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Clima, incerteza e desvalorização pressionam as principais commodities de Mato Grosso


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O clima e a desvalorização das principais commodities agrícolas aumentaram a pressão sobre os produtores de Mato Grosso nesta safra. Chuvas fora de época interferiram no calendário de plantio e colheita, enquanto preços menores reduziram o espaço para absorver perdas e despesas adicionais.

No Sul do estado, os efeitos começaram ainda no plantio da soja e se estenderam para o milho. Em Campo Verde, fevereiro teve apenas quatro dias sem chuva em uma propriedade. “O resto todo dia chovia e chuva forte”, relata o agricultor Fernando Ferri.

O excesso de umidade levou produtores a plantar milho fora da janela ideal e, em algumas propriedades, houve replantio. O algodão também teve áreas semeadas até o fim de fevereiro, reduzindo o tempo disponível para as demais operações do ciclo.

As condições climáticas também afetaram o desenvolvimento do milho. Na região Sul, onde o plantio costuma ser mais tardio e o ciclo é prolongado pela altitude, a cultura depende de chuvas em maio para completar o enchimento dos grãos. A falta de precipitações naquele período prejudicou principalmente áreas de menor capacidade de retenção de água.

Além do clima, o produtor mato-grossense precisou lidar com preços médios menores. A soja teve produtividade e valor de venda inferiores, enquanto o milho também apresentou redução nos dois fatores. “Muitos compromissos, alguns produtores que estavam com alguma dificuldade financeira jogaram para o milho”, conta Ferri ao Patrulheiro Agro.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Algodão ainda tem produtividade, mas clima atrasa colheita

No algodão, a combinação entre chuva e calendário apertado aumenta a preocupação com qualidade e custos. Em Mato Grosso, foram cultivados 1,375 milhão de hectares na safra 2025/26, redução de 11,11% em relação ao ciclo anterior, de acordo com dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

Apesar da menor área, a produtividade é projetada em 315,33 arrobas por hectare, recorde para o estado. A produção deve alcançar 6,51 milhões de toneladas de algodão em caroço, queda de 11,06% em relação à temporada anterior, provocada principalmente pela redução da área. A entrada de novos materiais também ampliou as alternativas disponíveis aos produtores.

O problema no momento está nas áreas que permanecem expostas à chuva durante a colheita, o que pode prejudicar ainda mais a estimativa de produção, além da qualidade. Em Campos de Júlio, o produtor Gabriel Schoulten Parmeggiani cultivou 1.190 hectares de algodão de segunda safra e enfrentou novas precipitações durante a retirada da produção.

“Nós tivemos bem no início da colheita uma chuva de uns cinco milímetros e depois mais 20 milímetros”, diz. Com a umidade, a fibra pode perder brilho e cor, além de haver risco de queda da pluma antes da retirada.

O excesso de chuva também reduz o ritmo das máquinas e impede que a colheita seja prolongada quando seria necessário. A intenção de trabalhar em dois turnos, conforme Parmeggiani, acabou comprometida: o segundo turno opera com apenas 20% do ritmo planejado.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Umidade aumenta perdas e custos no campo

Em Campos de Júlio, os volumes de chuva registrados no período ficaram acima do esperado para a época. Segundo o Sindicato Rural, foram entre 40 e 80 milímetros em agosto, depois de precipitações que chegaram perto de 100 milímetros em julho.

O presidente da entidade, Rodrigo Cassol, estima perdas entre cinco e 15 arrobas de algodão por hectare em algumas áreas. O milho também teve a colheita atrasada e ainda havia lavouras para serem retiradas do campo em agosto, situação considerada fora do normal para o município.

A umidade prolongada ainda provoca a rebrota de plantas que já estavam prontas para a colheita. O controle exige novas aplicações, aumentando o custo justamente em um momento de margens mais apertadas.

“Isso vai impactar em torno de uns R$ 15 a mais por hectare, e qualquer custo que venha a acarretar no algodão pesa muito porque as margens hoje estão bem espremidas”, afirma Parmeggiani à reportagem do Canal Rural Mato Grosso. Para o produtor, a despesa adicional representa parte do lucro que deixa de ficar na propriedade.

Em Sapezal, os impactos variam conforme a intensidade da chuva em cada área. Nas propriedades mais atingidas, o algodão pode cair no chão e a pluma pode escorrer, além de haver possibilidade de danos à qualidade.

A dimensão das perdas, porém, ainda depende do beneficiamento. “Isso só vamos descobrir realmente depois que o algodão estiver lá na algodoeira beneficiado e pronto, na hora em que o produtor vai vender esse produto dele”, frisa Diego José Dal’Maso, presidente do Sindicato Rural de Sapezal.

O cenário mantém a atenção voltada não apenas para a conclusão da safra, mas também para as condições climáticas do próximo ciclo. A possibilidade de um ano sob influência do El Niño acrescenta incerteza ao planejamento, enquanto produtores ainda precisam lidar com os efeitos de uma temporada marcada por excesso de chuva, preços menores e margens pressionadas.

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