Agro Mato Grosso
Do comércio à agricultura, para Arlindo Cancian o mais importante foi ter persistência MT

O produtor de Canarana construiu uma vida de trabalho e legado familiar no coração do agro mato-grossense
Arlindo conta que chegou à região sem experiência agrícola. Depois de atuar com comércio, caminhão e revenda de insumos, comprou sua primeira terra em sociedade com o irmão, Luiz Cancian (in memorian), que lhe foi um grande incentivador, até adquirir a área em que está hoje. “Juntamente com a minha família, trabalhava numa madeireira. Quando meu pai faleceu em 1978, eu já tinha vindo uma vez para a Canarana em 1977 e depois que ele se foi, eu e minha esposa acabamos por vir morar aqui. Trabalhamos com papelaria, bazar, eu trabalhei com revenda de adubo e de implementos, e caminhão. Depois, em 1984, eu comprei uma terra com meu irmão, mas algum tempo depois eu comprei a parte dele e troquei a terra por essa área próxima da cidade”, lembra.
Os primeiros anos foram difíceis. Arlindo se dividia entre a lavoura e o trabalho com caminhão para equilibrar as finanças. “Eu comecei o plantio aprendendo como fazer, passamos várias dificuldades, altos e baixos em planos agrícolas e em preço de produto, produtividade e adequação de semente. Na época nós trouxemos sementes de soja até do Rio Grande do Sul. Nunca me esqueço, era tudo muito difícil, plantava 79 hectares e colhia na faixa de 30 a 40 sacas. Porém, os compromissos que a gente fez, eu tinha outras coisas que eu fazia, como o caminhão, e ganhava mais ou menos bem para ajudar a pagar a dívida no banco”, explica.
A dedicação deu frutos. Casado desde 1977, Arlindo se emociona ao falar da esposa, dos filhos Piero e Letícia, e do papel da família em sua trajetória. Hoje, ele e o filho estão juntos na lida do campo. Com um modelo de produção diversificado, eles trabalham com até quatro culturas por ano, como soja, milho, gergelim e a pecuária.
“Graças a Deus, a gente conseguiu evoluir e melhorar, sempre fazendo a coisa certa e com pé no chão. Eu digo para o meu filho que o importante é a gente fazer corretamente. Não adianta, às vezes, querer dar um passo maior e não conseguir atender os compromissos. De lá para cá, as coisas foram mudando e hoje, com a tecnologia, inclusive com tudo que a Aprosoja MT tem feito pelo produtor, temos um conhecimento melhor para poder tocar a lavoura”, salienta.
Entre as lições que aprendeu ao longo da vida, a de honrar os compromissos ele aprendeu com o pai. “Sempre falo que quando for levantar o pé, é importante deixar o rastro limpo. Lembro que em um domingo, perdi o horário de buscar o pai. Quando eu acordei, já eram 8h10 e a missa era às 8h. Eu peguei um fusca amarelo que eu tinha, dirigi cinco quadras e o pai já estava vindo. Quando eu parei o fusca, falei: ‘Pai, eu lhe levo à missa’. Ele olhou para mim e disse assim: ‘Não precisa, agora eu vou a pé’. Essa foi a surra que eu tomei do meu pai, você vê como a gente tinha vergonha na cara. Hoje eu vejo muitos filhos que pegam outros rumos, mas é bom quando um pai tem os filhos que acompanham, os filhos dizendo ‘eu te amo’ e a gente também”, recorda emocionado.
Tudo o que vivenciou ao longo de sua história fez com que atingisse suas conquistas pessoais, mas também, agregasse em entidades locais e do setor agrícola, contribuindo para que o Vale do Araguaia deixasse de ser o Vale dos Esquecidos. Entre tantas lidas, foi presidente do sindicato rural do município e 2º diretor administrativo da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT). “Em tantos anos de Canarana eu fui uma pessoa que quis agradecer aquilo que eu conquistei aqui. Então, em todas essas coisas, aprendi e troquei muitas ideias com pessoas de outros locais. Isso foi motivando, abre a cabeça, dá força para continuar e por isso nós estamos aqui. Eu pensava que, após sair das entidades, eu iria arrendar a minha terra, mas nós arrendamos a do Piero e ficamos aqui. Eu não quis arrendar porque eu preferi ficar, exatamente por ter a família junto ajudando”, conta.
Para Arlindo uma de suas maiores alegrias é saber que construiu um legado junto à família que permanecerá para as próximas gerações. “Minha esposa, meu filho e minha filha são meus braços direitos. Isso me deixa feliz e orgulhoso por saber que vai ter continuidade. Tem tanta coisa que marca a vida da gente, mas o que mais me marcou foi ter vindo para um local onde a gente não sabia o que iria encontrar e o que fazer, pois eu mexia com madeireira. Essas coisas vão deixando a gente chegar a encarar e tem que encarar, porque ou você encara ou volta para aquilo que você saiu, mas eu quero crescer. Então, o que mais me marcou é a família ter ficado unida e a gente ter, graças a Deus, vencido. Acredito que isso é o mais importante, a persistência”, finaliza.
Aos 70 anos, o produtor Arlindo Cancian é um dos exemplos de que o desenvolvimento se constrói com o suor, a humildade e as raízes firmes no campo, com a missão de contribuir com a sociedade através da produção de alimentos.
Vitória Kehl Araujo
Agro Mato Grosso
VÍDEO: ‘porcos selvagens’ invadem quintal de casa e colocam moradores para correr em MT

Câmera de segurança registrou o momento em que o bando entrou no imóvel, em Querência. Apesar do susto, ninguém ficou ferido, mas especialista alerta que a espécie pode atacar pessoas e outros animais quando se sente ameaçada.
Um bando com mais de 40 queixadas, conhecidos popularmente como porcos-do-mato ou porcos selvagens, invadiu o quintal de uma casa e assustou os moradores no assentamento Brasil Novo, em Querência, a 912 km de Cuiabá, na última semana. Câmeras de segurança registraram o momento em que os animais entram na propriedade em meio aos latidos dos cachorros e gritos de desespero (assista abaixo).
Apesar da cena impressionante, ninguém ficou ferido e os animais não provocaram danos à propriedade. A dona da casa, Elenice Paes Cardoso, contou que a presença dos queixadas é comum na região, mas nunca havia presenciado uma invasão como essa.
“A gente ficou desesperado, com medo, nunca tinha visto tão de perto”, relatou.
Segundo Elenice, a reação de um dos cachorros pode ter atraído o grupo para dentro do quintal. “Tinha uma cachorra da minha sogra lá que não tem costume com essa espécie. Ela foi para cima e eles vieram”, explicou.
Embora o episódio tenha terminado sem ataques, o desfecho poderia ter sido diferente. De acordo com o biólogo Henrique Abrahão Charles, os queixadas podem reagir de forma agressiva quando se sentem ameaçados, principalmente se estiverem em grandes grupos.
“Podem atacar tanto cachorro quanto pessoas. Não é bom ficar no caminho, não. Podem inclusive matar outros animais caso haja conflito”, alertou.
O tamanho do bando também chamou atenção. Conforme o especialista, os queixadas vivem em grupos numerosos, normalmente com cerca de 50 indivíduos, mas há registros de bandos que ultrapassam 200 animais.
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”Porcos selvagens’ invadem quintal de casa e colocam moradores para correr em MT — Foto: Reprodução
Queixadas não são porcos
Apesar de serem conhecidos popularmente como porcos-do-mato ou porcos selvagens, os queixadas (Tayassu pecari) não pertencem à mesma família dos porcos. Eles são mamíferos da família dos taiaçuídeos, grupo nativo das Américas, assim como os catetos.
A espécie possui pelagem escura, com uma característica faixa esbranquiçada na região do queixo, pesa cerca de 30 quilos e ocorre em praticamente todo o território brasileiro. Para sobreviver, depende de grandes áreas contínuas de vegetação preservada, que podem chegar a sete mil hectares, além da presença de riachos e matas.
Espécie enfrenta risco de desaparecimento
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O queixada ( Tayassu pecari ) é uma espécie encontrada na América Central e do Sul e o único membro do gênero Tayassu. — Foto: Projeto Hapia/Carlos Tuyama
Embora ainda seja encontrada em diferentes regiões do Brasil, a população de queixadas vem diminuindo devido à destruição do habitat provocada pelo desmatamento, queimadas e pela caça ilegal para comercialização da carne.
Há alguns anos, a espécie está classificada como “Criticamente em Perigo” na Mata Atlântica, “Em Perigo” no Cerrado e “Vulnerável” no Brasil, conforme avaliações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
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Agro Mato Grosso
Em Jaciara, Celestino Piotto continua legado familiar e cultiva paixão de alimentar o mundo

Aos 60 anos, o produtor rural de Jaciara carrega a história iniciada pelo avô e encontra na agricultura uma missão de vida que atravessa gerações
Muito antes de assumir a administração da propriedade rural em Jaciara, a trajetória de Celestino Piotto já havia começado pelas mãos do avô, que chegou à região no ano de 1950 acreditando no potencial da terra mato-grossense. Nove anos depois, parte da fazenda foi loteada para incentivar a colonização da região, ajudando a formar uma comunidade de produtores que, assim como a família Piotto, enxergavam no campo a oportunidade de construir uma vida.
Foi nesse ambiente que Celestino cresceu, enquanto o pai, vindo do interior de São Paulo, trazia consigo a experiência adquirida nas lavouras de café e os avós dedicavam-se à pecuária. Aos poucos, a família abriu novas áreas, formou pastagens, criou gado e iniciou o cultivo agrícola. O trabalho se tornou parte da rotina e, naturalmente, da identidade familiar.
Mesmo durante o período em que estudava em Cuiabá, nunca deixou de voltar para a fazenda nas férias. “Eu estudava em Cuiabá, mas nas férias de julho e de dezembro estava sempre aqui. Ficava junto do meu pai o tempo todo, acompanhando o trabalho. Sempre gostei disso.”
A decisão de permanecer no campo veio de forma espontânea. Em 1985, ao concluir os estudos, retornou definitivamente para a propriedade. O pai continuou cuidando das questões burocráticas, enquanto Celestino e o irmão passaram a conduzir as atividades da fazenda. Anos depois, o irmão mudou-se para Vila Bela da Santíssima Trindade, e Celestino permaneceu à frente do negócio da família. “Nunca pensei em desistir. Jamais. Isso aqui sempre foi a minha vida”, comenta.
Mais do que um local de trabalho, a fazenda representa a continuidade de uma história construída por várias gerações. Uma responsabilidade que, segundo ele, vai além da administração da propriedade, mas trata-se de preservar um legado. Para Celestino, esse legado nasce dentro de casa.
“Meu pai e minha mãe são o nosso esteio. São eles que nos ensinaram os valores que carregamos até hoje. A gente se espelha neles em tudo. Depois vem a família que construímos, a esposa, os filhos; é isso que dá sentido para continuar”, afirma.
Casado há 34 anos, ele divide a vida com a esposa e celebra a trajetória das três filhas: uma nutricionista, uma gastrônoma e a caçula, que cursa Medicina. Embora nenhuma delas esteja diretamente ligada à produção rural, Celestino fala da sucessão com naturalidade e esperança. “Minha mãe sucedeu meu avô, eu sucedi meus pais e agora precisamos fazer a sucessão para frente. Esse é o caminho. É assim que o legado continua.”
Ao olhar para trás, percebe que o amor pela agricultura nunca esteve ligado apenas ao trabalho. Está relacionado ao propósito que encontrou na atividade. “Eu sinto muito orgulho de ser produtor rural. O planeta depende de nós. Assim como dependemos da chuva para produzir, as pessoas dependem daquilo que sai da nossa terra. Se a gente não produzir alimento, ele não aparece na gôndola do supermercado, nem dentro do freezer. Alguém precisa colocar a mão na massa, plantar e colher.”
Essa consciência faz com que veja a agricultura como uma das atividades mais essenciais para a humanidade. “Acho que, depois de Deus, o nosso maior compromisso é produzir alimentos. Todo mundo depende disso. Sem a agricultura, não existe vida.”
A fé também ocupa um lugar central na sua caminhada. É ela que fortalece o produtor diante das incertezas naturais da atividade e o lembra diariamente do verdadeiro significado do trabalho. Para Celestino, prosperar nunca significou acumular riquezas. “Nosso objetivo não é ser melhor do que ninguém ou enriquecer a qualquer custo. É prosperar, trabalhar com dignidade e alcançar nossos objetivos fazendo o que é certo.”
Ao longo das décadas, a Aprosoja Mato Grosso passou a fazer parte dessa caminhada. Segundo ele, a entidade se tornou uma importante aliada ao oferecer informações e suporte técnico que permitem ao produtor dedicar mais tempo ao que realmente importa: produzir.
“Ou a gente trabalha na fazenda ou cuida da burocracia. A Aprosoja MT ajuda justamente nisso. Quando precisamos de informações sobre logística, armazenagem ou outros assuntos importantes para o setor, ela já disponibiliza essas ferramentas. Isso facilita muito o nosso trabalho.”
Histórias como a de Celestino Piotto mostram que a agricultura não é feita apenas de máquinas, lavouras e números. Ela é construída por pessoas que transformam trabalho em propósito, preservam o legado de suas famílias e fazem da produção de alimentos um compromisso diário com toda a sociedade. É esse espírito que faz a diferença no campo e inspira as próximas gerações de produtores rurais.
Agro Mato Grosso
Agrosolidário fortalece qualidade de vida de idosa atendida pelo CRAS de Campos de Júlio

Em Campos de Júlio, no oeste de Mato Grosso, dona Maria Benedita dos Santos conhece cada metro da estrada que liga a pequena chácara onde mora ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município. Toda semana, ela faz o mesmo percurso a pé. São cerca de dois quilômetros caminhando até o lugar onde encontrou muito mais do que uma atividade para ocupar o tempo.
Foi ali que, aos 60 anos, ela descobriu novas amizades, aprendeu a transformar telhas em peças de artesanato e passou a receber a bebida de soja distribuído pelo programa Agrosolidário, iniciativa da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), que leva alimento e qualidade de vida a centenas de famílias em diferentes municípios do estado. “Eu conheci a bebida de soja indo ao CRAS, onde faço o cursinho. Aí eu conheci esse produto, as meninas pegavam, eu também peguei e gostei”, comenta ela.
A simplicidade das palavras esconde a dimensão da mudança. Para dona Maria, sair de casa deixou de ser apenas um compromisso semanal e se tornou um momento de convivência, aprendizado e acolhimento. Enquanto aprende técnicas de artesanato ao lado de outras participantes, ela fortalece laços que hoje considera parte da família.
“As minhas amigas do CRAS também gostam da bebida de soja. Nós somos quase irmãs umas das outras, é muito forte a nossa amizade.”
A bebida de soja passou a fazer parte dessa rotina. Mais do que um alimento, dona Maria acredita que ele contribuiu para melhorar sua disposição e dar mais segurança aos movimentos do dia a dia. “Eu não podia ficar agachada. Para levantar, doía tudo. Agora não. Eu abaixo e já me levanto bem.”
Entre os sabores preferidos estão banana, laranja e uva. Pequenos detalhes que revelam o carinho com que fala de algo que passou a fazer parte da sua vida. “Eu gosto mais da bebida de soja porque é bom para a gente. Fortalece os ossos.”
Com felicidade, ela encontra motivos para agradecer até mesmo nos desafios da rotina. Caminhar deixou de ser um sacrifício e passou a representar independência. O CRAS deixou de ser apenas um espaço de atendimento e se transformou em um lugar de pertencimento.
Ao final da conversa, ela faz questão de agradecer às pessoas que tornam possível a continuidade do programa. “Agradeço ao Agrosolidário por trazerem a bebida de soja até nós. Eles sempre mandam para animar a gente quando estamos tristes. Agradeço a todos os envolvidos.”
Histórias como a de Dona Maria revelam que a solidariedade vai além da entrega de alimentos. Ela se manifesta na oportunidade de conviver, de aprender, de preservar a autonomia e de fortalecer vínculos.
No Agrosolidário, cada pacote de bebida de soja distribuído representa um compromisso com a segurança alimentar. Mas, para pessoas como a dona Maria, ele também simboliza cuidado, acolhimento e a certeza de que, ao final daqueles dois quilômetros percorridos toda semana, sempre haverá um lugar onde ela é esperada de braços abertos.
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