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Uso misto de bactérias e nitrogênio reduziria custo do milho em R$ 2,8 bilhões ao ano

O nitrogênio, ao lado do potássio e do fósforo, forma a trinca de macronutrientes primários que atuam no desenvolvimento vegetal conhecido como NPK.
Entre esses três elementos essenciais, contudo, o nitrogênio costuma ser o mais caro e o que demanda o maior investimento por parte do produtor rural. Ao mesmo tempo, também é o mais exigido pelas plantas, sendo fundamental para o crescimento, desenvolvimento das raízes, colaborando para a fotossíntese.
Se a fertilização nitrogenada é essencial para a maior parte da produção agrícola, ela não vem sem um custo. Sua eficiência raramente supera os 50% em virtude de perdas ocorridas nos processos de lixiviação, volatilização e desnitrificação. Ainda mais, o uso do adubo por períodos prolongados ou em doses excessivas pode acarretar em sérios impactos ambientais.
Assim, os bioinsumos têm se mostrado uma alternativa eficiente, sustentável e que coloca o Brasil na vanguarda. Um estudo da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) conseguiu demonstrar que o produtor de milho pode ter significativa economia com o uso de duas bactérias.
“Imagine você produzir uma cultura tão importante para o Brasil e para o mundo como a soja e, ao invés de aplicar 400 ou 500 quilos de fertilizante nitrogenado por hectare, você aplica uma bactéria capaz de tirar o nitrogênio da atmosfera e entregar para a planta em troca de alimento e proteção. Isso já acontece no Brasil há muitos anos, não é algo novo”, conta o professor do Departamento de Produção Vegetal da Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas (FCAT) da Unesp no câmpus de Dracena Fernando Shintate Galindo.
Segundo ele, nos últimos dez ou 15 anos houve uma evolução em metodologias e técnicas que têm permitido aos pesquisadores entender que existe uma infinidade de microrganismos que podem beneficiar outros cultivos além da oleaginosa.
Inoculação de bactérias no milho
Em um de seus trabalhos, publicado na revista Plant Biology, da BioMed Central (BMC), Galindo, ao lado de uma equipe de pesquisadores, buscou avaliar os benefícios da inoculação de duas bactérias ao mesmo tempo na cultura do milho: a Azospirillum brasilense, conhecida pela sua capacidade de fixar nitrogênio no solo e no estímulo ao crescimento da planta, e a Bacillus subtilis, promotora do crescimento radicular e capaz de atuar na resistência a pragas e doenças.
O trabalho durou cerca de dois anos e fez parte de um estágio de pós-doutorado com apoio da Fapesp. O ensaio de campo, realizado em três localidades diferentes, envolveu quatro configurações para o plantio do milho: um grupo controle, um grupo que recebeu apenas a aplicação da Azospirillum brasilense, um que recebeu apenas a aplicação de Bacillus subtilis, e por fim, um quarto grupo que recebeu ambos os microrganismos. Além disso, testaram-se diferentes taxas de aplicação de fertilizantes nitrogenados em cada grupo.
A partir de então, os pesquisadores acompanharam cada etapa do crescimento dos lotes para poder comparar as respostas fisiológicas e bioquímicas das plantas sob cada um dos cenários, incluindo parâmetros relacionados à fotossíntese, ao estresse oxidativo e ao uso do nutriente, como a sua capacidade de recuperar o nitrogênio do solo e aumentar a eficiência do seu uso.
Entre os principais resultados encontrados pela equipe está a confirmação de que o consórcio de bactérias, mesmo com algumas características distintas, juntamente com uma dose ideal de nitrogênio, foi capaz de melhorar a eficiência no uso do macronutriente, bem como foi capaz de promover o crescimento aéreo e radicular das plantas.
A inoculação combinada de Azospirillum brasilense e de Bacillus subtilis também teve efeito sobre parâmetros relacionados à fotossíntese, aumentando a captação e assimilação de CO2, a transpiração e a eficiência do uso da água, enquanto diminuiu o estresse oxidativo.
“Nesse estudo, nós observamos que de fato a inoculação complementa a adubação nitrogenada com excelentes resultados, mas não a substitui. E quando é aplicado muito nitrogênio associado a esses microrganismos, a atuação deles é prejudicada, como uma espécie de overdose”, compara Galindo. “É um balanço em que existe uma faixa ideal para a resposta da planta aos nutrientes e à coinoculação das bactérias”.
Os resultados indicaram que é possível reduzir ainda mais a ótima taxa de aplicação de nitrogênio dos convencionais 240 kg N/ha para 175 kg N/ha, reduzindo custos e ainda aumentando a produtividade do milho em 5,2%. Além disso, a fórmula reduziria a emissão de dióxido de carbono em 682,5 kg CO2e/ha.
Segundo o pesquisador do câmpus de Dracena, a redução de aproximadamente 25% na adubação nitrogenada na cultura do milho traria uma economia para o produtor de aproximadamente R$ 130 por hectare.
“Se nós extrapolarmos estes valores para um modelo hipotético considerando toda a área cultivada com milho no Brasil, que atualmente está em torno de 22 milhões de hectares, nós estamos falando de uma economia de cerca de R$ 2,86 bilhões anuais”, projeta o docente.
“Isso é o visível, aquilo que conseguimos mensurar. Existem ainda questões ambientais e climáticas que nós ainda não conseguimos mensurar tão bem, mas que precisam ser levadas em consideração”.
*Sob supervisão de Victor Faverin
Agro Mato Grosso
Colheita do milho entra na reta final e já alcança 96,8% da área em MT

Trabalhos avançam acima do ritmo da safra passada; produção deve atingir recorde de 57 milhões de toneladas, impulsionada por produtividade histórica
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China amplia presença no agro e pressiona indústria brasileira de máquinas

A presença de fabricantes chinesas de máquinas agrícolas no Brasil ganhou força e começa a redesenhar a concorrência no setor.
Levantamento da Cogo Inteligência em Agronegócio mostra que empresas do país asiático ampliam investimentos, estruturam operações locais e chegam ao mercado com tratores e colheitadeiras vendidos por preços entre 30% e 40% inferiores aos praticados pelas marcas tradicionais.
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Segundo o estudo, entre janeiro e junho de 2026, o Brasil importou US$ 200,4 milhões em tratores, o equivalente a 14.985 unidades. Desse total, 67% vieram da China. A consultoria atribui essa competitividade a fatores como escala de produção, menor custo do aço e mão de obra mais barata, o que permite às fabricantes chinesas produzir com custo até 27% inferior ao das empresas instaladas no Brasil.
Para o sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, Carlos Cogo, o movimento já ultrapassou a fase de simples importação.
“Estamos falando de fábrica anunciada, banco próprio operando e rede de distribuição em expansão acelerada. É uma ofensiva industrial completa, e o setor nacional precisa reagir com a mesma velocidade”, afirma.
Investimentos e expansão
O levantamento destaca que a fabricante chinesa YTO anunciou a instalação de uma fábrica em Caruaru (PE), com investimento estimado entre R$ 150 milhões e R$ 500 milhões. A unidade deverá produzir entre 100 e 120 tratores por mês a partir do fim de 2026. Outro projeto identificado pela consultoria prevê aporte de R$ 200 milhões e capacidade para fabricar 5 mil tratores por ano.
Outra frente de expansão está no financiamento. A XCMG já opera no Brasil com banco próprio, cuja carteira de crédito soma R$ 697 milhões e pode ser direcionada ao financiamento de máquinas agrícolas. Já a Zoomlion declarou como meta conquistar 10% do mercado brasileiro integrando a venda de equipamentos com serviços financeiros.
Desafio para a indústria nacional
De acordo com o estudo, o avanço chinês também já alcança outros segmentos, como o de colhedoras de algodão em Mato Grosso e o de colheitadeiras de grãos, utilizando a mesma rede comercial criada para os tratores.
O levantamento ressalta ainda que a estratégia dessas empresas segue um modelo já observado em outros setores da economia: começa com a importação, avança para a produção local e, posteriormente, busca acesso às linhas de financiamento disponíveis no país.
Na avaliação da consultoria, a resposta da indústria instalada no Brasil não deve se limitar à defesa comercial. Nesse contexto, a competitividade dependerá também de investimentos em tecnologia, qualidade dos produtos, pós-venda e oferta de crédito ao produtor rural.
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Mato Grosso inaugura o primeiro centro de treinamento em segurança do trabalho da América Latina

Trabalhadores de Mato Grosso passam a ter acesso a treinamentos que simulam situações reais de risco antes de chegar ao ambiente de trabalho. A estrutura foi inaugurada em Rondonópolis no dia 30 de junho e reúne 14 módulos voltados à segurança do trabalho, com equipamentos capazes de reproduzir ocorrências que vão de atividades em espaços confinados a situações envolvendo máquinas, eletricidade e trabalho em altura.
Dos 14 módulos especializados sete fixos e sete móveis. A proposta permite que parte dos treinamentos seja realizada dentro do próprio centro, enquanto os equipamentos móveis podem ser levados diretamente às empresas e a outras regiões do estado.
A iniciativa do Sesi Experience foi desenvolvida ao longo de mais de três anos pelo Sesi Mato Grosso e conta com a parceria da empresa sul-coreana Youngwoo Industry, responsável pela fabricação dos equipamentos.
O centro foi instalado em Rondonópolis pela importância do município para a indústria e para a agroindústria mato-grossense. A estrutura permite que o trabalhador tenha contato, de forma controlada, com situações de risco que poderá encontrar durante sua atividade profissional, antes de vivenciá-las no ambiente real.
Para o supervisor regional do Sesi Mato Grosso, Alexandre Serafim, a proposta representa uma mudança na forma de capacitar os profissionais. “Nasceu da necessidade de se inovar na forma de como o Sesi Mato Grosso entrega a capacitação dos trabalhadores da indústria. Não baseados somente em dados, números e ciência, além da parte teórica e prática, a gente trouxe a experimentação com simuladores”.

Experiência prática para prevenir acidentes
A mudança na forma de capacitar os profissionais está justamente na possibilidade de combinar conhecimento teórico e prático com a experimentação.
“Nós temos aqui simuladores de espaço confinado, que consegue colocar o trabalhador dentro de uma realidade que ele vai encontrar numa agroindústria ou numa fazenda, antes mesmo dele estar lá, só que de forma simulada e controlada”, explica Serafim ao Canal Rural Mato Grosso.
O treinamento permite que o trabalhador compreenda como agir diante de uma situação de risco sem estar exposto às consequências de um acidente real. A estrutura também trabalha a percepção diante de ocorrências que exigem resposta rápida.
“Aqui simulamos os acidentes para que o trabalhador tenha a percepção, que ele sinta e aprenda de verdade como que ele deve agir”, acrescenta.
Os treinamentos oferecidos no Sesi Experience abrangem dez Normas Regulamentadoras (NRs): NR-06, sobre Equipamentos de Proteção Individual; NR-10, relacionada a instalações e serviços em eletricidade; NR-12, sobre máquinas e equipamentos; NR-13, que trata de caldeiras, vasos de pressão, tubulações e tanques metálicos; e NR-17, voltada à ergonomia.
Também estão incluídas a NR-18, sobre segurança e saúde na indústria da construção; NR-20, para atividades com inflamáveis e combustíveis; NR-23, relacionada à proteção contra incêndios; NR-33, para trabalhos em espaços confinados; e NR-35, que trata de atividades realizadas em altura.

Estrutura acompanha avanço da indústria
A criação do centro ocorre em um momento de expansão da atividade industrial em Mato Grosso. De acordo com o Sistema Fiemt, nos últimos dez anos, o setor cresceu cerca de 40%, passando de aproximadamente 11,5 mil para 16,5 mil indústrias. O número de trabalhadores chegou a quase 198 mil no estado.
Para o presidente do Sistema Fiemt, Sílvio Rangel, o avanço da indústria aumenta também a necessidade de investir na preparação e na proteção dos profissionais. “Mato Grosso tem registrado nos últimos dez anos um dos maiores crescimentos da indústria no Brasil. Só isso já significa que a gente teria que cuidar também das pessoas que trabalham nas indústrias”, afirma à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Segundo ele, a proposta é associar a qualificação profissional à experiência prática. “É uma inovação que nós estamos fazendo aqui, porque além da parte teórica, a pessoa também vai aprender de uma forma diferente, vivenciar também uma experiência, monitorada de um acidente de trabalho”, destaca.
Rangel ressalta ainda que a estrutura amplia o olhar sobre a segurança dos trabalhadores em um estado cuja economia industrial vem ganhando espaço. “São diversos setores que estão aqui em cursos de qualificação, então realmente é importante, porque além da gente produzir muito, a gente passa a ter um olhar também para o nosso funcionário da indústria de Mato Grosso”.
A necessidade desse tipo de treinamento também aparece nos dados de acidentes de trabalho. Conforme informações da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o Brasil registrou 561,3 mil acidentes em 2025. Desse total, 196,4 mil ocorreram na indústria, o equivalente a 35% das ocorrências registradas no país.
No mesmo ano, foram contabilizados 2,4 mil óbitos decorrentes de acidentes de trabalho no Brasil, dos quais 885 ocorreram na indústria. Em Mato Grosso, foram 11.037 acidentes, sendo 4.268 no setor industrial, que concentrou 39% dos casos.

Simulações chegam a outras regiões
Além dos módulos fixos em Rondonópolis, a estrutura móvel permite levar os treinamentos para dentro das empresas. A estratégia amplia o alcance do Sesi Experience e permite adaptar a capacitação às necessidades de diferentes atividades e regiões do estado.
“Ele já nasce aqui com uma parte dele estacionária e parte móvel, então eu já consigo atender outras regiões”, explica Serafim.
O projeto também terá uma segunda etapa voltada especificamente ao setor agroindustrial. A previsão é de implantação de uma nova estrutura em um terreno do Sesi em Sorriso, com ambientes que reproduzam equipamentos e operações comuns ao setor.
“Nós já temos a fase dois do SESI Experience, que é agroindustrial, num terreno nosso em Sorriso, onde nós vamos construir silo, moega e tombador simulados para que o trabalhador vivencie dentro do nosso centro de experiência, antes mesmo de colocar os pés na agroindústria”, detalha Serafim.
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