A história do milho na Fazenda Helena, em Juscimeira (MT), acompanha as transformações da agricultura no Vale do São Lourenço. Quando Osvaldo Pasqualotto começou a experimentar o cultivo após a soja, a produção ainda tinha pouca expressão econômica na região. Décadas depois, a cultura passou a influenciar o planejamento das lavouras e a rentabilidade da propriedade.
A trajetória de Osvaldo na fazenda começou em 1982, quando a família adquiriu a área. Gaúcho de Cruz Alta (RS), ele se formou em engenharia elétrica em Cuiabá e, depois da faculdade, dedicou-se à agricultura. Ao longo de 44 anos, acompanhou mudanças na infraestrutura, no manejo e na tecnologia que ajudaram a ampliar a produção em Mato Grosso.
No início, a estrutura era limitada. A fazenda tinha apenas parte da área aberta para o plantio e ainda não contava com energia elétrica. O trabalho envolvia a família, que participou da expansão das lavouras e da construção do negócio. O nome da propriedade, inclusive, homenageia Helena, mãe de Osvaldo, que também ajudou nos primeiros anos.
As mudanças na agricultura foram acompanhadas pela evolução da própria região. A chegada da energia elétrica, a melhoria das estradas e a instalação de grandes tradings facilitaram a rotina no campo e o escoamento da produção. Nesse cenário, o milho começou a ganhar espaço, inicialmente mais pela contribuição ao solo do que pelo retorno financeiro.
Ao recordar os primeiros anos, Osvaldo também destaca a relação da família com a atividade rural. “A agricultura está no sangue da gente”, afirma ao Especial Mai Milho. Para ele, o vínculo com a terra foi construído pelo trabalho diário e pelas dificuldades enfrentadas ao longo da trajetória.
A decisão de plantar milho veio da observação da própria lavoura. Depois de colher a soja, Osvaldo passou a testar a cultura em áreas menores, mesmo diante das limitações de maquinário e do calendário agrícola. Nas primeiras experiências, a produtividade ficava entre 30 e 40 sacas por hectare.
“Só que a gente percebeu que cada área que plantamos o milho, ia melhorando o solo”, lembra o produtor.
Naquele período, o consumo de milho em Mato Grosso era pequeno, e o transporte para os grandes centros consumidores encarecia a operação. A cultura, portanto, tinha pouco peso na composição da renda da propriedade. Esse cenário começou a mudar a partir dos anos 1990, com o crescimento da demanda estadual e melhorias na logística.
A evolução das variedades de soja também contribuiu para transformar o planejamento. Com materiais mais precoces, tornou-se possível antecipar a colheita e abrir espaço para o milho segunda safra. O avanço do setor de etanol ampliou ainda mais a importância da cultura no estado.
Hoje, a decisão de antecipar o plantio da soja está diretamente ligada à janela disponível para o milho. Osvaldo observa que, nos últimos anos, a cultura passou a apresentar resultados econômicos superiores aos da soja em sua avaliação. “Passou a ser a principal cultura. Hoje, se você olhar economicamente, de dois anos para cá, o milho está dando mais lucro que a soja. É interessante isso porque a gente não percebia lá atrás. Mas ele chegou a esse ponto”.
O salto de produtividade é uma das mudanças mais expressivas observadas pelo produtor. Das 50 a 60 sacas por hectare obtidas anteriormente, a produção passou a superar 140 sacas em condições atuais na fazenda.
Os ganhos estão associados ao melhoramento genético, às técnicas de plantio e colheita e ao uso mais eficiente dos insumos. Para Osvaldo, a genética do milho tem papel central nesse avanço, mas os resultados também dependem das decisões tomadas pelo produtor no manejo da lavoura.
“A maior produtividade hoje, ela está na genética do milho”, avalia ao programa do Canal Rural Mato Grosso. Ele também atribui parte dos resultados à adoção de técnicas mais eficientes de plantio e ao investimento em adubação, fatores que contribuíram para melhorar o desempenho da cultura.
A experiência acumulada ao longo das décadas também se reflete na gestão da propriedade. A formação em engenharia, segundo ele, contribuiu para desenvolver o raciocínio aplicado à atividade rural. O conhecimento técnico, aliado à prática, passou a integrar as decisões sobre produção e investimento.
A continuidade do negócio acompanha a evolução das lavouras. Os filhos e sobrinhos de Osvaldo foram incorporados à atividade enquanto ainda estudavam agronomia e passaram a participar do cotidiano das fazendas. Para o produtor, esse envolvimento gradual foi determinante para a sucessão familiar.
“Não tem uma fórmula de você dizer assim, como é feita a sucessão, não tem uma fórmula, mas a fórmula principal é pegar o filho e colocar a trabalhar”, afirma.
A experiência reproduz, em parte, o caminho percorrido pela geração anterior. O pai de Osvaldo também trabalhou na fazenda e, aos 60 anos, deixou a agricultura para se dedicar à pecuária, permitindo que os filhos assumissem os negócios agrícolas.
Além da continuidade da propriedade, Osvaldo espera que os filhos preservem os valores construídos ao longo da trajetória familiar. O cuidado com os recursos naturais também faz parte desse legado, com a proteção das áreas de preservação permanente e do curso d’água que atravessa a fazenda.
O orgulho pela participação dos filhos no negócio está ligado ao envolvimento deles com a atividade. “Não existe negócio diferente de ser uma propriedade rural, uma fábrica, uma empresa ou mercado financeiro, se você não tem amor por aquilo que você faz”, diz.
Para Osvaldo, produzir alimentos e conservar a propriedade são responsabilidades que caminham juntas. Ao falar sobre o papel do produtor rural, ele destaca a contribuição da atividade para a sociedade: “Ser produtor rural é saber que você está produzindo algo útil para a sociedade”.
Na Fazenda Helena, a história do milho reflete essa combinação entre experiência, inovação e continuidade familiar: uma cultura que começou em pequenas áreas, ganhou importância econômica e hoje integra as decisões de uma nova geração de produtores.
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