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entre a China e os desafios de filas, descontos e desvalorização

O cultivo do gergelim tem ganhado espaço nas lavouras de Mato Grosso, mas os gargalos logísticos e de mercado vêm tirando o sono de agricultores. Com filas nos armazéns, descontos elevados e desvalorização dos preços, produtores avaliam com cautela a continuidade do plantio.
“Ano que vem a gente vai pensar bem na hora de plantar gergelim, vamos fazer a conta e ver se vale a pena, porque com certeza vai ter um estoque bom desse ano para o próximo”, afirma o agricultor Matheus Henrique Mendes França que está em seu segundo ano de cultivo do gergelim em Diamantino.
Ele conta ao Patrulheiro Agro desta semana que neste ano cultivou 800 hectares com a cultura e que as filas nos armazéns se tornaram um problema recorrente, o que também dificulta o cultivo da cultura. “Grandes filas em todas as empresas, e isso acaba postergando a colheita, postergando o cumprimento dos contratos no recebimento. Quanto mais tempo na roça, ou dentro do caminhão, ele vai perder qualidade”.
O produtor relata que tal demora compromete a entrega do gergelim e a rentabilidade dos produtores. “A gente tem encontrado uma certa dificuldade para cumprir os contratos e fazer com que as empresas recebam esse produto”.
Filas, secagem e descontos elevados
Além da espera, Matheus destaca outro entrave: os descontos elevados. “Temos sofrido com altos descontos de impureza, tem problema da acidez que é um problema relativamente novo, ninguém recebia reclamação desse problema”.
Segundo o agricultor, a falta de transparência agrava a situação. “É difícil você acompanhar isso in loco, porque as empresas fazem nos seus laboratórios. Então falta um pouco de transparência para o produtor estar validando se realmente esse produto não está adequado”.
Em outra propriedade, em Diamantino, o sol tem sido aliado no processo de secagem dos grãos. A força-tarefa busca garantir um produto com a umidade dentro do padrão exigido pelas empresas compradoras.
“Temos que colher aos poucos e botar na lona porque não tem espaço, aí seca um tanto, colhe outro tanto e coloca na lona”, relata Otacílio Cândido Ribeiro, gerente de produção, à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
A dificuldade, explica ele, é organizar a logística. “Tem que embegar tudo porque não tem onde botar. Para vir um caminhão para carregar 10 mil quilos não vem, então tem que fechar a carga primeiro”.
As chuvas também complicaram a situação dos produtores. “Uma chuva grande em junho, choveu maio, choveu abril, não baixa a umidade, as empresas não conseguem receber, não têm capacidade de secagem dele”, comenta o agricultor Rogério Cocco Rubin.
Rogério acrescenta que o risco é grande diante da situação. “Ele tem que secar a campo, a gente colhe ele está seco para colheita, mas não está seco suficiente. E aí eu mandar uma carga daqui para Canarana, chegar lá a empresa não receber porque não está dentro dos padrões, imagina o transtorno que isso dá”.
Conforme Rogério, a preocupação é constante. “É uma coisa que tira o sono”, frisa.
Para a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja Mato Grosso), o gargalo está na armazenagem. “As empresas que comercializam o gergelim são deficientes mais do que nós ainda em armazenagem”, diz Gilson Antunes Mello, diretor da entidade.
Ele ressalta que a concentração da colheita agrava o problema. “Como a produção chega no mesmo período geralmente dentro do mês de maio e junho ou junho e julho, elas não conseguem absorver esse gergelim, e acabam ficando nos caminhões 10 dias, 12 dias na fila aguardando a descarga”.
Gilson reforça que é preciso estruturar melhor a cadeia. “Agregaria muito valor ao produtor, só que temos que organizar essa logística, organizar a cadeia produtiva do gergelim para que o produtor tenha segurança de plantar, colher e saber que vai comercializar como qualquer outro produto”.
Mercado pressionado e aposta na China
Canarana é considerada a capital nacional do gergelim, o que concentra ainda mais os volumes. “Hoje a capital nacional do gergelim é aqui em Canarana, então o Mato Grosso acaba trazendo muito volume”, explica Wuallyson Tieppo Souza, coordenador regional de compras e vendas da Atlas Agro.
De acordo com ele, o pico da colheita pressiona a logística. “Então a gente sabe que vai sofrer nesse pico de entrega”.
Para amenizar, a empresa, revela Wuallyson, pretende ampliar sua atuação. “Do mesmo jeito que a gente tem o compromisso de receber dos agricultores os grãos a gente tem o compromisso de exportar. Então temos que fazer essa cadência certinha para não dar para o lado do produtor e nem para o nosso lado. Ano que vem a gente já vai ter uma unidade em Tocantins, então vai ficar um pouco melhor a questão de disseminação do gergelim”.
A Atlas Agro atua em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Tocantins e Goiás, destaca o coordenador regional de compra e vendas, e já recebeu mais de 80% da produção contratada nesta safra.
Segundo Wuallyson, o excesso de oferta trouxe mais exigência na classificação também. “Esse ano a gente se deparou com cargas um pouco mais sujas, que dos outros anos. Como todos os grãos, soja, milho, tem essas divergências, então o gergelim acaba tendo também”.
No Brasil, o cultivo é mecanizado, o que pode impactar a qualidade em comparação a países que fazem manejo manual.
A questão dos preços também preocupa. “Os preços acabaram descendo um pouco as margens que a gente vinha acompanhando nas outras safras e acabou sendo um ano atípico. Como teve muito gergelim, acaba que tiveram contratos muito bons, contratos médios. Como é uma cadeia em que a gente depende do produtor e o produtor depende da gente, então tem sempre que fazer um bom acordo para chegar bem para os dois lados”, pontua Wuallyson.
Empresas como a Sezam Zaad também aumentaram as compras neste ano, cerca de 20%, para atender China e Guatemala. A empresa possui estrutura em Mato Grosso, Tocantins e no Pará. Mas, segundo o gerente comercial Patrick Batista Stein, nem todos os contratos internacionais foram honrados.
“Os compradores de fora não honraram os contratos com várias empresas, não foi só com uma, foram com todas. Então a gente vê que isso impactou tanto o mercado do ano passado quanto desse ano, porque tem muita empresa que tem produto da safra 2024, e a gente não consegue desovar esse volume”.
Ele ressalta que, apesar disso, a empresa segue cumprindo seus compromissos. “Todos os contratos nossos estão sendo cumpridos, tanto contratos de excedentes, que são os spots, quanto os contratos no cedo que foram feitos na época do plantio, para poder manter essa parceria por mais anos”.
A abertura do mercado chinês, contudo, é vista como oportunidade. “A gente vê que é um mercado que é uma incógnita ainda. Até dois anos atrás os preços eram altos, a gente não pode dizer como vai ser a próxima safra 2026, mas é um mercado que está se aquecendo com a abertura da China”, afirma Patrick a reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Ele avalia que a presença chinesa pode ser decisiva. “Eles querem conhecer o mercado do Brasil. A gente não sabe ainda, porque é o primeiro ano que eles estão comprando no Brasil. No ano que vem eles podem entrar comprando 100% do mercado do Brasil, porque eles têm capacidade”.
Patrick reforça que o produtor é peça-chave no setor. “A gente vê que esse ano foi um ano diferencial, muitos produtores passando gergelim pré-limpeza, melhorando adaptações em colheitadeiras. Hoje o produtor rural é o maior sócio da empresa, e a gente tem que valorizar o produtor rural”.
A Associação Brasileira dos Produtores de Feijão, Pulses, Grãos Especiais e Irrigantes (Aprofir Brasil) chama atenção para outro desafio: a falta de variedades adequadas ao consumo humano. “95%, 97% é uma variedade de gergelim amargo, ele só serve para óleo, e o mercado ele quer gergelim para consumo humano também, o gergelim doce”, explica Marcos da Rosa, vice-presidente da entidade.
Ele lembra que ainda há falhas na produtividade. “A pesquisa não conseguiu dar a solução para essas questões, tanto para produtividade, quanto maior retenção de grãos dentro da cápsula. Abre demais e derruba eles”.
Segundo a Aprofir Brasil, há pesquisas em andamento e interesse de produtores de sementes de gergelim de países como Israel, EUA (Texas) e Paraguai, além de uma universidade que estuda a cultura desde 1986.
Outro ponto destacado por Marcos da Rosa é o controle de plantas daninhas. “Tem que ser resolvida a questão dos herbicidas, que a planta seja resistente à folha larga por exemplo. Não temos nada que segure as ervas daninhas na lavoura para nós permanecer viável no mercado”.
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Agro Mato Grosso
Lucas do Rio Verde estabelece modelo de produção agrícola com milho como pilar

Da ciência no campo à industrialização, o município consolidou uma cadeia que gera energia, proteína e valor
Lucas do Rio Verde construiu, ao longo das últimas décadas, uma trajetória que vai além da produção agrícola. O município consolidou um modelo baseado em conhecimento, planejamento e capacidade de transformação, tendo o milho como um dos principais pilares desse processo.
As bases desse avanço foram lançadas no início dos anos 2000, quando a Fundação Rio Verde iniciou os primeiros experimentos voltados à safrinha, hoje consolidada como segunda safra. Naquele momento, ainda sem a estrutura atual, a pesquisa agrícola no município partia de uma convicção simples: era preciso produzir mais milho.
Entre os estudos conduzidos, uma mudança técnica se mostrou decisiva. A redução do espaçamento entre linhas de 90 para 45 centímetros, aliada ao aumento da população de plantas, elevou a produtividade em até 50% sem aumento de custo. Inicialmente vista com desconfiança, a prática foi validada em campo e rapidamente se consolidou. Hoje, esse modelo é utilizado em praticamente toda a produção de milho em Mato Grosso e no Cerrado brasileiro.
Com essa base técnica consolidada, o município avançou para um novo estágio: agregar valor à produção. O milho deixou de ser apenas grão e passou a ser transformado dentro do próprio território, conectando agricultura, indústria e proteína animal em uma cadeia integrada.
Os números mais recentes evidenciam essa força. Na safra 2025/2026, conforme dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), de (março de 2026), Lucas do Rio Verde cultivou 147.097 hectares de milho, com produtividade média de 7.250 kg por hectare, resultando em uma produção de 1.066.521 toneladas.
Esse desempenho está inserido em um contexto ainda maior: Mato Grosso é hoje o maior produtor de milho e de etanol de milho do Brasil , consolidando-se como o principal polo dessa cultura no país.
Embora parte da produção brasileira seja exportada, cerca de dois terços do milho permanecem no mercado interno, sustentando diferentes cadeias produtivas. Desse volume, aproximadamente 60% são destinados à produção de proteína animal, cerca de 22% à produção de etanol e os 18% restantes abastecem diversos segmentos industriais, segundo a Associação Brasileira de Milho e Sorgo (Abramilho).
Em Lucas do Rio Verde, essa lógica se materializa de forma integrada. A escala produtiva sustenta um setor industrial importante, com capacidade instalada para produzir mais de 600 milhões de litros de etanol de milho por ano, consolidando o município como referência em bioenergia. Paralelamente, a produção de DDGs fortalece a nutrição animal, ampliando a eficiência da pecuária e garantindo o aproveitamento integral do milho.
Essa integração se estende à agroindústria de proteína. O município conta com unidades de abate de suínos e aves, que utilizam o milho e seus derivados como base nutricional, fechando um ciclo produtivo completo, do campo à mesa.
Mais do que volumes expressivos, o que se consolida no município é um modelo de desenvolvimento. Um modelo que nasce na pesquisa, ganha escala no campo, se fortalece na indústria e retorna em forma de valor agregado para toda a economia local.
Para o prefeito Miguel Vaz, o milho representa muito mais do que uma cultura agrícola. “Lucas do Rio Verde mostra, na prática, que é possível produzir com eficiência, agregar valor e transformar isso em qualidade de vida para as pessoas. O milho é parte da nossa história e também do nosso futuro”, destacou.
Mais do que produzir, Lucas do Rio Verde mostra como transformar. E é essa transformação que sustenta seu desenvolvimento e projeta seu papel como referência.
Business
Novo Desenrola Rural deve ampliar e facilitar renegociação de dívidas, diz ministra

O Governo Federal anunciou, nesta segunda-feira (4), uma nova etapa do programa Desenrola Rural. Segundo a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, a iniciativa chega com condições ampliadas para atender mais produtores.
“O Desenrola Rural é retomado em condições ainda mais facilitadas, com maior abrangência”, afirmou a ministra. Ela destacou ainda a inclusão de novos públicos: “No caso dos assentados da Reforma Agrária, incluímos a possibilidade de renegociação de dívidas do Procera”.
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A medida será formalizada por decreto previsto para publicação ainda nesta semana e amplia o prazo de adesão até 20 de dezembro de 2026.
A nova fase do Desenrola Rural amplia as condições de renegociação de dívidas. O programa oferece descontos, prazos mais longos e novas possibilidades de liquidação dos débitos.
Os parcelamentos podem chegar a até dez anos, conforme o valor e o tipo da dívida.
Outro ponto é a retomada do crédito rural. Agricultores com contratos firmados até 31 de dezembro de 2015, com risco integral da União, poderão acessar novas operações pelo Pronaf, mesmo inadimplentes, desde que não estejam inscritos na Dívida Ativa da União.
Quem pode aderir ao programa?
Podem aderir ao programa agricultores familiares, assentados da reforma agrária, pescadores artesanais, povos e comunidades tradicionais e cooperativas da agricultura familiar.
É necessário ter dívidas em atraso há mais de um ano.
As formas de renegociação variam conforme o tipo de débito:
- Dívidas na Dívida Ativa da União devem ser negociadas pelo site Regularize;
- Débitos do Pronaf ou com bancos devem ser tratados diretamente com as instituições financeiras;
- Créditos de instalação podem ser quitados junto ao Incra, com condições específicas.
Mais de R$ 23 bilhões já foram renegociados
Criado em 2025, o Desenrola Rural já beneficiou mais de 500 mil agricultores familiares. Segundo o governo, mais de R$ 23 bilhões em dívidas foram renegociados.
Para o secretário de Agricultura Familiar e Agroecologia, Vanderley Ziger, a nova etapa amplia o alcance da política. “Estamos ampliando as condições para que mais agricultores regularizem sua situação, voltem a acessar crédito e sigam produzindo”, afirmou.
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Novo método com uso de luz promete revolucionar análise de solos e reduzir custos no agro

Um novo método para análise de solos coesos, desenvolvido pela Universidade Federal do Ceará em parceria com a Embrapa Meio Ambiente, resultou em patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial. A tecnologia utiliza espectroscopia de reflectância, técnica baseada na interação da luz com o solo, combinada a ciclos de umedecimento e secagem, permitindo diagnósticos mais rápidos e com menor custo.
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O método foi desenvolvido no âmbito de pesquisa liderada pela doutoranda Ana Maria Vieira da Silva, com orientação do professor Raul Shiso Toma e participação do pesquisador Luiz Eduardo Vicente.
A inovação está na forma de preparação das amostras. Diferentemente dos métodos tradicionais, que utilizam solo seco e peneirado, a nova abordagem simula condições naturais ao submeter o material a ciclos de umedecimento e secagem antes da análise espectral.
Esse procedimento permite gerar dados mais representativos sobre a composição físico-química do solo, especialmente em relação a componentes como argilas e substâncias amorfas, associados ao caráter coeso.
Além disso, o uso da luz como principal insumo dispensa parte das análises químicas convencionais, que costumam ser mais lentas, caras e geradoras de resíduos laboratoriais.
Aplicação pode avançar do laboratório para o campo

Inicialmente voltado à pesquisa científica, o método tem potencial para ser aplicado em condições de campo e em estufas, permitindo análises mais rápidas e acessíveis para experimentos agrícolas.
A tecnologia também pode contribuir para o desenvolvimento de soluções voltadas ao manejo de solos, como condicionadores, biochars e hidrogéis, que ajudam a reduzir a resistência do solo e melhorar seu desempenho produtivo.
Solos coesos limitam produtividade agrícola
O caráter coeso do solo é definido pelo Sistema Brasileiro de Classificação de Solos e está associado a camadas endurecidas abaixo da superfície. Essas condições dificultam o crescimento das raízes, reduzem a infiltração de água e limitam a circulação de oxigênio.
Esse tipo de solo é comum em diversas regiões do país, com maior concentração nos Tabuleiros Costeiros, faixa que vai do Amapá ao Rio de Janeiro e que possui relevância para a produção agrícola e logística.
Segundo pesquisadores envolvidos no estudo, a análise e o manejo adequado desses solos são fundamentais para melhorar a produtividade e garantir sistemas agrícolas mais sustentáveis.
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