Considerando que o potássio (K) é o segundo nutriente mais exigido pela cultura da soja e que são necessários mais de 30 kg de K para a produção de uma tonelada de grãos (Nutrição de Safras, 2019), a adubação potássica constitui uma prática recorrente e indispensável nos sistemas produtivos, desempenhando papel fundamental na manutenção do potencial produtivo da cultura.
Entretanto, os elevados custos associados aos fertilizantes potássicos, somados às dificuldades de aquisição decorrentes de conflitos geopolíticos e da elevada dependência brasileira de fontes importadas, reforçam a necessidade da adoção de estratégias de manejo que favoreçam a manutenção da fertilidade do solo e a ciclagem do potássio nos sistemas agrícolas, contribuindo para maior eficiência no uso desse nutriente e para a sustentabilidade da produção.
Uma das alternativas mais sustentáveis para isso é a inserção de espécies com capacidade de ciclar e acumular o potássio das camadas mais profundas do solo. O potássio ciclado passa a ficar disponível para a culturas sucessora após a decomposição e mineralização dos resíduos vegetais. De acordo com Wolschick et al. (2016), dependendo da espécie cultivada, o acúmulo de potássio na biomassa pode chegar a 358,4 kg ha-1 como ocorre com a parte aérea da ervilhaca.
Vale destacar que a capacidade das espécies em acumular não só o potássio, mas demais nutrientes em sua biomassa, tais como nitrogênio (N), fósforo (P), cálcio (Ca) e magnésio (Mg) varia de acordo com a espécie e condições de cultivo e ambiente. Sobretudo, espécies forrageiras como braquiária, capim sudão e aveia branca, podem ultrapassar os 200 kg de potássio acumulado na parte aérea (tabela 1).
Em contrapartida, nem sempre o potássio acumulado nos resíduos vegetais esta prontamente disponível para a cultura sucessora. Conforme observado por Bertolini et al. (2019) e Anjos (2019), a liberação do potássio acumulado nos resíduos vegetais varia em função de características como relação carbono/nitrogênio (C/N) da biomassa bem como condições de clima e ambiente que possam influenciar a decomposição e mineralização dos resíduos culturais, sendo consenso que plantas com menor relação C/N, a exemplo das plantas da família Fabaceae, mostram-se mais eficiente na liberação dos nutrientes dos resíduos culturais para o solo.
Nesse contexto, quando o objetivo é promover a ciclagem do potássio e aumentar a disponibilidade desse nutriente para a cultura sucessora, torna-se fundamental selecionar e posicionar adequadamente as plantas de cobertura, considerando não apenas sua adaptação ao sistema de cultivo, mas também características como capacidade de absorção e reciclagem de nutrientes, produção e persistência da palhada e potencial de exportação de nutrientes. Embora culturas produtoras de grãos também contribuam para a reciclagem de nutrientes do solo, uma parcela significativa dos nutrientes absorvidos é removida da área por meio da colheita dos grãos, reduzindo o retorno desses elementos ao sistema. Dessa forma, com foco na ciclagem de nutrientes, especialmente do potássio, o cultivo de plantas de cobertura tende a ser uma alternativa mais eficiente, uma vez que favorece o acúmulo de nutrientes na fitomassa e sua posterior liberação durante o processo de decomposição dos resíduos vegetais.
Além da contribuição para a ciclagem de nutrientes, as plantas de cobertura, quando adequadamente posicionadas no sistema de produção, desempenham papel fundamental na manutenção e melhoria da fertilidade do solo, podendo refletir positivamente na produtividade da cultura sucessora. Esse benefício foi evidenciado por Pengo et al. (2025), que observaram incrementos superiores a 20 sc/ha na produtividade da soja em determinados sistemas de rotação de culturas, quando comparados ao pousio durante a entressafra.
Em síntese, a adoção de plantas de cobertura na entressafra representa uma importante ferramenta para o manejo sustentável do potássio nos sistemas agrícolas. Ao favorecer a ciclagem de nutrientes e a manutenção da fertilidade do solo, essa estratégia contribui para aumentar a eficiência de utilização do potássio e reduzir a necessidade de reposições frequentes via fertilização, podendo inclusive, resultar na redução dos custos de produção, sem comprometer a produtividade da soja.
ANJOS, V. G. ACÚMULO E LIBERAÇÃO DE POTÁSSIO EM SISTEMA DE PRODUÇÃO SOB PLANTIO DIRETO NO CERRADO MATOGROSSENSE. Monografia, Universidade Federal de Mato Grosso, 2019. Disponível em: < https://bdm.ufmt.br/bitstream/1/1064/1/TCC_2019_Vinicius%20Gr%C3%ADcolo%20dos%20Anjos.pdf >, acesso em: 08/06/2026.
BERTOLINI, A. et al. COBERTURA DE SOLO E TAXA DE CICLAGEM DE NUTRIENTES EM PLANTAS DE COBERTURA DE VERÃO NO OESTE DE SANTA CATARINA. Unoesc & Ciência – ACET Joaçaba, v. 10, n. 2, p. 83-92, jul./dez. 2019. Disponível em: < https://portalperiodicos.unoesc.edu.br/acet/article/view/20767/14466 >, acesso em: 08/06/2026.
NUTRIÇÃO DE SAFRAS. TABELA DE EXTRAÇÃO E EXPORTAÇÃO DOS NUTRIENTES NA CULTURA DA SOJA. 2019. Disponível em: < https://nutricaodesafras.com.br/tabela-de-extracao-e-exportacao-dos-nutrientes-na-cultura-do-soja/ >, acesso em: 08/06/2026.
OLIVEIRA, F. A. et al. POTASSIO NOS SISTEMS DE PRODUÇÃO DE SOJA. Embrapa Soja, Documentos, n. 465, 2024. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1169544 >, acesso em: 08/06/2026.
PENGO, R. et al. MANEJO DE PLANTAS DE COBERTURA NA SEGUNDA SAFRA: SAFRA 2024/25. Fundação Rio Verde, Resultados de Soja e Milho Ao longo de 10 safras, 2025. Disponível em: < https://fundacaorioverde.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Manejo-de-Plantas-de-Cobertura.pdf >, acesso em: 08/06/2026.
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