Na Fazenda Irmãos Cadelca, em Uberlândia (MG), o milho verão deixou de ser coadjuvante no sistema produtivo para assumir papel central na estratégia de rentabilidade. Cultivado em uma região de Cerrado a cerca de 900 metros de altitude, o cereal alcança produtividades médias entre 220 e 230 sacas por hectare, com talhões que já chegaram a 240 sacas.
A história da propriedade se confunde com a expansão agrícola no Triângulo Mineiro. A família Cadelca saiu de Morro Agudo, no interior de São Paulo, no início da década de 1980, em busca de áreas mais acessíveis. “Quando foi avançando lá as áreas e comprando mais terra, chegou no limite de preço e a gente teve que buscar novas áreas e viemos para Minas Gerais”, conta o produtor rural Luiz Cadelca Neto ao Especial Mais Milho.
À época, as terras da região eram vistas com desconfiança. “Ninguém dava nada para cá. Porque é serrada, o povo achava que não produzia nada e pagava o preço de banana nas terras aqui”, relata. O cenário começou a mudar com a adoção do plantio direto, que permitiu estruturar o solo do Cerrado e elevar os patamares de produtividade.
Desde então, a base produtiva da fazenda sempre esteve ligada à soja e ao milho. Com o avanço da cana-de-açúcar na região, hoje cerca de 70% da área é ocupada pela cultura, enquanto os outros 30% permanecem com grãos. “Antes era 100% milho e soja”, lembra Luiz, que é agrônomo e atua diretamente na gestão agrícola da propriedade.
A presença do milho, no entanto, ganhou um novo significado nos últimos anos. A introdução da cultura inicialmente ocorreu por necessidade de rotação, após problemas com nematoides na soja. “A gente até brincava que colhia milho de qualquer jeito, plantava aquilo só para fazer rotação”, recorda.
O cenário mudou com a resposta do milho às condições do solo e do clima da região. “Hoje a gente vê que já é uma cultura que tem uma expressão muito forte e alta produtividade”, afirma Luiz. Segundo ele, na comparação direta com a soja, o milho verão tem se mostrado mais competitivo. “Essa região aqui de 900 metros de altitude, você chega a produzir 230, 240 sacas de milho, então a soja você tem que produzir mais de 100 sacas”, pontua ao programa do Canal Rural Mato Grosso
Além da produtividade, o milho verão oferece vantagem comercial. “Você consegue precificar. Porque se for ver, é só a gente que planta aqui na região nessa época, então ninguém tem milho e você consegue um preço melhor”, explica. Parte da produção é armazenada na própria fazenda e outra parte segue para a indústria.
Mesmo com a redução da área de milho verão ao longo dos anos, a cultura nunca saiu do planejamento. “Nunca deixamos de plantar. Mais para a rotação também. A gente tem menos problema de nematoide ainda na nossa região”, diz o produtor. Hoje, além do milho verão, a fazenda também cultiva milho segunda safra em mais da metade da área destinada aos grãos.
Do ponto de vista técnico, Luiz aponta que os ganhos futuros passam menos por aumento de insumos e mais pelo cuidado com o solo. “O meu gargalo de produção nessa fazenda está sendo mais em compactação do solo. Compactação e nematoide”, afirma ao Projeto Mais Milho. Para enfrentar o desafio, a estratégia envolve mix de plantas de cobertura, uso de braquiária, aplicação de calcário e gesso agrícola. “A gente sempre foi assim: melhora a produtividade, ela trava e a gente pesquisa o que está travando”.
A busca por estabilidade produtiva também exige atenção ao manejo fitossanitário, especialmente no controle da cigarrinha-do-milho. “Mesmo você fazendo as aplicações, sempre tem um dano na lavoura”, relata. Ainda assim, a produtividade tem se mantido em patamares elevados, inclusive na safrinha, que neste último ciclo chegou a 160 e 170 sacas por hectare, acima da média histórica da fazenda.
Para Luiz, o milho consolidou-se como peça-chave do sistema por unir produtividade, renda e sustentabilidade. “Aqui é Cerrado, a gente precisa segurar umidade no solo. O meu desafio é conseguir fazer perfil de solo para aguentar esses veranicos”, resume. Uma lógica que transformou o milho verão em protagonista e reforçou a resiliência do sistema produtivo no Triângulo Mineiro.
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