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Produtores de Mato Grosso contestam descontos por milho avariado e alertam para crise de rentabilidade


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

As reclamações sobre os descontos aplicados na comercialização do milho ganharam força entre produtores de Mato Grosso nesta reta final da segunda safra. Em regiões onde o excesso de chuvas favoreceu o aumento de grãos avariados, agricultores afirmam que os critérios de classificação adotados pelas empresas variam e acabam ampliando os prejuízos no campo.

O cenário preocupa porque os problemas de qualidade se somam à desvalorização do cereal. Com a colheita em andamento e aproximadamente metade da produção já comercializada no estado, muitos produtores dizem que a rentabilidade da safra vem sendo comprometida tanto pelas perdas provocadas pelo clima quanto pelos descontos aplicados na entrega dos grãos.

Em Santa Rita do Trivelato, o agricultor Enéas Glaucio Batistela conta que a lavoura se desenvolveu dentro do esperado durante boa parte do ciclo. Os investimentos em manejo foram mantidos e a expectativa era de uma boa produtividade, até que as chuvas mudaram o cenário. “A safra vinha sendo conduzida perfeitamente. A gente investiu bem, cuidou bem, e acabou chovendo bastante fora do normal”, relata.

Para Batistela, o problema não está apenas no milho avariado, mas na forma como ele vem sendo classificado. O produtor observa que as reclamações se multiplicam entre agricultores da região e acredita que os critérios poderiam ser mais uniformes. “As empresas estão forçando muito as réguas de classificação. Isso prejudica demais e tem relatos de produtores reclamando bastante aqui na nossa região”, comenta ao Patrulheiro Agro.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Critérios de classificação dividem produtores e empresas

Na propriedade de Batistela, foram cultivados 1.410 hectares de milho nesta temporada. Ao acompanhar a entrega da produção, ele percebeu diferenças na avaliação feita pelas empresas compradoras, situação que, na visão dele, aumenta a insegurança durante a comercialização. “Muda muito de empresa para empresa, então tem que ficar de olho”, resume.

A preocupação também faz parte da realidade do produtor Silvésio de Oliveira, em Tapurah. Na propriedade, o milho ocupa 1.330 hectares, mas parte da área acabou sendo afetada pelas chuvas registradas entre abril e junho. Ele explica que algumas variedades resistiram bem às condições climáticas, enquanto outras apresentaram problemas com fungos e maior índice de grãos avariados.

Em uma área de 214 hectares, a expectativa é que o percentual de avarias fique entre 15% e 18%. Silvésio atribui esse resultado às quatro chuvas registradas em um intervalo de apenas uma semana, com volumes entre 10 e 15 milímetros, suficientes para provocar o acamamento de parte das plantas.

Mesmo reconhecendo os impactos causados pelo clima, o agricultor acredita que o maior prejuízo ocorre no momento da classificação. Ele explica que uma carga com percentual elevado de avarias pode influenciar diretamente o resultado financeiro da safra. “Você pode colher 100 mil sacas de milho padrão, com 1% ou até zero de avariado. A primeira carga chega com avariado, tem um desconto total e isso acaba afetando bem o lucro do produtor”, afirma.

Sem alternativa para recuperar parte da produção, os 214 hectares mais comprometidos serão destinados à fabricação de ração para o gado. Ainda assim, Silvésio considera que a forma como os descontos são aplicados agrava as perdas enfrentadas pelos agricultores. “Tivemos muito milho acima de 20% de avariado. O desconto é muito grande e, na entrega do produto, sempre quem perde é o produtor”, diz.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Classificação em debate

As divergências na classificação do milho também preocupam o presidente do Sindicato Rural de Tapurah, Dirceu Luiz Dezem. Para ele, o aumento do percentual de grãos avariados nesta safra é resultado de um cenário climático que fugiu do controle do produtor, mas a forma como parte das empresas aplicam os descontos acaba ampliando as perdas.

Na avaliação de Dezem, há situações em que apenas uma parcela da carga apresenta problemas, mas o impacto financeiro é maior do que o esperado pelo agricultor. “Existe milho avariado, existe. Saiu fora do controle do produtor”, observa. O dirigente acredita, porém, que é preciso buscar um equilíbrio na classificação. “Tem aqueles que se aproveitam da situação. Eu acho que tinha que encontrar alguma maneira de equilibrar isso”.

Outro fator pesa contra o produtor no momento da comercialização. Com déficit de armazenagem em diversas regiões e contratos já firmados, muitos agricultores acabam sem alternativa para negociar a entrega da produção. “Hoje nós temos poucos armazéns. O produtor tem que se livrar daquele grão, às vezes tem contrato e é obrigado a entregar e aceitar essa injustiça”, lamenta.

Quando há dúvidas sobre o resultado da classificação, o produtor pode recorrer ao Programa Classificador Legal, da Aprosoja Mato Grosso. A iniciativa disponibiliza profissionais habilitados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para realizar auditorias em cargas de milho e soja, tanto nas propriedades quanto nos armazéns.

O presidente da Aprosoja Brasil e Mato Grosso, Luiz Costa Beber, defende que os impactos provocados pelo clima sejam considerados durante a comercialização. Para ele, o produtor não pode arcar sozinho com prejuízos causados por fatores que escaparam ao seu controle. “Nós precisamos que as empresas também sejam compreensivas, flexibilizem, porque muitas vezes isso acontece além daquilo que está ao alcance do produtor”, pontua.

Beber destaca que o objetivo do programa é garantir segurança ao agricultor sempre que houver divergência na classificação. A auditoria é realizada por um classificador da entidade e, caso não haja consenso entre as partes, ainda é possível solicitar uma arbitragem com um segundo profissional habilitado. “O objetivo é sempre garantir que haja uma classificação justa e mostrar que a Aprosoja está sempre vigilante na defesa do produtor”, ressalta.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Preço pressiona a rentabilidade

Se os descontos aplicados sobre o milho avariado já preocupam os produtores, a desvalorização do cereal tornou o cenário ainda mais desafiador nesta reta final da colheita em alguns municípios. Agricultores relatam dificuldades para fechar as contas e demonstram preocupação com os investimentos para o próximo ciclo.

A necessidade de fazer caixa tem levado muitos produtores a vender a produção mesmo diante de preços considerados insuficientes para cobrir os custos. Para o presidente do Sindicato Rural de Tapurah, Dirceu Luiz Dezem, a situação é mais delicada para quem depende da comercialização imediata para manter as atividades da propriedade. “O produtor que está descapitalizado, que precisa comprar o diesel, manter os funcionários ou a oficina, é obrigado a vender abaixo do preço de custo”, afirma à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

Em Tapurah, o agricultor Régis Adriano Desordi Porazzi já comercializou cerca de 50% da produção e colheu mais de 60% dos 800 hectares cultivados nesta safra. Para ele, a queda das cotações agravou um cenário que já vinha sendo pressionado pelo aumento dos custos de produção.

Porazzi calcula que o preço recebido hoje está cerca de 50% abaixo do registrado anteriormente e avalia que essa redução compromete diretamente o caixa das propriedades. “Caiu muito. Caiu 50% do preço. É uma prática selvagem, destrói o caixa do produtor”, diz. Na avaliação dele, muitos agricultores acabam comercializando o milho por falta de alternativa, mesmo sabendo que os valores não remuneram a atividade.

Segundo o produtor, a conta não fecha com os preços praticados atualmente. “Nesses preços não paga a conta. Mais uma vez trocamos dinheiro. Não dá mais para trabalhar desse jeito”, afirma.

Porazzi alerta que, se o cenário de custos elevados e preços deprimidos persistir, os reflexos poderão ir além das propriedades rurais. “O agricultor está sendo excluído da atividade se continuar nesses patamares de preços de soja e milho”, observa. Na visão dele, a redução do número de produtores representa um risco para toda a cadeia de produção de alimentos e exige atenção de todos os setores envolvidos com o agronegócio.

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