Sustentabilidade
Solo com menos microrganismos favorece ação de bactéria que combate doença do trigo – MAIS SOJA

- Solos com baixa diversidade microbiana favorecem doenças do trigo, mas também aumentam eficácia de bactérias benéficas.
- Estudo da Embrapa revela que Pseudomonas inefficax atua de forma diferente conforme o tipo de solo.
- Mesmo sem eliminar o fungo, bactéria promoveu maior crescimento das plantas em solos menos diversos.
- Diversidade alta pode dificultar ação de inoculantes devido à competição microbiana.
Resultados apontam para estratégias mais eficazes e sustentáveis de biocontrole no campo.
A vida microscópica presente no solo pode ser a chave para o sucesso – ou o fracasso – no controle biológico de doenças em lavouras de trigo. É o que mostra um estudo inédito liderado pela Embrapa Meio Ambiente, que revela como a diversidade microbiana influencia diretamente a eficácia de bactérias benéficas usadas como inoculantes. Em solos com pouca diversidade, a cepa Pseudomonas inefficax CMAA1741 demonstrou ação mais eficiente contra o fungo Bipolaris sorokiniana, causador da mancha marrom e da podridão radicular no trigo.
Para Caroline Sayuri Nishisaka, bolsista da Embrapa Meio Ambiente, o trabalho revela um paradoxo: solos com microbioma mais simples são ao mesmo tempo mais vulneráveis a doenças e mais receptivos a tratamentos biológicos. Em outras palavras, a ausência de diversidade permite que os microrganismos patogênicos se instalem com facilidade, mas também abre espaço para que bactérias benéficas atuem com mais liberdade, sem enfrentar grande competição.
Esse achado pode mudar a forma como o biocontrole é planejado no campo. “A composição microbiana do solo interfere diretamente na capacidade de atuação dos inoculantes”, explica a equipe da Embrapa. “Não basta apenas aplicar uma bactéria eficiente; é preciso conhecer o ambiente onde ela será introduzida.”
Experimentos com diferentes solos
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores manipularam o nível de diversidade do solo com uma técnica conhecida como “diluição-para-extinção”. O método resultou em cinco tipos de solo: natural, três versões diluídas e solo completamente esterilizado por autoclavagem. Cada solo recebeu diferentes combinações de inoculante e patógeno, totalizando 25 cenários experimentais.
O destaque foi a cepa CMAA1741 da bactéria P. inefficax, que reduziu significativamente a severidade da doença mesmo quando o fungo estava presente em alta abundância em solos menos diversos. A supressão ocorreu mesmo sem redução na quantidade do patógeno, indicando que a bactéria pode atuar modificando o microbioma da rizosfera – região do solo ao redor das raízes – para beneficiar a planta.
Além disso, a presença da bactéria Fluviicola nesses ambientes empobrecidos também se correlacionou com a redução da doença, sugerindo uma possível atuação em conjunto com o inoculante.
Em solos ricos, ação limitada
Por outro lado, explica Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, nos solos naturais, com microbioma mais complexo, a introdução de P. inefficax não resultou em supressão significativa da doença. Apesar de a bactéria estimular o enriquecimento de gêneros associados à proteção de plantas, como Chitinophaga e Dyadobacter, o efeito não foi suficiente para conter o avanço do patógeno.
A hipótese é que, em solos diversos, mas naturalmente conducivos ao progresso da doença, a bactéria inoculada encontra forte competição e tem dificuldade para se estabelecer. Isso confirma o que a ciência chama de “hipótese da diversidade-invasibilidade”: ambientes com alta diversidade microbiana resistem à introdução de novos organismos.
Por outro lado, um estudo anterior demonstrou que a pressão de seleção exercida pela presença contínua do patógeno ao longo de múltiplos ciclos de cultivo pode induzir o desenvolvimento de características supressivas no solo. Esse seria o cenário ideal: um solo com alta diversidade microbiana, capaz de inibir naturalmente os patógenos que afetam as raízes das plantas.
Mesmo sem eliminar o fungo, a combinação de P. inefficax com o patógeno promoveu maior crescimento das plantas em solos diluídos. Os pesquisadores mediram a altura, a biomassa seca das raízes e da parte aérea, e a severidade da doença e os dados mostraram que a presença da bactéria melhora o desempenho do trigo, mesmo em ambientes desafiadores.
Entre os solos analisados, aquele que passou por uma diluição de 10⁻⁶ — ou seja, com apenas uma parte da amostra original para cada um milhão de partes de solução — foi o que apresentou melhores resultados no crescimento das plantas.
As análises metataxonômicas – que estudam a composição microbiana – mostraram que a ação da P. inefficax depende do solo onde é aplicada. Em solos autoclavados, a supressão da doença foi provavelmente causada por antagonismo direto ao fungo. Já em solos naturais, mais complexos, a bactéria parece depender da interação com outras espécies para exercer seu efeito.
Essa dinâmica é crucial para o desenvolvimento de novas estratégias de biocontrole. Os pesquisadores usaram algoritmos de aprendizado de máquina para identificar os microrganismos mais relevantes em cada ambiente. Nos solos autoclavados, por exemplo, gêneros como Fluviicola, Shinella e Paenibacillus se destacaram. Já nos solos naturais, Kribbella, Chitinophaga e Streptomyces foram os principais.
Fernando Andreote, pesquisador da Esalq, explica que a presença de fungos como Spizellomycetes e Dothideomycetes também foi mais expressiva nos tratamentos com a cepa CMAA1741. A combinação desses microrganismos pode formar um microbioma protetor ao redor das raízes, fortalecendo a planta sem a necessidade de eliminar o patógeno diretamente.
Os resultados fornecem pistas importantes para o uso mais eficiente de inoculantes em lavouras reais. Uma das saídas pode ser o uso de consórcios microbianos sintéticos (SynComs), que combinam diferentes espécies benéficas de forma planejada. Outra possibilidade é aplicar os inoculantes em momentos estratégicos ou repetir os ciclos de aplicação, favorecendo a integração dos microrganismos ao solo.
Tim Mauchline, pesquisador da Rothamsted Research, Reino Unido, alerta que os testes foram feitos em ambiente controlado. Para validar as estratégias no campo, serão necessários experimentos de longo prazo que considerem a variabilidade ambiental e a complexidade dos solos agrícolas.
Ainda assim, a mensagem é clara: entender a diversidade do microbioma do solo é essencial para garantir o sucesso de qualquer estratégia de controle biológico. A introdução de microrganismos não pode ser feita de forma padronizada; ela precisa levar em conta o contexto específico de cada lavoura.
Menos defensivos, mais sustentabilidade
Ao integrar o conhecimento sobre a diversidade microbiana ao manejo agrícola, é possível aumentar a resiliência dos sistemas de produção e reduzir a dependência de defensivos químicos. Isso contribui para a sustentabilidade ambiental e econômica do agroecossistema.
Mais do que aplicar uma bactéria promissora, o segredo pode estar em manejar o solo como um ecossistema vivo. “A saúde do solo é um fator central para o sucesso da agricultura moderna”, resume a equipe da Embrapa. “A diversidade microbiana não é um detalhe — ela é a base para uma produção mais eficiente e sustentável.”
Os autores do trabalho são Caroline Sayuri Nishisaka, Hélio Danilo Quevedo, João Paulo Ventura, Embrapa Meio Ambiente e ESALQ, Fernando Dini Andreote, ESALQ, Tim Mauchline, Rothamsted Research, Harpenden, UK e Rodrigo Mendes, Embrapa Meio Ambiente, que está disponível aqui.
Sustentabilidade
Ceema: Alta em Chicago e geopolítica impulsionam cotações da soja no Brasil – MAIS SOJA

Nestes quase 30 dias em que estivemos ausentes deste comentário, o mercado da soja registrou importante elevação das cotações em Chicago. O bushel da oleaginosa passou de US$ 12,56 no dia 27/08 para US$ 13,28 no dia 21/09, tendo recuado um pouco após esta data, para fechar a quinta-feira (24) em US$ 13,16, contra US$ 13,19 uma semana antes. Destacando que a média de agosto chegou a US$ 11,98/bushel, com aumento de 0,17% sobre a média de julho, porém, neste momento estando longe dos preços praticados.
Este forte aumento em Chicago, além das especulações climáticas sobre a safra dos EUA, vem da pressão do preço do petróleo no mercado mundial, com o mesmo tendo atingido a pouco mais de US$ 100,00/barril neste período de setembro, devido a continuidade da guerra no Oriente Médio e da piora no conflito entre Rússia e Ucrânia.
Aliás, na Europa existe um grande temor de que este último saia da região dos dois países em conflito e se espalhe pelo continente, resultando em uma guerra mais ampla e destruidora. Alguns analistas chegam a falar que o mundo estaria às portas da 3ª Guerra Mundial. Junta-se a isso a forte especulação dos Fundos em Chicago.
Dito isso, importante se faz alertar que o último relatório do USDA, sobre oferta e demanda, divulgado neste mês de setembro, não revelou perdas na futura safra de soja dos EUA cuja colheita iniciou neste mês de setembro. Ao contrário, o mesmo até aumentou a produção esperada, agora indicando uma colheita de 123,4 milhões de toneladas, com estoques finais estadunidenses em 8,4 milhões, com pequena baixa em relação a agosto. Já a produção mundial foi mantida em 442 milhões de toneladas e os estoques finais mundiais mantidos em 124 milhões. Por sua vez, mesmo com o aumento no preço mundial do petróleo, o óleo de soja, após atingir a 71,28 centavos de dólar por libra-peso no dia 10/09, recuou para 66,82 centavos no dia 24/09, sendo esta a quarta mais baixa cotação desde o dia 30 de junho em Chicago.
Por sua vez, o farelo se manteve firme, atingindo a US$ 375,20/tonelada curta no dia 24/09, a mais alta cotação desde o dia 11 de julho de 2024. Enfim, lembrar que os Fundos estão muito comprados em Chicago devendo, assim que a ocasião se apresentar, iniciar um movimento mais amplo de correção, vendendo contratos, fato que pode pressionar para baixo as cotações dependendo da intensidade do movimento.
Por outro lado, os embarques de soja, pelos EUA, na semana encerrada em 17/09, chegaram a 759.200 toneladas, superando levemente as expectativas do mercado. Na comparação anual, o desempenho também foi superior, já que na mesma semana de 2025 haviam sido embarcadas 565.600 toneladas, o que representa crescimento de aproximadamente 34%. A China respondeu por 59% destes embarques.
Enquanto isso, a colheita da soja nos EUA atingia a 12% da área no dia 20/09, contra 8% na média histórica. De forma mais conjuntural, nesta semana os preços brasileiros da soja se mantiveram firmes, em alta. No Rio Grande do Sul, onde muitas praças estão sem cotação, a média semanal atingiu a R$ 141,72/saco. No final de agosto esta média estava em R$ 131,38. Ou seja, no período o saco de soja ganhou pouco mais de 10 reais junto ao produtor gaúcho. Nas demais praças nacionais o produto oscilou entre R$ 139,00 e R$ 145,00/saco. Um mês atrás os valores ficavam entre R$ 130,00 e R$ 140,00/saco. Ou seja, um aumento entre 5 e 9 reais por saco no período, dependendo da região do país. Auxiliou para isso a boa demanda pelo produto nacional, a relativa escassez do mesmo agora na entressafra, fato que elevou o prêmio nos portos (US$ 1,85/bushel para setembro, em Paranaguá), e a manutenção de um câmbio ao redor de R$ 5,15 por dólar.
No front externo, o mercado olha os resultados da nova reunião entre os presidentes da China e dos EUA. Xi Jinping chegou nesta quinta-feira (24) à capital norteamericana. Dentre os assuntos em discussão, existe a possibilidade de aumento nas compras de soja estadunidense pela China, fato que fortalece Chicago. Já no front interno, destaque para o início do plantio da nova safra de soja no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. No conjunto do país, 0,5% da área esperada havia sido semeada até o dia 18/09. Vale lembrar que no Mato Grosso, no momento, há umidade insuficiente no solo para um plantio adequado.
Enfim, embora os preços tenham perdido um pouco de fôlego nestes últimos dias, o produto posto nos portos segue com preços firmes. Para a soja disponível os mesmos seguem acima dos R$ 160,00/saco, enquanto a soja da safra 2026/27 continua trabalhando acima dos R$ 150,00 nos portos (R$ 155,00 para entrega em fevereiro e pagamento em abril, e R$ 151,00 para entrega em março, também com pagamento em abril).

Fonte: Informativo CEEMA UNIJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum¹
1 – Professor Titular do PPGDR da UNIJUÍ, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA (FIDENE/UNIJUÍ).
Sustentabilidade
Como ficaram as cotações da soja no fim desta semana? Saiba os preços por região

O mercado brasileiro de soja encerrou a semana com poucas alterações nesta sexta-feira (25), em um ambiente de baixa movimentação e poucas ofertas. O analista da Safras & Mercado, Rafael Silveira, destaca que algumas praças do mercado interno registraram recuo nos preços, com certo alívio nos basis locais.
Nos portos, o cenário permaneceu parado, sem reporte de movimentos firmes. Segundo Silveira, o quadro geral foi de poucas ofertas e de um mercado bastante travado, situação que também predominou ao longo da semana.
Na Bolsa de Chicago, a sessão foi marcada por bastante volatilidade, com o mercado encerrando com leves ganhos no spot. O dólar atingiu bons níveis ao longo do dia e ajudou a segurar os movimentos de queda registrados em tela.
Preços de soja no Brasil
- Passo Fundo (RS): manteve em R$ 156,00
- Santa Rosa (RS): manteve em R$ 157,00
- Cascavel (PR): manteve em R$ 151,00
- Rondonópolis (MT): manteve em R$ 147,00
- Dourados (MS): subiu de R$ 147,50 para R$ 148,00
- Rio Verde (GO): desceu de R$ 148,00 para R$ 147,00
Nos portos, em Paranaguá (PR), a saca seguiu em R$ 162,00. Em Rio Grande (RS), as referências não saíram de R$ 164,00.
Soja em Chicago
Os contratos futuros da soja fecharam em leve alta na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT), nesta sexta-feira (25). Após operar em baixa durante parte da sessão, o mercado reverteu o movimento, enquanto os participantes seguem à espera de detalhes dos acordos comerciais entre Estados Unidos e China após a cúpula realizada na quinta-feira (24).
Embora o governo dos Estados Unidos tenha informado que acordos comerciais foram firmados para determinados produtos, os detalhes serão divulgados apenas na segunda-feira. A aguardada cúpula entre os dois países, até o momento, não resultou em novos compromissos chineses para compras de produtos agrícolas norte-americanos.
A queda do petróleo pressionou as cotações durante a sessão. Os preços recuaram diante de notícias sobre possíveis negociações entre Estados Unidos e Irã para uma reabertura gradual do Estreito de Ormuz, após o barril superar US$ 108 na sessão anterior.
Em sentido contrário, as chuvas persistentes no Meio-Oeste dos Estados Unidos atrasam o início da colheita em algumas regiões e restringem a oferta disponível para processamento.
Contratos futuros da soja
Os contratos da soja em grão com entrega em novembro fecharam com alta de 2,25 centavos de dólar ou 0,17%, a US$ 13,19 3/4 por bushel. A posição janeiro teve cotação de US$ 13,32 3/4 por bushel, com avanço de 1,00 centavo de dólar ou 0,07%.
Na semana, a posição novembro/26 registrou ganho acumulado de 1,25%.
Nos subprodutos, a posição dezembro do farelo fechou com baixa de US$ 1,80 ou 0,48%, a US$ 370,60 por tonelada. No óleo, os contratos com vencimento em dezembro fecharam a 67,84 centavos de dólar, com ganho de 0,29 centavo ou 0,42%.
Câmbio
O dólar comercial encerrou a sessão em baixa de 0,17%, sendo negociado a R$ 5,1847 para venda e a R$ 5,1827 para compra. Durante o dia, a moeda norte-americana oscilou entre a mínima de R$ 5,1732 e a máxima de R$ 5,2137. Na semana, o dólar acumulou alta de 0,72% ante o real.
Sustentabilidade
Ceema: Quebra de safra, problemas de qualidade e importações aquecem o mercado do Trigo – MAIS SOJA

Após disparar no final de agosto e início de setembro, quando o bushel atingiu a US$ 7,64 no dia 1º do corrente mês, a cotação do trigo, em Chicago, cedeu bastante, fechando a quinta-feira (24) em US$ 7,05, contra US$ 7,27 uma semana antes. A média de agosto ficou em US$ 6,76/bushel, ganhando 4,3% sobre a média de julho.
Apesar dos conflitos bélicos, especialmente entre Rússia e Ucrânia, o mercado do trigo cedeu, e vem oscilando em patamares menores nesta segunda quinzena de setembro. Enquanto isso, o plantio do trigo de inverno, nos EUA, chegava a 17% da área esperada no dia 20/09, contra 21% na média histórica. Já o trigo de primavera estava com 96% de sua área colhida relativa a última safra.
Quanto às exportações, na semana encerrada em 17/09 as mesmas atingiram a 335.300 toneladas nos EUA, ficando dentro das expectativas do mercado. Importante lembrar que o relatório de oferta e demanda do USDA, anunciado em 11/09, manteve uma safra reduzida de trigo nos EUA, com 41,7 milhões de toneladas e estoques finais, para 2026/27, em 19,5 milhões. No ano anterior a colheita e os estoques atingiram, respectivamente, 54 e 25 milhões de toneladas. Ou seja, a atual produção estadunidense é 22,8% menor do que a do ano anterior, enquanto os estoques finais são 22% menores. Já a produção mundial somaria 822,4 milhões de toneladas, ficando 22 milhões de toneladas menor do que a registrada no ano anterior. E no Brasil os preços subiram, com o cereal atingindo a média de R$ 71,94/saco no Rio Grande do Sul, enquanto no Paraná o produto atingiu valores entre R$ 79,00 e R$ 82,00/saco.
As condições das lavouras paranaenses pioraram diante das geadas tardias e do excesso de chuvas dos últimos dias. Com 46% da área colhida, apenas 64% das lavouras restantes se apresentavam em boas condições. O produto colhido apresenta baixa qualidade industrial, na maioria dos casos, enquanto a produtividade média está em recuo. Em termos gerais, aumenta a presença de trigo tipos 2 e 3, enquanto o produto de qualidade superior, tipo 1, está com menor disponibilidade.
No Rio Grande do Sul a colheita ainda está distante, com apenas 1% da área realizada, e as constantes e significativas chuvas, acompanhadas de granizo e ventos fortes, vêm causando estragos nas lavouras. Nesta safra, o Estado gaúcho plantou 814.000 hectares com trigo, uma queda de 30% em relação ao ano anterior, e projeta uma produção quase 40% menor, estimada em cerca de 2 milhões de toneladas.
Assim, a disponibilidade de trigo será ainda menor no Brasil, após o forte recuo na área semeada. Isso eleva o preço interno do cereal e obriga o país a importar mais no ano comercial 2026/27. “A desuniformidade no desenvolvimento das lavouras é uma das marcas da atual safra gaúcha”. Afora tudo isso, as lavouras do sul do país está sendo atacadas por diferentes doenças, especialmente oídio e giberela.
Por enquanto, a Conab ainda projeta uma safra nacional de 5,7 milhões de toneladas (recuo de 27,1% sobre o ano anterior), porém, a qualidade do produto será baixa em grande parte das áreas colhidas. Com isso, as importações nacionais de trigo devem ficar entre 7 e 8 milhões de toneladas. Boa parte deverá vir da Argentina, porém, a dificuldade de produção em outras regiões do mundo tende a aumentar a concorrência pelo trigo do vizinho país.
Em tal contexto, para o produtor, “em um cenário de menor disponibilidade de trigo tipo 1, lotes que mantenham PH, força de glúten e demais parâmetros exigidos pela indústria podem encontrar valorização relativa, enquanto grãos de classificação inferior ficam mais expostos a descontos. Já para os moinhos, a questão será inversa: saber quanto da safra doméstica poderá efetivamente entrar na produção de farinha e quanto precisará ser substituído por produto argentino ou de outras origens” (cf. Cepea).
Enfim, se por um lado a safra menor sustenta as cotações, por outro lado será a qualidade do produto que definirá quem conseguirá aproveitar esse movimento. Em 2026, produzir trigo não será suficiente: os ganhos ficarão com quem conseguir entregar o grão exigido pela indústria.

Fonte: Informativo CEEMA UNIJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum¹
1 – Professor Titular do PPGDR da UNIJUÍ, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA (FIDENE/UNIJUÍ).
Autor:Dr. Argemiro Luís Brum/CEEMA-UNIJUÍ
Site: Ceema/Unijuí
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