A forma como o brasileiro escolhe seus candidatos vem mudando, com questões ideológicas ganhando espaço ao lado de fatores tradicionalmente importantes, como a situação da economia. Ao mesmo tempo, o eleitorado demonstra maior desânimo com campanhas, candidatos e com a própria política.
A mudança, segundo o professor Lúcio Rennó, da Universidade de Brasília (UNB), está relacionada à formação de novas referências para as escolhas eleitorais. Temas ligados a questões sociais, morais, econômicas e à ciência passaram a ocupar um espaço mais definido no debate político.
Esse processo também alterou os alinhamentos eleitorais no país. Na avaliação do especialista em Ciência Política, posições que anteriormente apareciam de maneira menos clara no campo da direita passaram a estar mais definidas, fazendo com que orientações ideológicas tenham maior peso na decisão do voto.
“Esses temas e essas posições passaram a ser relevantes nas escolhas que os eleitores e as eleitoras fazem no processo eleitoral mais do que ocorria anteriormente”, afirma Rennó em entrevista ao programa Direto ao Ponto.
A mudança nas escolhas ocorre em um cenário de forte insatisfação. Escândalos de corrupção e conflitos políticos não necessariamente determinam o voto para a Presidência ou outro cargo político, como senadores e deputados federais e estaduais, mas influenciam o ânimo do eleitorado e a disposição para participar mais ativamente da campanha.
Rennó aponta um quadro de desalento em relação aos candidatos, à campanha e à situação do país. Esse sentimento, de acordo com ele, tem contribuído para afastar parte dos eleitores de um envolvimento político mais intenso.
“O que nós temos percebido nessa campanha eleitoral, olhando inclusive para dados de pesquisa, é um desânimo muito grande do eleitorado”, pontua.
O professor também relaciona esse comportamento ao ambiente de polarização. A intensificação dos conflitos entre diferentes grupos políticos torna o debate mais difícil e contribui para que parte da população se mantenha distante da disputa.
“A apatia generalizada da população não é culpa da população. Eu acho que é culpa dos eventos que vêm marcando a disputa política eleitoral”, diz Rennó ao programa do Canal Rural Mato Grosso.
Além das mudanças no comportamento do eleitor, o próprio sistema eleitoral interfere nas condições de disputa. Para o especialista, candidatos que já ocupam mandato possuem vantagens significativas em relação a quem tenta entrar na política.
Entre os fatores está o acesso às emendas orçamentárias, que ampliaram o poder do Congresso sobre a destinação de recursos. O financiamento das campanhas também contribui para essa diferença, já que a distribuição dos recursos pelos partidos tende a priorizar candidatos com maiores chances eleitorais.
“Quem tem mandato no Brasil hoje tem vantagens muito significativas na disputa eleitoral em relação a quem não tem”, frisa o professor.
Conforme Rennó, esse cenário mantém uma competição desigual mesmo após mudanças nas regras de financiamento eleitoral. Na prática, os partidos fazem escolhas estratégicas e concentram recursos em candidaturas que consideram mais competitivas, o que normalmente beneficia quem já possui trajetória política.
Ao mesmo tempo, a relação entre eleitor e representante permanece distante. O professor avalia que o sistema, com grande quantidade de candidaturas e informações para acompanhar, dificulta a escolha e o acompanhamento do desempenho dos parlamentares.
“É um sistema eleitoral com muitos deputados eleitos por cada estado, as pessoas com muitas candidaturas, porque tem muitos partidos, é confuso para o eleitor obter informação sobre tudo isso e acompanhar o desempenho”, explica.
Para Rennó, a discussão sobre uma reforma política precisa voltar à pauta, especialmente diante das dificuldades de funcionamento do atual modelo. “Eu não acho que o nosso sistema eleitoral funciona bem. Eu acho que o nosso sistema eleitoral ele contribui para as mazelas do nosso sistema político”, afirma.
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