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Produtores de MT pedem fôlego financeiro para continuar no campo

A colheita do milho segue em andamento em Mato Grosso, mas a atenção de muitos produtores já está voltada para a próxima safra. Entre margens apertadas, custos elevados, juros mais altos e incertezas climáticas, agricultores relatam dificuldades para manter o planejamento das propriedades e defendem medidas que permitam atravessar o atual momento sem comprometer os investimentos futuros.
A preocupação não é isolada. De acordo com estimativas do setor, o endividamento dos produtores rurais já alcança cerca de R$ 170 bilhões no Brasil. Em Mato Grosso, a combinação entre queda na rentabilidade e aumento das despesas tem pressionado o caixa das fazendas.
Em Diamantino, onde cerca de 270 mil hectares de milho foram cultivados nesta safra, o presidente do Sindicato Rural, Altemar Kroling, afirma que o produtor precisa lidar não apenas com os desafios econômicos, mas também com a falta de previsibilidade para os próximos meses.
Segundo ele, a definição das estratégias para o plantio da soja ocorre em um cenário de muitas dúvidas. “A gente está iniciando aí uma safra de milho e montando a estratégia do plantio de soja com uma indefinição de clima também”, relata ao Patrulheiro Agro. Para Kroling, a falta de perspectiva sobre o comportamento do mercado e do clima torna o ambiente ainda mais delicado. “A gente não tem certeza de nada do que vai ser daqui seis meses”.

Produção sem liquidez
Entre os produtores que acompanham o cenário com cautela está Rodrigo Konageski. A família cultivou nesta safra 4,5 mil hectares de milho e 4,7 mil hectares de algodão. Para a próxima temporada, a previsão é semear 9,4 mil hectares de soja.
As sementes e os fertilizantes já foram adquiridos, mas a compra dos defensivos ainda não foi concluída. A decisão está ligada ao momento financeiro das propriedades e às incertezas sobre os custos da próxima safra.
Konageski explica que parte das áreas ainda aguarda melhores condições para a colheita do milho, reduzindo despesas com secagem e armazenagem. Em relação à produtividade, os resultados variam conforme o comportamento das chuvas ao longo do ciclo.
Apesar disso, o principal desafio está fora da porteira. De acordo com ele, a produção existe, mas a comercialização não tem garantido a rentabilidade necessária para fechar as contas.
“Você tem o produto, mas não tem liquidez”, afirma. Ao mesmo tempo, observa que os custos de produção continuam avançando. “Quando começa a fazer os custos de produção da safra seguinte você vê que aperta ainda mais a margem”.
O agricultor também cita o peso da tributação e dos custos logísticos enfrentados pelos produtores mato-grossenses. “Aqui tudo é mais caro e na hora de vender o seu produto, tanto soja, milho ou algodão, é o mais barato do mundo”, diz à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Diante desse cenário, ele afirma que o produtor tem evitado investimentos que não sejam considerados essenciais. “A tomada de decisão do produtor tem que ser bem consciente, para não inventar despesa desnecessária”.
Dificuldade para renovar financiamentos
A situação é semelhante em São José do Rio Claro. Presidente do Sindicato Rural do município, Aparecido Rodrigues afirma que há anos não via um ambiente de tanto desânimo entre os produtores.
Conforme relata, muitos agricultores encerraram a safra sem os recursos necessários para quitar compromissos financeiros e iniciar um novo ciclo produtivo. Ao mesmo tempo, enfrentam condições mais duras para renovar operações de crédito.
“Ninguém está querendo dar calote, quer pagar a conta, mas quer condição para pagar a conta”, destaca. O problema, segundo ele, é o aumento das taxas cobradas pelas instituições financeiras. “Você financiou a safra com juro de 11%, agora ele quer renovar, mas quer 22%”.
Para Rodrigues, sem alternativas de renegociação, muitos produtores terão dificuldades para continuar produzindo. “Tem que fazer um negócio para o cara continuar trabalhando e pagar a conta dele”.
Quando o seguro não resolve
O agricultor Odair Garcia Rodrigues conhece bem essa realidade. Em 2024, ele cultivou 2,3 mil hectares de soja e contratou aproximadamente R$ 3 milhões em crédito rural para custear parte da safra. A operação incluía seguro agrícola equivalente a cerca de 10% do valor financiado.
A estiagem comprometeu o desenvolvimento da lavoura e reduziu drasticamente a produtividade. Ele conta que em áreas que normalmente produziam 65 sacas por hectare colheram apenas 27 sacas.
Mesmo diante das perdas, o produtor afirma que não recebeu a cobertura esperada da seguradora. Conforme relata, critérios adotados durante a vistoria reduziram o volume de prejuízos reconhecidos pela empresa.
“Eu tive que pagar o seguro e não fui ressarcido”, afirma.
Sem conseguir quitar os compromissos assumidos, Odair diz enfrentar agora cobranças bancárias e admite que não possui condições de liquidar a dívida nas condições atuais. “Tem que parcelar aí por muito tempo, tem que ter uma prorrogação de dívidas, pelo menos é o que a gente espera”.
Projeto em discussão
Em meio às dificuldades enfrentadas pelos produtores, cresce a expectativa em torno do Projeto de Lei 5122/2023, que cria uma linha especial para renegociação das dívidas rurais, com juros reduzidos e prazos mais longos para pagamento.
A proposta já foi aprovada pelo Senado e aguarda nova análise da Câmara dos Deputados.
Para lideranças do setor, medidas desse tipo são fundamentais para garantir que os produtores consigam permanecer na atividade. Aparecido Rodrigues pontua que muitos agricultores convivem hoje com o receio de bloqueios judiciais e perda de patrimônio, mas reforça que a intenção continua sendo honrar os compromissos assumidos.
“Ninguém deixou de pagar porque queria”, ressalta. “A única coisa que a gente tem de bom é o nome. Então tem que preservar”.
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Combate ao excesso de NPK gera R$ 62,47 mi de economia em SC

Há 20 anos, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) identificou um uso excessivo (e prejudicial) de fertilizantes pelos produtores de cebola, motivados pela pressão da concorrência internacional. Na última segunda-feira (26), foram divulgados os resultados da campanha que auxilia os agricultores a ajustar as doses.
A Empresa explica que a competição com a cebola argentina no início dos anos 2000 fez com que produtores catarinenses exagerassem no uso de fertilizantes para tentar alcançar a produtividade do país vizinho. Mas a medida acarretou em um problema maior: o excesso de nitrogênio provocou o aparecimento de doenças foliares, prejudicando a qualidade da cebola e aumentando as perdas em pós-colheita.
A partir disso, os pesquisadores elaboraram a recomendação adequada de nitrogênio, fósforo e potássio (NPK) para obter o máximo rendimento e qualidade e ainda diminuir os custos de produção. Já faz 10 anos que são promovidos materiais de divulgação, eventos e visitas de extensionistas a propriedades.
Os resultados
“Observando também as curvas de crescimento e absorção de nutrientes dos principais cultivares, definimos a melhor época de adubação e de forma parcelada. Os problemas com bacterioses e as perdas em pós colheita foram minimizados e hoje quase 90% dos produtores seguem as recomendações”, afirma Claudinei Kurtz, pesquisador da Estação Experimental da Epagri em Ituporanga (EEItu).
Segundo o Relatório de avaliação dos impactos das tecnologias/ações geradas pela Epagri de 2025, em 20 anos, verificou-se uma redução de 40% no uso de fertilizante, diminuindo o custo de produção médio da cebola no Estado em 10%, e as perdas no pós-colheita em 21,4%.
Em todo o estado, os benefícios econômicos trazidos pela adoção da tecnologia, impulsionados pela redução de custos, incremento da produtividade e diminuição das perdas em pós-colheita, chegaram a R$62,47 milhões, segundo o Balanço Social 2025.
A Epagri destaca o caso de Vanderlei Schmitt, 42 anos, de Aurora. Ele planta cebola em quatro hectares e passou a seguir as recomendações de adubação em 2021, após assistir a uma palestra do Claudinei. O resultado foi tão positivo que, na safra seguinte, seu irmão Leandro, 35, aderiu ao manejo adequado de NPK em sua lavoura.
“A gente fazia do nosso jeito, comprando tudo que a agropecuária oferecia, jogando mais produto na hora de ‘encabeçar’ a cebola. Mas, depois de seguir as recomendações da Epagri, percebi que a planta ficou mais forte e não sofre tanto com o herbicida. Sem falar que a qualidade da cebola no galpão continua boa até maio, quando o preço de venda dobra, já que não tem mais tanto produto no mercado”, explica.
O produtor conta que a boa relação com extensionistas e pesquisadores da Epagri tem relação direta com os bons resultados obtidos em sua propriedade, que na safra 2025/26 alcançou 176 toneladas. “Sempre que surge algum problema na roça, faço uma foto e mando para o Claudinei analisar, como da última vez que ele recomendou corrigir com dose adicional de ureia e deu certo”, relata.
Qual era o tamanho do problema?
“Os produtores estavam utilizando quase 300% a mais de fertilizante em relação aos anos 1990. Essa adubação descontrolada acarretou em doenças bacterianas e fúngicas, além de prejudicar o solo; por isso concentramos esforços para estabelecer parâmetros em relação à dose, épocas e forma de aplicação de macro e micronutrientes e difundir o conhecimento entre os produtores”, revela Claudinei
O pesquisador trabalhou na elaboração do “Manual de Adubação e Calagem” para a cultura da cebola em SC e RS (2016) e, dois anos depois, lançou o boletim técnico “Fertilidade do solo, Adubação e Nutrição da Cultura da Cebola” (2018), se tornando uma referência no assunto.
A Epagri destaca que o trabalho de pesquisa e difusão das recomendações técnicas é um processo contínuo e, muitas vezes, leva tempo até o agricultor se convencer a mudar a forma de produção. Foi o caso de Renato da Silva, 45, produtor de Ituporanga. Ele planta sete hectares de cebola na localidade de Chapadão Santana, a 600m de altitude.
Produtor de Ituporanga aderiu às recomendações técnicas quando o custo de produção saiu do controle (Foto: Aquivo Pessoal/Divulgação)
“Eu já nasci plantando cebola, e mesmo quando os irmãos foram trabalhar na cidade, eu fiquei, nunca fiz outra coisa na vida”, revela. Por causa da experiência de décadas na roça, ele via com ceticismo as orientações de extensionistas e pesquisadores, mas quando o preço dos fertilizantes disparou, ele percebeu que estava na hora de ouvir a ciência.
“Antigamente, nem análise de solo a gente fazia. E para adubar se usava uma mistura de esterco com NPK, mas que acabava dando muita podridão. Aí apareceram os vendedores de agropecuária dizendo que o produto deles era melhor que as recomendações da Epagri. Fiquei nessa até 2022, quando o gasto com fertilizante saiu do controle”, relata.
Após adotar as recomendações, a quantidade de fertilizante utilizada em sua lavoura caiu de 150 sacas (50kg) para 90. Na última safra, ele colheu 273 toneladas, uma produtividade de 39 ton/ha, bem acima da média estadual (28,841 ton/ha) na safra 2024/25.
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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Projeto de Lei estabelece critérios para sucessão rural

Um projeto de lei em análise na Câmara dos Deputados estabelece critérios para a participação de filhos de trabalhadores e de produtores rurais nas atividades da família. A ideia é preparar jovens para a sucessão no campo de forma qualificada, evitando trabalho exploratório.
O PL 3448/26 permite a colaboração de jovens a partir de 14 anos nas tarefas produtivas, mediante condições como compatibilidade com a frequência escolar, garantia de repouso, lazer e tempo para estudo, além de supervisão dos pais.
Pelo projeto, essas atividades terão natureza formativa, colaborativa e de apoio à economia familiar, sem a configuração de vínculo empregatício de qualquer espécie. Poderão ser criados programas de incentivo e capacitação técnica.
A proposta também proíbe expressamente a realização de tarefas noturnas, perigosas ou insalubres, bem como de atividades incluídas na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), regulamentada pelo Decreto 6.481/08.
Sucessão no campo
Segundo o autor, deputado Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), o projeto define um marco regulatório claro e protetivo. “A realidade do meio rural demonstra um cenário desafiador no que se refere à permanência das novas gerações no campo”, afirma.
“Ao preparar tecnicamente o jovem para a gestão e a sucessão no campo, a proposta atua como vetor de desenvolvimento regional, fixando o homem na terra com dignidade, renda e sustentabilidade”, acrescenta o parlamentar.
Segundo o último Censo Agropecuário, de 2017, houve uma redução, em termos absolutos e relativos, nos estabelecimentos dirigidos por produtores com menos de 45 anos de idade, enquanto que as faixas etárias mais elevadas registraram aumento. Os dados mostram que apenas 2% dos produtores rurais têm menos de 25 anos, e 9,3% têm entre 25 e 35, enquanto a faixa etária mais presente é a dos 45 aos 55 (24,2%).
As comissões que analisam o PL 3448/26 são a de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR), a de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família (CPASF) e a de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJ).
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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Soja pode perder 55% da produtividade sem controle de pragas e doenças, aponta estudo

Estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a Croplife Brasil, associação que reúne empresas de biotecnologia, melhoramento genético e defensivos agrícolas, mostrou que as lavouras de soja no país teriam perdas de até 55% na produtividade, caso não fossem protegidas contra pragas, doenças e ervas daninhas.
De acordo com a pesquisa, uma redução da produção poderia causar impactos negativos na economia brasileira e nos preços de produtos ao consumidor.
A soja, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), responde, junto com o milho e a cana-de-açúcar, por 76% do consumo de defensivos no Brasil.
Doenças nas lavouras
O estudo feito pela Universidade Federal de Viçosa trabalhou com simulações envolvendo quatro doenças (entre elas a ferrugem-asiática e a mancha-alvo), cinco pragas (como a mosca-branca) e nove plantas daninhas.
Os pesquisadores analisaram três cenários, lavouras sem qualquer controle de pragas, com controle parcial (que garantiria até 40% de proteção da plantação) e com controle ótimo (80% de proteção).
A universidade estimou que, com controle ótimo, a produtividade por hectare pode chegar a 72 sacas. O controle parcial garantiria uma produtividade de 52 sacas, ou seja, 28% a menos que o controle ótimo. Sem qualquer controle, seria de apenas 32 sacas, o que significa uma perda de 55%.
Com isso, de acordo com o estudo, para compensar as perdas com a falta de controle fitossanitário, seria necessário plantar uma área adicional de 33,5 milhões de hectares, ou seja, quase do tamanho do estado de Goiás. A perda média, em cenário sem manejo (na comparação), chegaria a 121,3 milhões de toneladas, com um valor estimado de R$ 223,5 bilhões.
Com o cenário de controle ótimo, a receita brasileira simulada com exportações de soja chega a US$ 44,2 bilhões. Sem controle, recua para US$ 26,6 bilhões, uma diferença potencial de US$ 17,6 bilhões por safra, segundo o estudo.
A redução da oferta poderia gerar uma alta estimada no preço da soja de até 49%. Haveria, com isso, um aumento de cerca de 0,26 ponto percentual na inflação oficial, medida pelo IPCA, uma vez que a alta da soja teria impactos nos preços de produtos como óleo, leite e ovos.
“Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço da carnes, carnes de porco, de frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja”, destaca a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho.
O estudo considera quatro métodos de controle fitossanitário, que podem ser usados para evitar perdas nas lavouras: a biotecnologia (como os organismos geneticamente modificados), o melhoramento genético, os bioinsumos e os defensivos químicos, além do manejo integrado, que mistura dois ou mais desses métodos.
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