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‘Mudança global exige reposicionamento estratégico do agro’, diz Tereza Cristina


Foto: Renato Medeiros

Em um cenário de forte integração global, o agronegócio brasileiro amplia sua participação no abastecimento mundial de alimentos. Ao mesmo tempo, as transformações na ordem geopolítica elevam o nível de exigência sobre o setor, que passa a demandar ajustes estratégicos tanto no campo econômico quanto diplomático.

Diante desse contexto, São Paulo sediou, nesta segunda-feira (23), o evento “A geopolítica do agronegócio”. O encontro reuniu lideranças do setor, juristas, parlamentares e empresários para discutir os reflexos do cenário internacional sobre a produção e o comércio agrícola.

Na abertura, a senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) destacou que o mundo passa por uma reconfiguração dos referenciais políticos e econômicos, com perda de centralidade de polos tradicionais do Ocidente.

Segundo ela, esse movimento reposiciona o agronegócio no cenário global. “O agro assume uma nova centralidade. Energia e alimento deixam de ser apenas mercadorias e passam a ser fundamentos de poder”, afirmou.

A discussão ocorre em um momento sensível no mundo, com a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã em curso. Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, o preço do petróleo disparou e trouxe incertezas quanto ao desdobramento e os impactos energéticos em nível global.

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Agro no centro da disputa

Nesse ambiente mais incerto e competitivo, o agronegócio passa a ocupar posição estratégica. De acordo com a senadora, a mudança de cenário reposiciona alimentos e energia no sistema internacional.

“Quando as estruturas que organizavam o mundo entram em transformação, elementos como energia e alimento deixam de ser apenas mercadorias e passam a ser fundamentos de poder”, disse.

A avaliação, segundo ela, exige uma nova leitura do cenário global. Como resposta, propôs um conjunto de dez diretrizes interconectadas para orientar a atuação do setor na chamada nova geopolítica do agro.

“Não se trata de um exercício teórico, mas de vetores práticos para navegar um ambiente mais complexo, mais disputado e mais exigente”, afirmou.

Multilateralismo em xeque

Entre os pontos destacados está a crise do multilateralismo. Segundo Tereza Cristina, o sistema construído no pós-guerra perdeu efetividade, com destaque para a paralisia da Organização Mundial do Comércio (OMC).

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Na prática, afirmou, países passaram a buscar alternativas fora desse modelo, ampliando acordos regionais e setoriais. O resultado é um ambiente mais fragmentado, com regras sobrepostas e, muitas vezes, contraditórias.

Comércio mais político

A senadora também destacou a mudança na natureza do protecionismo. Embora não seja um fenômeno novo, ela avalia que passou a assumir caráter político e estratégico.

“Tarifas, subsídios e barreiras sanitárias deixam de ser apenas instrumentos técnicos e passam a integrar estratégias de política externa”, disse.

Ela citou como exemplo a crescente utilização de exigências ambientais como mecanismo de reorganização de mercados, especialmente em grandes economias. Nesse cenário, o desafio é manter padrões elevados sem transformar regras em barreiras disfarçadas ao comércio.

Segurança alimentar e insumos

Outro ponto central é a revalorização da segurança alimentar como prioridade de Estado. A pandemia e a guerra na Ucrânia, segundo a parlamentar, evidenciaram a vulnerabilidade de cadeias globais concentradas.

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“A interdependência pode rapidamente se transformar em ruptura em momentos de crise”, afirmou.

No caso brasileiro, a dependência de insumos estratégicos, como fertilizantes, amplia essa exposição. O país importa a maior parte desses produtos, muitos deles provenientes de regiões sujeitas a tensões geopolíticas.

“Quando um elo dessa cadeia é tensionado, os efeitos se propagam rapidamente”, disse.

Diante disso, defendeu a diversificação de fornecedores, o fortalecimento da produção doméstica e maior atenção à segurança das cadeias de suprimento.

Disputa entre potências

A senadora também destacou a rivalidade entre Estados Unidos e China como eixo estruturante da geopolítica atual. Segundo ela, a disputa vai além do comércio e envolve tecnologia, influência política e segurança estratégica.

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No agro, esse movimento se reflete na estratégia chinesa de diversificar fornecedores, o que abre espaço para o Brasil, mas também exige cautela.

“O desafio não é apenas aproveitar oportunidades, mas fazê-lo sem comprometer relações e sem criar dependências excessivas”, afirmou.

Papel do Brasil

Para Tereza Cristina, o Brasil ocupa uma posição singular nesse cenário, com capacidade de ampliar a produção de forma sustentável.

No entanto, destacou que o país precisa avançar na sua inserção internacional. “Não basta produzir mais. É preciso participar da definição das regras do jogo”, disse.

A avaliação é de que, em um ambiente mais fragmentado, previsibilidade, articulação e estratégia de longo prazo serão determinantes para manter e ampliar mercados.

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agro.mt

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