A cultura do milho é considerada um alicerce da agricultura, participando do grupo de cereais mais produzidos no país. Na safra de 2025/26, o cultivo ocupou 22,68 milhões de hectares do território nacional, com uma produtividade média de 6,11 t/ha e produção total estimada em 138,58 milhões de toneladas (CONAB, 2026). No entanto, a produtividade é constantemente ameaçada pelo ataque de pragas. Nesse contexto, a Spodoptera frugiperda pode ocasionar danos que comprometam a produção em aproximadamente 40%, devido às injúrias ocasionadas na planta durante todo o seu ciclo, que vão desde a redução do estande inicial, a desfolha durante o estágio vegetativo e até a degradação da espiga (CONTINI et al., 2019).
A S. frugiperda é amplamente conhecida no cenário agrícola brasileiro como “lagarta-do-cartucho” ou “lagarta-militar”, pertencente à ordem Lepidoptera e à família Noctuidae, sendo considerada uma das principais pragas da cultura do milho (Zea mays). Seu desenvolvimento é do tipo holometabólico, ou seja, o inseto passa por metamorfose completa, compreendendo as fases de ovo, larva, pupa e adulto. Visualmente, a espécie apresenta variações distintas em cada etapa: os ovos possuem coloração verde-clara, as larvas (lagartas) são inicialmente claras e evoluem para pardo-escuro até ficarem quase pretas, as pupas são avermelhadas e o adulto (fase de mariposa) é caracterizado por asas anteriores pardo-escuras e posteriores branco-acinzentadas. Ademais, as lagartas apresentam um “Y” invertido na cabeça (Figura 1), o que corresponde à principal característica de identificação da espécie (SARMENTO et al., 2002).
A ampla dispersão desta espécie no território nacional é atribuída, primordialmente, ao seu hábito polífago, isto é, característica que permite ao inseto se alimentar e desenvolver-se em uma vasta diversidade de plantas hospedeiras de diferentes famílias botânicas. Essa praga possui a capacidade de atacar mais de uma centena de espécies vegetais, abrangendo desde grandes commodities, como milho, soja, arroz e algodão, até plantas daninhas, como o capim-pé-de-galinha e o sorgo selvagem (GALLO et al., 2002). Essa plasticidade alimentar é o fator determinante para a manutenção da “ponte verde”, ou seja, presença de plantas hospedeiras nos agroecossistemas tropicais, no qual o sistema produtivo permite a sucessão de até três safras anuais, o que, somado à polifagia, garante a oferta ininterrupta de alimento e a persistência do inseto na área durante todo o ano (KOGAN, 1998). Assim, a dinâmica de cultivos múltiplos no Brasil potencializa o comportamento biológico da praga, transformando uma característica adaptativa em um desafio contínuo para o manejo integrado e a sustentabilidade das lavouras.
No campo, um aspecto agravante no controle da S. frugiperda está associado à velocidade com que a evolução da resistência à tecnologia Bt, plantas geneticamente modificadas com genes específicos da bactéria de solo Bacillus thuringiensis, vem ocorrendo. Segundo Contini et al. (2019), com pouco mais de dez anos de utilização dessa tecnologia, apenas uma das cinco proteínas Bt disponíveis no mercado ainda não apresentou indícios de perda de eficácia. Somado a isso, conforme os mesmos autores, um desafio extra no manejo reside no hábito da lagarta de permanecer protegida dentro do cartucho da planta, dificultando a assertividade do alvo. Consequentemente, os produtores tendem a elevar o número de aplicações com inseticidas químicos, o que encarece o custo de produção e, se feito de forma indiscriminada, elimina inimigos naturais. Esse desequilíbrio ambiental pode favorecer o surgimento de pragas secundárias, agravando ainda mais os danos nas áreas de produção.
Para contornar os desafios impostos pela lagarta-do-cartucho no milho, existem vários métodos de controle, com destaque para inseticidas químicos, microbiológicos e utilização de cultivares com a tecnologia Bt. No entanto, quando utilizados de maneira isolada, nem sempre apresentam resultados satisfatórios. Dessa forma, a adoção de estratégias integradas torna-se a única via para manter a eficácia das tecnologias disponíveis no mercado (DAY et al., 2017). O Manejo Integrado de Pragas (MIP) inclui estratégias de determinação do nível de dano econômico e monitoramento da praga-alvo, visando à tomada de decisão quanto à necessidade de seu controle e possibilitando a intervenção no momento biológico ideal (CRESPO et al., 2021).
Além disso, estão sendo feitas pesquisas com a utilização de métodos alternativos, incluindo biodefensivos à base de óleos essenciais e extratos vegetais, nematoides entomopatogênicos, vírus (Baculovírus), fungos e parasitoides (CRESPO et al., 2021). Por exemplo, estudos desenvolvidos pela Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas (MG), com o baculovírus (Spodoptera frugiperda multiple nucleopolyhedrovirus – SfMNPV) demonstram que a associação desse bioinseticida com os inimigos naturais eleva a mortalidade total das lagartas a índices superiores a 80% em condições de campo, reduzindo a população da praga de forma eficiente (VALICENTE; TUELHER, 2009). Além do uso de entomopatógenos, o emprego de insetos benéficos também se destaca, a exemplo da liberação inundativa do parasitoide de ovos Trichogramma pretiosum. Esta tática de controle biológico preconiza a liberação média de 100.000 indivíduos por hectare divididos em cartelas distribuídas na lavoura, cuja inserção pode ser feita diretamente na bainha das plantas logo após a constatação dos primeiros adultos ou ovos da praga (CRUZ; MONTEIRO, 2004). Entretanto, ainda é necessária a continuidade das pesquisas, abrangendo testes em diferentes regiões e a verificação da adaptação à produção comercial.
Em suma, para um controle eficiente da S. frugiperda no milho, é fundamental uma visão sistêmica que integre o conhecimento técnico à prática no campo. Diante da crescente resistência às tecnologias Bt e aos defensivos químicos, a atuação estratégica de produtores e profissionais da área torna-se indispensável. A opção de controle mais adequada é o manejo integrado de pragas (MIP), uma vez que combina métodos de controle capazes de garantir a intensificação sustentável da produção agrícola e a viabilidade econômica (FAO, 2017). Aliado a isso, o contínuo avanço das pesquisas promissoras sobre métodos alternativos de controle permitirá a renovação das ferramentas de manejo, assegurando que o setor produtivo brasileiro permaneça resiliente e produtivo frente às constantes adaptações desta praga.
CONAB. Acompanhamento da Safra Brasileira – Safra 2025/26 – Grãos – 1º Levantamento. Brasília, DF: Conab, 2026. E-book. Disponível em: < https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-graos/boletim-da-safra-de-graos/1o-levantamento-safra-2025-26/e-book_boletim-de-safras-1o-levantamento_2025.pdf >. Acesso em: 26 fev. 2026.
CONTINI, E. et al. Milho – Caracterização e Desafios Tecnológicos. Brasília, DF: Embrapa, 2019. 45 p. (Série Desafios do Agronegócio Brasileiro, NT2). Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/195075/1/Milho-caracterizacao.pdf >. Acesso em: 28 fev. 2026.
CRESPO, A. M. et al. Manejo da lagarta-do-cartucho do milho (Spodoptera frugiperda): panorama geral das atualizações no controle alternativo. Alegre, ES: Ifes, 2021. 36 p. (Boletim Técnico, 6). Disponível em: < https://biblioteca.incaper.es.gov.br/digital/bitstream/123456789/4192/1/Boletim-Tecnico-N6.pdf > . Acesso em: 26 fev. 2026.
CRUZ, I.; MONTEIRO, M. A. R. Controle biológico da lagarta do cartucho do milho, Spodoptera frugiperda, utilizando o parasitóide de ovos Trichogramma pretiosum. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2004. 4 p. (Comunicado Técnico, 98). Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/488640/1/Com98.pdf >. Acesso em: 19 jul. 2026.
GALLO, D. et al. Entomologia agrícola. Piracicaba: FEALQ, 2002. 920 p. Disponível em: < https://pt.scribd.com/document/868570967/Gallo-Et-Al-2002-Entomologia-Agricola >. Acesso em: 20 abr. 2026.
KOGAN, M. Integrated pest management: historical perspectives and contemporary developments. Annual Review of Entomology, Palo Alto, v. 43, n. 1, p. 243-270, 1998. Disponível em: < https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9444752/ >. Acesso em: 20 abr. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A ALIMENTAÇÃO E A AGRICULTURA. Integrated pest management of major pests and diseases: in eastern Europe and the Caucasus. Budapest: FAO, 2017. 110 p. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/6d4a75d0-fe82-4822-8767-127ca75e998f/content#:~:text=FAO%20Principles%20on%20Integrated%20Pest%20Management%20(IPM),the%20intensive%20use%20of%20pesticides.&text=…search%20for%20symptoms%20according,the%20phenology%20of%20the%20crop. Acesso em: 28 fev. 2026.
PIONEER®. Boas práticas para o manejo da lagarta-do-cartucho na cultura do milho. 2025. Disponível em: < https://www.pioneer.com/br/blog/artigos/Boas-praticas-para-o-manejo-da-lagarta-do-cartucho-na-cultura-do-milho.html >. Acesso em: 21 abr. 2026.
SARMENTO, R. A. et al. Revisão da Biologia, Ocorrência e Controle de Spodoptera frugiperda (Lepidoptera, Noctuidae) em Milho no Brasil. Bioscience Journal, 2006. v.18, n.2, p. 41-48. Disponível em: < https://seer.ufu.br/index.php/biosciencejournal/article/view/6418 >. Acesso em: 27 fev. 2026.
VALICENTE, F. H.; TUELHER, E. de S. Controle biológico da lagarta do cartucho, Spodoptera frugiperda, com baculovírus. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2009. 14 p. (Circular Técnico, 114). Disponível em: < https://www.embrapa.br/documents/1344498/2767891/controle-biologico-da-lagarta-do-cartucho-com-baculovirus.pdf/2e536084-d40f-4e6f-8145-b6880c1487a5 >. Acesso em: 19 jul. 2026.
Autores:
Raíssa Salvadori Reckziegel
Acadêmica do 7º semestre de Agronomia
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Bolsista grupo PET Agronomia
Email: raissareckziegel@gmail.com
Coautores:
Fábio Joel Kochem Mallmann
Elisa Franchin Parcianello
João Francisco Fornari Viana
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