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O agro precisa procurar os políticos antes da próxima crise

Quando o preço desaba, o crédito não chega ou uma dificuldade ameaça a próxima safra, corremos atrás de deputados, senadores e governadores. Levamos os problemas, pedimos ajuda, tiramos uma fotografia e voltamos para casa. Às vezes conseguimos alguma coisa. Mas, passado o aperto, o contato esfria e só será retomado na próxima emergência.
Tenho defendido que precisamos mudar essa maneira de trabalhar. Com os novos mandatos nas assembleias legislativas e no Congresso, podemos começar uma relação que dure os quatro anos, com propostas na mesa e acompanhamento a cada seis meses.
Penso nas cadeias que abastecem o prato feito do brasileiro. Arroz, Feijão, proteína animal, farinha de mandioca, milho, hortifruti e quem mais quiser sentar junto. Há dificuldades próprias de cada setor, mas também muita coisa em comum. Crédito, seguro, pesquisa, armazenagem e condições para produzir não interessam a uma cultura só.
O primeiro passo é organizar o que precisamos resolver agora, o que exige alguns anos de trabalho e o que queremos construir para o futuro. Um plano de Estado que continue fazendo sentido quando mudar o governo.
Não adianta, porém, entregar um calhamaço ao deputado e achar que fizemos nossa parte. Precisamos colocar a proposta na mão dele e explicar. Mostrar onde está o problema, quem sofre com ele, quanto custa e qual providência esperamos. Quem conhece o assunto somos nós; cabe a nós torná-lo compreensível.
Um pedido de apoio à produção de Feijão, por exemplo, precisa mostrar o que acontece com o abastecimento quando o produtor perde dinheiro e deixa de plantar. Precisa explicar por que pesquisa, irrigação, seguro e comercialização afetam tanto a renda na roça quanto o preço na mesa. E indicar o que depende do Legislativo, do Executivo ou do próprio setor.
Depois vem a parte que costumamos deixar pelo caminho: voltar.
A cada seis meses, sentam-se não somente o nosso profissional de relações institucionais, o mesmo grupo que sentou a primeira vez, além do parlamentar e sua equipe para olhar a mesma agenda. O que andou? Onde travou? Quem precisa participar para destravar? Pode faltar orçamento, um estudo, uma regulamentação ou entendimento entre órgãos. Precisamos descobrir isso enquanto há tempo de agir, em vez de esperar outra safra perdida para cobrar uma resposta.
Também devemos chegar a essas reuniões com a nossa tarefa feita. Se faltou informação, vamos buscá-la. Se a proposta estava mal formulada, vamos corrigir. Representar uma cadeia produtiva exige mais do que apresentar pedidos.
É aí que vejo um papel maior para as Câmaras Técnicas, Temáticas e Setoriais. Esses espaços reúnem produtores, pesquisadores, empresas e poder público. Há conhecimento de sobra, mas precisamos aproveitar melhor essa capacidade.
Defendo que trabalhem como Centros de Inteligência do Feijão, do Arroz, do Trigo, do Milho, das Carnes e das demais cadeias. As estruturas estaduais acompanhariam as necessidades regionais; as setoriais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) ajudariam a consolidar o que exige uma solução nacional. Esse conhecimento também precisa chegar aos legisladores, com diagnósticos claros e propostas que possam ser encaminhadas.
Não penso em começar criando cargos ou mais uma estrutura. Penso em dar continuidade ao trabalho de quem já está reunido nessas câmaras. Acompanhar produção, consumo, custos e riscos, antecipar dificuldades e manter as prioridades atualizadas. Assim, uma reunião começa com informação organizada e termina com tarefas definidas.
Sabemos os eleitos que conhecem o agro e aqueles que podem se interessar pela agenda dos alimentos. Há espaço para conversar com parlamentares ligados à saúde, ao emprego e à economia dos municípios. Todos eles têm eleitores que precisam se alimentar e todos representam regiões que dependem de produzir ou consumir.
É natural que um parlamentar queira chegar à próxima eleição com resultados para mostrar. Mas podemos ao longo do processo comunicar os eleitores que o deputado A ou B está cooperando e dar os créditos a ele. Podemos ajudá-lo a entender os problemas e construir soluções, reconhecendo publicamente as entregas. Mas a agenda precisa estar aberta a diferentes partidos e continuar de pé depois de cada eleição.
A união em torno do prato feito pode dar força a esse trabalho. Cada cadeia preserva suas prioridades, enquanto buscamos juntos aquilo que melhora a produção e o acesso aos alimentos. O consumidor precisa conseguir comprar, e o produtor precisa ter renda para continuar plantando. Quando um desses lados perde as condições de seguir, a conta acaba chegando ao outro.
No Ibrafe, estamos defendendo essa aproximação permanente. O Feijão precisa de estímulo ao consumo, pesquisa, novos mercados e condições de produção. Parte disso depende de nós, parte exige decisões públicas. Temos que separar essas responsabilidades e acompanhar ambas.
Minha proposta é começar agora: reunir as cadeias interessadas, organizar uma agenda para 2027–2030 e apresentá-la no início dos mandatos. Seis meses depois, voltar com o documento na mão e conferir o que aconteceu.
Ao fim dos quatro anos, poderemos apontar os problemas que cada um, junto com o legislador, ajudou a resolver. Fotografias de audiências já temos. Precisamos fazer esse relacionamento render mais para quem produz e para quem coloca comida na mesa.

*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
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Atraso no beneficiamento do algodão acende alerta para contratos de exportação

Com a colheita do algodão encerrada no Brasil e o beneficiamento ainda em andamento, a safra 2025/26 entra em uma etapa de maior atenção para os contratos de exportação.
Esse intervalo entre a retirada do algodão do campo e a disponibilidade da pluma beneficiada, classificada e pronta para embarque é o que contribui para um problema já bastante conhecido do cotonicultor: maior pressão de prazos de entrega e menores janelas de embarque.
Dados divulgados em setembro ajudam a dimensionar o descompasso que marcou a passagem da colheita para a etapa comercial. De acordo com a Conab, a retirada da pluma da lavoura já se aproximava do fim na primeira quinzena do mês, com 95,6% da área colhida. Enquanto isso, levantamento da Agroconsult mostrava que, até 3 de setembro, somente 35% do algodão havia passado pelo beneficiamento.
Portanto, naquele momento, parcela relevante da safra ainda precisava percorrer etapas posteriores à colheita antes de chegar às condições comerciais necessárias para entrega.
Para a Chief Legal Officer para Assuntos Corporativos e de Negócios do Albuquerque Melo Advogados, Cristiane Secco, esse intervalo entre a colheita e a disponibilidade comercial da fibra pode se transformar em questão jurídica quando alcança prazos definidos nos contratos, especialmente nas operações destinadas ao mercado externo. A existência física do produto não significa, necessariamente, que ele esteja em condições de cumprir a janela de embarque pactuada.
“O mercado costuma tratar atraso de beneficiamento como um problema operacional. Contratualmente, ele não é neutro: quando a fibra existe, mas ainda não está beneficiada, classificada e posicionada dentro do shipment period, a pergunta que importa é quem assumiu esse risco no contrato, e muitos contratos da safra atual não respondem a isso com clareza.”
Exportações recordes aumentam peso dos prazos
O Brasil chega a esta etapa da safra em um novo patamar no comércio internacional. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, o país exportou 3,37 milhões de toneladas de algodão, alta de 19% em relação ao ano comercial anterior e, pela primeira vez, superou a marca de 3 milhões de toneladas.
Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), os embarques movimentaram US$ 5,3 bilhões, consolidando o país como o maior exportador mundial da fibra.
Para a próxima temporada comercial, a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) já projeta um novo recorde de exportações. Em reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão, realizada em 15 de setembro, a entidade destacou que o escoamento de uma safra elevada ocorrerá em um cenário de compradores mais cautelosos e maior disputa pelos mercados internacionais. A diversificação dos portos de embarque também entrou na agenda do setor, com Salvador ganhando espaço como alternativa a Santos.
Nesse cenário, a advogada ressalta que atrasos nas etapas anteriores ao embarque podem repercutir em diferentes pontos da relação contratual. Entre eles estão a necessidade de extensão da janela originalmente acordada, a definição de quem arca com custos adicionais de armazenagem, frete e sobre-estadia de contêineres ou navios, além das consequências de eventual descumprimento do prazo de entrega.
De acordo com Cristiane, a fronteira entre atraso operacional e inadimplemento é um dos pontos mais sensíveis da temporada. “Carry-over não é um direito automático. Ele depende do que foi pactuado sobre tolerância, prorrogação e alocação de custos, como armazenagem, demurrage e diferença de frete. Quando o contrato silencia, a discussão migra para a interpretação, e é aí que as disputas começam”.
O risco contratual também não se limita à existência ou não de uma cláusula de força maior. Eventos próprios da cadeia de beneficiamento e logística podem ocupar uma zona intermediária: não necessariamente configuram acontecimentos extraordinários suficientes para afastar responsabilidade, mas também podem decorrer de circunstâncias que escapam ao cronograma originalmente projetado pelas partes.
Por isso, a redação sobre tolerâncias, extensão de prazo, comunicação de atrasos e repartição de despesas ganha relevância à medida que a safra avança para sua etapa comercial.
Safra 26/27 na mesa de negociação
A discussão ocorre justamente quando o mercado começa a olhar para 2026/27. As primeiras perspectivas da Conab para a próxima safra indicam que a área destinada ao algodão pode chegar a aproximadamente 2,09 milhões de hectares, próxima aos níveis observados antes da retração desta temporada, com produção estimada em cerca de 4,2 milhões de toneladas de pluma.
A demanda externa deve continuar exercendo papel importante na sustentação da cultura, aumentando a relevância da capacidade de escoamento e do cumprimento dos contratos de exportação.
Para a especialista, as negociações da próxima temporada abrem uma janela para que produtores, tradings e compradores incorporem aos novos contratos problemas identificados durante a execução da safra atual, especialmente em um cenário no qual o Brasil amplia sua presença no mercado internacional e precisa compatibilizar produção, beneficiamento, logística e embarques.
“As tratativas da safra 2026/27 estão começando agora. É o momento de revisar como os contratos tratam janela de embarque, tolerância e aqueles eventos que ficam entre a força maior clássica e o risco ordinário do negócio. O custo de fazer isso na mesa de negociação é uma fração do custo de fazê-lo em uma disputa”, finaliza.
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Engenheiro-agrônomo amplia apoio técnico e inovação no campo paranaense

Celebrado em 12 de outubro, o Dia do Engenheiro-agrônomo destaca o papel desses profissionais no desenvolvimento da agropecuária paranaense. Com formação multidisciplinar, eles atuam em diferentes etapas da produção, do planejamento das propriedades ao uso de biotecnologia, passando por manejo, pesquisa, assistência técnica e formulação de políticas públicas.
No Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná — Iapar-Emater (IDR-Paraná), engenheiros-agrônomos integram equipes voltadas à geração, adaptação e difusão de tecnologias, além da orientação a agricultores em busca de sistemas produtivos mais eficientes, rentáveis e sustentáveis.
Segundo a diretora de pesquisa e inovação do IDR-Paraná, Vania Moda Cirino, o desafio da pesquisa é usar o método científico para resolver problemas e gerar conhecimento e tecnologias aplicáveis no campo. Na instituição, esses profissionais desenvolvem estudos em áreas como melhoramento genético, propagação vegetal, manejo e conservação do solo, fitossanidade, agrometeorologia, fisiologia vegetal, sistemas integrados de produção, mecanização e agricultura de precisão.
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Um dos diferenciais do IDR-Paraná está na integração entre pesquisa e extensão rural. Enquanto pesquisadores investigam problemas e avaliam alternativas para os sistemas produtivos, extensionistas trabalham diretamente com os agricultores, orientando a aplicação do conhecimento técnico e identificando demandas que podem originar novos estudos.
De acordo com o diretor de extensão rural do IDR-Paraná, Paulo Eduardo Sipoli Pereira, o trabalho do extensionista exige conhecer a realidade de cada família e construir soluções em conjunto. Além das práticas de cultivo e manejo, a atuação inclui planejamento das atividades, gestão econômica das propriedades, organização dos produtores e acesso a políticas públicas.
O Balanço Social do IDR-Paraná referente a 2023 apontou que 73 ações de pesquisa agropecuária, extensão rural e logística geraram retorno superior a R$ 7 para a sociedade a cada R$ 1 investido na instituição.
O avanço das ferramentas digitais, da biotecnologia e das exigências ligadas à viabilidade econômica e à sustentabilidade amplia o espaço de atuação da agronomia no campo. Para o presidente da Associação dos Engenheiros-agrônomos de Londrina, Renato Arantes, o profissional do futuro deverá reunir formação técnica, visão de gestão, tecnologia, negócios e sustentabilidade.
Fonte: agricultura.pr.gov.br
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Produtor vira engenheiro agrônomo para ajudar o pai e hoje soma 7 milhões de seguidores nas redes

Com um chapéu de palha na cabeça, camiseta rasgada, bermuda e botas nos pés, o engenheiro agrônomo Isnael Nonato foge do visual tradicional de muitos profissionais que utilizam as redes sociais para compartilhar conhecimentos sobre agricultura. Mais conhecido como Agrônomo de Vera, ele conquistou milhões de seguidores nas redes sociais com uma comunicação simples, direta e sem formalidades.
Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
Nascido em Cacoal (RO), criado em Goiânia (GO) e atualmente morador de Vera, no interior de Mato Grosso, Isnael produz seus vídeos em uma propriedade de apenas três hectares, onde vive com a esposa, Gabriela.
Aos poucos, as dicas sobre hortaliças, cuidados com plantas, controle de pragas e técnicas de cultivo ultrapassaram os limites da pequena propriedade. Hoje, ele acumula 7 milhões de seguidores em suas redes sociais, sendo 2,3 milhões só no Instagram.
Por trás do sucesso nas redes sociais, porém, existe uma trajetória marcada por dificuldades financeiras, perdas familiares e uma promessa que Isnael fez a si mesmo ainda na adolescência: estudar agronomia para ajudar o pai e outros agricultores que não tinham acesso à assistência técnica.
O desejo de mudar a realidade da família
Filho e neto de trabalhadores rurais, Isnael cresceu acompanhando as dificuldades enfrentadas pela família para conseguir produzir no campo.
O avô trabalhava como caseiro em fazendas, enquanto o pai era funcionário em propriedades de terceiros. Durante a infância, Isnael observava que muitos agricultores tinham dificuldades para aumentar a produtividade por falta de orientação técnica.
“Desde criança eu via as dificuldades do meu avô e do meu pai. Eles plantavam, mas não tinham muita produtividade. Meu pai não tinha acesso à informação e ao profissional agrônomo”, recorda.
A situação despertou no adolescente o interesse pela profissão. Entre os 13 e os 15 anos, ele já havia decidido qual caminho seguiria.
“Eu decidi que ia ser engenheiro agrônomo, que ia estudar essa parte da agricultura para poder ter esse conhecimento.”
A mudança da família para Mato Grosso reforçou ainda mais essa escolha. Depois de anos trabalhando para outras pessoas, o pai decidiu buscar uma oportunidade de ter a própria terra. Incentivado por informações de familiares que já moravam no estado, mudou-se com a família para a região de Sinop e conseguiu uma área de assentamento em Boa Esperança do Norte.
Na propriedade de aproximadamente 100 hectares, a família passou a trabalhar com hortaliças e criação de gado. Entretanto, a distância dos grandes centros urbanos tornava o acesso à assistência técnica ainda mais difícil. Segundo Isnael, a propriedade ficava a cerca de 280 quilômetros de Sorriso, e o atendimento aos pequenos produtores era limitado.
“Quando chegamos ao Mato Grosso, eu pensava que Goiânia era ruim de assistência técnica. Mas foi aqui que vimos o que era dificuldade. Tinha engenheiro agrônomo que ia atender meu pai e nem descia do carro”, conta.
Determinado a mudar aquela realidade, Isnael iniciou sua formação como técnico agrícola, concluída em 2013.
Ainda durante os estudos, aproveitava as visitas à propriedade do pai para orientar os agricultores vizinhos, principalmente em questões relacionadas ao cultivo e ao controle de pragas.
Como muitos não tinham condições de comprar insumos ou contratar assistência especializada, ele procurava apresentar alternativas acessíveis, utilizando os recursos disponíveis nas propriedades.
Foi nessa época que percebeu que o conhecimento adquirido na escola poderia beneficiar muito mais pessoas do que apenas sua família.
Após concluir o curso técnico, Isnael começou a trabalhar em uma fazenda, onde respondia aos engenheiros agrônomos responsáveis pelas atividades.
A experiência despertou o desejo de continuar estudando. “Eu falei: ‘Não quero só executar as ordens dos engenheiros agrônomos. Quero ser mais do que isso’. Então fui para Sorriso estudar agronomia.”
Em 2019, concluiu a graduação em Engenharia Agronômica. Durante sua formação, trabalhou em empresas do setor de sementes e pesquisa agrícola, acumulando experiência com culturas como soja e milho.
A carreira parecia encaminhada, mas uma sequência de acontecimentos mudaria completamente seus planos.
Perdas e dívidas
Em um período particularmente difícil, Isnael enfrentou a morte do pai e a perda do emprego em uma empresa do setor agrícola.
Morando de aluguel em Sorriso (MT), viu as despesas se acumularem enquanto tentava encontrar uma maneira de sustentar a família.
“Meu mundo desabou. Meu pai faleceu, perdi o emprego, estava devendo aluguel, as contas chegando e só acumulando”, relembra.
A oportunidade de recomeçar surgiu depois que sua mãe vendeu a propriedade da família em Boa Esperança do Norte e dividiu os recursos entre os filhos.
Com sua parte, Isnael e Gabriela decidiram investir em uma pequena chácara de três hectares, no município de Vera.
O plano era ousado: viver exclusivamente da produção agrícola e provar, na prática, que uma pequena propriedade poderia garantir o sustento de uma família.
A ideia de compartilhar essa experiência nas redes sociais já existia, mas Isnael estabeleceu uma condição antes de começar a produzir conteúdo.
“Eu falei para a Gabriela: ‘Nós vamos pegar essa chácara, vamos plantar, vamos sobreviver dela e vamos fazer dar certo primeiro. Depois vamos mostrar para o Brasil que dá para viver na roça, que a gente consegue ter uma vida digna e ter sucesso’.”
O casal começou a trabalhar com o cultivo e a comercialização de hortaliças, especialmente alface.
Depois de dois anos, a propriedade já gerava recursos suficientes para pagar as despesas da família e permitir alguns investimentos.
Foi então que Isnael decidiu colocar em prática a segunda parte do projeto: compartilhar o conhecimento adquirido com outras pessoas.
Viralizou!

Em outubro de 2024, Isnael e Gabriela criaram os perfis que dariam origem ao Agrônomo de Vera.
Inicialmente, as publicações eram utilizadas para divulgar os produtos da chácara e atrair compradores da região. A mudança aconteceu depois que um vereador de Vera, que acompanhava as divulgações de Isnael em grupos de WhatsApp, percebeu sua facilidade para se comunicar.
Segundo o agrônomo, o político telefonou para incentivá-lo a gravar vídeos com dicas de agricultura. “Ele falou: ‘Isnael, você se comunica muito bem. Você fala de uma forma que todo mundo entende, não interessa o grau de estudo. Começa a gravar esses vídeos e coloca nas redes sociais’.”
Apesar do incentivo, Isnael ainda tinha dúvidas. O casal também enfrentava novas dificuldades financeiras depois de investir as economias na construção de uma represa na propriedade.
“Todo o dinheiro que tínhamos guardado naqueles dois anos, nós gastamos. Estávamos quebrados, com financiamento de carro e energia solar atrasados”, relata.
Em uma tarde de domingo, desanimado com a situação, Isnael estava sentado próximo à represa quando pediu à esposa que pegasse o celular.
“Eu estava muito triste. A Gabriela sempre me levantando, sempre positiva comigo. De repente, senti uma alegria muito grande e falei: ‘Gabi, grava um vídeo para mim’.”
Na gravação, de quase quatro minutos, ele se apresentou e explicou o que pretendia ensinar.
“Meu nome é Isnael Nonato, sou engenheiro agrônomo aqui da cidade de Vera, Mato Grosso. E nesse canal eu vou ensinar vocês a viver da roça. Vou provar que uma pessoa consegue sobreviver em um pequeno pedaço de chão.”
O vídeo foi publicado no TikTok, onde o perfil tinha pouco mais de cem seguidores. Pouco depois da publicação, faltou energia elétrica na propriedade. Sem acesso à internet, o casal não conseguiu acompanhar a repercussão.
Na manhã seguinte, uma ligação da filha, Isabela, trouxe a notícia inesperada. “Mãe, o que vocês aprontaram com o pai ontem? O vídeo dele está com um milhão e meio de visualizações”, contou a jovem, segundo Isnael.
A repercussão surpreendeu a família. Quando a energia voltou, o casal decidiu publicar o mesmo conteúdo no Instagram. O resultado foi semelhante: milhares de visualizações e um crescimento acelerado no número de seguidores.
“De um dia para o outro, passamos de 10 mil seguidores no Instagram. No TikTok também ultrapassamos 10 mil. Depois colocamos no Facebook e no Kwai, e virou uma bola de neve.”
O casal decidiu aproveitar o momento e passou a publicar vídeos diariamente.”Falamos: ‘Se é para continuar, vamos postar um vídeo todo dia’. E nunca mais paramos.”
Simplicidade na comunicação

Uma das características que mais chamam a atenção nos vídeos de Isnael é a maneira como ele transmite conhecimentos técnicos sem recorrer a explicações complicadas.
O agrônomo conta que a escolha pela linguagem simples surgiu de experiências vividas durante sua formação e atuação profissional.
Em palestras e eventos técnicos, ele frequentemente encontrava dificuldades para compreender determinados termos utilizados pelos próprios colegas.
“Eu sou engenheiro agrônomo e, quando ia às palestras, entendia 60% a 70% do que os caras falavam. Por que o sujeito tem que falar análise de solo e não pode falar análise de terra?”, questiona.
A percepção de que a linguagem excessivamente técnica afastava parte do público influenciou diretamente a forma como decidiu produzir seus conteúdos.
“Quando o cara fala muito técnico, está falando para um número limitado de pessoas. Quando fala do jeito certo, consegue alcançar tanto quem tem conhecimento quanto quem nunca foi à escola.”
Para Isnael, o objetivo é oferecer orientações que possam ser compreendidas e aplicadas por pessoas com diferentes níveis de escolaridade.
Embora o foco principal seja a agricultura familiar, os conteúdos também alcançam moradores de cidades que desejam cultivar alimentos em pequenos espaços.
“Meu público é aquele que mora no apartamento, na chácara, na roça. Não interessa onde estiver. É quem precisa da informação.”
Segundo ele, uma pessoa que deseja plantar cebolinha em um vaso na varanda pode encontrar informações tão úteis quanto um agricultor que depende da produção para sustentar a família.
‘Não sou um personagem’

Além da linguagem, o visual de Isnael também se tornou uma marca registrada. Diferentemente da imagem frequentemente associada aos profissionais do agronegócio, ele aparece nos vídeos usando chapéu de palha, bermuda, botas e camisetas muitas vezes rasgadas pelo trabalho diário.
O estilo desperta curiosidade entre os seguidores, que questionam se as roupas fazem parte de uma estratégia para conquistar audiência.
Isnael garante que não. “Não é um personagem. Essas roupas que vocês me veem usando nas redes sociais, de shortão e bota, sou eu. Se você chegar aqui hoje, vai me encontrar de bota, short e camiseta rasgada.”
Ele conta que mantém o estilo mesmo quando participa de compromissos fora da propriedade. “Quando vou viajar de avião, coloco meu chapelão e minha botona. Só não vou de camisa rasgada, porque aí o pessoal estranha”, brinca.
Para o agrônomo, a identificação com o público depende principalmente da autenticidade. “Hoje o seguidor bate o olho no vídeo, escuta uma frase e percebe se você está falando a verdade ou sendo falso. Eu sou simples assim.”
E acrescenta: “Eu sou aquele engenheiro agrônomo raiz, que quer pegar a terra com a mão, pisar na terra de bota e de short. Essa é minha realidade.”
O sucesso nas redes e a missão de ajudar outras pessoas
Com milhões de seguidores e vídeos que alcançam grandes audiências, Isnael passou a dedicar parte significativa da rotina à produção de conteúdo.
As publicações abordam problemas que surgem no dia a dia da propriedade e dúvidas enviadas pelos seguidores.
Ele explica que acompanha os comentários para identificar os assuntos de maior interesse e procura publicar orientações relacionadas às necessidades do público em cada época do ano.
“Se tem dez comentários pedindo informações sobre jabuticaba e um sobre goiaba, eu vou olhar o que as pessoas estão pedindo. É isso que dá a oportunidade de saber o que elas querem.”
Apesar da popularidade, afirma que sua principal preocupação não é alcançar números cada vez maiores de visualizações.
“Se eu postar um vídeo que tenha 10 mil visualizações, vou ficar feliz, porque com certeza aquele vídeo ajudou alguém. Meu interesse não é mais bater um milhão de visualizações. Meu interesse é ajudar.”
O crescimento também trouxe reconhecimento. Isnael figura entre os três colocados em uma parcial da votação do Prêmio iBest na categoria de influenciadores do agronegócio.
Mas, ao falar sobre o que considera sua maior conquista, o agrônomo volta às lembranças do pai. Segundo ele, um ensinamento recebido na infância continua orientando suas decisões.
“Meu pai sempre falava: ‘Isnael, quando você faz o mal, volta cem vezes mais. E quando você faz o bem, volta um milhão de vezes mais’.”
Hoje, ao receber mensagens de agradecimento e relatos de pessoas que conseguiram melhorar seus cultivos com as orientações compartilhadas, ele acredita estar colocando esse ensinamento em prática.
“Você não tem noção do tanto de gente que me deseja felicidade, saúde e paz. Isso volta para a gente de uma forma tão positiva que eu não sei explicar o quanto é bom.”
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