O aumento do endividamento rural e a dificuldade para obter novos financiamentos estão reduzindo a capacidade de investimento dos produtores de Gaúcha do Norte, em Mato Grosso. Com despesas elevadas e receitas insuficientes para quitar compromissos anteriores, agricultores recorrem às revendas de insumos para viabilizar o plantio, mas essas empresas também enfrentam limitações para manter as vendas a prazo.
A queda nos preços agrícolas é um dos fatores que ajudam a explicar o problema. O presidente do Sindicato Rural do município, Valdomiro Schulz, relata que muitos produtores deixaram de obter renda suficiente para pagar as prestações e outras dívidas. Para manter a atividade, parte deles passou a comprometer antecipadamente a produção que ainda será colhida.
“Esses preços caíram muito e, devido esses preços caírem, o endividamento aumentou, porque não se teve mais um lucro suficiente para pagar essas prestações, essas dívidas”, relata Schulz ao Canal Rural Mato Grosso.
A alternativa tem sido buscar crédito comercial e negociar a compra de sementes, fertilizantes e defensivos com pagamento em grãos após a colheita. Embora permita financiar a safra sem desembolso imediato, esse modelo transfere parte da necessidade de recursos para as revendas, que precisam honrar seus próprios compromissos mesmo quando os clientes não conseguem pagar.
A restrição financeira, portanto, não fica limitada às propriedades. Ela alcança empresas fornecedoras, compromete a capacidade de atendimento ao produtor e aumenta a preocupação com os efeitos da atividade rural sobre a economia do município.
Dayan Della Justina Vieira conhece essa relação tanto como produtor quanto como sócio de uma revenda de insumos. Na avaliação dele, a dificuldade de acesso ao crédito tornou-se um dos principais desafios da atividade, porque as empresas comerciais passaram a ocupar um espaço maior na intermediação financeira entre fornecedores e agricultores.
“O produtor tem um crédito mais restrito, a revenda tem um papel muito grande nessa intermediação, fornecedor, cliente, e ela acaba assumindo um risco muito grande”, explica Dayan.
O risco está na obrigação de pagar pelos produtos adquiridos mesmo quando o cliente ainda não quitou a compra. Como as vendas são frequentemente vinculadas ao resultado da colheita, eventuais dificuldades na comercialização ou no cumprimento dos compromissos pelo agricultor podem comprometer o caixa da revenda.
Esse cenário também altera as condições de atendimento aos produtores. Adalberto Grando compara a situação atual com a de cerca de dez anos atrás, quando as empresas conseguiam oferecer pacotes de insumos com maior facilidade. Naquele período, o custo de produção citado por ele era de aproximadamente R$ 2 mil por hectare.
Com o encarecimento da atividade, as revendas precisam de mais capital para atender cada cliente e ficam mais expostas quando há atrasos nos pagamentos. Grando relata que empresas do setor também passaram a enfrentar dificuldades financeiras e processos de recuperação judicial.
“Muitos grupos grandes acabaram fechando, então elas estão enfrentando impactos diretos também dessa situação. A gente viu revendas aí em situação pior do que os agricultores”, conta o produtor à reportagem.
Os números do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) dimensionam a pressão sobre o caixa das propriedades. O custo total de produção da soja para a safra 2026/27 supera R$ 8,2 mil por hectare, alta próxima de 7% em relação ao ciclo anterior.
Entre os componentes que mais encareceram estão as operações mecanizadas, com aumento de quase 24%, e os defensivos agrícolas, que ficaram cerca de 10% mais caros. A redução de aproximadamente 22% no custo das sementes ajudou a conter parte das despesas, mas não compensou a alta dos demais itens.
O avanço dos custos exige mais recursos para implantar e conduzir as lavouras, justamente quando parte dos produtores ainda precisa pagar dívidas de safras anteriores. A combinação reduz a margem disponível para novos investimentos e aumenta a dependência de crédito para manter a produção.
Dayan cultiva 1,5 mil hectares de soja nesta temporada e antecipou o plantio em 15 dias. Neste início de ciclo, a prioridade é garantir o estabelecimento das plantas, em uma safra que ele considera desafiadora diante do valor dos insumos e da necessidade de controlar os gastos.
Para reduzir os riscos, a revenda procura acompanhar a utilização dos produtos nas propriedades e orientar os clientes sobre a aplicação dos recursos. O objetivo é melhorar o retorno do investimento por hectare, em vez de ampliar as despesas sem avaliar o resultado econômico.
“Estamos juntos com o produtor no campo, inclusive na gestão dos insumos dele, para ele ter uma maior eficiência econômica. Não só gastar mais por gastar, ou seja, investir melhor para ter a rentabilidade”, afirma Dayan.
A busca por recursos não se limita ao financiamento da safra atual. Produtores que acumularam dívidas também tentam renegociar os compromissos para reorganizar o fluxo de caixa, mas encontram obstáculos nas instituições financeiras.
Grando relata que procurou bancos para renegociar débitos com base na medida provisória voltada a essa finalidade. As solicitações, porém, não tiveram o resultado esperado. “Os bancos para quem a gente encaminhou simplesmente nos disseram: ‘Não, não vamos fazer’”, afirma.
Em outra tentativa, o produtor recebeu uma proposta com juros de 3,63% ao mês para renegociar uma dívida. Ele considera a taxa incompatível com a situação financeira de quem já enfrenta dificuldades para equilibrar os pagamentos e financiar a produção.
“E aí o produtor fica refém de um ciclo que não gera prosperidade nenhuma”, avalia Grando.
Sem condições consideradas viáveis para reorganizar os débitos, o agricultor continua pressionado por compromissos anteriores enquanto precisa investir no novo ciclo. Ao mesmo tempo, a limitação do crédito bancário amplia a dependência das revendas, que também precisam preservar recursos para manter suas operações.
Os efeitos da restrição financeira podem ultrapassar as propriedades rurais e chegar às contas públicas municipais. O prefeito de Gaúcha do Norte, Ari do Prado, afirma que a arrecadação ainda se mantém, mas demonstra preocupação com a possibilidade de queda no próximo ano caso a atividade agropecuária movimente menos recursos.
“Hoje, ainda, por enquanto, a arrecadação do nosso município vem se mantendo, mas eu tenho certeza que para o ano que vem ela pode cair”, declara.
A preocupação envolve a circulação de renda gerada pela produção rural e seus reflexos sobre o comércio e os serviços. Quando produtores reduzem investimentos ou enfrentam dificuldades para honrar compromissos, os efeitos podem alcançar empresas que fornecem insumos e outros segmentos ligados à movimentação econômica do município.
Grando associa a capacidade de investimento no campo à geração de empregos e renda também fora das propriedades. Para ele, as condições de financiamento da atividade têm reflexos sobre as oportunidades econômicas disponíveis à população.
“O governo precisa levar o agro a sério, investir em tudo que vai beneficiar a própria sociedade. A gente vai gerar mais emprego, vai gerar mais riqueza, vai gerar mais condições da cidade se desenvolver”, conclui o produtor.
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