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Não basta produzir, o agro precisa olhar para a geopolítica, diz especialista

Produzir bem já não é suficiente para garantir competitividade no agronegócio. Em um mundo cada vez mais influenciado por guerras, disputas comerciais e movimentos estratégicos entre países, entender a geopolítica passou a ser uma necessidade também para quem está dentro da porteira.
A avaliação é do cientista político Heni Ozi Cukier, conhecido como Professor HOC. Em Mato Grosso, ele defendeu que a geopolítica precisa fazer parte das estratégias do agronegócio, uma vez que decisões tomadas fora do Brasil afetam diretamente os custos de produção, o acesso a insumos, os mercados compradores e a rentabilidade das propriedades.
Na análise do especialista, olhar apenas para indicadores econômicos já não é suficiente para antecipar riscos. Questões como inflação, juros, fertilizantes e até a disponibilidade de determinados produtos estão ligadas a movimentos geopolíticos que ocorrem em diferentes regiões do mundo.
O tema foi discutido durante a 20ª edição do Circuito Aprosoja Mato Grosso, que percorre o estado promovendo debates sobre os desafios e as oportunidades para o setor.

Planejamento sob pressão
Enquanto finaliza a colheita de milho e algodão, a família Konageski já faz as contas para a próxima safra. A soja deverá ocupar 9,4 mil hectares, mas o cenário de custos elevados e margens apertadas exige cautela nas decisões.
O produtor Rodrigo Konageski afirma que a realidade do campo tem exigido planejamento cada vez mais rigoroso. Segundo ele, os custos seguem elevados, enquanto os preços recebidos pelos produtos permanecem pressionados pelo mercado internacional.
Nesse contexto, o agricultor defende que o momento não permite erros. “A tomada de decisão do produtor tem que ser bem consciente, para não inventar despesas desnecessária até você conseguir enxergar uma próxima oportunidade de investimento para frente”.
As preocupações também passam pelas incertezas que cercam o próximo ciclo produtivo. Além dos custos, produtores acompanham com atenção o comportamento do clima, da economia e da política.
Presidente do Sindicato Rural de Diamantino, Altemar Kroling observa que o setor convive com muitas indefinições. Conforme ele, a falta de previsibilidade dificulta o planejamento e aumenta a insegurança dos produtores. “A gente não tem certeza de nada do que vai ser daqui seis meses, e isso para o nosso setor é muito complicado”, frisa ao Canal Rural Mato Grosso.
Para Kroling, a política tem influência direta sobre o agronegócio e não pode ser ignorada por quem precisa tomar decisões dentro da propriedade. “A gente não tem como fechar os olhos para a política”.
Geopolítica dentro da porteira
Ao abordar o cenário global, Heni Ozi Cukier destacou que o agronegócio precisa ampliar seu campo de visão. Na avaliação dele, muitos dos desafios enfrentados atualmente pelo setor têm origem em acontecimentos que vão muito além das fronteiras brasileiras.
O cientista político cita como exemplo os impactos provocados por guerras, disputas comerciais e mudanças nas relações entre países. Segundo ele, esses fatores influenciam diretamente o preço dos insumos, dos fertilizantes e o comportamento dos mercados.
Por isso, defende que a geopolítica seja incorporada ao processo de tomada de decisão das empresas rurais. “O agro precisa entender que precisa incorporar na sua estratégia, no seu olhar para o mundo, esse olhar da geopolítica”, diz à reportagem.
Para o diretor da Aprosoja Mato Grosso, Gilson Antônio de Mello, o assunto deixou de interessar apenas aos produtores e passou a afetar toda a sociedade.
Conforme ele, conflitos internacionais e medidas como tarifas comerciais têm reflexos diretos sobre os preços de combustíveis e alimentos. “Estão alterando preços, principalmente de alimentos, combustíveis e isso afeta diretamente no consumidor”.

Diversificar para reduzir riscos
Outro ponto destacado durante o debate foi a forte dependência das exportações brasileiras em relação a poucos mercados compradores, especialmente a China.
De acordo com HOC, a parceria comercial com os chineses é positiva e continuará sendo importante para o agronegócio nacional. No entanto, ele avalia que o Brasil precisa discutir com mais atenção os riscos de uma concentração excessiva.
Na visão do cientista político, a diversificação de parceiros comerciais deixou de ser apenas uma estratégia econômica e passou a representar também uma questão geopolítica.
“O Brasil precisa ter uma relação comercial boa com todo mundo”, afirma. Para ele, o país precisa ampliar suas opções de mercado porque “a gente precisa diversificar, precisa encontrar outros parceiros”.
Vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso, Luiz Pedro Bier acredita que esse tipo de reflexão ajuda os produtores a enxergarem fatores que normalmente não fazem parte do cotidiano das propriedades.
Ele pontua que a contribuição do palestrante está justamente em apresentar uma visão mais ampla das relações políticas e econômicas globais. “Ele consegue trazer indagações que muitas vezes a gente não pensa”.
A avaliação é compartilhada pelo presidente do Sindicato Rural de São José do Rio Claro, Aparecido Rodrigues. Para ele, acompanhar a política é indispensável para quem atua no agronegócio. “Hoje o agronegócio é uma empresa e a política define tudo para nós”.
Circuito Aprosoja Mato Grosso percorre o estado
A 20ª edição do Circuito Aprosoja Mato Grosso já percorreu mais de cinco mil quilômetros e passou por 29 núcleos regionais, reunindo mais de 4 mil participantes.
Além de apresentar ações desenvolvidas pela entidade, o circuito tem servido para ouvir demandas dos produtores e promover discussões sobre os principais desafios enfrentados pelo setor em diferentes regiões do estado.
Para Luiz Pedro Bier, a iniciativa também permite compreender melhor a realidade da agricultura mato-grossense. “Vê os problemas e sente melhor qual a situação da agricultura no estado”.
Segundo ele, a proposta do circuito é justamente levar novas informações ao produtor rural e estimular debates que contribuam para a tomada de decisões no campo. “O circuito sempre vem com a intenção de trazer informação nova, trazer conhecimento novo”.
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Empresa contrata 200 profissionais para laboratórios de algodão

O Bureau Veritas abriu cerca de 200 vagas para atuação em seus laboratórios de classificação de fibra de algodão em Mato Grosso. As oportunidades são para os cargos de auxiliar de laboratório e operador de HVI (High Volume Instrument) e estão distribuídas entre cinco unidades da empresa no estado.
Líder no segmento de classificação de fibra, o Bureau Veritas responde por aproximadamente 65% do mercado brasileiro. A ampliação das equipes acompanha o crescimento da cotonicultura nacional. Segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deverá produzir cerca de 4 milhões de toneladas de pluma em 2026.
As vagas estão disponíveis nos municípios de Sapezal, Campo Novo do Parecis, Rondonópolis, Sorriso e Lucas do Rio Verde.
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Segundo o diretor de Agronegócios, Food e Commodities do Bureau Veritas no Brasil, Paulo Freire, Mato Grosso ocupa posição estratégica para a empresa devido à relevância da produção estadual de algodão.
“O estado possui produção comparável à dos maiores produtores de algodão do mundo e vem crescendo muito nos últimos anos. Ampliar nossos times locais é essencial para acompanharmos a demanda crescente por serviços técnicos, com qualidade, agilidade e confiabilidade”, afirma.
Funções
Os auxiliares de laboratório serão responsáveis pela organização, conferência e identificação das amostras de algodão, além do registro de informações nos sistemas e da correta vinculação das amostras aos respectivos clientes e análises.
Já os operadores de HVI atuarão na operação dos equipamentos High Volume Instrument, tecnologia utilizada para avaliar as características da fibra de algodão. Entre as atividades estão a calibração e ajustes básicos das máquinas, acompanhamento das análises, monitoramento dos resultados, controle da rastreabilidade do processo e conservação dos equipamentos, seguindo os padrões de qualidade e segurança.
Benefícios e inscrições
Os profissionais contratados terão acesso a benefícios como vale-alimentação e Wellhub.
O processo seletivo é realizado de forma online, e as inscrições podem ser feitas pelo site da empresa.
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A dívida do Brasil cresce. Onde está o problema?

As notícias deste fim de semana voltaram a chamar a atenção para o avanço da dívida pública brasileira. É um tema que merece preocupação. Mas o verdadeiro desafio não está apenas no volume da dívida. Está, principalmente, no preço que o Brasil paga para financiá-la.
O custo dos juros já consome uma parcela gigantesca da riqueza nacional. Em vez de direcionar recursos para infraestrutura, logística, educação, inovação e aumento da produtividade, o país destina uma fatia crescente de sua capacidade financeira ao serviço da dívida.
A conta que reduz o crescimento
O Brasil convive com uma das maiores taxas reais de juros do planeta. Isso significa que o Tesouro Nacional precisa oferecer um prêmio elevado para captar recursos, refletindo a percepção de risco sobre a economia.
A dívida, por si só, não explica esse fenômeno. Diversos países possuem níveis de endividamento superiores ao brasileiro e conseguem financiá-los pagando juros muito menores. A diferença está na confiança que inspiram, na previsibilidade das políticas públicas e na solidez de suas instituições.
O orçamento perdeu capacidade de investir
Outro aspecto pouco discutido é a rigidez das contas públicas.
Hoje, a maior parte da arrecadação federal já está comprometida com despesas obrigatórias. O espaço para investimentos tornou-se extremamente reduzido. Dos recursos discricionários restantes, parcela significativa é destinada às emendas parlamentares, que cumprem função política relevante, mas frequentemente se distribuem em milhares de iniciativas de alcance local, com impacto limitado sobre a produtividade da economia.
O resultado é um Estado que investe pouco justamente onde poderia aumentar a competitividade do país.
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O capital segue os incentivos
O investidor faz uma conta simples.
Se os títulos públicos oferecem remuneração elevada e praticamente sem risco de crédito, muitos investimentos produtivos deixam de ser competitivos. Projetos industriais, logísticos, agropecuários e de infraestrutura passam a exigir retornos cada vez maiores para compensar o custo do capital.
Juros elevados deixam de ser apenas um problema do governo. Tornam-se um freio ao crescimento de toda a economia.
Discutimos os efeitos e esquecemos as causas
Ao longo de décadas, o Brasil acumulou despesas obrigatórias, renúncias tributárias, subsídios, vinculações orçamentárias e uma estrutura fiscal extremamente rígida. Sempre que a atividade desacelera, a resposta costuma ser ampliar benefícios, criar exceções ou buscar soluções de curto prazo.
O resultado é uma política econômica que frequentemente exige do Banco Central juros elevados para preservar a estabilidade de preços, enquanto o mercado incorpora um prêmio maior para financiar o Estado.
Forma-se um círculo vicioso: o risco aumenta, os juros sobem, a dívida fica mais cara e o próprio custo da dívida alimenta novas preocupações fiscais.
O debate que o Brasil adia
Talvez esteja na hora de mudar a pergunta.
Em vez de discutir apenas quanto a dívida cresceu, deveríamos perguntar por que o Brasil continua sendo um dos países mais caros do mundo para financiar o próprio Estado.
Essa é uma discussão que sucessivos governos e diferentes Legislaturas adiaram. A agenda de reformas estruturais quase sempre perde espaço para prioridades de curto prazo, disputas políticas e decisões voltadas ao próximo ciclo eleitoral. Enquanto isso, permanecem intocados os fatores que elevam o risco, encarecem o crédito e limitam a capacidade de investimento do país.
O Brasil precisa de um projeto nacional que sobreviva aos mandatos, fortaleça a responsabilidade fiscal, simplifique o Estado, aumente a produtividade e devolva confiança ao investidor.
Enquanto continuarmos administrando apenas as consequências, a dívida continuará crescendo. E, mais grave do que seu tamanho, continuará crescendo o preço que os brasileiros pagam por ela.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
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‘O Brasil tem muito para mostrar de uma nova agricultura’, diz representante da FAO

Embora o Brasil seja reconhecido mundialmente como uma potência na produção de alimentos, o país ainda precisa comunicar melhor os avanços da agropecuária em sustentabilidade. A avaliação é do representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Jorge Meza, que defendeu uma atuação mais estratégica do setor para fortalecer sua credibilidade no cenário internacional.
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Durante palestra promovida pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), Meza afirmou que o desafio não está apenas em mostrar o volume da produção agrícola, mas em evidenciar como os alimentos são produzidos e quais avanços vêm sendo alcançados nas áreas ambiental e social.
“Tem muito para mostrar o Brasil de uma nova agricultura”, afirmou. “É uma potência agroalimentar produtora, mas esses esforços de ser mais ambientalmente adequada e socialmente adequada precisam ganhar mais ênfase na comunicação.”
Produção é reconhecida, mas imagem pode avançar
Segundo Meza, a capacidade produtiva do agronegócio brasileiro já é amplamente conhecida pelos países importadores e por organismos internacionais. Para ele, o próximo passo é consolidar uma narrativa baseada em evidências sobre a evolução das práticas sustentáveis adotadas pelo setor.
Na avaliação do representante da FAO, o Brasil deve participar de forma mais ativa das discussões internacionais sobre mudanças climáticas, biodiversidade e desenvolvimento sustentável, apresentando propostas e demonstrando como a agropecuária pode contribuir para enfrentar esses desafios.
“O setor agrícola tem que desembarcar muito mais forte nessa discussão”, afirmou. Segundo ele, além de fazer parte do debate, o agro também é um dos segmentos mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas.
Dados científicos fortalecem a narrativa
Ao responder perguntas dos participantes do evento, Meza afirmou que uma comunicação eficiente depende da construção de indicadores sólidos e reconhecidos internacionalmente.
Para ele, estudos isolados ou experiências pontuais não são suficientes para responder aos questionamentos feitos por consumidores e governos de outros países. O caminho, segundo o representante da FAO, passa pela produção de dados consistentes que permitam demonstrar a evolução da agropecuária brasileira em aspectos como emissões de carbono, conservação ambiental, biodiversidade e adoção de tecnologias sustentáveis.
Na avaliação de Meza, uma base científica construída de forma coordenada entre governo, setor privado e academia teria mais força para sustentar a imagem do agro brasileiro.
“Tendo isso, quem poderia falar o contrário contra o produto Brasil?”, questionou ao defender que a narrativa seja construída sobre evidências, e não apenas sobre percepções.
Proposta é criar indicadores internacionais
Como exemplo, Meza sugeriu que o governo brasileiro proponha, no âmbito da FAO, a criação de uma metodologia internacional para medir a sustentabilidade da agropecuária.
A ideia seria desenvolver indicadores aceitos globalmente para acompanhar temas como redução do desmatamento, uso de bioinsumos, emissões de carbono, conservação da água e proteção da biodiversidade. Segundo ele, métricas padronizadas dariam mais transparência às discussões e permitiriam comparar a evolução dos países com base em critérios técnicos.
“O governo do Brasil poderia solicitar aos outros países membros da organização que se estabeleça um sistema para medir a sustentabilidade do setor agropecuário”, afirmou.
Para Meza, iniciativas desse tipo ajudariam a reduzir disputas de narrativa e fortaleceriam a posição brasileira em negociações e fóruns internacionais, ao demonstrar de forma objetiva os avanços alcançados pela agropecuária nacional.
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