O setor produtivo brasileiro enfrenta um cenário de elevada incerteza para a próxima safra devido à forte dependência de insumos importados e aos gargalos regulatórios e logísticos do país. A volatilidade das cotações internacionais e a escassez de matérias-primas ameaçam achatar ainda mais a rentabilidade das propriedades rurais.
A vulnerabilidade da agricultura nacional esteve no centro dos debates do Fórum Mais Milho: Os Pilares da Produção, realizado no dia 12 de agosto, em Brasília (DF). O evento, que faz parte do projeto Mais Milho, colocou em pauta temas decisivos para a competitividade no campo, como irrigação, infraestrutura, armazenamento, máquinas agrícolas, defensivos e fertilizantes.
A dependência de fertilizantes importados, que já atinge a marca de 92%, voltou a preocupar após os recentes conflitos no Golfo Pérsico. A instabilidade na região elevou a cotação da ureia a patamares próximos aos registrados no início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022.
O aperto na oferta atinge também os adubos fosfatados por conta do encarecimento do enxofre elementar, matéria-prima em que metade da produção mundial é destinada ao ácido sulfúrico — do qual 80% é utilizado em fertilizantes. Com a disputa do insumo pelo setor de eletrônicos, as importações de fosfatados pelo Brasil devem recuar até 25% em relação a 2025.
A reconfiguração das rotas marítimas e o controle estatal sobre exportações exercido por potências como Rússia e China forçaram a busca por novos fornecedores, como o Turcomenistão e a Nigéria. Diante de margens espremidas, a orientação das lideranças do setor produtivo é de cautela na compra de insumos.
O diretor técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Maciel Silva, alertou que o momento exige decisões estratégicas diretamente no manejo da lavoura. “Inevitavelmente vai ser uma safra que nós vamos utilizar menos fosfatados. Alguns produtores vão tirar o pé, não tem outra alternativa, e não necessariamente é porque ele não vai achar para comprar. É que com todas as questões de custo, potencial climático de efeito sobre a safra, estreitamento de margem, tomar a decisão de tirar o pé pode ser razoavelmente sábia em um momento para tentar fechar as contas”.
Paralelamente às pressões do mercado internacional, os custos do setor produtivo são agravados por gargalos dentro do próprio território nacional. A tentativa de ampliação da indústria brasileira de insumos esbarra no alto custo da energia, juros elevados e no peso das leis trabalhistas.
Para o presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, o país precisa focar na solução dos problemas sobre os quais tem governabilidade. “Nós temos que resolver aquilo internamente. Aquilo que é externo nós não podemos fazer nada. Hoje a alta dos fertilizantes se deve muito à nossa dependência do mercado internacional e muito se fala da exploração e produção interna, mas nós sabemos que o Brasil é um país que tem custo de energia alto, temos leis trabalhistas muito burocráticas e caras, que encarecem ainda mais também esse custo”.
A preocupação das entidades é que a produção interna de fertilizantes exija medidas protecionistas no futuro, encarecendo ainda mais o valor final repassado ao agricultor. “Então a pergunta é: se nós explorarmos internamente, nós vamos ser competitivos ou daqui a pouco nós ainda vamos ter que ser protecionistas à indústria interna elevando ainda mais esse produto, o valor desse produto a ser repassado ao produtor?”, disse Beber.
Do lado de dentro da porteira, frisou o presidente da Aprosoja Mato Grosso, o produtor rural cumpre seu papel ao adotar tecnologias como o Sistema Plantio Direto, que melhora a qualidade do solo e a retenção de água. No entanto, a eficiência no campo não anula os gargalos de infraestrutura e de logística “da porteira para fora”.
Além da infraestrutura deficitária, a insegurança jurídica causada por entraves ambientais e trabalhistas trava novos investimentos e paralisa obras essenciais de escoamento.
A China, que se consolidou como grande exportadora de adubos, reduziu o envio ao exterior em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz e aos conflitos geopolíticos no Leste Europeu. Para as lideranças, essa concentração global reforça a necessidade de destravar pautas regulatórias no Brasil.
Lucas Costa Beber defendeu que o governo implemente compensações e avance no licenciamento ambiental para evitar a paralisia do setor. “Nós temos que pensar urgentemente em viabilizar a Lei de Licenciamento Ambiental. Infelizmente o Ministério Público já está ajuizando diversas ações de inconstitucionalidade. Isso trava o nosso país. Essa burocracia precisa ser destravada. As leis trabalhistas, enquanto nós falamos em mudança de escala, nós não falamos em desoneração. Acho que o governo tem que compensar alguma coisa, se isso de fato acontecer”.
A adequação das leis trabalhistas, a aprovação do licenciamento e os investimentos em infraestrutura logística seguem na pauta de reivindicações do setor entregue aos representantes do poder público durante o evento.
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O post Dependência externa e gargalos internos ameaçam a competitividade do agro apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.
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