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El Niño aumenta cautela de produtores de algodão para safra 2026/27


A possibilidade de um El Niño com impactos sobre o regime de chuvas coloca o clima entre os principais pontos de atenção para a safra 2026/27. Em Mato Grosso, onde o algodão é cultivado majoritariamente em segunda safra, o comportamento das precipitações durante o plantio da soja pode definir o espaço disponível para a fibra.

O cenário exige decisões antecipadas. A soja abre o calendário e, depois dela, entram culturas como milho e algodão. Qualquer atraso na primeira etapa pode reduzir a janela das lavouras seguintes, aumentando a exposição a períodos de menor umidade justamente em uma fase em que a fibra e o cereal precisam de condições adequadas para completar o ciclo.

Para o produtor rural, a preocupação não está apenas na ocorrência de um período seco, mas também no momento em que ele pode aparecer. Com custos de produção elevados e margens mais apertadas, estabelecer uma lavoura sem segurança sobre a umidade disponível representa um risco maior.

Em Lucas do Rio Verde, o produtor Tiago Cinpak conta que o plantio da soja começou primeiro na área irrigada da propriedade, aproveitando as chuvas registradas nos dias 7 e 8 de setembro. A decisão considera justamente a necessidade de trabalhar com a umidade disponível e evitar perdas no estabelecimento da cultura.

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“Quando se tem um fenômeno que altera isso, a cautela é maior”, afirma Cinpak. Segundo ele, o produtor tende a esperar uma condição de umidade mais favorável para iniciar o plantio, principalmente porque uma falha na germinação representa um impacto significativo em um cenário de custos elevados.

Algodão depende da janela da soja

Para o algodão, a margem de decisão é mais estreita. Cinpak calcula que a soja precisaria ser plantada até aproximadamente 10 de outubro para que a implantação do algodão em janeiro de 2027 ocorra dentro de uma janela considerada adequada.

O milho apresenta um pouco mais de folga, com possibilidade de plantio até aproximadamente 20 de fevereiro em anos considerados normais. Mesmo assim, a permanência das chuvas é fundamental para que a cultura consiga completar o ciclo.

No algodão, porém, existe uma disposição maior para assumir riscos. O produtor explica que o cotonicultor pode optar por colocar a semente no solo mesmo diante de uma condição menos segura, buscando aproveitar uma janela que permita alcançar uma produção mais favorável.

“Apesar de ser segunda safra, é a principal safra do cotonicultor”, destaca Cinpak ao Canal Rural Mato Grosso. Para ele, a importância da cultura na formação de renda faz com que o produtor tenha de equilibrar o risco climático com a necessidade de manter o algodão no planejamento da propriedade.

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A preocupação com a janela também está relacionada ao comportamento esperado do clima nos meses seguintes. As previsões mencionadas por especialistas em meteorologia indicam possibilidade de veranicos, mas esperar pela confirmação desse cenário não é uma alternativa para quem precisa organizar o calendário agrícola.

A estratégia passa, então, pelo acompanhamento das condições de umidade e pela escolha do momento de implantação de cada cultura. “De maneira geral o produtor está sempre olhando para o céu. Isso já é inerente da atividade. O produtor não tem muito como se proteger disso”, pontua Cinpak.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Genética entra como ferramenta de manejo

A instabilidade climática também muda a atenção sobre as características dos materiais utilizados no campo. Com uma janela potencialmente mais apertada, variedades de ciclo mais curto podem ajudar a antecipar a colheita e reduzir o período de exposição da lavoura às condições adversas.

É justamente nesse ponto que a genética aparece como uma das ferramentas disponíveis ao produtor. Jeferson Andrade, diretor comercial da Polato Sementes, explica que materiais adaptados e mais rústicos podem contribuir para reduzir parte do risco provocado pelas oscilações climáticas.

“Trazer produtos com genética mais adaptadas, materiais de ciclo mais curto, para você conseguir trazer sua janela de colheita mais cedo, são ferramentas muito importantes hoje no manejo do produtor, para mitigar um pouco de risco”, afirma Andrade. Ele também cita materiais com maior rusticidade, capazes de suportar períodos de estresse por mais tempo.

A escolha, portanto, precisa considerar não apenas o potencial produtivo, mas também o ambiente em que a lavoura será conduzida. Quanto menor a janela disponível, maior tende a ser a importância de selecionar materiais compatíveis com o período de plantio e com as condições esperadas para o fim do ciclo.

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No melhoramento genético, uma das frentes apresentadas pelo setor da tecnologia, conforme Alexandre Santaella, gerente de marketing de algodão da BASF, envolve materiais com maior capacidade de enraizamento e resistência a nematoides. A proposta é conferir maior rusticidade às plantas e ampliar a capacidade de buscar água em profundidade.

Outra frente está justamente na redução do ciclo. Segundo Santaella, materiais que anteriormente chegavam a cerca de 200 dias já deram lugar a variedades com aproximadamente 160 dias, mantendo características de produtividade e qualidade de fibra.

Clima também muda pressão de pragas

A preocupação com o El Niño não termina na implantação das lavouras, alertam os especialistas. As condições de temperatura e umidade ao longo do ciclo também podem interferir na pressão de pragas, acrescentando outro ponto de atenção ao manejo do algodão.

Santaella chama atenção especialmente para as chamadas pragas sugadoras. Em períodos de temperaturas médias mais elevadas, o ciclo desses insetos pode ser reduzido, aumentando a velocidade de desenvolvimento e a intensidade dos ataques.

Entre os problemas citados está a mosca-branca, cuja pressão, frisa ele, tem aumentado tanto na soja quanto no algodão. “É um ponto de atenção”, resume Alexandre Santaella, gerente de marketing de algodão da BASF, ao citar a necessidade de planejamento para o controle da praga.

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A indústria também trabalha no desenvolvimento de novas moléculas e soluções de manejo para acompanhar esse cenário. A busca inclui produtos capazes de contribuir para a rotação de ativos, reduzir doses por hectare e ampliar a eficiência do controle de pragas.

A lógica é combinar diferentes ferramentas, em vez de depender de uma única estratégia. Para o produtor, isso significa considerar clima, material genético e manejo como partes de uma mesma decisão, principalmente em uma safra marcada por maior incerteza.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Tecnologia para atravessar a instabilidade

A expectativa de mudanças no regime de chuvas também é acompanhada pelas empresas que atuam no desenvolvimento de tecnologias para o campo. O objetivo é antecipar soluções que possam ser utilizadas diante de diferentes condições climáticas, desde períodos de seca até situações de excesso de chuva.

Gustavo Piccoli, presidente da Associação dos Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), em entrevista ao Canal Rural Mato Grosso durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), avaliou que a preocupação com o clima é compartilhada por toda a cadeia, mas observou que a chegada das chuvas e o início do plantio da soja em Mato Grosso trazem algum alívio para o setor.

Cerca de 80% do algodão brasileiro é produzido em segunda safra, depois da soja. Para a próxima temporada, Piccoli projeta aumento de 8% a 10% na área cultivada e afirma que a expectativa é produzir o mesmo volume ou mais do que na safra atual.

“Temos a preocupação do El Niño, mas sabemos que com toda a tecnologia que usamos, a gente vai se sair bem de mais desse problema”, afirma Piccoli. A avaliação considera também a existência de demanda internacional para absorver a produção projetada.

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Fernando Prudente, diretor de Negócios do Algodão da Bayer, lembra que ainda existem dúvidas sobre a intensidade do El Niño esperado para a safra. Ao mesmo tempo, ele destaca que a agricultura atual conta com ferramentas diferentes das disponíveis em ciclos anteriores.

“Hoje nós temos um grande benefício. A agricultura evoluiu bastante. A agricultura, o agricultor hoje ele tem um solo muito mais bem parado do que tinha há 10 anos, 15 anos atrás”, pontua Prudente. Na avaliação dele, a melhoria das condições do solo e o avanço das práticas agrícolas podem ajudar a reduzir os efeitos de uma eventual estiagem.

Planejamento ganha peso na safra

Diante da possibilidade de períodos de instabilidade, a recomendação apresentada por especialistas, entidades e pelas empresas é trabalhar com as ferramentas disponíveis desde o planejamento da lavoura. Isso inclui definir materiais de acordo com a janela, preparar o manejo de pragas e considerar as condições do solo.

Para Prudente, reduzir o investimento em tecnologia justamente em um ano de maior risco pode deixar a planta ainda mais exposta. “Use a tecnologia que tem disponível”, recomenda.

A orientação considera que uma planta bem nutrida e protegida apresenta melhores condições para enfrentar períodos de falta ou excesso de chuva. A tecnologia, nesse caso, não elimina o risco climático, mas busca ampliar a capacidade de resposta da lavoura.

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No campo, porém, a primeira decisão continua ligada ao comportamento das chuvas. Para o produtor, não é possível esperar até que todas as previsões estejam confirmadas: a soja precisa ser plantada, e dela depende a janela das culturas de segunda safra.

É nesse equilíbrio entre o momento de plantar, a escolha dos materiais e a preparação do manejo que produtores e empresas concentram as estratégias para a safra 2026/27. O clima continua fora do controle de quem produz, mas as decisões tomadas antes da instalação do algodão podem definir quanto desse risco será incorporado ao ciclo.


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