Categories: Business

Plano Safra 2026/27 amplia recursos e reduz juros, mas setor de Mato Grosso vê volume abaixo da necessidade


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O governo federal anunciou nesta terça-feira (30) o Plano Safra 2026/27 para a agricultura empresarial, com R$ 525,1 bilhões em recursos. Embora o montante seja R$ 9 bilhões superior ao da safra passada e traga redução nas principais taxas de juros, entidades do setor produtivo de Mato Grosso avaliam que o volume não recompõe a inflação e permanece abaixo da necessidade da agropecuária brasileira.

Do total anunciado, R$ 384,9 bilhões serão destinados às operações de custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos. Embora o valor global seja maior que o da safra passada, o crescimento ocorreu principalmente nas linhas de investimento, enquanto os recursos voltados ao custeio e à comercialização tiveram redução.

Na comparação com o Plano Safra 2025/26, os recursos para investimentos passaram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões. Já o montante destinado ao custeio e à comercialização recuou de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões.

Na avaliação do setor produtivo mato-grossense, o reajuste também não recompõe a inflação. Considerando o IPCA acumulado de 4,4% nos últimos 11 meses, seriam necessários aproximadamente R$ 538,7 bilhões apenas para manter, em termos reais, o mesmo volume de recursos da safra anterior. Assim, embora seja o maior Plano Safra em valores nominais, as entidades estimam uma redução real de cerca de R$ 13,6 bilhões.

Juros menores, mas crédito ainda preocupa

Além do aumento dos recursos, o governo reduziu as taxas de juros das principais linhas de financiamento. O Pronamp passou de 10% para 9% ao ano, enquanto o crédito de custeio empresarial caiu de 14% para 12,5%. Já os programas voltados à inovação, irrigação, cooperativismo, renovação de máquinas e agricultura de baixo carbono terão taxas entre 8% e 12,5%.

Durante o lançamento do Plano Safra, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que a redução das taxas busca ampliar o acesso ao crédito e fortalecer a produção agropecuária. “A taxa que era de 14% caiu para 12,5%, e a que era de 10% passou para 9%”. Para o vice-presidente, o país demonstra que é possível ampliar a produção e, ao mesmo tempo, fortalecer a segurança alimentar. “Às vezes, cria-se uma falsa dicotomia, como se essas conquistas fossem incompatíveis, mas elas podem caminhar juntas”.

Para o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja Mato Grosso) e da Aprosoja Brasil, Lucas Costa Beber, a redução das taxas representa um avanço diante do cenário enfrentado nas últimas safras, marcado pela Selic elevada e pelo encarecimento do crédito rural.

“Infelizmente devido à Selic alta nos últimos anos nós temos tido na maioria das linhas juros de dois dígitos, o que tem impactado fortemente o bolso do produtor, encarecendo ainda mais o acesso ao crédito para a produção rural agrícola”, diz ao Canal Rural Mato Grosso.

Na avaliação de Beber, a oferta de linhas com juros de um dígito era uma expectativa do setor e foi um dos pontos positivos do anúncio. “O ministro da Agricultura, André de Paula, trouxe uma expectativa boa de que iria trazer juros de um dígito, o que já é uma grande mudança”.

Volume ainda é insuficiente, avalia setor

Além da redução das taxas, as entidades defendiam um Plano Safra mais robusto e com maior participação dos recursos controlados, que possuem juros mais baixos. Na avaliação da Aprosoja, o volume anunciado ficou distante da necessidade do setor.

“O ideal era que tivemos nominalmente no mínimo R$ 650 bilhões e também aumentasse o percentual daquilo que é recurso controlado, já que nos últimos anos tem diminuído”.

Beber destaca que a participação dos recursos controlados caiu de cerca de 50% em 2022 para menos de 30% no último Plano Safra 2025/26, reduzindo o acesso dos produtores às linhas subsidiadas. “O que também fez com que o produtor pegasse menos crédito de juro controlado, conseguisse adquirir na prática, na ponta isso não chegou, tendo uma redução de algo em torno de 13% para custeio e 20% para investimentos”.

O superintendente do Sistema Famato, Cleiton Gauer, também considera que o reajuste ficou aquém da necessidade do agro brasileiro. De acordo com Gauer, os cálculos apresentados pelas entidades nacionais apontavam para um Plano Safra necessário superior a R$ 640 bilhões.

Seguro rural e CAR ficam de fora das prioridades

Outro ponto destacado pela Famato era a necessidade de fortalecer o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Para a entidade, o seguro rural vem perdendo espaço dentro da política agrícola, apesar de ser uma ferramenta importante para reduzir os impactos das perdas provocadas pelo clima.

“É um item que vem sendo deixado de lado já há uns bons anos dentro do crédito rural, mas que é uma estrutura extremamente necessária”, afirma Gauer. Segundo ele, o programa garante não apenas a produção, “mas principalmente para garantia da renda dos produtores em momentos de dificuldade climática que vem a impactar a produção e a manutenção desse produtor na atividade”.

A entidade também demonstra preocupação com a manutenção da exigência do Cadastro Ambiental Rural (CAR) validado para acesso a benefícios nas taxas de juros. Para Gauer, a demora na análise dos cadastros coloca produtores em desvantagem, especialmente em Mato Grosso, onde ainda há uma fila de processos aguardando validação.

“Essa necessidade de validação, principalmente aqui no estado onde hoje eu tenho uma fila de espera de CARs que precisam ser avaliados e validados, também coloca em desvantagem competitiva esses produtores que estão fazendo tudo certo, mas que pela defasagem do estado a gente tem uma dificuldade de realmente conseguir alcançar e conquistar esses benefícios”.

Crédito precisa acompanhar a realidade do campo

Além desses pontos, a Famato entende que o Plano Safra precisa considerar o cenário de aumento do endividamento e dos custos de produção enfrentados pelos produtores nas últimas safras. O que não foi feito.

Na avaliação de Cleiton Gauer, o crédito rural precisa ser estruturado para garantir o desenvolvimento da agropecuária brasileira e dar condições para que os produtores mantenham a atividade.

“Diante desse cenário de aumento de endividamento, aumento dos custos, dificuldades operacionais que nós temos já ao longo das últimas safras, é extremamente necessário um Plano Safra que realmente consiga dar condições e desenvolvimento para as cadeias agropecuárias brasileiras”, salienta à reportagem.

Para o superintendente da Famato, esse continua sendo um dos principais desafios da política agrícola nacional. “Esse é um ponto sensível que realmente também fica a desejar, é necessário para o desenvolvimento e garantia da operação da agricultura, não só aqui no estado de Mato Grosso, como no Brasil como um todo”.


Clique aqui, entre em nosso canal no WhatsApp do Canal Rural Mato Grosso e receba notícias em tempo real.

O post Plano Safra 2026/27 amplia recursos e reduz juros, mas setor de Mato Grosso vê volume abaixo da necessidade apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.

agro.mt

Recent Posts

Saiba como ficaram as cotações de soja no último dia de junho

Foto: Pixabay O mercado brasileiro de soja registrou um dia de forte volatilidade nesta terça-feira…

9 minutos ago

Mais que construir imóveis, São Benedito celebra 43 anos de liderança e compromisso humano

A trajetória que sustenta a São Benedito entre as maiores construtoras do Brasil precisa ser…

15 minutos ago

Trigo: Semeadura atinge 87,3% no Brasil com realidades distintas entre regiões – MAIS SOJA

Trigo BR: 87,3% semeado. No RS, a semeadura avançou rapidamente, favorecida pelas condições meteorológicas, comconclusão…

17 minutos ago

Juros de custeio para produtos orgânicos são reduzidos no Plano Safra da Agricultura Familiar

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil O Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/27, que destina o total…

31 minutos ago

Com R$ 2 bilhões investidos, Pivetta endurece discurso e celebra 100% de solução em feminicídios

Geral “Ninguém ficou impune”, garantiu o gestor estadual durante evento de capacitação tecnológica em defesa…

52 minutos ago

Picão-preto contribui para a manutenção das populações do percevejo barriga-verde – MAIS SOJA

A persistência de populações de picão-preto (Bidens pilosa e Bidens subalternans), especialmente ao final do…

1 hora ago