Muitos grupos de pesquisa estão estudando a relação entre o status socioeconômico e o desenvolvimento infantil sobre a perspectiva da neurociência. Algumas pesquisas têm mostrado diferenças estruturais e funcionais de cérebros de crianças de diferentes status socioeconômico.
Diferenças no volume do hipocampo de crianças pobres tem sido atribuída ao estresse e comportamento materno, o que sustentaria a hipótese de que o desenvolvimento cerebral seja vulnerável aos efeitos da pobreza, embora a neurociência defenda que o cérebro possa se modificar em resposta aos ambientes em qualquer idade.
Toda pesquisa tem sua motivação. A atividade científica não começa com a coleta de dados. O cientista, como todos os indivíduos, é guiado por suas crenças. A observação, a coleta de dados, e as experiências são feitas de acordo com determinados interesses e, conforme certas expectativas ou ideias preconcebidas. Não existem, portanto, observações puras, sem ideias preconcebidas.
É fácil identificar a intenção original dos pesquisadores de mapear os impactos da pobreza no cérebro infantil como uma estratégia para justificar investimentos e políticas públicas. O que, do ponto de vista de desenho da pesquisa e sua validade, não constitui um problema. Mas, alguns críticos apontam para riscoséticos, conceituais e metodológicos que devem ser levados em consideração (Veja DeJoseph, Meriah et al, 2024).
Ao focar excessivamente em imagens cerebrais que mostram menor volume cortical ou menor atividade no córtex pré-frontal de crianças de baixa renda, cria-se a narrativa de que o cérebro do pobre é “defeituoso”, “danificado” ou “biologicamente inferior”, o que geraria uma patologização da pobreza. Se existe mobilidade social, como alguns indivíduos conseguem sair dessa condição se seus cérebros têm problemas?
Um impacto social da formulação de neurocientistas é que esse determinismo biológico pode reforçar estereótipos racistas e de classe, levando educadores e a sociedade a acreditarem que essas crianças têm uma limitação intrínseca e irreversível na capacidade de aprender.
Além disso, a neurociência pode desviar a atenção das causas sociológicas, macroeconômicas e políticas da desigualdade, transferindo a responsabilidade exclusivamente para o indivíduo.
Vários cientistas da educação argumentam que esses estudos trazem de volta a antiga teoria do “déficit cultural” sob uma nova roupagem biológica. Essa teoria defendeque o fracasso escolar e social de grupos de baixa renda ou minorias ocorre porque suas culturas de origem possuem deficiências, lacunas de estímulos ou falta de valores educacionais adequados, em comparação com a cultura dominante.
O déficit cultural atribui o baixo desempenho dos alunos a supostos ambientes familiares pobres em estímulos verbais, afeto ou interesse pela escola. Ou seja, transforma uma desigualdade estrutural e socioeconômica em um suposto “defeito” ou incapacidade intrínseca do aluno e de sua família.
Durante a década de 1970, a teoria do déficit cultural teve forte influência no Brasil. A infância das classes populares passou a ser vista sob a ótica da carência (nutricional, afetiva, cultural e linguística). Isso moldou o formato das creches e pré-escolas da época.
E ajudou a criar e difundir o estereótipo do “aluno carente”: consolidou-se no imaginário docente a ideia de que o aluno da escola pública era alguém “sem cultura”, “sem limites” e com famílias “desestruturadas”. Sabemos que esta ideia não se sustenta enquanto generalização.
A pobreza não é um fator isolado. Embora ela se manifeste junto com violência no bairro, instabilidade familiar e poluição, sua manifestação social não coincide com sua expressão econômica. Isolar o que é “efeito da pobreza” no cérebro em modelos estatísticos é extremamente complexo, e muitos estudos falham ao tentar simplificar essa teia causal.
Dizer que, em média, o grupo de menor renda tem menor volume em certas áreas cerebrais não significa que toda pessoa pobre tenha essa alteração. Há uma enorme sobreposição de dados entre indivíduos ricos e pobres, mas o discurso público costuma ignorar essa variação individual.
O interesse dos neurocientistas que estudam a relação entre desenvolvimento do cérebro e pobreza tem motivações nobres, mas, na ciência, isso não é suficiente para se chegar a resultados falsificáveis e reconhecidos pela comunidade científica.
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André L. Ribeiro-Lacerda é psicólogo social, ecologista do comportamento e professor de ciência, tecnologia e sociedade na UFMT, campus Várzea Grande.
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