode picar e fornecer o material úmido para o animal, porque existe o risco de morte por asfixia devido à presença do ácido cianídrico. Depois que o material seca, esse composto volatiliza e o alimento pode ser utilizado com segurança”, explica o professor.
A solução encontrada pelo grupo é simples, barata e eficiente: a produção de feno.
- Picagem: O material é triturado em pedaços de aproximadamente 2 centímetros.
- Secagem: O conteúdo é estendido sobre lonas plásticas ao sol e revirado a cada hora. Como o ácido cianídrico é volátil, ele evapora completamente durante o processo.
- Teste do Sal: Para saber se está no ponto, os estudantes misturam o material com sal de cozinha; se o sal não grudar na planta, o feno está pronto e totalmente seguro para o consumo.
A proporção média é de que uma tonelada de massa verde resulte em 200 a 300 kg de feno. Essa quantidade é suficiente para alimentar até 25 animais adultos por um dia, considerando o consumo médio de 10 kg diários por cabeça.
Além de servir para consumo próprio, o feno ensacado surge como uma nova fonte de renda para agricultores que não possuem rebanho, permitindo a comercialização do subproduto para criadores de bovinos, caprinos e ovinos da região.
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Etapa de secagem da mandioca antes do uso na alimentação animal. — Foto: Giovanna Baiocco/ g1 MT
Formação de novos profissionais
Para além dos laboratórios, o projeto cumpre um papel social e pedagógico fundamental. Os estudantes e bolsistas de iniciação tecnológica (PIBITI), João Henrique (7º período de Agronomia) e Camila Neves (9º período de Zootecnia), enfrentam a rotina pesada do campo na fazenda experimental da UFMT para fazer a pesquisa acontecer.
“Na seca é muito complicado. Teve momentos em que precisamos ir no final de semana para conseguir irrigar o campo experimental por conta da rotina cheia de aulas” […] “Muitos produtores jogam isso fora por falta de informação. Passar esse conhecimento e ver que a prática resolve gargalos que a teoria sozinha não mostra é gratificante,” relata João Henrique.
Camila reforçou também o impacto econômico da alternativa sustentável.
“Muitos querem usar apenas o milho, que é caro. A mandioca é rústica, barata e exige pouca adubação. Essa vivência abre nossa cabeça para ajudar o pequeno produtor a crescer,” acrescenta Camila.
Pesquisa segue em expansão
Mesmo com os resultados promissores, Dolorice disse que o trabalho está apenas começando e que a pesquisa precisa ser permanente para acompanhar as demandas do setor.
“A pesquisa precisa ser contínua e dinâmica, porque sempre surgem novos problemas e novas tecnologias que precisam ser avaliadas. Hoje em Tangará, temos cerca de 70 materiais genéticos de mandioca de mesa e outros 25 destinados à indústria. Muitos já foram avaliados e outros ainda estão em fase de multiplicação. Precisamos garantir condições para continuar esse trabalho”, ressaltou.
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Da mandioca descartada, uma nova alternativa para o gado. 🌱🐂 — Foto: g1 MT
Próximos passos
A parceria entre UFMT e Empaer planeja realizar, no início do próximo ano agrícola, um Dia de Campo voltado aos produtores rurais de Santo Antônio de Leverger e região. Durante o evento, os alunos envolvidos na pesquisa, juntamente com o professor Joadil, irão apresentar as técnicas de aproveitamento da parte aérea da mandioca, a produção do feno e as novas cultivares avaliadas. A atividade também irá apresentar formas de utilização da planta e os resultados obtidos no estudo.
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