Agro Mato Grosso
Indígenas reagem à presença de madeireiros e queimam maquinários usados em terra demarcada em MT

Invasões são registradas há mais de 20 anos no território, e se aproximam cada vez mais da comunidade. FepoiMT pede desintrusão completa na região.
Indígenas do povo Apyãwa Tapirapé reagiram à presença de madeireiros no território Urubu Branco, em Confresa, a 1.060 km de Cuiabá, e queimaram maquinários usados na extração de madeira ilegal e até suspeita de garimpo dentro da Terra Indígena. Eles também apreenderam os suspeitos e os levaram até a delegacia. A área já está demarcada desde 1998.
A denúncia foi formalizada pela Unificação dos Povos Indígenas do Médio Araguaia e Xingu (Unimax) na segunda-feira (22).
A reportagem procurou o Ministério dos Povos Indígenas, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ibama, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Segundo o documento ao qual a imprensa teve acesso, quatro suspeitos foram apreendidos pelos indígenas ao serem flagrados na região, na quinta-feira (18). Com eles foram encontrados armas de fogo, veículos, toras de madeira e outros materiais ligados à exploração ilegal.
Os indígenas afirmam que levaram os suspeitos até a delegacia, na sexta-feira (19), e eles seriam ouvidos, assim como os indígenas, e uma perícia seria feita no local. Porém, o compromisso não foi cumprido, conforme o documento.
A Polícia Civil, contudo, remeteu o caso ao Ministério Público Federal, à Funai e à Polícia Federal.
Nesse meio tempo, os suspeitos retornaram à Terra Indígena e recuperaram os bens e veículos apreendidos, o que prejudicou na preservação das provas para uma responsabilização criminal. De acordo com a denúncia, foi deixado para trás apenas um caminhão e um trator de esteira, que foi destruído pelos indígenas.
Questionado pela reportagem, a Polícia Civil explicou que não pôde fazer a devida perícia porque os indígenas não levaram os equipamentos para comprovar o crime.
No local foi encontrada uma bateia de ouro, que costuma ser usado para separar a terra do ouro no garimpo, segundo a denúncia. Os indígenas apontaram ainda um possível risco com o uso de mercúrio nesta atividade e possível contaminação na água, podendo afetar os peixes e a saúde de toda a comunidade.
A associação pediu a completa desintrusão na área. Isso porque o povo convive com invasões no território há mais de 20 anos. No local, vivem 941 indígenas, segundo Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
🔍 Desintrusão é um termo usado para explicar o processo de retirada de invasores de uma terra indígena demarcada e homologada. A operação é coordenada pelo governo federal junto com outras autoridades, como PF, Ibama e Funai.
O estado é um dos que mais têm indígenas vivendo em territórios originários no país, sendo cerca de 45.065 indígenas, o que corresponde a 77% da população total. Esse é o maior percentual do Brasil, conforme dados do IBGE.
Indígenas reagem à invasão em terra demarcada
A imprensa, a presidente da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (FepoiMT) Eliane Xunakalo disse que as autoridades precisam agir na desintrusão completa do território pelos invasores.
“Já estivemos com Funai, com MP e outros ministérios, e já teve até decisão judicial que não foi cumprida para a retirada desses invasores. Os indígenas querem viver em paz e precisam reagir, porque daqui a pouco os invasores podem chegar na aldeia, porque já estão no território”, afirmou.
A denúncia dos indígenas gerou os seguintes alertas:
- Exploração ilegal de madeira e abertura clandestina de estradas;
- Garimpo em instalação, com risco de contaminação por mercúrio;
- Destruição de locais sagrados e pontos espirituais, afetando diretamente a vida cultural e religiosa da comunidade;
- Risco de conflito armado.
O ofício é assinado pelos povos Apyãwa Tapirapé, Guarani de Cocalinho, Iny Karajá, Kanela do Araguaia, A’uwê Xavante Maraiwátséde, Krenak-Maxakali, Xerente do Araguaia e Yudja Juruna.
Marco temporal
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) informou que o processo de desintrusão da Terra Indígena Urubu Branco foi suspenso, mais uma vez, por uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
🔍A tese do marco temporal estabelece que os povos indígenas só têm direito à demarcação de terras que estivessem sob sua posse ou disputa em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.
A decisão derrubou todo o processo judicial e levou em conta a discussão, na época, do Marco Temporal, que está em vigor após ser aprovado pelo Congresso Nacional, o que vai na contramão da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2023.
Agro Mato Grosso
Agrishow: de ‘trator que fala’, veja máquinas com IA que operam sozinhas

Máquinas que ‘falam’ com operador e trabalham sem ninguém na cabine foram destaques na maior feira de tecnologia agrícola do país em Ribeirão Preto (SP).
Fazer uma pergunta para um trator e receber a resposta na hora ou ver uma máquina trabalhando sozinha na lavoura, sem ninguém na cabine. O que parece cena de filme futurista já é realidade foram destaques da Agrishow 2026, em Ribeirão Preto (SP), impulsionados pela inteligência artificial.
Com a proposta de ajudar o produtor a tomar decisões mais rápidas, aumentar a produtividade e reduzir custos, empresas apostam em tecnologias inovadoras que devem se tornar cada vez mais comuns no campo.
Trator que ‘fala’ a língua do produtor
Um dos destaques é o “Talking Tractor”, da Valtra. O modelo usa inteligência artificial para interagir diretamente com o operador, por voz ou texto, e ajudar na tomada de decisão. (assista no vídeo acima)
“A nossa maior intenção com esse projeto é fazer com que o uso da tecnologia, que hoje é infinita, para que o homem e máquina se conectem para a melhor tomada de decisão em tempo real. Ele ajuda o produtor a tomar as melhores decisões, já que a máquina fala a língua do produtor”, comenta Claudio Esteves, diretor de vendas da Valtra.
Na prática, o produtor pode perguntar desde informações simples, como consumo de combustível, até orientações técnicas detalhadas.
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Trator ‘falante’ é uma das novidades da Agrishow 2026 em Ribeirão Preto (SP). — Foto: Érico Andrade/g1
A tecnologia ainda está em fase de testes, mas chama atenção do público. Segundo a empresa, o sistema aprende com o uso e armazena dados históricos da operação, permitindo consultas sobre atividades realizadas até meses antes.
“A gente tem todo o dado de telemetria, tem todo o manual técnico dele ali dentro, então não só ajudar na tomada de decisão, mas em qualquer ajuste que ele precisar, técnico, ele vai poder fazer a pergunta. E claro, ele vai gravar também toda a operação. (…) Por exemplo: um ano atrás eu plantei e quero saber quanto eu gastei de combustível, tudo isso ela consegue ajudar.”
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Painel do trator ‘falante’, que promete facilitar a vida do produtor rural, na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP). — Foto: Érico Andrade/g1
Agro Mato Grosso
Agro e biodiesel reforça mudança de perfil de Mato Grosso

Em Mato Grosso, esse movimento vem sendo puxado pela indústria de biocombustíveis. Dados divulgados pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que o estado alcançou, em março, o maior volume de produção de biodiesel da série histórica, consolidando-se como principal polo nacional do segmento.
As usinas mato-grossenses produziram 228,36 mil metros cúbicos no período, o equivalente a cerca de 26% de todo o biodiesel fabricado no país. O avanço foi impulsionado principalmente pela ampliação da mistura obrigatória do biocombustível ao diesel, atualmente em 15% (B15), o que elevou a demanda da indústria.
Na avaliação de Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA), o crescimento da agroindústria representa uma mudança estrutural para o setor. “O agro brasileiro começa a entrar em uma nova fase. Não basta mais apenas produzir volume. O grande diferencial econômico passa a ser a capacidade de industrializar, transformar e agregar valor àquilo que é produzido no campo”, afirma.
Segundo ele, Mato Grosso simboliza esse processo ao integrar produção agrícola e geração de energia renovável. “Quando o estado transforma soja em biodiesel, ele deixa de exportar apenas matéria-prima e passa a capturar uma fatia maior da riqueza gerada pela cadeia. Isso significa mais empregos, arrecadação, investimentos e fortalecimento da economia regional”, diz.
Rezende também destaca que a industrialização ajuda a reduzir a vulnerabilidade do produtor às oscilações externas. “Uma agroindústria forte cria demanda interna mais consistente e diminui a dependência exclusiva do mercado internacional. Isso dá mais estabilidade para o produtor e fortalece toda a cadeia produtiva”, avalia.
O avanço do biodiesel em Mato Grosso está diretamente ligado à forte integração entre a produção de grãos e a indústria de energia renovável. Segundo o Imea, o óleo de soja respondeu por 84% da matéria-prima utilizada pelas usinas no mês, mantendo a oleaginosa como principal base do setor.
Além do biodiesel, os dados do instituto apontam cenário positivo para outras cadeias relevantes do estado. No milho, a produtividade da safra 2025/26 foi revisada para 118,78 sacas por hectare, elevando a projeção de produção para 52,66 milhões de toneladas, favorecida pelo bom regime de chuvas em parte das regiões produtoras.
No algodão, a área cultivada foi ajustada para 1,38 milhão de hectares, enquanto a produção segue estimada em 6,14 milhões de toneladas de algodão em caroço, mantendo Mato Grosso na liderança nacional da cultura.
Na pecuária, o mercado apresentou movimentos distintos em abril. O boi gordo registrou valorização, com arroba média de R$ 350,11, sustentada pela menor oferta de animais para abate. Já o suíno perdeu força diante da demanda doméstica mais fraca, encerrando o mês com média de R$ 5,96 por quilo ao produtor.
Para Rezende, o avanço da indústria ligada ao agro deve ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. “O mundo busca alimentos, energia renovável e produtos de menor impacto ambiental. Mato Grosso reúne escala, produção e capacidade de processamento para ocupar posição estratégica nesse cenário. O futuro do agro passa cada vez mais pela industrialização”, conclui.
Agro Mato Grosso
Fertilizante feito com dejetos de porco pode reduzir dependência de fósforo

Nos experimentos, a produção alcançou 3.500 quilos por hectare, resultado próximo da média nacional de 3.560 quilos por hectare registrada em 2025 com adubação convencional. O desempenho indica que o produto pode ser incorporado ao manejo como complemento ao fósforo solúvel, especialmente em sistemas que buscam maior eficiência no uso de nutrientes e redução de custos.
A estruvita é formada pela precipitação química de nutrientes presentes em dejetos animais, gerando cristais de fosfato de magnésio e amônio. O processo transforma um passivo ambiental — comum em regiões de produção intensiva de suínos — em insumo agrícola, com potencial de reaproveitamento dentro da própria cadeia produtiva.
Do ponto de vista agronômico, o diferencial está na liberação gradual do fósforo. Em solos tropicais, onde o nutriente tende a ser rapidamente fixado e perder disponibilidade, essa característica melhora o aproveitamento pelas plantas. A reação alcalina do material também contribui para maior eficiência no solo, em contraste com fertilizantes convencionais, predominantemente ácidos.
Os estudos também avançam no desenvolvimento de formulações organominerais. Em avaliações iniciais, essas combinações apresentaram maior difusão de fósforo no solo em comparação com a estruvita granulada, ampliando o potencial de uso em diferentes sistemas produtivos.
Além do desempenho agronômico, a tecnologia traz implicações econômicas e ambientais. Ao reduzir a dependência de insumos importados, que ainda representam cerca de 75% do consumo nacional de fertilizantes, a estruvita se insere como alternativa estratégica em um dos principais componentes de custo da produção agrícola.
Outro impacto relevante está na gestão de dejetos da suinocultura. A recuperação de nutrientes permite reduzir a carga de fósforo e nitrogênio aplicada ao solo, diminuindo o risco de contaminação ambiental e abrindo espaço para maior intensificação da produção nas granjas.
Apesar do avanço internacional, com unidades de produção em operação em países como China, Estados Unidos e Alemanha, o uso da estruvita ainda é incipiente no Brasil. A principal lacuna está no conhecimento sobre o comportamento do insumo em condições tropicais, marcadas por solos ácidos e alta presença de óxidos de ferro e alumínio, que influenciam a dinâmica do fósforo.
A pesquisa conduzida pela Embrapa, com participação de universidades e centros de pesquisa nacionais, busca justamente adaptar a tecnologia à realidade brasileira e viabilizar sua adoção em escala.
O avanço ocorre em linha com o Plano Nacional de Fertilizantes, que prevê a ampliação da produção interna e o desenvolvimento de fontes alternativas mais eficientes. Se confirmados os resultados em escala comercial, a estruvita tende a se consolidar como uma solução nacional para um dos principais gargalos estruturais da agricultura brasileira.
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