A agricultura de Mato Grosso chega a um momento de decisões mais complexas. O produtor precisa manter o fluxo de caixa e garantir a continuidade da atividade em meio à restrição de crédito, enquanto o cenário internacional adiciona novas incertezas aos custos dos fertilizantes.
O aperto financeiro não significa necessariamente falta de patrimônio. Há produtores com ativos de alto valor, mas que precisam de recursos para fazer a operação continuar funcionando. Sem dinheiro para custear o ciclo seguinte, a dificuldade deixa de ser apenas financeira e passa a comprometer a própria capacidade de produzir.
Nos últimos dois anos, parte dos produtores renegociou dívidas, alongou compromissos ou deixou de pagar determinadas obrigações. Ao mesmo tempo, bancos e instituições financeiras reduziram a oferta de recursos, diante do receio com o aumento da inadimplência, e passaram a exigir mais garantias.
É nesse ponto que o fluxo de caixa ganha peso. “Se eu restringir esse crédito, estressar o produtor, ele não conseguir captar recursos para a próxima safra, ele vai cair porque a roda não vai continuar girando”, explica Cleiton Gauer, superintendente da Famato, Imea e AgriHub, em entrevista ao Direto ao Ponto. Para ele, manter essa circulação de recursos é fundamental para que o produtor consiga seguir plantando e produzindo.
A dificuldade financeira se soma a um cenário em que produzir continua caro. As duas últimas safras de soja e milho foram marcadas por custos elevados, enquanto os preços médios das culturas não acompanharam esse movimento na mesma proporção.
A produtividade acabou sendo determinante para melhorar o resultado das propriedades. Mesmo com preços próximos das médias dos últimos anos, os ganhos de produtividade ajudaram a ampliar a rentabilidade. Para produtores arrendados ou com maior alavancagem financeira, porém, a situação chegou a ficar próxima do equilíbrio ou até negativa.
“Era até o momento a safra mais cara da história para as duas culturas, pensando em custo de produção”, afirma Gauer. Na avaliação dele, o aumento da produtividade foi o que ajudou a sustentar as margens nos últimos dois ciclos.
O problema é que esse mecanismo não pode ser considerado garantido. Para a próxima temporada, os custos continuam partindo de níveis elevados, enquanto os preços projetados não oferecem uma compensação suficiente para afastar a pressão sobre as margens.
No caso da soja, os contratos para a próxima safra estavam sendo negociados entre R$ 110 e R$ 115 por saca em algumas regiões. Embora o mercado físico tenha apresentado valorização, os preços futuros ainda não representam uma mudança significativa na perspectiva de rentabilidade.
O resultado é uma sequência de anos em que o produtor precisa fazer mais contas antes de decidir quanto investir. A margem operacional, medida pelo Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Lajida), ainda é positiva, mas está bem abaixo do que foi observado nos últimos três anos.
A pressão sobre os custos encontra outro fator de incerteza no mercado internacional. As tensões entre Irã e Estados Unidos provocaram alta nos nitrogenados e também afetaram outros fertilizantes, que já vinham acumulando aumentos por razões diferentes.
Depois, com as discussões em torno de um acordo, os preços recuaram gradativamente em Mato Grosso. A retomada das tensões e a elevação do petróleo voltaram a mudar as expectativas, abrindo espaço para manutenção dos preços ou novas altas caso o conflito se prolongue.
Mais do que tentar prever exatamente o comportamento do mercado, o produtor precisa lidar com a falta de clareza sobre o que acontecerá nas próximas semanas. “O principal ponto nesse momento, que todo mundo olha, é a incerteza. Ninguém tem certeza de nada do que vai acontecer, quanto tempo vai durar e o que isso pode acarretar para todas as cadeias de fornecimento”, diz Gauer.
A questão ganha uma dimensão ainda maior pelo tempo necessário entre a compra do fertilizante e a chegada do produto à propriedade. O insumo precisa desembarcar nos portos brasileiros e ser interiorizado até Mato Grosso, o que reduz a margem de espera para quem ainda não fechou suas compras.
A janela de decisão também começa a apertar para a segunda safra. O produtor que esperava uma queda maior nos preços agora precisa avaliar se continua esperando ou se antecipa a compra diante da possibilidade de uma nova alta.
Essa cautela começa a aparecer dentro das propriedades. Na soja, Gauer relata ao programa do Canal Rural Mato Grosso que já há movimentos representativos de redução no uso de fertilizantes fosfatados. “A gente tem um movimento representativo do mercado de todos fazendo essa redução”, afirma.
A estratégia é possível em algumas áreas porque parte dos produtores recompôs os níveis de nutrientes do solo nos últimos anos. Depois da forte alta dos fertilizantes no período posterior à pandemia, a recuperação das margens permitiu retomar investimentos e reconstruir parte dessa reserva.
Agora, em um cenário de maior aperto financeiro, algumas propriedades conseguem utilizar esse estoque acumulado para reduzir a aplicação. É uma forma de diminuir o desembolso sem necessariamente abandonar completamente o manejo construído nos últimos anos. Como explica Gauer, há produtores com áreas mais antigas que podem recorrer à reserva construída no solo neste momento de maior pressão sobre os custos.
No milho, a possibilidade é mais limitada. O nitrogênio tem papel central na cultura e, por isso, existe menos espaço para reduzir sua aplicação sem comprometer o potencial produtivo. “No caso do milho acho que o desafio é porque não há muito espaço”, pontua Gauer.
A alternativa passa então pela escolha do nível de tecnologia e pelo momento de realizar as compras. O movimento mostra como o produtor está tentando preservar margem sem simplesmente deixar de produzir. Tecnologias de menor custo, produtos genéricos e mudanças nos níveis de investimento passam a ser considerados dentro desse processo.
Mesmo diante desse ambiente, Mato Grosso deve encerrar mais uma safra de milho com números expressivos. Pelo segundo ano consecutivo, a produção da segunda safra deve superar a primeira safra de soja, conforme as projeções do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
A estimativa do Instituto foi revisada para uma produtividade média de 128 sacas por hectare, acima das 127 sacas da temporada anterior. Com o avanço da área cultivada, a produção deve alcançar 57 milhões de toneladas.
O resultado surpreendeu positivamente porque parte das lavouras foi implantada fora da janela considerada ideal. Nesta temporada, foram cerca de 1 milhão de hectares cultivados fora da janela no Estado.
Mesmo assim, as chuvas que se estenderam por abril e maio ajudaram as lavouras a atravessar períodos que poderiam ter comprometido o potencial produtivo. Algumas precipitações ainda ocorreram no final de junho e início de julho, consideradas fora de época, embora não tenham alterado diretamente a produtividade final.
O Médio-Norte concentra áreas de maior potencial, com médias superiores a 130 e 135 sacas por hectare. O desempenho mostra o quanto a cultura se adaptou ao sistema produtivo de Mato Grosso e como o produtor passou a dominar melhor o manejo ao longo dos anos.
A evolução também aparece no nível de investimento. Gauer observa que o produtor passou a trabalhar com cultivares mais adaptadas, melhor manejo de fertilizantes e maior utilização de fungicidas para preservar a longevidade das folhas. “O produtor de Mato Grosso aprendeu a cultivar milho com o passar do tempo, principalmente com uma adoção de cultivares mais adaptadas”, destaca.
A estrutura de máquinas também foi ajustada para acelerar o plantio e a colheita. Segundo Gauer, o produtor passou a organizar melhor o cultivo da primeira safra, inclusive com materiais de ciclo mais curto, para tornar mais eficiente a implantação do milho.
Nesse ambiente de margens mais apertadas, o sorgo também aparece como uma possibilidade para o produtor. A cultura ainda enfrenta limitações de mercado e armazenagem em Mato Grosso, já que a quantidade de compradores e de unidades que recebem o produto é menor em comparação com o milho.
A abertura do mercado chinês, porém, começa a criar uma oportunidade. A demanda já levou indústrias a firmarem contratos e melhorou a precificação do sorgo destinado à exportação.
A alternativa, portanto, passa a ser considerada dentro de uma estratégia mais ampla de adequação do sistema produtivo. O produtor pode avaliar culturas, tecnologias e níveis de investimento de acordo com a margem disponível e com o risco que está disposto a assumir.
Além do ambiente financeiro e dos custos, assim como as questões geopolíticas que envolvem os conflitos e taxações, o produtor precisa considerar uma possível mudança no comportamento climático. A perspectiva de El Niño para a próxima temporada aumenta o nível de atenção, principalmente porque o risco de ocorrência de um fenômeno com impacto sobre as lavouras é maior do que nos últimos anos.
A questão influencia inclusive a decisão sobre o milho. Em vez de definir antecipadamente toda a área e comprar todos os insumos, o produtor pode esperar o desenvolvimento da soja para avaliar a janela disponível para a segunda safra.
A recomendação, nesse caso, não é abandonar o investimento, mas dimensioná-lo de acordo com o risco. A avaliação envolve acompanhar a semeadura da soja, estimar quando ela será colhida e só então definir quanto da área terá condições de receber milho dentro de uma janela adequada.
Para Gauer, o cuidado é evitar que a combinação de crédito restrito, margens apertadas e risco climático leve o produtor a uma exposição maior do que a propriedade consegue suportar. “O risco existe e aí o desafio que nós estamos comentando de aperto de margens, risco de crédito, toda a problemática que nós estamos discutindo, tem uma nova elevação de risco na próxima temporada”, afirma.
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O post Do crédito aos fertilizantes, incertezas se acumulam no campo de Mato Grosso, diz Imea apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.
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