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3 de agosto de 2026

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Força-tarefa no campo: chuva e atraso pressionam milho no Sul de Mato Grosso

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A colheita da soja e o plantio do milho segunda safra em Mato Grosso se transformaram em uma verdadeira corrida contra o tempo. No Sul do estado, as chuvas irregulares e o prolongamento do ciclo de algumas variedades de soja estão travando o ritmo das máquinas e empurrando a semeadura do cereal para uma janela climática de alto risco. O cenário exige uma força-tarefa dentro das propriedades para evitar perdas ainda maiores na rentabilidade da temporada.

Em Jaciara, o agricultor Rogério Berwanger enfrenta dificuldades para dar ritmo aos trabalhos, com metade dos 1.720 hectares de soja ainda pendentes de retirada. A preocupação central é que a umidade excessiva concentre a maturação das áreas, fazendo com que todos os talhões precisem de colheita simultânea sob o risco das famosas chuvas de março. Berwanger explica que o clima prejudicou o início e, após uma trégua, as precipitações voltaram, alongando o ciclo das variedades.

“São áreas que vão chegar todas juntas e março é um mês ainda de muita chuva. Estamos entrando aí, quase na segunda quinzena de março, onde sempre tem a enchente de ‘São José’, que é famosa por todos os anos”, afirma o produtor ao projeto Mais Milho. Ele destaca que a apreensão com o clima é constante neste final de colheita para toda a região Sul mato-grossense.

Janela do milho de risco

O atraso na retirada da soja impacta diretamente o cronograma do milho, deixando parte da área de segunda safra sob o que os produtores chamam de “loteria climática“. Berwanger pontua à reportagem do Canal Rural Mato Grosso que o sucesso da safra agora é incerto e depende exclusivamente de um alongamento do período chuvoso.

“Se o tempo ajudar igual ao ano passado… Mas, é uma loteria. Se a chuva se alongar, ainda consegue talvez fazer uma boa safra, mas é bem arriscado. Já se a chuva cortar em abril, há talhões que não irão pegar nenhuma água”, explica.

milho juína foto pedro silvestre canal rural mato grosso
Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Nas fazendas da região, o domingo tornou-se dia de plantão, com equipes prontas para entrar em campo a qualquer sinal de sol para tentar finalizar o plantio. A situação é de alerta geral, já que o atraso não é um caso isolado e atinge grande parte dos agricultores locais que ainda lutam para vencer o calendário. A corrida contra o tempo visa diminuir os prejuízos de uma safra que já começa pressionada pela irregularidade das chuvas e pelo excesso de umidade no solo.

Além do clima, a repentina alta no preço do óleo diesel, impulsionada por conflitos internacionais, trouxe uma nova camada de incerteza financeira para o produtor. Em apenas uma semana, o combustível subiu entre R$ 1,00 e R$ 1,50, elevando drasticamente o custo operacional das máquinas em um momento de uso intenso. Berwanger classifica a situação como um “absurdo” que retira qualquer previsibilidade do setor, afetando toda a cadeia alimentar e de transporte de mercadorias.

“O oportunismo sempre aparece nessas situações, mais um sofrimento para o produtor rural que já está com a colheita atrasada, clima difícil e lavouras perdidas por excesso de chuvas. O país não tem estabilidade”, lamenta o agricultor. Para ele, o impacto é gigantesco entre colheita e plantio, deixando o campo sem segurança para investir e produzir.

Alerta na produtividade

Mesmo quem conseguiu avançar com o milho monitora o desenvolvimento das plantas, que já sofreram com veranicos pontuais na última semana. O produtor Jorge Schinoca relata que a falta de chuva regular fez com que as folhas do milho “enrolassem” em algumas áreas, sinalizando um estresse hídrico precoce que preocupa para o futuro da safra.

“Tivemos um veranico de uns oito, quase dez dias na semana passada. A expectativa é que essa chuva dê uma esticadinha, em abril, maio”, projeta Schinoca, que observa milharais em diferentes estágios de desenvolvimento, inclusive alguns ainda nascendo.

De acordo com o levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a semeadura do milho em Mato Grosso atingiu 93,68%, mas o ritmo geral segue 2,76 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período da temporada passada.

A região Sudeste lidera o atraso, com uma diferença negativa de 7,69 pontos percentuais em comparação com a safra anterior. Esses dados reforçam a preocupação de que o ciclo do milho seja concluído em um período de escassez hídrica, afetando o peso final dos grãos.

O diretor da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Diego Bertuol, alerta que o plantio tardio em março traz o risco adicional da lixiviação, onde o excesso de água “lava” os fertilizantes aplicados.

“A janela ideal para a segunda cultura do milho aqui em Mato Grosso já se passou, mas o produtor vai ter de 10 a 15 dias plantando para conseguir”, analisa em entrevista ao Canal Rural Mato Grosso. Bertuol complementa que toda a tecnologia e adubação aplicadas podem não trazer resultado em grandes produções se faltar chuva no enchimento pleno do milho lá na frente.

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Europa pode fechar uma porta, a Ásia pode abrir várias

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Foto: Porto de Paranaguá

A decisão da União Europeia de manter suspensas as compras de carne bovina brasileira por, no mínimo, dois anos representa um desafio para o setor. O motivo está ligado às exigências europeias sobre o controle de antimicrobianos na produção animal, um tema que ganhou importância crescente no comércio internacional.

É um revés para um mercado tradicional e de elevado valor agregado. Mas seria um erro analisar essa notícia apenas pelo lado negativo.

Ela também reforça uma necessidade que o Brasil já deveria ter transformado em estratégia: ampliar o número de destinos para a carne bovina nacional.

O centro do mercado mundial mudou

Durante muitos anos, a Europa ocupou posição de destaque entre os compradores da carne brasileira. Hoje, porém, o eixo do consumo mundial está cada vez mais concentrado na Ásia.

A China tornou-se, com ampla vantagem, o maior destino das exportações brasileiras. Ao lado dela estão mercados importantes como Hong Kong, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Israel, Filipinas, Singapura, Malásia, Vietnã, Jordânia, Kuwait, Catar, Omã e Líbano.

Essa mudança não é circunstancial. Ela acompanha o crescimento populacional, o aumento da renda e a expansão do consumo de proteínas em boa parte do continente asiático.

As próximas fronteiras

Dois mercados permanecem como prioridades para a pecuária brasileira: Japão e Coreia do Sul.

São países com elevado poder de compra, consumidores tradicionais de carne bovina e que ainda mantêm restrições sanitárias à carne in natura produzida no Brasil.

A abertura desses mercados reduziria a concentração das exportações na China e ampliaria significativamente as oportunidades para toda a cadeia pecuária.

Outro fator que merece atenção é a situação dos Estados Unidos. O país atravessa um dos menores ciclos de oferta bovina de sua história recente, resultado da redução do rebanho e dos efeitos prolongados da seca. Dependendo da evolução desse cenário e das condições comerciais, os americanos poderão ampliar suas importações de carne, abrindo mais uma oportunidade para o Brasil.

O desafio agora é adaptar-se

O mercado internacional tornou-se cada vez mais exigente.

Questões sanitárias, ambientais e de rastreabilidade deixaram de ser diferenciais para se transformar em requisitos básicos para acessar os principais compradores do mundo.

Nesse aspecto, a pecuária brasileira possui uma vantagem importante. O setor alcançou elevado grau de profissionalização, incorporou tecnologia, aumentou a produtividade e demonstrou capacidade de responder rapidamente às exigências dos mercados internacionais.

Na questão dos antimicrobianos, por exemplo, o Brasil já está reforçando seus controles e adequando seus protocolos para atender às exigências dos países importadores.

Competitividade também se constrói

A discussão não deve ser apenas sobre recuperar o mercado europeu.

Ela deve servir para acelerar a abertura de novos mercados e consolidar a imagem da carne brasileira como uma das mais competitivas, seguras e eficientes do mundo.

Quem depende de poucos compradores fica mais vulnerável às mudanças de regras. Quem amplia mercados ganha estabilidade, reduz riscos e fortalece toda a cadeia produtiva.

A Europa continua sendo importante. Mas o futuro da pecuária brasileira dependerá cada vez mais da capacidade de conquistar novos clientes, atender padrões sanitários cada vez mais rigorosos e transformar qualidade em vantagem competitiva. Esse é o caminho para que o Brasil continue sendo uma potência mundial da carne, independentemente das portas que eventualmente se fechem.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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Colheita do milho deve ser encerrada nos próximos 15 dias, estima Imea

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A colheita do milho segunda safra 2025/26 em Mato Grosso deve encerrar nos próximos 15 dias. A estimativa é do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) diante dos trabalhos observados na região Sudeste que se encontram em 85,61%. Até o dia 31 de julho as máquinas haviam passado por 96,77% da área semeada no estado.

Na semana o avanço da média estadual foi de 6,11 pontos percentuais, sendo a região Sudeste com o maior dentre as que cultivam o cereal. Por lá, o progresso semanal foi de 18,02 pontos percentuais.

A analista do Imea, Milena Bezerra, explica que o desempenho observado na variação semanal no Sudeste do estado foi impulsionado pela intensificação das operações em áreas que atingiram o ponto ideal para a retirada dos grãos.

“Nessas áreas remanescentes, muitos produtores aguardam a redução da umidade dos grãos para facilitar a armazenagem. Nas próximas semanas, a expectativa é de encerramento da colheita na maior parte do estado, com exceção da região Sudeste, que deve demandar um pouco mais de tempo”, pontua a analista.

As regiões mais próximas da conclusão são a Médio-Norte com 99,67%, Norte com 99,47%, Nordeste 98,75% e Noroeste 98,01%. Caso as condições climáticas não atrapalhem, também devem encerrar os trabalhos nos próximos dias o Oeste (96,32%) e Centro-Sul (96,27%).

Em comparação a colheita da temporada 2024/25, os trabalhos da atual estão 0,39 ponto percentual à frente, contudo atrás da média das últimas cinco safras de 97,11%.


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Quando o preço cai na roça, quanto tempo leva para chegar ao seu prato?

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Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

Quem acompanha o mercado todos os dias acaba percebendo algumas coisas que passam despercebidas para quem está olhando somente o preço no supermercado. Uma delas sempre me chamou a atenção. Quando o preço de determinado alimento começa a subir na origem, a transmissão dessa alta costuma ser bastante rápida.

Às vezes o produto nem subiu tanto ainda, mas a notícia de que poderá faltar, de que a safra será menor ou de que os preços estão reagindo já começa a percorrer a cadeia. O atacado reage, compradores se movimentam e pouco tempo depois o consumidor percebe a mudança na gôndola.

Agora faça o caminho contrário. Quando o preço cai na roça, principalmente quando cai bastante, essa velocidade parece ser outra. E não estou dizendo aqui que necessariamente alguém está ganhando mais ou fazendo algo errado. Seria simplificar demais uma cadeia que envolve transporte, classificação, embalagem, impostos, estoques comprados anteriormente, perdas, custo financeiro, distribuição e margem. Tudo isso existe e precisa ser levado em consideração.

Mas existe uma pergunta que considero absolutamente justa e que nós, consumidores, fazemos pouco: se caiu na roça, quanto tempo demora para cair no supermercado?

Eu acompanho isso muito de perto no Feijão e talvez por isso essa questão tenha ficado ainda mais evidente para mim. Há momentos em que o Feijão perde R$ 50, R$ 80 ou até mais por saca em um período relativamente curto na origem. O produtor sabe. O comprador sabe. Quem acompanha o mercado sabe.

Mas será que o consumidor percebe essa queda na mesma intensidade e, principalmente, em quanto tempo? É justamente isso que precisamos começar a medir.

E não somente no Feijão. Também Arroz, carne bovina, carne suína, frango, ovos, verduras e legumes. No fundo estamos falando daquilo que milhões de brasileiros conhecem muito bem: o nosso prato feito. Imagine acompanhar quanto custa preparar praticamente o mesmo prato em Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Não uma vez por ano. Toda semana.

Quanto custa o arroz? Quanto custa o Feijão? E a carne? O frango? O ovo? Na semana seguinte fazemos novamente a mesma conta e, em paralelo, acompanhamos o que está acontecendo no campo.

Com o passar do tempo teremos condições de enxergar algo muito mais interessante do que simplesmente dizer que o alimento está caro ou barato. Poderemos começar a medir quanto tempo uma alta ou uma queda leva para sair da origem e chegar efetivamente ao consumidor. Isso pode nos trazer algumas surpresas. Pode inclusive mostrar que algumas percepções que temos hoje estão erradas.

Talvez determinados alimentos transmitam rapidamente tanto a alta quanto a queda. Outros podem demorar semanas. Em alguns casos, o problema poderá estar no estoque comprado anteriormente. Em outros, na logística. E poderá haver situações em que simplesmente não encontraremos uma explicação tão evidente. Mas teremos números para discutir. E isso é muito melhor do que trabalhar com impressão.

Há ainda outro lado dessa história que considero importante. Muitas vezes o produtor vê seu produto cair fortemente de preço e, pouco depois, escuta alguém dizer que aquele mesmo alimento continua caro no supermercado. Imagine a sensação de quem está recebendo menos na roça e sendo apontado, ainda que indiretamente, como responsável pela comida cara. Precisamos conseguir enxergar melhor esse caminho.

Hoje temos tecnologia e informação para fazer isso. Os supermercados publicam suas ofertas, temos preços agrícolas sendo divulgados diariamente, dados oficiais de produção, inflação, exportação, abastecimento e clima. Dá para começar a juntar essas pontas.

Por isso, estamos estudando criar um acompanhamento do custo do prato feito em algumas capitais brasileiras. Começaremos pequeno e com cuidado. Não quero apresentar uma verdade depois de duas ou três semanas de números. Mercado não funciona assim. Precisamos construir uma série, observar, comparar e aprender com ela.

Mas tenho uma convicção: o consumidor precisa acompanhar mais de perto o preço daquilo que coloca no carrinho.

Não somente quando sobe, mas principalmente quando cai. Porque talvez uma das perguntas mais interessantes sobre o preço dos alimentos não seja apenas quanto estamos pagando hoje. É outra: se já caiu lá na roça, quando vai cair aqui no meu prato?

*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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