O produtor de soja em Mato Grosso ainda consegue comercializar a safra 2026/27 acima do valor necessário para cobrir o custo operacional total (COT), mas o cenário de custos elevados exige atenção às margens. No milho, a situação é mais apertada: o preço médio negociado cobre o custo operacional efetivo (COE), porém permanece abaixo do custo operacional total.
Os dados são do projeto CPA-MT, do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e Senar Mato Grosso, e mostram comportamentos distintos entre as duas principais culturas do estado. Para a soja, o custeio estimado para o ciclo 2026/27 chegou a R$ 4.323,22 por hectare em julho, alta de 3,39% em relação à safra 2025/26.
No milho, o custeio foi estimado em R$ 3.778,76 por hectare em julho, avanço de 0,30% ante junho. Apesar da alta mensal mais moderada, a comparação anual evidencia uma pressão maior sobre os custos da cultura.
Enquanto a soja tem uma diferença positiva entre o preço projetado e o ponto de equilíbrio do COT, o milho apresenta uma distância de R$ 2,89 por saca entre o preço médio e o valor necessário para cobrir todos os custos operacionais. O resultado limita a recuperação das margens do cereal.
Na soja, os fertilizantes representam o principal componente de pressão sobre o custeio. A estimativa para o ciclo 2026/27 chegou a R$ 1.993,21 por hectare, com destaque para os macronutrientes, calculados em R$ 1.614,56 por hectare.
O valor dos macronutrientes avançou 0,30% em relação a junho e atingiu o maior patamar projetado para o ciclo. De acordo com o Imea, a valorização está relacionada às tensões geopolíticas entre Rússia e Ucrânia.
Esse ambiente aumenta os riscos relacionados à oferta e à logística dos fertilizantes, com reflexos sobre os custos de produção no estado. A pressão ocorre em um momento em que o produtor precisa administrar despesas elevadas para manter o potencial produtivo das lavouras.
Mesmo com o aumento do custeio, a relação entre produtividade e preço ainda mantém a soja acima do ponto de equilíbrio. Para a safra 2026/27, a produtividade estimada pelo Imea é de 62,44 sacas por hectare.
Com esse rendimento, o ponto de equilíbrio calculado para cobrir o COT é de R$ 107,02 por saca. O valor considera um custo operacional total estimado em R$ 6.682,54 por hectare.
Em julho, o preço médio comercializado para a safra 2026/27 foi estimado em R$ 111,17 por saca. Dessa forma, a cotação ficou R$ 4,15 acima do ponto de equilíbrio do COT.
No milho, o cenário exige maior atenção. O custeio estimado em julho ficou em R$ 3.778,76 por hectare. A principal pressão no mês veio de fertilizantes e corretivos, que subiram 1,14%, para R$ 1.550,19 por hectare. Ao mesmo tempo, houve pequenas reduções nos gastos com defensivos e sementes.
Os defensivos foram estimados em R$ 912,09 por hectare, queda de 0,10% ante junho. Já as sementes recuaram 0,51%, para R$ 844,46 por hectare.
O custo operacional efetivo avançou 0,20%, chegando a R$ 5.504,27 por hectare. O custo operacional total subiu 0,17%, para R$ 6.067,89 por hectare.
Como o Imea ainda não dispõe de uma estimativa de produtividade para a safra 2026/27, o cálculo do ponto de equilíbrio utilizou a média das três últimas safras, de 123,83 sacas por hectare.
A partir desse rendimento, o ponto de equilíbrio foi calculado em R$ 44,45 por saca para o COE e R$ 49 por saca para o COT. O preço médio negociado em julho, de R$ 46,12 por saca, ficou entre os dois parâmetros.
Na prática, o valor é suficiente para cobrir o custo operacional efetivo, mas não alcança o custo operacional total. A diferença é de R$ 2,89 por saca.
O descompasso fica ainda mais evidente na comparação com a safra anterior. O preço do milho para a safra 2026/27 registra alta anual de 4,67%.
O avanço, entretanto, ocorre em ritmo inferior ao aumento de 13,83% observado no custeio. A diferença entre os dois movimentos reduz o espaço para recuperação das margens do produtor.
A combinação de custos maiores e preços que não acompanham a mesma velocidade mantém o milho em uma situação mais pressionada do que a soja. O preço atual permite cobrir parte dos custos, mas não todos os componentes considerados no COT.
Para a soja, embora o preço também esteja sujeito às oscilações de mercado e aos custos dos insumos, a diferença positiva em relação ao ponto de equilíbrio do COT oferece uma margem mais favorável no momento.
Os números do CPA-MT reforçam, assim, a importância de acompanhar não apenas o preço de venda das commodities, mas também a evolução dos custos por hectare e a produtividade necessária para equilibrar a operação.
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