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Etanol pode ganhar novos mercados em navios, aviões e máquinas agrícolas


Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

O etanol brasileiro pode ampliar seu espaço para além dos veículos leves e ganhar novas aplicações em navios, aviões, veículos híbridos e máquinas agrícolas. A expansão desses mercados é apontada como uma das possibilidades para aumentar a demanda pelo biocombustível e sustentar novos investimentos no setor.

Na safra 2026/27, a produção brasileira deve chegar a cerca de 41 bilhões de litros de etanol, considerando cana e milho. Desse volume, aproximadamente 30 bilhões de litros devem vir da cana e 11 bilhões de litros do milho.

Mato Grosso tem participação relevante nesse cenário. O estado responde por cerca de 25% do etanol total produzido no país e por aproximadamente 62% do etanol de milho.

A expansão, porém, não depende apenas da disponibilidade de matéria-prima. Para o diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Bioenergia do Estado de Mato Grosso (Bioind-MT), Wellington Andrade, novos projetos precisam estar associados ao comportamento do mercado. “Todo o investimento vai passar pela demanda”, resume em entrevista ao programa Direto ao Ponto.

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Transporte marítimo pode abrir grande mercado

Uma das principais possibilidades está no transporte marítimo. O etanol de milho brasileiro de segunda safra já foi reconhecido pela Organização Internacional dos Transportes Marítimos como uma molécula eficiente para a descarbonização do setor, mas ainda depende de regulamentação.

A utilização poderia ocorrer em embarcações que já trabalham com tanques de metanol. Nesse caso, conforme Andrade, a estrutura existente reduziria a necessidade de adaptações. “O etanol ele é mais eficiente em termos de descarbonização do que o próprio metanol”, afirma.

O potencial de consumo é expressivo. Se o etanol representar 10% do combustível utilizado no transporte marítimo, a demanda adicional poderia chegar a 50 bilhões de litros por ano, volume superior à atual produção brasileira.

A perspectiva também se estende ao setor aéreo, com projetos de produção de combustível sustentável para aviação a partir do etanol. Entre as alternativas está o chamado Alcohol-to-Jet (ATJ), tecnologia que utiliza o biocombustível como matéria-prima para a produção do SAF.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Veículos híbridos entram no radar

No mercado interno, o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina também pode gerar consumo adicional. Atualmente, a mistura está em 32%, enquanto a legislação do combustível do futuro permite chegar a 35%.

O avanço para o E35 ainda depende da realização de testes. O protocolo para essa avaliação foi validado em reunião recente do subcomitê dos teores de misturas do Ministério de Minas e Energia, de acordo com Andrade.

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A elevação da mistura já mostrou impacto sobre a demanda. Na passagem do E30 para o E32, foram acrescentados cerca de 1 bilhão de litros de etanol anidro ao consumo, ao mesmo tempo em que se reduz em volume equivalente a necessidade de gasolina.

Além do aumento da mistura, os veículos híbridos flex aparecem como outra frente de expansão. A tecnologia combina a motorização elétrica com a possibilidade de utilizar gasolina ou etanol e, na avaliação do diretor executivo do Bioind-MT, pode se adequar à matriz energética brasileira.

“Em termos de Brasil, logicamente, o mais correto seriam os elétricos híbridos flex”, pontua. Segundo ele, já existem projetos nessa direção.

Máquinas agrícolas também podem usar etanol

O uso do etanol não se limita aos veículos de passeio, frisa o entrevistado ao programa do Canal Rural Mato Grosso. Projetos para conversão de motores a diesel para o biocombustível também estão em desenvolvimento, incluindo uma iniciativa de pesquisa da Bosch.

A proposta envolve um retrofit dos motores, com a conversão necessária para que possam operar com etanol. Para Andrade, a tecnologia pode se tornar mais uma possibilidade de consumo do biocombustível no setor agropecuário.

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A diversificação dos usos ganha importância diante do crescimento da produção. Para a safra atual, a estimativa é de um estoque de passagem de aproximadamente 4 bilhões de litros, o que indica uma oferta superior à demanda no mercado brasileiro.

Nesse cenário, as exportações ainda representam uma parcela pequena da produção. A previsão é de embarques de cerca de 1,5 bilhão de litros, tendo a Coreia do Sul como principal compradora, com aproximadamente 770 milhões de litros, seguida pelos Estados Unidos, com 253 milhões, e pelos Países Baixos, com 221 milhões.

Mato Grosso concentra expansão no etanol de milho

A disponibilidade de milho mantém Mato Grosso como um dos principais polos para a expansão da produção. As indústrias já instaladas foram implantadas em regiões com oferta suficiente de matéria-prima, e novos investimentos precisam considerar essa relação entre produção agrícola e capacidade industrial.

O estado ainda possui projetos e possibilidades de ampliação, mas o cenário atual aponta maior tendência para usinas dedicadas ao milho. As chamadas plantas flex, que combinam cana e milho, também são uma alternativa, principalmente pela possibilidade de compartilhar estruturas e aproveitar subprodutos.

Nesse modelo, o bagaço da cana pode ser utilizado como biomassa para a operação da indústria de milho, aumentando a eficiência da planta. “Você tem ali um reaproveitamento dos coprodutos”, explica Andrade.

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A escolha entre ampliar uma unidade de cana, investir em uma planta de milho ou adotar uma estrutura flex depende, portanto, das condições econômicas e da disponibilidade de matéria-prima. Em Mato Grosso, a tendência predominante atualmente é a instalação de usinas full de milho.

DDG amplia aproveitamento do milho

Além do etanol, o processamento do milho gera coprodutos que ajudam a sustentar a viabilidade econômica das plantas. Entre eles está o DDG, que também encontra mercado dentro e fora do Brasil.

Mato Grosso deve produzir cerca de 3,4 milhões de toneladas de DDG na próxima safra. A abertura do mercado chinês para o produto amplia as possibilidades de comercialização, considerando o potencial de consumo daquele país. “Tem o mercado da China que se abriu para o DDG e toda vez que a China faz um movimento de consumo, é um movimento muito grande”, pontua Andrade ao Canal Rural Mato Grosso.

Parte dessa produção também é absorvida pelos próprios produtores ligados às usinas. Há unidades de etanol de milho formadas por sociedades de produtores nas quais os associados utilizam o DDG produzido pelas próprias indústrias em seus contratos.

Com novas aplicações em desenvolvimento e a possibilidade de avanço da mistura na gasolina, o setor passa a trabalhar com diferentes caminhos para ampliar o consumo do etanol. Para Mato Grosso, a expansão continua diretamente ligada à disponibilidade de milho, à demanda e à viabilidade dos investimentos em novas plantas.

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