Pesquisa da Unemat desenvolve tecnologia contra Lagarta-do-Cartucho nas lavouras de MT

Estudo da Unemat busca transformar extrato de árvore nativa em inseticida sustentável contra praga que pode causar perdas de até 70% nas lavouras de milho

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em Alta Floresta (a 789 km de Cuiabá), aposta no potencial de uma árvore nativa da flora brasileira, a conhecida como pente-de-macaco ou escova-de-macaco (Apeiba tibourbou), para criar um inseticida natural capaz de combater a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), uma das principais pragas da agricultura nacional. A tecnologia utiliza o encapsulamento do extrato da planta para aumentar a eficiência do produto e reduzir impactos ambientais.

“A iniciativa é uma tecnologia sustentável que aumenta a eficiência de inseticidas botânicos por meio de encapsulamento, reduzindo perdas por insetos-praga e minimizando impactos ambientais”, explicou a coordenadora do projeto, professora Juliana Garlet, doutora em Engenharia Florestal e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Agroecossistemas Amazônicos da Unemat (PPGBioAgro).

 

Inimigo de lavouras, pastagem e plantios florestais

A lagarta do gênero Spodoptera é uma velha conhecida dos agricultores brasileiros. Altamente polífaga, ela consegue se alimentar de uma vasta gama de plantas. Para se ter uma ideia, são mais de 350 espécies hospedeiras registradas no país, inclusive gramíneas e plantios florestais.

Ela causa desfolha severa e destrói o ponto de crescimento de cultivos como milho, soja, algodão e arroz. No milho, onde sua voracidade é ainda maior, o ataque direto ao “cartucho” da planta pode provocar perdas de até 70% na produção se nenhuma medida for tomada.

Atualmente, a produção agrícola depende do controle químico intensivo e até de lavouras transgênicas. No entanto, o uso excessivo desses métodos acelerou a seleção de populações de lagartas super-resistentes. “Tornou-se urgente a busca por novos compostos ecológicos”, justifica a coordenadora do projeto.

Reprodução

A equipe envolvida na pesquisa inclui docentes, estudantes de graduação e pós-graduação. Da esq. para a direita: Amanda Yukari Sasaya (PPPGbioagro), Felipe Dela Justina (Engenharia Florestal) Rayanne Pedrosa dos Santos (Agronomia), Cauane Caroline Cervini Pelizzar (Engenharia Florestal), a professora e pesquisadora Juliana Garlet, Larissa Pereira Oliveira Fuzinatto (PPPGbioagro), Lais Jhullian Borges da Fonseca (Agronomia) e Leticia David Peres (Biologia).

A força da árvore nativa

A grande aliada dos cientistas da Unemat é a Apeiba tibourbou. Essa árvore nativa, que chega a medir entre 10 e 15 metros de altura e desenvolve frutos espinhosos, possui metabólitos secundários como taninos e terpenoides em suas folhas.

Pesquisas anteriores do grupo já haviam comprovado que o extrato bruto dessas folhas funciona como um potente inseticida natural.

Contudo, a ciência enfrentava um obstáculo prático: os inseticidas botânicos são fotoinstáveis. Ou seja, estragam rapidamente quando expostos ao sol, ao calor e ao oxigênio do campo, perdendo o efeito residual em pouquíssimo tempo.

A virada tecnológica: o encapsulamento

Para blindar o princípio ativo da planta, a pesquisa coordenada no Laboratório de Silvicultura da Unemat aposta na tecnologia de encapsulamento. Trata-se de “embalar” as moléculas do extrato vegetal dentro de estruturas protetoras feitas de materiais solúveis de baixo custo.

“O encapsulamento cumpre três funções vitais: protege o composto contra a degradação solar, facilita o transporte e o manejo pelo agricultor, e permite que o princípio ativo seja liberado de forma controlada na lavoura, diminuindo a quantidade de aplicações”, detalha a professora Juliana Garlet.

Reprodução

Infográfico gerado a partir de dados fornecidos pela pesquisadora

Da Universidade para o mercado

O projeto segue um cronograma rigoroso. Os testes biológicos (bioensaios) em laboratório irão continuar, juntamente com o processo de criação dos insetos. A meta é gerar formulações que alcancem uma mortalidade igual ou superior a 80% das lagartas em até 72 horas, competindo de igual para igual com a eficiência dos produtos comerciais sintéticos, mas sem agredir o ecossistema.

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Infográfico gerado a partir de dados fornecidos pela pesquisadora

“Estudos como este demandam tempo, recursos financeiros e humanos. O investimento em pesquisa é essencial para o desenvolvimento de estudos que estejam alinhados as demandas atuais do setor produtivo. Os resultados são fruto de dissertações, trabalhos de conclusão de curso e projetos de pesquisa desenvolvidos por estudantes dos cursos do câmpus de Alta Floresta”, explicou a pesquisadora.

Ao final, a expectativa é entregar um novo produto ao mercado. Mas antes de ser comercializado, ainda precisam ser realizados testes em casa de vegetação (que é um tipo de estrutura coberta e abrigada artificialmente com materiais transparentes) e em campo, para análises do potencial inseticida em condições reais de ataque do inseto-praga. Posteriormente, a equipe vai buscar parcerias para melhorar ainda mais a eficiência possibilitando, por exemplo, o nanoencapsulamento que representará um avanço significativo nesta tecnologia.

agro.mt

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