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Crédito restrito e dívidas pressionam produtores e revendas de insumos em Mato Grosso


O aumento do endividamento rural e a dificuldade para obter novos financiamentos estão reduzindo a capacidade de investimento dos produtores de Gaúcha do Norte, em Mato Grosso. Com despesas elevadas e receitas insuficientes para quitar compromissos anteriores, agricultores recorrem às revendas de insumos para viabilizar o plantio, mas essas empresas também enfrentam limitações para manter as vendas a prazo.

A queda nos preços agrícolas é um dos fatores que ajudam a explicar o problema. O presidente do Sindicato Rural do município, Valdomiro Schulz, relata que muitos produtores deixaram de obter renda suficiente para pagar as prestações e outras dívidas. Para manter a atividade, parte deles passou a comprometer antecipadamente a produção que ainda será colhida.

“Esses preços caíram muito e, devido esses preços caírem, o endividamento aumentou, porque não se teve mais um lucro suficiente para pagar essas prestações, essas dívidas”, relata Schulz ao Canal Rural Mato Grosso.

A alternativa tem sido buscar crédito comercial e negociar a compra de sementes, fertilizantes e defensivos com pagamento em grãos após a colheita. Embora permita financiar a safra sem desembolso imediato, esse modelo transfere parte da necessidade de recursos para as revendas, que precisam honrar seus próprios compromissos mesmo quando os clientes não conseguem pagar.

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A restrição financeira, portanto, não fica limitada às propriedades. Ela alcança empresas fornecedoras, compromete a capacidade de atendimento ao produtor e aumenta a preocupação com os efeitos da atividade rural sobre a economia do município.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Revendas assumem parte do financiamento das lavouras

Dayan Della Justina Vieira conhece essa relação tanto como produtor quanto como sócio de uma revenda de insumos. Na avaliação dele, a dificuldade de acesso ao crédito tornou-se um dos principais desafios da atividade, porque as empresas comerciais passaram a ocupar um espaço maior na intermediação financeira entre fornecedores e agricultores.

“O produtor tem um crédito mais restrito, a revenda tem um papel muito grande nessa intermediação, fornecedor, cliente, e ela acaba assumindo um risco muito grande”, explica Dayan.

O risco está na obrigação de pagar pelos produtos adquiridos mesmo quando o cliente ainda não quitou a compra. Como as vendas são frequentemente vinculadas ao resultado da colheita, eventuais dificuldades na comercialização ou no cumprimento dos compromissos pelo agricultor podem comprometer o caixa da revenda.

Esse cenário também altera as condições de atendimento aos produtores. Adalberto Grando compara a situação atual com a de cerca de dez anos atrás, quando as empresas conseguiam oferecer pacotes de insumos com maior facilidade. Naquele período, o custo de produção citado por ele era de aproximadamente R$ 2 mil por hectare.

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Com o encarecimento da atividade, as revendas precisam de mais capital para atender cada cliente e ficam mais expostas quando há atrasos nos pagamentos. Grando relata que empresas do setor também passaram a enfrentar dificuldades financeiras e processos de recuperação judicial.

“Muitos grupos grandes acabaram fechando, então elas estão enfrentando impactos diretos também dessa situação. A gente viu revendas aí em situação pior do que os agricultores”, conta o produtor à reportagem.

Custo da soja supera R$ 8,2 mil por hectare

Os números do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) dimensionam a pressão sobre o caixa das propriedades. O custo total de produção da soja para a safra 2026/27 supera R$ 8,2 mil por hectare, alta próxima de 7% em relação ao ciclo anterior.

Entre os componentes que mais encareceram estão as operações mecanizadas, com aumento de quase 24%, e os defensivos agrícolas, que ficaram cerca de 10% mais caros. A redução de aproximadamente 22% no custo das sementes ajudou a conter parte das despesas, mas não compensou a alta dos demais itens.

O avanço dos custos exige mais recursos para implantar e conduzir as lavouras, justamente quando parte dos produtores ainda precisa pagar dívidas de safras anteriores. A combinação reduz a margem disponível para novos investimentos e aumenta a dependência de crédito para manter a produção.

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Dayan cultiva 1,5 mil hectares de soja nesta temporada e antecipou o plantio em 15 dias. Neste início de ciclo, a prioridade é garantir o estabelecimento das plantas, em uma safra que ele considera desafiadora diante do valor dos insumos e da necessidade de controlar os gastos.

Para reduzir os riscos, a revenda procura acompanhar a utilização dos produtos nas propriedades e orientar os clientes sobre a aplicação dos recursos. O objetivo é melhorar o retorno do investimento por hectare, em vez de ampliar as despesas sem avaliar o resultado econômico.

“Estamos juntos com o produtor no campo, inclusive na gestão dos insumos dele, para ele ter uma maior eficiência econômica. Não só gastar mais por gastar, ou seja, investir melhor para ter a rentabilidade”, afirma Dayan.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Juros e negativas dificultam a renegociação

A busca por recursos não se limita ao financiamento da safra atual. Produtores que acumularam dívidas também tentam renegociar os compromissos para reorganizar o fluxo de caixa, mas encontram obstáculos nas instituições financeiras.

Grando relata que procurou bancos para renegociar débitos com base na medida provisória voltada a essa finalidade. As solicitações, porém, não tiveram o resultado esperado. “Os bancos para quem a gente encaminhou simplesmente nos disseram: ‘Não, não vamos fazer’”, afirma.

Em outra tentativa, o produtor recebeu uma proposta com juros de 3,63% ao mês para renegociar uma dívida. Ele considera a taxa incompatível com a situação financeira de quem já enfrenta dificuldades para equilibrar os pagamentos e financiar a produção.

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“E aí o produtor fica refém de um ciclo que não gera prosperidade nenhuma”, avalia Grando.

Sem condições consideradas viáveis para reorganizar os débitos, o agricultor continua pressionado por compromissos anteriores enquanto precisa investir no novo ciclo. Ao mesmo tempo, a limitação do crédito bancário amplia a dependência das revendas, que também precisam preservar recursos para manter suas operações.

Dificuldades no campo preocupam a economia local

Os efeitos da restrição financeira podem ultrapassar as propriedades rurais e chegar às contas públicas municipais. O prefeito de Gaúcha do Norte, Ari do Prado, afirma que a arrecadação ainda se mantém, mas demonstra preocupação com a possibilidade de queda no próximo ano caso a atividade agropecuária movimente menos recursos.

“Hoje, ainda, por enquanto, a arrecadação do nosso município vem se mantendo, mas eu tenho certeza que para o ano que vem ela pode cair”, declara.

A preocupação envolve a circulação de renda gerada pela produção rural e seus reflexos sobre o comércio e os serviços. Quando produtores reduzem investimentos ou enfrentam dificuldades para honrar compromissos, os efeitos podem alcançar empresas que fornecem insumos e outros segmentos ligados à movimentação econômica do município.

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Grando associa a capacidade de investimento no campo à geração de empregos e renda também fora das propriedades. Para ele, as condições de financiamento da atividade têm reflexos sobre as oportunidades econômicas disponíveis à população.

“O governo precisa levar o agro a sério, investir em tudo que vai beneficiar a própria sociedade. A gente vai gerar mais emprego, vai gerar mais riqueza, vai gerar mais condições da cidade se desenvolver”, conclui o produtor.


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agro.mt

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